Os dilemas da negritude

Clóvis Moura
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Comentário: Ana Boff de Godoy (UFRGS)

O capítulo do livro Brasil: raízes do protesto negro , de Clóvis Moura (1) , intitulado Dilemas da negritude , é uma síntese não só da reunião denominada "Negritude e América Latina", em Dakar, no ano de 1974, mas também do tumultuado processo pelo qual passou a negritude (2) . Essa ideologia, da qual derivou o movimento literário da Negritude, caracterizado por Zilá Bernd (3) como uma "tomada de consciência de uma situação de dominação e a conseqüente reação pela busca de uma identidade negra", sempre suscitou incompreensões, não só por parte daqueles que o observaram e observam, mas, talvez principalmente, por parte daqueles que o criaram e o conduziram.

Como era de se esperar, tendo em vista as profundas contradições sobre as quais teve de se estruturar, a Negritude, enquanto movimento, e a negritude , enquanto ideologia, nunca foi ponto pacífico e tampouco representou a solução para as desigualdades entre as culturas, ainda que tenha gozado de grande importância no que toca as relações sociais. Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, os maiores expoentes desse movimento, buscavam a identidade do negro através de caminhos diversos. O primeiro idealizava uma identidade fundada unicamente sobre o referente étnico e acreditava que a única maneira de se estabelecer a igualdade era pondo ordem no caos, propondo, assim, uma estética da ruptura e da revolução. Buscava, como Senghor, um novo humanismo, porém, em conciliação com o marxismo, enquanto o último trilhava essa busca através do espiritualismo, propondo uma estética da conciliação e da evolução. Mas após a independência das colônias (anos 60), "Senghor deixou-se utilizar pelos interesses do neocolonialismo e acabou permitindo que a Negritude fosse utilizada como arma pelo sistema imperialista" (4).

Jean Paul Sartre (5) já alertava para "o perigo de tornar o movimento um racismo às avessas" e defendia a Negritude como uma "etapa a ser ultrapassada, para se destruir, é passagem e não término, meio e não fim último". Zilá Bernd (6) conclui, a respeito desse movimento, que

" a radicalização na reivindicação das especificidades da raça negra acabou sendo usada com propósitos contrários aos que a originaram, servindo inclusive como justificativa para teorias discriminatórias e racistas (...); na tentativa de negar o discurso dominante, a Negritude acabou por parafraseá-lo, sendo superada pela exaustão de suas fórmulas, "

e sustenta que

" enquanto a negritude permanecer no nível dos signos, isto é, se resumir a combater os signos do poder branco, não haverá um real enfrentamento do problema. É necessário chegar à estrutura profunda: lá onde os estereótipos se constróem como causa e conseqüência de preconceitos. "

Com um olhar semelhante, Clóvis Moura analisa o modo como a problemática a respeito da significação do próprio termo negritude foi e está sendo conduzida. Sustenta que um grupo de intelectuais tem se colocado "à direita da negritude ", estereotipando-a através de uma análise etnocêntrica e condenando-a à mera atitude psicológica de revolta do negro frente ao mundo do branco. E se coloca, com muita propriedade, ao lado daqueles que vêem na negritude um processo de função desalienadora, um processo que deve manter a unidade entre a teoria e prática, um "instrumento de conhecimento e ação no processo de transformação de uma realidade problemática".

A grande questão é até que ponto os movimentos negros conseguiram utilizar a negritude como instrumental efetivo de ação e conhecimento rumo a uma organização social solidária e igualitária. Assim como, na África, Senghor deixou-se seduzir pela possibilidade de pertencer ao mundo do qual era excluído, nas Américas o imperialismo avançava e convocava mais e mais seguidores. Essa foi a origem da ala direita, por assim dizer, da Negritude . Várias foram as formas de identificação desse grupo com os valores dominantes.

No Brasil, a organização dos movimentos negros basearam-se, em sua grande parte, nos modelos europeus, o que gerou uma espécie de aristocratização e intelectualização , para usar as palavras do autor, desses grupos e da sua forma de ação. Clóvis Moura cita como exemplo o grupo do Teatro Experimental do Negro (TEN), criado e coordenado por Abdias do Nascimento, cuja declaração a respeito dos objetivos almejados pelo seu movimento encontram-se em nota no texto comentado. Mas será que "adestrar homens de cor nos estilos de comportamento de classe média", como pretendia Nascimento, era um meio suficiente e eficiente para a aceitação do negro e respeito a ele por parte da sociedade? Não seria isso uma forma de mascaramento da condição de homem do negro em detrimento à condição de intelectual-classe média?

É importante atentarmos para o que diz Clóvis Moura em outro capítulo deste seu livro: "a cultura negra não pode ser estudada como simples reminiscências, ou memória, pedaço do passado cultural fossilizado, mas como componente de uma realidade social dinâmica e conflitante, na qual exerce uma função". Nesse sentido, temos que concordar com o autor que tentar mascarar a negritude sob a forma de um falso eruditismo popular é nada mais do que um desvio de função, ou seja, um compactuar com aquilo que aparentemente se condena.

Toda essa complexa rede de equívocos acabou fazendo com que a Negritude se desgastasse, tanto em ação quanto no plano ideológico.

Clóvis Moura aposta na juventude negra. Diríamos que essa juventude não é apenas aquela etária, mas que corresponde também às novas formas de pensar e agir que vêm surgindo, principalmente, na literatura.

No Brasil, como exemplo dessa nova literatura negra, livre das amarras opressoras e do sentimento de revolta, temos a poesia de Edimilson de Almeida Pereira (7).

Outro exemplo de uma nova forma de pensar a Negritude através da literatura, dessa vez na Martinica, é o que faz o escritor Edouard Glissant (8). Dentre as várias idéias e reflexões que esse autor lança em suas obras, a que se ajusta oportunamente com a proposta sustentada pelo então ministro da Educação no Senegal, Alione Sene (como mostra o texto de Clóvis Moura), é a de Crioulização .

A Crioulização pode ser considerada uma nova tendência, oposta a da Negritude, pelo fato de exigir que os elementos heterogêneos se intervalorizem e que não haja degradação ou diminuição no contato e na mistura. A Crioulização é imprevisível, enquanto que os efeitos da negritude são mensuráveis. A Crioulização pode não ser a palavra definitiva para essa realidade ainda conturbada pelas desigualdades, mas pode estar se tornando, ao menos, uma nova etapa, posterior a da Negritude , no processo de desalienação sócio-cultural.

O discurso de Alione Sene, apresentado por Clóvis Moura, parece-nos corresponder aos princípios e objetivos da Crioulização , uma vez que ambas apostam numa espécie de civilização do Universal e nas "condições de solidariedade política, econômica e cultural", às quais acrescentaríamos ainda a solidariedade humana no seu sentido primeiro. Além disso, o "americano do Sul novo e o negro novo" ao qual se refere Alione Sene, pode ser, por analogia, o antilhano de Glissant: um novo homem, que sustentará o diálogo entre todos os homens e culturas.

Assim, somaríamos ao diálogo entre a África e a América Latina, almejado por Clóvis Moura, o diálogo entre as três Américas e entre todos os países de colonização africana para que, reformulando os valores sócio-econômico-sociais, chegássemos à revalorização humana.


(1)Outras obras do autor: Rebeliões da senzala : Quilombos Insurreições Guerrilhas. 3 ed. São Paulo: Ciências Humanas, 1981. Raízes do protesto negro . São Paulo: Global, 1983. Sociologia do negro . São Paulo: Ática, 1988. Dialética radical do Brasil negro . São Paulo: Anita, 1994.

(2)É importante levarmos em consideração os dois aspectos que o termo "negritude" convoca. O primeiro, que é o trabalhado por Clóvis Moura em seu artigo, se refere à ideologia; o segundo diz respeito ao movimento literário inaugurado por volta de 1934 e concebido por estudantes africanos e antilhanos, em Paris. É claro que esse movimento estético se derivou da necessidade de concretização da ideologia da negritude , e é verdade também que seu propósito foi alargado de tal maneira a confundir a proposta estético-literária com as propostas sociais, econômicas e culturais mais abrangentes que a ideologia propiciava. Não cabe, aqui, discutir a função do movimento literário da Negritude em seu percurso histórico-social, tampouco fazer divagações a respeito da sua relação com a ideologia da negritude, propriamente dita. Basta, agora, para efeito de compreensão dos referentes, estabelecer as marcas tipográficas que se referem a uma e a outra acepção: o movimento literário será grafado com a inicial em maiúscula, enquanto o seu caráter ideológico (e todas as suas implicações) será grafado em itálico. Nas eventuais situações em que essa distinção se torna impossível, o termo será grafado: Negritude .

(3)BERND, Zilá. Negritude e literatura na América Latina . Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

(4)Ibid .

(5)SARTRE, Jean Paul. Reflexões sobre o racismo . São Paulo: DIFEL, 1965.: Orfeu Negro.

(6)BERND, op. cit. , 1987.

(7)Poeta mineiro, de Juiz de Fora, cuja obra poética e ensaística pode ser conferida na seguinte bibliografia: O livro das falas ou kalunbungu - achados da emoção inicial. Juiz de Fora: Edição do Autor, 1987. Negras raízes mineiras : os Arturos. Juiz de Fora: UFJF, 1988. (em parceria com Núbia Pereira Gomes) Assim se benze em Minas Gerais . Belo Horizonte: Mazza Edições, Juiz de Fora: UFJF, 1989. (em parceria com Núbia Pereira Gomes) Ô lapassi & outros ritmos de ouvido . Belo Horizonte: UFMG, 1990. Arturos : olhos do Rosário. Belo Horizonte: Mazza Edições, 1990. (em parceria com Núbia Pereira Gomes e Marcelo Pereira) Corpo vivido . Juiz de Fora: D'Lira, 1991. Mundo encaixado . Belo Horizonte: Mazza Edições, Juiz de Fora: UFJF, 1992. (em parceria com Núbia Pereira Gomes) O homem da orelha furada . Juiz de Fora: D'Lira, 1995. Rebojo. Juiz de Fora: D'Lira, 1995. Do presépio à balança : representações sociais da vida religiosa. Belo Horizonte: Mazza Edições, 1995. (em parceria com Núbia Pereira Gomes) A roda do mundo . Belo Horizonte: Mazza Edições, 1996. (publicado em parceira com as poesias de Ricardo Aleixo)

(8)A idéia de Crioulização , bem como tantas outras reflexões a respeito das Identidades, podem ser encontradas no texto do autor presente nesse CD-ROM e também em bibliografia do autor no comentário de Graciela Ortiz.