Os dilemas da negritude

Clóvis Moura

MOURA, Clóvis. Brasil : raízes do protesto negro. São Paulo: Global, 1983. p.40-46, 100-105: Ideologia de branqueamento das elites brasileiras e os dilemas da negritude.

Comentário: Ana Boff de Godoy (UFRGS)

OS DILEMAS DA NEGRITUDE

A reunião realizada em Dakar no mês de janeiro - entre os dias 7 a 14 de 1974 - "Negritude e América Latina" de qual participamos, veio mostrar a existência de uma série de incompreensões que devem ser analisadas para que possam ser devidamente esclarecidas. Trata-se do próprio conceito de Negritude , da sua validade como categoria científica no quadro das Ciências Sociais.

Pelas posições assumidas por alguns participantes daquele colóquio - especialmente os professores German de Granda, da Espanha e Renê Ribeiro, do Brasil - nota-se que alguns dos seus participantes não têm, ainda, uma posição existencial dinâmica baseada na negritude ; mas, pelo contrário, confundem o termo com um possível estereótipo que caberia ser elucidado e desmascarado cientificamente por eles, usando categorias científicas capazes de desmistificá-lo. Em outras palavras: estavam à direita da negritude...

Procurando ver a negritude apenas como uma atitude dos negros face ao mundo dos brancos, tentaram, por isto mesmo, fazer uma análise que nos levaria a uma posição metodologicamente equivocada; pois a veríamos apenas como um conceito para ser estudado, nunca uma ideologia para ser vivida e aplicada. Ou seja, procuraram analisar a negritude de fora para dentro, etnocentricamente, sem verem até que ponto isto vem demonstrar a sua incompreensão sobre o que lhe é mais relevante, isto é a sua práxis - certa ou equivocada, não importa -, a possibilidade de ser usada como instrumento de conhecimento e ação no processo de transformação de uma realidade problemática. Porque, se a negritude é apenas uma atitude psicológica de revolta inconsciente e vaga de negros intelectuais frustrados no mundo dos brancos, então não tem nenhuma validade científica perdendo-se entre as milhares de vozes sem eco no imenso deserto do protesto social não conscientizado.

Mas, se a negritude (ou qualquer outro nome que a designe) é a generalização das contradições criadas em uma sociedade opressiva e se ela exterioriza - em termos de conscientização - exatamente o lado mais irracional dessas contradições, então é um instrumento de conhecimento válido e partir daquele conceito de Hans Freyer, segundo o qual só sabe algo sociologicamente quem quer algo socialmente. Isto é: a negritude como método de observação participante, repre-senta a unidade entre a teoria e a prática no sentido de desalienar não apenas as populações negras, mas todos aqueles estratos populacionais que, de uma maneira ou de outra, se sentem oprimidos e/ou marginalizados pelo sistema dominante em qualquer parte.

Por isto mesmo (em que pese a opinião de certos cientistas sociais acadêmicos presentes) o colóquio de Dakar não foi uma reunião sobre o negro , como pretendem alguns. mas sobre o conceito polêmico de negritude relacionado com determinada área geográfica: a América Latina. Isto porém não foi compreendido por alguns (felizmente minoria), que desejavam um encontro "higienizado", segundo a expressão de Nicomedes Santa Cruz, do Peru, que teve oportunidade, no plenário, de travar; várias vezes, debates sobre o assunto. Queriam o negro como objeto de estudo sociológico ou antropológico para enriquecimento dos seus conhecimentos acadêmicos.

Ora, quem tem informação - pelo menos superficial - da bibliografia antropológica e sociológica das áreas acadêmicas, sabe muito bem como esses sábios se aproveitam do problema do negro para teses de doutoramento, como se estivessem fazendo pesquisas com a Drósofila Melanogaster .

Por outro lado, as origens da aristocratização da própria negritude não são de hoje. Prendem-se, historicamente, aos próprios motivos que a fizeram nascer, num determinado momento em um determinado lugar. Como todos nós sabemos, a negritude nasceu , de um protesto intelectual de negros de formação cultural européia. Tomando conhecimento da diferença de tratamento e da inferiorização que os europeus impunham à sua "raça", escritores como Aimé Césaire, L. Sédar Senghor, Leon Gontran Damas e outros, aproveitando-se, inclusive, de ritmos poéticos brancos (Césaire aderiu ao surrealismo) iniciaram o movimento chamado Negritude o qual, em última instância, era um movimento europeu. Foi, aliás Aimé Césaire quem no seu Cahier d'un retour au pays natal , em 1939 empregou pela primeira vez a palavra negritude . Para ele significava "o simples reconhecimento do fato de ser negro e a aceitação deste fato de nosso destino", enquanto para Senghor significava "a soma total dos valores africanos".

O marco inicial mais significativo da negritude como movimento literário foi a publicação da revista Légitime Défense em Paris, em 1932. A iniciativa foi de um grupo de estudantes antillhanos liderado por Etienne Lero, René Ménil, Jules Monnerot e outras. A vida da publicação foi efêmera: circulou apenas o seu primeiro número. A razão do fracasso foi a série de pressões que o grupo sofreu, inclusive dos seus conterrâneos conservadores. Mas, a iniciativa deixou a sua influência e em 1934 outro grupo fundou o jornal L'Edudient Noir . Esse grupo contava com os nomes que depois seriam famosos como Aimé Césaire, o guianense Léon Gontram Damas e Senghor. Outros que pertenceram ao grupo e que hoje são famosos: Ousmane Socé, Birago Diop, Leonard Sainville e Aristide Maugé. O jornal era definido como "um jornal corporativo e de combate, tendo por objetivo o fim da tribalização, do sistema de clãs em vigor no bairro latino. Cessamos de ser um estudante martinicano, guadalupeano, guianense, africano, malgache para sermos um único e mesmo estudante negro". Senghor, analisando o conteúdo desse jornal, escrevia que várias tendências ali se expressavam: "Césaire conduzia a luta, antes de tudo contra a assimilação dos antilhanos. De minha parte eu visava, sobretudo, analisar e exaltar os valores tradicionais da África Negra".

Se, inicialmente, a negritude foi combatida pela ala mais conservadora dos negros, passou, depois, a ser combatida pela sua ala mais radical. O nigeriano Wole Soyinka dizia sobre o movimento que "o tigre não precisa proclamar a sua tigritude".

Historicamente isto corres-pondia ao grau de conscientização que essas elites intelectuais negras tinham da sua problemática, ainda que embrionariamente, sem um horizonte projetivo definido. Esses intelectuais transformaram-se, assim, de um lado em camada consciente da opressão que sofriam como negros letrados, mas, ao mesmo tempo, não incorporavam o seu protesto estético ao protesto social e político passivo e muitas vezes ativo de milhões de negros africanos os quais, sob as condições do colonialismo, sobreviviam explorados na África Negra.

Alguns souberam posterior-mente sincronizar o seu protesto estético (a negritude nos seus primórdios foi um movimento de reivindicação estética) a uma práxis política, como é o caso de Senghor, ex-presidente da República do Senegal, embora o seu exemplo possa ser muito bem apresentado como o exemplo de uma frustração e de um equivoco.

Da negritude de Senghor à estratégia do neocolonialismo na África a diferença é mínima.

Mas, de um modo geral, essa fase da negritude foi se dissolvendo em facções que se digladiavam ou se friccionavam, sem encontrarem uma norma de ação africana plebéia para dar-lhe continuidade em termos globais.

Isto levou a que muitos intelectuais negros que surgiram posteriormente assumissem uma posição radicalmente negativa frente à negritude tradicional, como, por exemplo, o caso do notável sociólogo do Daomé Stanislas Adotevi que afirma ser a negritude a "forma branca de se ser negro". (1)

Mas, com os movimentos de libertação das nações africanas, a participação dessas nações no conjunto das forças do Terceiro Mundo, o conceito de negritude adquiriu um novo combustível dialético.

Vindo do movimento chamado da Sorbonne, a primeira manifestação da negritude no Brasil, colocou em discussão os mesmos princípios a que nos referi-mos, fazendo com que, sem maior processo de filtragem, os negros que desejavam uma ideologia desalienadora assimilassem a negritude como nos foi injetada inicialmente da Europa. Mas, enquanto para os africanos, em conseqüência do processo da luta dos seus povos contra o colonialismo, o conceito de negritude teve de se descongelar e adquirir novos contornos ou ser mesmo negado, no Brasil não havendo tal motivo polarizador (a práxis política) a negritude ficou praticamente estagnada naquelas categorias aristocratizantes que a originaram na Europa e era praticada por uma elite negra.

É verdade que vários movimentos negros se organizaram, levantando reivindicações de forma independente. Embora sem terem conscientemente ligações com os grupos europeus da negritude, com eles coincidiam no nível de desejarem romper com uma série de barreiras que marginalizavam o negro brasileiro.

Com o advento do Estado Novo, em 1937, muitos desses grupos tiveram de se dissolver. Uns voluntariamente. Outros compulsoria-mente, como é o caso da Frente Negra Brasileira. Ficaram apenas algumas organizações recreativas, exatamente aquelas que tinham uma parcela bem menor de consciência dos problemas dos negros (consciência étnica), especialmente em São Paulo. Somente com o chamado movimento de redemocratização do Brasil, advindo em 1946, foi que os negros voltaram a se reagrupar em nível não mais de simples comunidades recreativas ou religiosas.

Mas, muitos desses movimentos surgiram aproveitando-se não da experiência dos duros e ásperos tempos do Estado Novo, mas dos modelos europeus que, a esta altura, já estavam superados, e, inclusive, abandonados por muitos dos seus iniciadores no Velho Mundo.

É nesta conjuntura que surge, em 1944, o Teatro Experimental do Negro, liderado por Abdias do Nascimento. Era, de fato, um conjunto que apresentava a negritude de forma consciente, desejando, através dessa ideologia, organizar os negros no Brasil. O movimento editou ainda o jornal Quilombo no qual o pen-samento e a proposta do TEN se expressavam. Mas, o que esse grupo apresentava à grande comunidade negra marginalizada nas favelas, nas fazendas de cacau e de algodão, nas usinas de açúcar, nos alagados e nos pardieiros das grandes cidades? Nada.

Isto levou a que a negritude dessa fase, apesar dos protestos de grupos negros isolados, como o de Solano Trindade, que lutou até a morte para dar uma conotação popular e revolucionária à negritude , o certo é que a sua aristocratização e intelectualização se desenvolveram de modo inequívoco. O grupo do Teatro Experimental do Negro que organizou o Instituto Nacional do Negro, procurou imprimir às suas atividades um cunho de elite intelectual negra. Segundo um dos seus teóricos, o sociólogo Guerreiro Ramos, o movimento objetivava a "de pelo teatro adestrar homens de cor nos estilos de comportamento de classe média superior". (2)

Acreditava, assim, o senhor Guerreiro Ramos que, através de simples catarse poderia resolver o problema do negro no Brasil. "A tese social do TEN - escreve ele - pode ser chamada de grupoterapia". Ainda analisando as reuniões da Conferência Nacional do Negro, realizada em 1949, dizia Guerreiro Ramos, considerando o comportamento de um dos seus participantes: "Outro orador afirma que a finalidade da Conferência deveria ser protestar contra o preconceito de cor e pergunta à mesa se esta não entende assim. Responde um membro da mesa que não: que a conferência tinha um sentido positivo e considerava secundária a questão do preconceito de cor". (3)

Prova desta posição elitista em relação ao conjunto da população negra, é uma afirmação de Abdias do Nascimento na mesma Conferência. Dizia ele: "A mentalidade de nossa população de cor é ainda pré-letrada e pré-lógica. As técnicas sociais letradas ou lógicas, os conceitos, as idéias não a atingem". (4)

Neste plano de enfoque do problema do negro, isto é, dentro da ótica de uma intelectualidade negra pequeno-burguesa que usava a negritude como fronteira ideológica para separá-la da grande massa marginalizada das favelas, dos mocambos do Nordeste, dos cortiços e de outros locais e áreas onde se concentra a população e a problemática do negro no Brasil (considerado pré-letrado e pré-lógico), este comportamento intelectualizado e elitista da negritude levou a que ela fosse se desgastando. Desgastando-se paulatinamente, à medida que esses grandes contingentes populacionais marginalizados procuravam um con- junto de idéias no qual se pudessem apoiar para explicar a situação em que se encontram e visualizar a possi- bilidade de transformá-la. Nisto a negritude aristocrática falhou. Falhou lamentavelmente. Os seus antigos líderes no Brasil, atualmente procuram apenas atenuar as tensões que derivam da polarização da riqueza e poder na área branca, e de pobreza e subordinação na área de negros e pardos.

Tanto isto é verdade que, de uns tempos para cá, toda a simbologia que era afirmação da etnia negra, e, portanto, de uma negritude subjacente mas sensível, está sendo substituída por outra. Luís Gama deixou de ser o grande símbolo admirado nas festas de 13 de maio em São Paulo. Foi substituído pelo símbolo passivo e masoquista da Mãe Preta. Desta forma, tudo aquilo que representava uma posição afirmativa, um símbolo de virilidade e dinamismo social foi, ou está sendo substituído por símbolos que espelham os negros e os seus descendentes como meros objetos de trabalho e que somente devem ser glorificados como e enquanto objetos.

Felizmente, nota-se na juventude negra atual uma vontade de reencontrar a dignidade negra que se conjugará à dignidade de todos aqueles que criaram a riqueza nacional, porém que, por uma série de razões, atualmente estão marginalizados.

Por tudo isto, o colóquio de Da kar serviu para que, dentro de um contexto novo, a negritude fosse colocada como uma ideologia dinâmica, filha das contradições de uma sociedade que possui, ainda, enormes faixas populacionais margina- lizadas, no plano do desemprego e do subemprego. Desta forma, delimitou- se a sua função numa área do Terceiro Mundo - a América Latina - como um conjunto de idéias polarizadoras e dinamizadoras, capazes de fazer com que aquelas populações que estão e se sentem frustradas na sua poten- cialidade de produção e aquelas áreas ou nações que também se sentem oprimidas por injunções que inde- pendem das suas forças internas, possam compreender os mecanismos que as frustram e oprimem.

Neste particular foi muito claro o discurso de encerramento proferido pelo Sr. Alione Sene, ministro da Edu cação do Senegal, no conclave de Dakar. Com veemência e muita objetividade traçou as coordenadas do que ele chama de negritude no atual estágio de desenvolvimento do mundo e a sua função cultural e política.

É uma peça que reformula, a partir de uma visão realista e operacional da negritude a sua função, especialmente na América Latina e em toda a área do chamado Terceiro Mundo. Para ele, cabe, através da negritude a criação de um Mundo Novo, de um americano do Sul novo e de um negro novo. Isto irá formar a civilização do Universal. Neste processo de transformação a negritude desempenhará, como etapa de pensamento, o mesmo papel que os filósofos do século das Luzes, precursores da revolução de 1789 desempenharam, porque expressa uma vontade de libertação política e de desenvolvimento econômico e cul tural.

Depois de mostrar as afinidades culturais entre os dois continentes, África e América, bem como a participação dos negros nos movimentos de emancipação do nosso continente, preconiza a necessidade de um diálogo verdadeiro entre a América Latina e a África, a fim de desenvolver, no seio do Terceiro Mundo, condições de solidariedade política, econômica e cultural concretas. Isto porque - segundo ele - o imperialismo é um todo indivisível e os negros, como os latino-americanos, têm sentido as suas marcas profundas.

O ministro Alione Sene terminou a sua alocução afirmando que uma nova economia está em vias de se instaurar, fato que trará à humanidade a esperança de um novo equilíbrio entre todos os povos nos planos políticos, econômico e cultural (5).

Conforme podemos ver, pelo pequeno resumo que fizemos do seu discurso, a negritude reformulada indica uma nova etapa no seu significado, deixando de ser apenas um protesto adstrito a grupos intelectualizados para abarcar, no seu contexto, a significação de toda uma problemática de contestação. O que significaria, em última instância, a negação da negação hegeliana, ou seja a negritude será transformada no seu oposto: na sua negação dialética.


(1)Adotevi, Stanislas: - Negritude et Negrologues, Ed. Union Générale d'éditions, Paris, 1972, p. 207.

(2)Ramos, Guerreiro: - Uma Experiência de Grupoterapia, in Relações de Raças no Brasil, Ed. Quilombo, Rio de Janeiro, 1950, p. 23.

(3)Ramos, Guerreiro, Op. cit. p. 25.

(4)Nascimento, Abdias do; "Espirito e Fisionomia do Teatro Experimental do Negro", Loc. cit. p. 10. No mesmo local diz ainda Abdias do Nascimento: "Não é com elucubrações de gabinete que atingiremos e organizaremos esta massa, mas captando e sublimando a sua profunda vivência ingênua, o que exige a aliança de uma certa intuição morfológica com o senso sociológico. Com estas palavras desejo assinalar que o Teatro Experimental do Negro não é, nem uma sociedade política, nem simplesmente uma associação artística, mas um experimento psicossociológico tendo em vista adestrar gradativamente a gente negra nos estilos de comportamento da classe média superior da sociedade brasileira. (...) Temos conseguido tudo sem agressividade. Por exemplo: levar domésticas e operários humildes para o pal co do teatro de maior responsabilidade do Brasil: o Municipal; reunir em nossas festas e atos sociais diplomatas de várias embaixadas, a melhor sociedade do Rio. Todas esses têm sido ocasiões estimuladoras do desenvolvimento da personalidade, ensejadas pelo T.E.N. a negros e mulatos. E, ainda com absoluto sucesso, promovemos a valorização social da mulata e da negra através de concursos anuais da 'Rainha das Mulatas' e da 'Boneca de Pixe', realizando, assim, um programa de formação do gosto estético popular e de exaltação dos valores genuínos da civilização brasileira".

(5)Sene, Alione: Allocution Prononcee par monsieur Allione Sene, ministre de la Cultura a 1'occasion de la Cloture du Colloque "Negritude et Amerique Latine", (mimeografado).