Um longo caminho

 Gaston Miron
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Comentário: Zilá Bernd (UFRGS)

1960 é data importantíssima para o Quebec, pois remete ao início do que se chamou de Revolução Tranqüila, ou seja, o conjunto de atos, marchas, protestos e manifestações de toda ordem que caracterizaram a maior crise de identidade que a província do Quebec já conhecera, determinando o desencadeamento de ideologias nacionalistas e separatistas. É a partir desta época que a literatura produzida na província passa a chamar-se de "québécoise" (e não mais canadienne-française) e começa a ser lecionada nas escolas e universidades.

Dos muitos intelectuais que se destacaram nesta luta por uma definiçào identitária cultural e nacional, Gaston Miron está entre os mais entusiastas e brilhantes, tornando a poesia do Quebec conhecida fora das fronteiras da província. Seus primeiros trabalhos foram publicados no jornal Le Devoir , de Montreal. Em 1953, funda, juntamente com outros intelectuais as Edições Hexagone que se tornarão importante instrumento no processo de legitimação da literatura do Quebec. Militará no seio de diversos partidos e associações dedicados a promover a independência do Quebec. Participará ainda da fundação da revista Liberté e da organização de recitais de poesia em Paris e Quebec, todos com finalidade política explícita: a de conscientizar os quebequenses da necessidade de emancipação política. A editora da Univ. de Montreal, onde lecionou por muitos anos, reuniu suas pulbicações esparsas no volume que se tornou sua obra mais importante: L'homme rapaillé .

Celebrizou-se como o poeta da identidade nacional e do engajamento. O texto "Um longo caminho" é antológico por dar ocasião ao poeta de argumentar, através da composiçào ensaística, sobre a difícil situação dos poetas no Quebec, este "pays incertain". País incerto, pois embora culturalmente distinto do resto do Canadá, a ele está vinculado. A defesa da língua francesa e de determinadas tradições são as principais armas utilizadas pelos poetas para defender uma cultura (francófona) que eles julgam ameaçada diante da mundo anglófono composto pelos Estados Unidos e pelas demais províncias canadenses.

O texto contém muitas passagens onde o ressentimento é ainda muito vivo e onde o poeta reconhece-se vítima do processo de colonização e da conseqüente alienação que caracteriza todo colonizado. Passa a realizar o que se poderia chamar de exercício de vitimização antes de passar a tornar-se combativo e militante na longa e árdua tarefa de afirmação da identidade.

Só de pois de longos anos de militância política sua voz de poeta volta a fazer-se ouvir com os poemas "Marche à l'amour" e "La vie agonique". Através da literatura voltará a relacionar-se com seus compatriotas, abrindo-se aos outros e ao mundo. Define-se como um escritor engajado na tarefa de afirmação da identidade cultural e nacional do Quebec, sem transformar sua poesia em panfleto. Serão célebres as Noites da Poesia em que milhares de pessoas acorrem para ouvir Miron e outros poetas declamarem seus poemas de cunho marcadamente nacionalista. Uma identidade de raiz única, voltada para a afirmação da nacionalidade tem início no Quebec e somente após a década de oitenta, poetas e escritores do Quebec começarão a desprender-se desta tarefa obsessional de dizer o país, abrindo-se à alteridade e à relação.