Manifesto antropófago e Manifesto da poesia pau-brasil

Oswald de Andrade
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Comentário e hipertextos: Raquel R. Souza (FURG)

O Manifesto Antropófago , de Oswald de Andrade, foi publicado na Revista da Antropofagia, em 1º de maio de 1928, como encarte no jornal Diário de São Paulo, em São Paulo. A Revista de Antropofagia era um periódico de natureza bastante belicosa que expressava bem o sentido de ruptura próprio das vanguardas dos anos 20. Embora tenha sido um dos órgãos mais ativos e influentes que fazia a crítica das várias tendências nascidas da Semana de Arte Moderna, em 1922, a Revista teve uma trajetória relativamente curta e se dividiu em duas fases distintas, sintomaticamente chamadas de "dentições".

A primeira dentição , onde se encontra a primeira publicação do Manifesto , estende-se de maio de 1928 a fevereiro de 1929, período no qual foram editados dez números. Já a segunda dentição compreende um tempo que vai de março de 1929 até 1º de agosto do mesmo ano, contando com justos quinze números editados, não mais como encartes, mas em página inteira do Diário de São Paulo. Independente da importância da Revista para a cultura brasileira, e em especial para a Literatura Brasileira, absteremo-nos de maiores comentários tendo em vista nosso objeto de atenção, qual seja, o Manifesto antropófago

Adotando uma escrita explicitamente desconstrutivista em relação ao padrão ainda bem comportado da época, o poeta, dramaturgo, escritor e ensaísta brasileiro Oswald de Andrade inscreve seu texto como um dos grandes manifestos literários das vanguardas estéticas deste século.

De um lado, a data do início do século, por si só, indicia a presença de algumas questões referentes às vanguardas e seus procedimentos de rupturas com a tradição; por outro lado, o Manifesto guarda profundas semelhanças com a poesia de seu autor e traz no seu bojo referências que irão nortear este breve comentário. Ainda assim, gostaríamos de salientar que este comentário crítico não tem por objetivo esgotar ou mesmo abarcar todas as nuanças do texto oswaldiano, mas tem, de certa forma, a pretensão de tangenciar aspectos que julgamos importantes e que merecem ser destacados.

A HISTÓRIA EM OSWALD

A poesia de Oswald de Andrade, notadamente seu texto mais citado, isto é, Poesia pau-brasil (1925), foi elaborada a partir de noções de bricolagem e de fragmentos; a linguagem, além de irônica, assume um caráter extremamente sintético e, por conseqüência, metafórico. A estratificação, ou seja, uma proposta que vai na linha do primeiro surrealismo de Bréton, permite que se percorra um espaço temporal bastante amplo, quebrando a estrutura linear e contínua de tempo. Dessa forma, os espaços intersticiais que o texto não explicita, ou que não tematiza nos poemas, ficam a cargo do leitor que deverá complementá-los com suas próprias informações. Na tentativa de "fundar" uma literatura mais nacional, o poeta modernista se propôs, com Poesia Pau-brasil , à recriação da História do país (1).

Ocorre que este procedimento, ou melhor dizendo, esta estruturação composicional não se restringe apenas a sua poesia. Da mesma forma que na Poesia pau-brasil , a leitura do Manifesto também solicita do leitor que este percorra um amplo espaço de tempo. Este arco temporal circunscreve a noção de Brasil, isto é, delimita e, de certa maneira, redefine as referências a personagens, à História e a entidades institucionais, abarcando uma existência "extra-oficial" que vai, linearmente falando, desde o banquete antropofágico do Bispo Sardinha, em 1556, até a contemporaneidade do autor, em 1928, passando por episódios reveladores da História do país e de seus costumes mais arraigados.

Entretanto, como a antecipar algumas noções relativas ao tempo nas narrações historiográficas deste fim de século, também mencionadas como romances metaficcionais e historiográficos típicos do que se convencionou chamar pós-modernidade, Oswald compõe seu Manifesto a partir de flashes, os quais, no decurso da sua escrita, não se alinham em uma seqüencial cronologia de eventos. Faz, portanto, uma outra apreensão dos acontecimentos históricos, passando pelos diversos perfis do Brasil. Assim, ele transita livremente pela variedade étnica, pela culinária diversificada, pelas religiões autóctones e pelas importadas da Europa, pela sexualidade latente dos trópicos e pela conseqüente e imediata repressão ocidental sobre a vida sexual. É destas porções, destes perfis variados que Oswald relê a História do Brasil.

O resultado deste procedimento de "narração" torna-se interessante na medida em que a sua antropofagia é uma leitura às avessas da formação histórica do Brasil, já que tudo começa com um banquete antropofágico nos idos de 1556. Esta leitura invertida é elaborada por Oswald através de um processo de bricolagem bem ao gosto e à moda dos primeiros surrealistas e modernistas brasileiros. Seu manifesto não se pretendia como uma "narrativa" límpida e objetiva, na qual a concisão fosse prioridade, mas sim como uma escrita confusa, sem nexos entre suas partes e que só se atingisse a apreensão de uma certa unidade depois de todo o texto lido. Assim, o leitor vê desfilar episódios importantíssimos na História do Brasil, mas nem sempre mencionados pela História Oficial.

Por meio de elipses e de construções metafóricas vertiginosamente enxutas, comparecem ao texto oswaldiano várias personalidades e acontecimentos institucionalizados pela História: o padre Antônio Vieira surge num viés não-usual, ou seja, ele é vinculado à política açucareira do período colonial como um dos mentores deste processo intenso de usura; a ideologia do indianismo romântico de José de Alencar, de Gonçalves Dias e de Antônio Carlos Gomes, que fez história e fundou o sentido de nacionalidade, é referenciada na sua negatividade, isto é, pelo enérgico processo de aculturação do índio em que este perdeu seus referenciais mais imediatos, tornando-se, assim, um mero fantoche na brasilidade; as questões político-econômicas do reinado português de Dom João VI e de seus problemas com a vinda da corte para o Brasil são trazidos à tona na pele da personagem Visconde de Cairu com sua política liberal de abertura dos portos às nações amigas de Portugal; à proclamação da Independência do Brasil é creditada uma sutil ironia no episódio em que o rei intima seu filho primogênito a assumir a continuidade do reinado de Portugal, tomando a iniciativa da independência oficializada; etc.

Podemos propor, assim, que o texto de Oswald se faz por um processo de apreensão bachelardiana sobre o tempo. Ou seja, o instante é privilegiado na sua momentaneidade, em detrimento de uma ordenação cronológica e lenta dos eventos no decurso do tempo. A visão global deste imenso arco temporal acerca da História do Brasil se mostra, por isso, bastante confusa e em primeira instância não se apercebe tal procedimento.

Seria o caso de salientarmos, entretanto, que apesar da intratextualidade técnico-composicional, mencionada anteriormente neste breve comentário, a Poesia pau-brasil , talvez por ser um pouco anterior ao Manifesto , deixa entrever mais facilmente, através das partes de que se compõe, uma certa linha seqüencial de acontecimentos que marcam a cronologia histórica do país. Os capítulos, ou mais especificamente, os poemas de que se compõe a obra, formam blocos significativos, os quais tematizam uma determinada época do país. Assim se dá, por exemplo, com a leitura invertida é elaborada por Oswald através de um processo de bricolagem bem ao gosto e à moda dos primeiros surrealistas e modernistas brasileiros. Seu manifesto não se pretendia como uma "narrativa" límpida e objetiva, na qual a concisão fosse prioridade, mas sim como uma escrita confusa, sem nexos entre suas partes e que só se atingisse a apreensão de uma certa unidade depois de todo o texto lido. Assim, o leitor vê desfilar episódios importantíssimos na História do Brasil, mas nem sempre mencionados pela História Oficial.

Por meio de elipses e de construções metafóricas vertiginosamente enxutas, comparecem ao texto oswaldiano várias personalidades e acontecimentos institucionalizados pela História: o padre Antônio Vieira surge num viés não-usual, ou seja, ele é vinculado à política açucareira do período colonial como um dos mentores deste processo intenso de usura; a ideologia do indianismo romântico de José de Alencar, de Gonçalves Dias e de Antônio Carlos Gomes, que fez história e fundou o sentido de nacionalidade, é referenciada na sua negatividade, isto é, pelo enérgico processo de aculturação do índio em que este perdeu seus referenciais mais imediatos, tornando-se, assim, um mero fantoche na brasilidade; as questões político-econômicas do reinado português de Dom João VI e de seus problemas com a vinda da corte para o Brasil são trazidos à tona na pele da personagem Visconde de Cairu com sua política liberal de abertura dos portos às nações amigas de Portugal; à proclamação da Independência do Brasil é creditada uma sutil ironia no episódio em que o rei intima seu filho primogênito a assumir a continuidade do reinado de Portugal, tomando a iniciativa da independência oficializada; etc.

Podemos propor, assim, que o texto de Oswald se faz por um processo de apreensão bachelardiana sobre o tempo. Ou seja, o instante é privilegiado na sua momentaneidade, em detrimento de uma ordenação cronológica e lenta dos eventos no decurso do tempo. A visão global deste imenso arco temporal acerca da História do Brasil se mostra, por isso, bastante confusa e em primeira instância não se apercebe tal procedimento.

Seria o caso de salientarmos, entretanto, que apesar da intratextualidade técnico-composicional, mencionada anteriormente neste breve comentário, a Poesia pau-brasil , talvez por ser um pouco anterior ao Manifesto , deixa entrever mais facilmente, através das partes de que se compõe, uma certa linha seqüencial de acontecimentos que marcam a cronologia histórica do país. Os capítulos, ou mais especificamente, os poemas de que se compõe a obra, formam blocos significativos, os quais tematizam uma determinada época do país. Assim se dá, por exemplo, com a chamada "literatura de informação", ou o "descobrimento", onde comparecem apropriações do texto de Pero Vaz de Caminha, de Gândavo, entre outros; já na parte intitulada "Lóide brasileiro", o poeta faz seus poemas orbitarem assuntos como a modernização da cidade de São Paulo.

Assim, Oswald acaba perfazendo toda a historiografia brasileira, ainda que restem imensos blocos temporais sem referências poemáticas. Naturalmente, é bom relembrarmos, este processo de composição aponta para a incompletude inerente ao discurso sobre e da História, ou para a impossibilidade de se totalizar uma visão unitária e unívoca sobre a História de um país.

O Manifesto tira daí o seu proveito para compor sua "palavra de ordem". O ato antropofágico, como pregação oswaldiana, está em clara referência ao ato de tomar consciência do processo histórico de formação da nação brasileira. A idéia, bastante simples, apesar da construção discursiva vertiginosa, é a de que a crítica bem humorada da História propicia a dessacralização dos símbolos da sociedade capitalista européia que nos formou.

Neste viés, a História, como intrinsecamente brasileira, que Oswald gostaria de propor para o adiante no tempo, é aquela em que o patriarcado já não teria mais lugar. O banquete antropofágico, utopicamente a realizar-se pela nação brasileira, chamada de Matriarcado de Pindorama, deveria passar pela devoração dos mitos do mundo patriarcal, como, por exemplo, o fundador da cidade de São Paulo, isto é, Piratininga, João Ramalho (conhecido por sua austera disciplina imposta aos índios que comandava).

Neste matriarcado primitivo prevaleceria o direito natural e a terra não suportaria o sentido de posse exclusiva; o Estado não seria dividido em classes, a liberdade atingiria também o âmbito da vida sexual e a cultura indígena seria elevada a sua condição primeva, isto é, dessacralizado o mito do bom selvagem rousseauniano, o índio se mostraria integralmente. Esta seria a Revolução Caraíba que o Manifesto menciona como palavra-de-ordem: Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa . Como fica alijada do processo histórico oficial, e que foi recontado pelo viés da ironia e do humor compondo o texto, ela encerra-se numa utopia eufórica bem ao gosto da época em que Oswald redige seu Manifesto antropófago .

A LINGUAGEM ECONÔMICA DE OSWALD

Parente próximo dos prólogos e dos prefácios, os manifestos parecem seguir o mesmo estilo. Assim se deu, por exemplo, com o Romantismo brasileiro através do poeta Gonçalves de Magalhães, grande idealizador e propagador das idéias românticas no Brasil, mas que não chegou a realizar técnico-formalmente nada de valor estético-literário. Entretanto, como os prefácios, os prólogos e seus assemelhados, os manifestos são textos que propõem muitas coisas sem que os seus autores as tenham efetivamente realizado. Curiosamente, o próprio Oswald dirá, em artigo posterior ao Manifesto , que exemplos de antropofagia literária são Macunaíma , de Mário de Andrade, e Cobra Norato , de Raul Bopp. Exclui-se da lista seleta dos escritores antropófagos, portanto.

Não obstante sua opinião, cabe ressaltarmos que a técnica de composição do Manifesto é, basicamente, realizada através de aforismos, numa aproximação bastante notória com o seu fazer poético. Ou seja, uma linguagem despida de recursos grandiloqüentes e retóricos, em que o texto se oferece aparentemente sem resistência. Trata-se, na verdade, de frases lapidares em que o humor, aliado a uma certa despretensão intelectualizante, é nota preponderante.

De outro lado, estes aforismos contêm significações aparentemente desconexas em relação ao todo do texto. Tal impressão se deve ao fato de que eles são fragmentos que se somam, ou que se justapõem uns aos outros com fins de fornecer uma visão mais abrangente, ainda que inevitavelmente incompleta. Porém, o que se lê, de fato, são alguns princípios virtuais do que seria a antropofagia de Oswald de Andrade.

Ora, este procedimento parece ser a base sobre a qual Oswald constrói seu Manifesto . Ou seja, em primeira instância, não há uma formulação teorética ou algum princípio lógico explícito que conduza a escrita. O poeta modernista mistura, intencionalmente, no mesmo parágrafo, idéias díspares. Em outras ocasiões, postula a insistência: Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros . Há, também, afirmações que pressupõem uma construção frasal negativa, cuja conseqüência no plano das responsabilidades é estritamente nula: Só não há determinismo, onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

A ANTROPOFAGIA DE OSWALD

O riso e a blague, tão característicos de sua personalidade e de sua obra ficcional, são os vetores importantíssimos sem os quais não se pode entender o Manifesto . Nesse caminho, a antropofagia é entendida como procedimento cultural viável que implica no ato conscientizador da brasilidade. Nesta manifestação ritualístico-cultural interessante corroboram o riso e a ironia mordaz como instrumentos do ato canibalístico de devoração do estrangeiro.

O ato canibalístico oswaldiano está em sintonia e semelhança com aquele praticado pelos primeiros índios encontrados pelas expedições ultramarinas portuguesas, espanholas, francesas e holandesas, as quais pretendiam "colonizar" e catequizar as novas terras americanas. Estes índios, na grande maioria caetés, tupinambás e tupiniquins, devoravam as presas humanas, na crença de que assim incorporariam os atributos positivos das vítimas sacrificiais e, conseqüentemente, excretariam o que não teria serventia ou valor.

Eis a relação intrínseca entre a antropofagia oswaldiana que se inspira na antropofagia indígena. Para estes últimos, tratava-se do ato de degustação propriamente dito que implicava, naturalmente, na desconstrução daquele corpo imolado. Para Oswald, o riso, a crítica, o sarcasmo e a mordacidade operariam da mesma forma, isto é, desconstruindo todo um corpo (que também admite o plural) socialmente imposto e que não respondia às necessidades mais essenciais da nação.

Partindo de uma paródia sobre a dúvida e a angústia hamletianas, Oswald tensiona dialeticamente a ser brasileiro: tupy or not tupy. A noção do trágico shakespeariano cede lugar à ironia e ao humor, já que tudo é passível de se tornar risível, vale dizer, comível. Ou seja, a alegria é a prova dos nove. A escolha pelo tupy em detrimento do not tupy norteia a proposta oswaldiana. Esse é o objetivo essencial da sua antropofagia: a busca de uma brasilidade que possa dar conta de nossa multiplicidade identitária. Portanto, seu texto se propõe como caminho possível a que se vá ao encontro do "ser brasileiro" e neste sentido revela as incoerências e absurdos que nos fundaram.

Por outro lado, sabedores de que a hibridez nos amalgamou nisto que somos, a antropofagia também é proposta no sentido de aniquilar o complexo binário de exclusão que sempre nos serviu de base para o pensamento crítico, principalmente a partir do Romantismo. Por exemplo, em Iracema , de José de Alencar, a índia que dá nome à obra precisa morrer para que o elemento colonizador, forte, masculino e europeu supere as vicissitudes encontradas no Novo Mundo. O filho de Iracema e Martim, o português desbravador a quem ela se liga por força de um amor desmesurado, é sintomaticamente chamado de Moacir, literalmente filho do sofrimento.

Este sujeito híbrido traz em si as marcas já resolvidas deste conflito de civilizações: ele é criado pelo pai, já que a mãe morre, e na Europa, portanto culturalmente um branco ocidental. Neste caso, a oposição de mundos se resolve pelo aniquilamento do outro. Vence o mais forte, vale dizer, o europeu. Este exemplo é econômica e cifradamente citado por Oswald nas referências que faz à Alencar, à Iracema, ao genro de D. Antônio de Mariz, este último personagem importante de uma outra obra alencariana, O guarani , cujo processo conflitivo de civilizações diferentes é resolvido da mesma forma.

Em outras palavras, o que o texto de Oswald de Andrade permite que se leia é justamente o ato antropófago como instrumento desencadeador da consciência do diferente. A sua "metáfora-chave", que aponta para uma alegoria, é a devoração antropofágica que pressupõe, através de uma outra lógica, a incorporação dos atributos positivos do outro e não mais a submissão de um pelo outro como foi no Romantismo. Como uma amálgama que se forma a partir de elementos diversos, a antropofagia conduz a uma espécie de composição, cuja essência é, paradoxalmente, a exteriorização da diferença que a forma: A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura-ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu , ou ainda: Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem .

Este é o procedimento desejado; mais que isso: é a exortação do Manifesto antropófago . A literatura, como manifestação cultural de um povo, deve realizar-se através desta conscientização. A América Latina, em especial, tem sua formação marcada pela tensão quase nunca pacífica entre duas civilizações diferentes. A tematização deste assunto pela Literatura tem sido freqüente não apenas como produto da contemporaneidade. Obras como O Uraguay , de José Basílio da Gama, de 1769, tratam desta relação binária de exclusão em que um se submete ao outro. O mesmo pode ser creditado ao texto capital de Euclides da Cunha, Os sertões , de 1902, sem apontar, naturalmente, os romances histórico-indianistas do romantismo.

Ocorre que o Modernismo Brasileiro, através deste, que é um de seus textos capitais, proclama um novo entendimento para estas relações binariamente tensionadas. Apesar de todo aparato agressivo aparente no Manifesto , Oswald de Andrade aponta outro caminho mais pertinente e mais salutar. A novidade e o inusitado de suas posições causaram profunda estranheza na época e ainda hoje provocam dissonâncias.

Assumir a heterogeneidade, ou seja, uma cultura híbrida, e dela orgulhar-se, nos idos da década de 20, é, sem dúvida, tomar uma postura crítica frente a todo um panorama cultural proveniente da Europa, que era o centro de irradiação da "cultura civilizada". Esta postura significava um enfrentamento irremediável de um corpo social que precisava (isto Oswald viu bem) se tornar vítima sacrificial, para ser devida e antropofagicamente devorada.

Por fim, gostaríamos de salientar que o Manifesto antropófago propõe e realiza, na medida em que sua escrita é, ela mesma, resultado desta postura antropofágica.

BIBLIOGRAFIA

1 - ANDRADE, Oswald de. Manifesto antropófago. In.: SCHWARTZ, Jorge. Vanguardas latino-americanas : polêmicas, manifestos e textos críticos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Iluminuras: FAPESP, 1995.

2 - __________________________________________. In.: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro : apresentação crítica dos principais manifestos vanguardistas. Petrópolis: Vozes, 1976.

3 - BUENO, Eduardo. A viagem do descobrimento . Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

4 - CAMPOS, Haroldo de. Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira. In.: Metalinguagem e outras metas . São Paulo: Perspectiva, 1992.

5 - CANDIDO, Antonio. Vários escritos . São Paulo: Duas Cidades, 1970.

6 - HELENA, Lúcia. Totens e tabus da modernidade brasileira : símbolo e alegoria na obra de Oswald de Andrade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1985.

7 - _____________. Fábulas da identidade e história(s) do Modernismo. In.: Anais do II Seminário Internacional de História da Literatura. Porto Alegre: PUC, volume 4, nº 2, novembro de 1998.

8 - NUNES, Benedito. Crivo de papel. São Paulo: Ática, 1998.


(1) A partir da Semana de Arte Moderna, uma verdadeira festa dadaísta, a poesia brasileira passou a se preocupar em redefinir os critérios de nacionalidade; dessa forma, alguns poetas se dedicaram à reescrita da História do Brasil, como o fez Oswald de Andrade em Poesia pau-brasil. Outro exemplo interessante desta tentativa de reescritura da história é o poeta Murilo Mendes que, em 1932, publicou o livro História do Brasil.