Um longo caminho

Gaston Miron  

Tradução:

Laudeci S. Fernandes

MIRON, Gaston. Um longo caminho. In: BERND, Zilá; MELANÇON, Joseph (orgs.). Vozes do Quebec . Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1991. p.97-103.

Comentário: Zilá Bernd (UFRGS)

UM LONGO CAMINHO

Todo o escritor consciente da sua liberdade e da sua responsabilidade sabe que muitas vezes deve escrever contra si mesmo. Deve vencer sem cessar suas paixões, seus escândalos, sua má-fé e seus preconceitos de classe (pois os esquemas da cultura ainda são burgueses). (1)

Quando as condições objetivas para uma ação praticamente não existem, como aconteceu aqui durante muito tempo, o escritor colonizado, além de ter que vencer a si mesmo, escreve muito freqüentemente contra a sua natureza; isso porque, debaten- do-se nesta situação impossível, a pa- lavra lhe é atroz, dolorosa. A menos que, subtraindo-se à situação e à pro- blemática que ela coloca, ele se torne um trânsfuga, ou evadido de si mes- mo, ou objeto de derisão e de auto- destruição.

Isso aconteceu a mim. Eu cedi, pela força das coisas e por ignorância, a essas duas oscilações desesperadas. E cedo ainda hoje com recidivas de paludismo literário, tais foram as marcas daqueles anos.

Foi lá pelos anos 1954-1956 que comecei a perceber objetivamente o que eu era (2); a princípio, sem complacência ( La Batèche ). A complacência veio depois disfarçada, sem que eu soubesse, sob a forma de ironia; no meu isolamento, eu acredi- tava, então, que a ironia tornara-se meu único recurso, minha única arma. Coloquei o melhor de mim mesmo a destruir minha condição de poeta, a caricaturar-me, a ridicularizar-me, até mesmo em público. Voluntariamente eu voltava contra a poesia essa mistu- ra de vergonha e ódio que experimen- tava em relação a mim mesmo e em relação ao que me reduziam. Aos meus olhos, não havia nenhuma medi- da comum entre a condição de poeta que, na minha opinião, privilegiava- me, e a condição humilhada de todos.

Quando comecei a aperceber-me de como eu era objetivamente, toda uma parte da minha realidade existencial e concreta emergiu do fenômeno colonial, fenômeno que até então era impossível de compreender tantas eram as aparências criminosas e a integração sutil que o dissimulavam (3). A primeira vez que senti penetrar em mim a palavra "coloniza- do" foi lá pelos anos 55 ou 56. Um colaborador da revista Esprit fazia sua primeira viagem ao Canadá e, ao longo de uma conversa, como falávamos do número especial que esta revista tinha dado ao Canadá francês alguns anos antes, ele me disse entre outras coisas, e sem fazê-lo deliberadamente, que X... lhe havia contado que Beguin, lendo os textos manuscritos que compunham esse número, tinha tido a impressão de uma ressonância de "consciência colonizada". Nessa época, essa palavra me escandalizou e, dali em diante, não cessou de me obcecar (4). Comecei a olhar ao meu redor, e em mim, com outros olhos; comecei a decifrar com voracidade minha realidade ambiente, a me explicar e a querer explicar o mundo no qual eu vivia. Mergulhei em toda a espécie de leituras. Foi nessa época, 1956, que tentei uma ação política no PSD. Entretanto, minhas resistências não caíram. Mas o que conta é justamente essa percepção de que falei; na mes- ma medida em que se tornava um obstáculo, também me modificava. Eu sentia cada vez mais, à luz que ela produzia no meu espírito, minha condição como uma humilhação e uma injustiça. Depois, minhas resistências fortaleciam-se: certamente, tinham-se enganado a nosso respeito; isso não era possível, não; tudo, mas não isso. Entretanto, essa percepção explicava em parte minha vergonha anterior, minha raiva, meu ódio, dos quais não tinha podido descobrir a origem: as explicações tradicionais eram insufi- cientes.

Por muito tempo, então, recusei-me a admitir, admitindo apesar disso, que o fenômeno colonial atingira-me no todo ou em parte. Foi então que me tornei, de 1956 a 1959, como todo colonizado, um mitômano. Debati-me como um energúmeno numa luta interior desgastante contra mim mesmo. Um dia, proclamava que estava emancipado de todos os nossos tabus, de nossos impedimentos, de nossas limitações e de nossas carolices (5); que essa situação não me dizia respeito, a mim, que não sofria mais disso; que eu tinha saído do pesadelo do qual falara Giles Lecrerc, se é que havia algum lugar de onde sair. Realmente, eu estava livre, mas só, e para que serve uma liberdade solta no ar? Outros dias, sob a evidência que me oprimia após minha investigação, precipitava-me nos abismos da abjeção, da ignomínia, do desconsolo, em suma, com toda uma carga de palavras de uma operação de rebaixamento. A complacência mostrava de novo o nariz, apresentando-se, desta vez, sob as formas da fatalidade e da resigna- ção, e a situação político-econômico- social me servia de álibi. Invoquei o lado poesia, e filo saber às vezes com amargura e cinismo, ladainhas de boas razões para não enfrentar o ato de escrever. Ajudado pela preguiça, isso me dava uma bela figura e ares de mártir ou de herói falsificado. Levei quatro anos para vencer a mim mes- mo, a me auto-afirmar a partir da minha realidade objetiva: minha situação neste país que é minha redução ao olhar de alteridade anglo-canadense. Minha confrontação com a Europa, em 59-60, terminou por vencer definitivamente minhas resistências e minhas dúvidas humanistas-democráticas-pacifistas-universalistas, etc.

Uma vez que havia assumido minha condição de colonizado, pelo menos a parte em mim que é colonizada, que havia reivindicado e transformado em uma afirmação, considerei, diante da escritura, que a única atitude convincente consistia no silêncio, forma de protesto absoluta, recusa de pactuar com o sistema por meio do que quer que fosse, mesmo que fosse a literatura. Esclareço que essa tomada de posição é totalmente pessoal e que não tentei impô-la; meu trabalho editorial disso é testemunha. O único que veio a saber disto foi Hubert Aquin com quem tinha falado na ocasião, e que, aliás, já havia escrito sobre isso; entretanto, seu ponto de vista comporta diferenças. Mantive essa atitude ideológica por bastante tempo com breves recaídas de desencorajamento e numerosas rixas comigo mesmo: era o ônus que pagava a complacência e isso dizia respeito à idéia que eu fazia da literatura, de sua natureza e de sua função. Enquanto as condições para uma ação comum não existissem den tro de uma práxis determinada, eu estaria justificando na minha atitude. Acreditava que aqui não se encontravam as condições normais para a existência e o florescimento de uma literatura: estávamos condenados a uma literatura do lado de cá, de moribundo. A perversão semântica em escala nacional deturpava a comunicação e a condenava à irrealidade. Acreditei que a nossa salvação não estava somente na educação, mas que era também política, sem que uma excluísse a outra. A urgência manifestou-se nessa direção e a isso me entreguei. Dessa vez, a acusação de complacência veio de fora. Numa sociedade alienada de si mesma, de seu sangue, e pois, do seu potencial humano, além da alienação proletária que pesa sobre os homens em geral e, portanto, do seu produto social, o trabalho, por força de uma reivindicação e de uma afirmação de sua retomada, e de sua recuperação, pode parecer a mais de um ho mem honesto como uma nova compla- cência e como uma solução de facilida- de, sobretudo se essa afirmação se endureceu no silêncio.

Assim, de 1954 a 1959, nos momentos que venci a mim mesmo, escrevi os poemas de La vie agonique , nos quais tentei delimitar e definir minha pertença e minha especificidade ao mesmo tempo que a minha relação com o mundo e com os homens. Esforçava-me por manter-me a igual distância do regionalismo e do universalismo abstrato, dois pólos de desencarnação, duas maldições que pesavam constantemente sobre a nossa literatura. Se consegui isso? Já é uma outra coisa, estou apenas apontando um processo. Eu tentava alcançar o concreto, o cotidiano, uma linguagem repossuída e ao mesmo tempo universal. Relacionava a noção de universal à de identidade. Alguns de nossos melhores poetas estavam igualmente engajados neste caminho. Quanto a mim, recusava-me sempre a publicar meus poemas em livro, ainda que tenha consentido em dá-los a revistas que abriam uma perspectiva de independência; teria feito, creio eu, o jogo dos que pretendem, sem trope- çar, que tenhamos todos os meios de nos realizarmos enquanto ser-no-mundo de cultura francesa (sermos nós mesmos), no status quo de um siste- ma em que nenhuma motivação sócio- econômica (6) vem tornar necessária a prática dessa cultura. Na minha opinião, um desmentido era levado a es- sas consciências e aos poucos privile- giados pelo estado em que se encontrava o instrumento dessa cultura: a língua e sua linguagem que são a pre- sença total de um homem no mundo. Se essa presença é alterada no seu instrumento ou mutilada, nenhum compromisso é possível. Não podemos mais dar conta da realidade. O ho- mem, nesse caso, desnaturado, isto é, cortado de seus laços ecológicos de direito, desculturado, isto é, alienado de sua cultura, encontra-se em uma situação colonial: sua desumanização. O estado de uma língua reflete todos os problemas sociais.

As reformas em educação e em outros campos, não podem por si só restituir esse homem a si mesmo, só a política pode devolvê-lo completamente à sua homogeneidade, base de troca das culturas. Só ela pode garantir a integridade cultural da nação e a prática da necessidade dessa integridade em direção a mais um ser. Vivemos em 1965, e aí está nosso enfrentamento e nosso caminho: o nascimento do nosso coletivo na consciência mundial. Como coletividade nacional, vivemos até aqui de expedientes que foram necessários e de uma constante panacéia, as soluções culturais: messianismo, francês bem falado, biculturalismo, e, agora, educação. Insisto nisso: acho essencial e vital a reforma da educa- ção em profundidade, mas sua eficácia estará sempre comprometida enquan- to a política não garantir sua necessi- dade e sua prática. Existe uma opção fundamental: viver no mundo confor- me uma cultura, isto é, uma ontologia. Em geral, numa nação e numa socie- dade formadas, esta opção é feita naturalmente; questioná-la afeta ape- nas alguns casos individuais. A sobre- vivência demográfica não é uma ga- rantia, a assimilação existe, do mesmo modo que a aculturação. Atualmente precisamos mais do que uma língua materna para nos expandirmos, preci- samos de uma língua que seja tam- bém natal. É pela recuperação que possuiremos nosso instrumento de cultura e que este poderá informar a realidade. Não é o nacionalismo que importa, é a consciência nacional; esta só pode ser vivificada nas fontes de uma cultura nacional.

Esta era a minha visão e ainda o é. Em 1962, eu persistia, contudo, na minha recusa em escrever e na minha recusa em publicar, dando prioridade ao engajamento político e à construção da independência. Estava parcialmente enganado. As coisas tinham mudado. Não deixava de me aperceber que estava em contradição comigo mesmo e com a situação galopante. Julgava severamente minha atitude e confessava a mim mesmo que estava desencaminhado nesse plano. Minha atitude tinha e teve um valor exemplar apenas diante de mim mesmo; para que ela fosse eficaz, seria preciso que eu tivesse um nome como escritor junto ao grande público; ora, eu me havia negado de uma certa maneira, tinha crédito apenas para um pequeno grupo que partilhava da minha opinião. Por outro lado, a literatura não é apenas uma expressividade, ela é tam- bém um ato, sua ação é desvendar a alienação e seu caráter ultrapassado; pode também, criando suas próprias condições, criar as condições de sua historicidade. Publicar torna-se, assim, um ato tão convincente quanto a ação política.

Pus-me, assim, a correr minhas milhas de poesia. Publiquei La Marche à l'amour e La vie agonique . Pus-me a escrever penosamente, arrancando-me do chão, lutando contra a confusão que a dualidade lingüística engendrou no meu espírito da qual sou vítima tanto quanto a maioria. Hoje, sei que toda a poesia só é nacional quando convém realmente à existência literária. 0 maior poeta político da Espanha é Lorca porque exprime no mais alto grau o fato de ser espanhol e homem ao mesmo tempo. A literatura aqui, essa é a minha convicção, existirá coletivamente, e não no esta do individual, no dia em que ocupar um lugar entre as literaturas nacionais, no dia em que for quebequense. Será quebequense no mundo e para o mun- do. Pilon tem razão contra Trudeau quando afirma que, com o mesmo talento, corremos o risco de sermos piores poetas em uma situação de dependência colonial. Sou testemunha disso por tê-lo sentido existencial e concretamente; sofri demais esse problema.

Até 1962, meu comprometimento tinha sido principalmente de ordem intelectual. Tinha renunciado à militância mais cedo em razão das origens de direita dos primeiros movimentos de independência: minha opção socialista me afastava disso. Em 1962, homens e mulheres de todas as condições tinham chegado a uma escolha comum: encarregarem-se de nossa problemática em relação à indepen dência. Foi levando meu socialismo até suas conseqüências lógicas e através dos estudos de análise de nossa sociedade que concebo, agora, a indepen- dência, não mais somente no plano da ontologia e da linguagem, mas também no plano político. Correntes ideológicas de esquerda chegaram ao mesmo ponto. Eu estava encurralado, não podia mais furtar-me. Não hesitei mais em unir-me a eles e lancei-me, por minha conta, ao compromisso tático. Meu engajamento devia traduzir-se por gestos paralelamente a minha a- ção de escritor e de editor: participei de comícios, assembléias, manifesta- ções populares. Em suma, sou um militante como tantos outros, ultrapassei minha situação, pois, se me reco- nhecia numa situação de dependência colonial não era para me comprazer. Pela primeira vez na minha vida, estou de acordo comigo mesmo e com uma realidade que deve ser transformada até as estruturas. Quando o fenômeno colonial se manifesta, em qualquer grau que seja, diminui aquele que é vítima de sua ameaça. É por isso que toda a ação nessas condições só pode- ria ser, a meus olhos, radicalizante. Os fatores subjetivos e objetivos devem ser radicalizados. Se os acontecimen- tos nos tivessem vencido, no futuro, eu continuaria a pensar que nossa es- colha fora verdadeira, e também nossa ação. A humanidade ficaria um pouco mais empobrecida nas suas en- tranhas. Para terminar, pois a litera- tura é "o apelo livre de um homem a outros homens" (Sartre), dirijo algu- mas palavras a alguns de nossos mais velhos, dos quais divergimos ou que são francamente, talvez sem o saber, nossos adversários mais perniciosos porque são a negação de nossa especificidade. Foi após longos e duros combates interiores que chegamos a nossa escolha; não foi fácil, não o é ainda e não o será jamais, mesmo se nossa escolha se impuser; não há re pouso em ser um homem livre em qualquer lugar do mundo. 0 que existe é o seguinte: aquele que sofreu na sua carne e no seu espírito uma situação coletiva - e, por via de conseqüência, individual; aquele que se denomina a si mesmo "o homem carente" de um fenômeno colonial, por particularizado que ele seja na ocasião, destroços de dualidade lingüística, inferiorização econômico-social, dependência política... (situação a qual o colonizado alienado responde pela possessão, ou pelo mimetismo ou pelo fechamento sobre si mesmo), apercebe-se ainda mais como vítima do fenômeno e do sistema, e sua reivindicação é tanto mais virulenta. Esse, por sua tomada de consciência, clama por uma retomada e por um devir. Nós, escritores colonizados, contribuímos para essa tomada de consciência. Contudo, eu sei que os que saíram dela pela salva- ção pessoal ou os que uma situação de classe evitou o naufrágio com a maio ria, recusam a afirmação dos elementos conscientes dessa maioria, estão encerrados numa posição indivi- dualista, característica dominante da ideologia burguesa. Os assimilados a recusam ainda mais violentamente; à sua revelia ou por convicção, adota- ram a imagem que a alteridade lhes devolveu de si mesmos: sua especifi- cidade é abolida no outro e para enga- nar-se eles dela conservaram apenas o pitoresco, espaço em que se situa ainda o desprezo do outro. Entretanto, as contradições se acumulam tanto para os individualistas quanto para os assimilados. Diante da emergência da autenticidade e da eficácia reencontradas (7) em que se endurecerão e apare- cerão cada vez mais como reacioná- rios. Ou ultrapassarão sua realidade subjetiva reconhecendo-se solidários com todos (8).


(1)Sartre, em "Qu'est-ce que la littérature?" explicou muito bem este aspecto do escritor no contexto mais vasto de sua situação na sociedade e em ligação com a função da literatura.

(2)Esta percepção foi primeiramente intuitivamente e situada na minha irracionalidade.

(3)Antes de 1956, sob a influência de "Cité Libre", parecia-me que todos os males se originavam do social. Duplessis, por sua demagogia, encarnava o mal absoluto. Em grande parte, o diagnóstico de "Cité Libre" é válido ainda hoje. Depois de 1956, entretanto, pareceu-me progressivamente que o duplessismo não era a causa única do bloqueio social, de nossas faltas, carências, corrupções, pretensas inaptidões, mas também um efeito da estrutura canadense que instalou o sistema, como foi o caso de Taschereau e outros antes dele, e como será para Lessage se o movimento atual vier a abortar. Sem dúvida, devemos recuperar nossa verdade e realidade próprias, em suma, nossa personalidade, mas não abandono o projeto de uma mudança radical do social e não somente de sua forma, como se faz ainda em "Cité Libre": uma crítica dos defeitos em vista de reformas e de uma purificação da estrutura existente.

(4)Pensando bem, pareceu-me mais estranho do que escandaloso. Foi mais tarde que se fez o efeito de um escândalo.

(5)Minha consolação pós-surrealista em arte dava-me a ilusão dessa emancipação e liberdade.

(6)Segundo a expressão de Maurice Beaulieu.

(7)Em " Depossessionj du Monde ", Jacques Berque evidencia estas duplas de forças que são "autenticidade - eficácia", "natureza - cultura", "especificidade - geral".

(8)No final desse texto, dou-me conta até que ponto me empenhei na minha tentativa de explicar-me de maneira racional. Isso prova como ainda estou (o quanto ainda estou) na dependência dos destroços do nosso sistema interno e do fenômeno colonial que a ele se sobrepõe.