O Processo de Invenção da América

Edmund O'Gorman

Somente o que se idealiza é o que se vê; mas o que se idealiza é o que se inventa.

Martim Heidegger: Aus der Erfahrung des Denkens, 1954

I

No sistema do universo e na imagem do mundo que acabamos de esboçar, não existe nenhuma entidade que tenha o ser de América, em nada dotada desse particular sentido ou significação Real, verdadeira e literalmente a América, como tal, não existe, apesar da existência da massa de terras não submersas que, no decorrer do tempo, acabará por lhe atribuir esse sentido, esse significado. Colombo, pois, vive e atua no âmbito de um mundo em que a América, imprevista e imprevisível, era, em toda caso, mera possibilidade futura, mas da qual, nem ele nem ninguém tinha idéia, nem poderia tê-la. O projeto que Colombo submeteu aos reis da Espanha não se refere, pois, à América, tampouco às suas quatro famosas viagens, como veremos. Mas se é assim, não vamos incorrer, agora que estamos a ponto de nos lançar com Colombo em sua grande aventura, no equívoco de supor, como é habitual, que ainda que ignorasse, "em realidade" ele cruzou o Oceano em busca da América e que "em realidade" chegou a suas praias, onde tanto batalhou e sofreu. As viagens de Colombo não foram, nem poderiam ser, "viagens à América" (1) porque a interpretação do passado não tem, nem pode ter, como as leis justas, efeitos retroativos. Afirmar o contrário,proceder de outro modo, é despojar a história da luz com que ilumina seu próprio devir e privar as façanhas da sua profunda dramaticidade humana e de sua não menos profunda verdade pessoal. Diametralmente diferente, pois, da atitude que adotam todos os historiadores que partem do princípio de uma América à vista, já plenamen- te feita, plenamente constituída, va- mos partir de um vazio, de uma Amé- rica ainda não existente. Compene- trados desta idéia e do sentimento de mistério que acompanha o inicio de toda aventura verdadeiramente origi- nal e criadora, passemos a examinar, em primeiro lugar, o projeto de Colombo.

II

O projeto de Colombo é de uma simplicidade dórica: pretendia atraves- sar o Oceano na direção do ocidente para, a partir da Espanha, alcançar os litorais extremos orientais da Ilha da Terra e unir, dessa forma, a Europa à Ásia (2). Como é óbvio e já exposto, este acontecimento nada teria de novo e sabemos em que noções estava fundamentada a possibilidade de realização de semelhante viagem. Convém recordá-las brevemente.

A forma esférica que, de acordo com a física de Aristóteles, compreendia o conjunto das massas de água e de terra, é a premissa fundamental: tratando-se de um globo, um viajante poderia, em principio, chegar ao oriente do orbis terrarum navegando para o ocidente. O único problema era, pois, saber se a viagem seria realizável, em razão dos meios com os quais se contavam. Colombo convenceu-se pela afirmativa, apro- veitando a indeterminação que havia sobre o tamanho do globo terrestre e da dimensão da Ilha da Terra. Assim, apoiando-se no dilema que havia sobre esses dois fatos, acabou por se convencer de que o globo era muito menor do que habitualmente se aceitava e de que o orbis terrarum era muito maior do que se pensava. A conseqüência dessas duas suposições é óbvia: quanto maior fosse a dimensão da Ilha da Terra3 e menor a circunferência do globo, mais curto seria o espaço oceânico que se teria a percorrer.

Sabemos que, em sentido restrito, nenhuma dessas suposições constituíam disparates científicos. A verdade, no entanto, é que Colombo exagerou tanto na sua avaliação a respeito da pequenez do globo, no seu afã de se convencer e de convencer aos outros, que seus argumentos foram mais prejudiciais do que favoráveis ao seu intento. Para o homem bem informado da época, a única coisa a merecer verdadeira consideração era a possível proximidade das costas atlânticas da Europa e da Ásia mas, mesmo assim, o projeto parecia ilógico pelo muito que obrigava a alongar a extensão da Ilha da Terra, para torná-lo plausível. A opção dos portugueses em favor da rota oriental não obedecia, pois, a um mero capricho e seu único grande risco consistia em que as costas da África não terminavam, como se supunha, acima do Equador (4).

Esta situação explica, por si só, a resistência que Colombo encontrou no patrocínio da empresa que propunha. Não é muito difícil, sem dúvida, compreender os motivos que levaram os reis católicos a decidir apoiá-la. Em primeiro lugar, a rivalidade com Portugal, acentuada pelo achado do Cabo da Boa Esperança, permitiu ao projeto de Colombo um apoio inesperado. Parece óbvio que Fernando e Isabel acederam aos insistentes pedidos de Colombo, com a esperança do jogador que, confiando num extraordinário golpe de sorte, decide aceitar um convite arriscado. Era muito pouco o que se poderia perder e muitíssimo o que se poderia ganhar. Isso explica, além do mais, que a Coroa, já decidida a tentar fortuna, aceitara as exorbitantes pretensões de remuneração de Colombo.

Em segundo lugar, a concordância em aceitar o patrocínio da empresa foi estimulada pela possi- bilidade de se obter para a Espanha alguma ou algumas ilhas que a carto- grafia medieval situava no Atlântico e que nada tinham a ver com o suposto arquipélago próximo das costas da Ásia (5). Tal possibilidade parece expli- car, pelo menos parcialmente, o moti- vo de as capitulações assinadas por Colombo (Villa de Santa Fé de Granada, 17 de abril de 1492) apre- sentarem a empresa como urna mera exploração oceânica que, certamente, não teria porque excluir o objetivo asiático (6). Nessa particularidade do célebre e discutido documento funda- menta-se, a nosso ver, um motivo a mais que reforça a decisão dos reis da Espanha, que não se tem dado a atenção merecida, a saber: o desejo e a oportunidade de realizar um ato de soberania nas águas do Oceano, coisa nessa época totalmente inusitada. De fato, o verdadeiramente extraordinário das capitulações não consiste no fato de nelas não aparecer, de modo expresso, a finalidade asiática da viagem, mas de aparecer de maneira explícita uma declaração do domínio espanhol sobre o Oceano, pretensão extravagante pelos motivos que indicaremos oportunamente (7).

Todas essas considerações não estão animadas pelo desejo de tomar partido numa das mais inflamadas polêmicas da historiografia colombiana, que em nada nos afeta8. Faziam falta, sim, para descrever a situação inicial, porque ao indicar o contraste entre a confiante atitude de Colombo e a precavida posição da Coroa, já se faz patente a discrepância que desen- cadeará o desenvolvimento futuro dos acontecimentos. A situação deve ser vista mais ou menos assim: ali está, pleno de possibilidades ignoradas, o projeto da empresa como urna seta no arco vergado. Dois espectadores cheios de interesse contemplam o acontecimento de pontos de vista parcialmente coincidentes e parcial- mente diferentes. Quando se fizer o disparo, será desatado o nó de pos- sibilidades e, necessariamente, os dois espectadores compreenderão seus resultados de modos ligeiramente diferentes. Trava-se o diálogo e, pouco a pouco, entre coincidências e dissi- dências, ilusões e desenganos, irá sendo perfilada uma nova e surpreendente versão dos acontecimentos. Agora, Colombo tem a palavra.

III

Na multissecular e alucinante história das viagens que realizou o homem sob impulsos e pressões as mais diversas, a que empreendeu Colombo em 1492 brilha com um esplendor particular. Não apenas admiraram a ousadia, a imensa habilidade e a fibra do célebre navegante, como também o ines- perado desenlace acrescentou tanto brilho ao legítimo assombro, que a façanha converteu-se no mais espe- tacular dos acontecimentos históricos. Um belo dia, assim se costuma relatar o acontecimento, por obra de inex- plicada e inexplicável premonição profética, de magia, ou de milagre, ou do que quer que seja, o rival de Ulisses na fama, o príncipe dos navegantes e descobridor por antono- másia, revelou ao mundo atônito a existência de um imenso e impre- visível continente chamado América, mas sobre o qual admite-se que nem Colombo nem ninguém sabia o que era. Provavelmente é uma desgraça mas, na história, as coisas não aconte- cem dessa maneira, de sorte que, por espantoso que pareça, o velho e manuseado conto da primeira viagem de Colombo não foi relatado ainda como deveria ser, em que pese a avalanche bibliográfica que o sufoca. Fica para outra ocasião tentar fortuna a esse respeito, porque a economia que temos nos imposto obriga somente a considerá-lo no delinea- mento de seu significado histórico e, para isso, nos limitaremos a examinar o conceito formulado por Colombo do seu achado e a atitude que observou durante toda a exploração, isto é, vamos tratar de compreender o sentido que o próprio Colombo atribuiu ao acontecimento e não o sentido que posteriormente houveram por bem atribuir-lhe.

Não há necessidade de se preocupar com citações documentais porque ninguém ignora o que ocorreu: quando Colombo avistou terra, na noite entre os dias 11 e 12 de outubro de 1492, teve a certeza de haver chegado à Ásia, ou mais precisamente dizendo, aos litorais do extremo oriente da Ilha da Terra. Tratava-se então, certamente, de apenas uma ilha pequenina, mas uma ilha, imagina, do farto arquipélago junto às costas do orbis terrarum, sobre o qual havia escrito Marco Polo, ilha à qual vinham, segundo se dizia, os servidores do Grande Kan, imperador da China, para adquirir escravos e, certamente, vizinha da celebérrima Cipango (Japão), rica em ouro e pedras preciosas. Colombo se propôs localizar esta última no dia seguinte ao da sua chegada (9). Em suma, sem necessidadede mais provas do que a de haver encontrado a ilha onde a encontrou e, o que é mais importante, com a circunstância de estar habitada, Colombo acreditou ter chegado à Ásia.

Mas o que é verdadeiramente extraordinário para nós não é que Colombo tenha se convencido de que estava nas proximidades da Ásia quando, a bordo da nau capitânia, contemplou as esmeraldinas margens daquela primeira ilha que lhe entregou o Oceano, mas sim a circunstância de ter mantido essa crença durante toda a exploração, apesar de não ter comprovado nada do que esperava, isto é, que comprovasse sua crença de maneira indubitável. A esse respeito também não é necessário juntar provas textuais. Já se sabe: em tudo e em todas as partes, Colombo via a Ásia, as remotas regiões da Ilha da Terra, que uma tradição multissecular vinha pintando em tão belas e alucinantes cores e que a cobiça do navegante acumulava de riquezas nunca sonhadas de ouro, pedras preciosas, especiarias e outros produtos naturais do mais alto preço. A rudeza e a nudez dos povoadores naturais, a absoluta ausência de cidades e de palácios que deveria ter encontrado e que inutilmente procurou, a circunstância de que o ouro só brilhava no rumor das falsas notícias que lhe davam os indígenas e o fracasso repetido na tentativa de localizar, primeiro Cipango e depois o Grande Kan, em nada abalaram sua fé: havia chegado à Ásia, estava na Ásia e da Ásia voltava e desta convicção nada nem ninguém o fará retroceder até o dia de sua morte.

Eis aqui, pois, a situação. Colombo não apenas acreditou que havia chegado ao outro extremo da Ilha da Terra, quando deu com a primeira terra, mas também tudo quanto verificou durante a exploração foi interpretado por ele como prova empírica dessa crença. Para um homem de outra formação mental, a reiterada ausência dos indícios previs- tos em suas especulações deveria, pelo menos, ter semeado a dúvida. Em Colombo, observa-se justamente o contrário: nada o abala na sua fé. Do desengano, consideremos por acaso, ao não encontrar opulenta cidade que estaria, segundo ele, na virada de um promontório avistado ao longe, brota não a desilusão, mas a esperança renovada de encontrá-la atrás do próximo cabo e quando se torna insustentável mantê-la, acorre ágil e consoladora em sua mente urna expli- cação qualquer, um pretexto que deixa a salvo sua crença. O favorável e o adverso, o branco e o negro, tudo é a mesma coisa; tudo é alimento, nada é veneno, pois, dócil ao desejo, a realidade se transfigura para que brilhe suprema a verdade acreditada. Bem o descreve Bartolomeu de Las Casas quando, admirado diante da credulidade do almirante (já se pode assim chamar Colombo) qualifica de "cosa maravilhosa como lo que el hombre mucho desea y asienta una vez com firmeza en su imaginación, todo lo que oye y ve, ser en su favor a cada paso se le antoja" (10). Esse é exatamente o caso de Colombo; esta é a chave para penetrar o íntimo drama da sua vida; é esse o clima espiritual que regula toda sua atividade futura e que alimenta as esperanças de glória e de riqueza que concebeu naquele dia de outubro quando, ao perceber a pequena ilha a que chamou de San Salvador, convenceu-se para sempre de sua vitória.

IV

Agora que sabemos o que pensou Colombo sobre as terras que encontrou e a atitude que observou a esse respeito, devemos tratar de verificar que sentido tem uma coisa e outra ou, se se prefere, qual é o significado conceitual da viagem de 1492.

A resposta a esta pergunta não é difícil se submetermos os dados com que contamos a uma pequena análise.

Em primeiro lugar, vejamos que tipo de operação mental realizou Colombo. Pois bem, se pensou que havia chegado ao extremo oriental da Ilha da Terra, pelo único fato de ter encontrado terra habitada no lugar onde a encontrou e não por nenhum outro indício irrefutável, sua idéia não passa de mera suposição, ou para dizê-lo com um termo mais técnico, não passa de uma hipótese.

Mas, em segundo lugar, qual é o fundamento dessa suposição ou hipótese? Isto é, por que pôde Colombo supor que havia chegado ao extremo oriental da Ilha da Terra, pelo único fato de ter encontrado uma terra habitada no lugar onde a encontrou? A resposta é óbvia: Colombo pôde supor isso porque a imagem que previamente tinha sobre a dimensão da Ilha da Terra tornava possível essa suposição. Estamos, portanto, diante de uma hipótese, mas uma hipótese a priori, isto é, fundada não numa prova empírica, mas numa idéia prévia ou a priori.

Isto, entretanto, ainda não revela no fundo a atitude de Colombo porque, em terceiro lugar, a hipótese não só está fundamentada numa prova empírica, como Colombo não concede à experiência o benefício da dúvida. Com efeito, vimos que manteve sua idéia de ter chegado à Ásia apesar de que tudo quanto viu parecer contra- riá-la, pois não encontrou nada do que esperava ver. Esta circunstância reve- la, então, uma situação muito peculiar, mas não por isso menos comum, a saber: que a suposição de Colombo é de tal natureza que permanecia invulnerável aos dados da experiência. Perguntar-se-á como pôde ter sido assim. A explicação é bem mais clara. O que acontece é que a idéia prévia que serve de base à suposição, isto é, a idéia de Colombo sobre a excessiva dimensão da Ilha da Terra, se lhe impôs como uma verdade indiscutível. Assim, no lugar de estar disposto a modificar sua opinião de acordo com os dados revelados pela experiência, viu-se constrangido a ajustar esses dados de um modo favorável àquela opinião, mediante interpretações violentas ou arbitrárias, conforme fosse necessário.

A suposição do Almirante não foi apenas uma hipótese, não só uma hipótese a priori, mas uma hipótese incondicional ou necessária. Uma opinião que se sustenta por si mesma num centro que confunde toda dúvida proveniente da experiência. Temos que concluir, portanto, que Colombo postulou sua hipótese, não propria- mente como uma idéia, mas como uma crença e nisto consiste o verdadeiramente decisivo de sua atitude.

Não nos enganemos pensando que se trata de uma explicação desconexa, que nos obrigue a aceitar algo tão inusitado quanto extravagante. Todo aquele que tenha estado apaixonado passou por uma situação semelhante porque, como todos sabem, principalmente as mulheres, o amor implica uma crença cega em tudo o que diz e o que faz a pessoa por quem se sente amor. Daí o profundo sentido que tem o episódio relatado por Stendhal daquela mulher que, surpreendida por seu amante com outro homem em situação suma- mente comprometedora, se escusa, negando o fato. E como o amante não se deixa convencer em razão do que está presenciando, a mulher replica exaltada, dizendo em tom de agravo: "Bem se nota que já não me amas, pois preferes acreditar no que vês do que no que te digo." Diz Marcel Proust, numa passagem que parece ter escrito para ilustrar esta questão, que os fatos não penetram no mundo onde vivem nossas crenças e, posto que não lhes deram vida, não as podem matar; podem estar desmentindo-as constan- temente sem debilitá-las e uma ava- lanche de desgraças ou de enfermi- dades de que, uma após outras, padece uma família, não lhe faz duvidar da bondade de Deus, nem da perícia do médico.

Tal é, portanto, a atitude de Colombo: não só pensa que chegou ao extremo oriental do orbis terrarum, como também crê nisso. Agora, inteirados dessa circunstância, pergun- temos, novamente, pelo significado da viagem de 1492. Se recordarmos o que tantas vezes expusemos anteriormente, ou seja, que as coisas não são nada em si mesmas, senão que seu ser (não sua existência) depende do sentido que lhes conferimos (recorde-se o exemplo do Sol e da Lua nos casos dos sistemas geocêntrico e heliocêntrico, respectivamente), é claro que a atitude de Colombo significa ter dotado de um ser as regiões que encontrou. O ser que lhes comunica a crença de ser uma parte da Ilha da Terra. Mas se isto é assim, pode-se concluir que o significado histórico e ontológico da viagem de 1492 consiste em se ter atribuído às terras que encontrou Colombo o sentido de pertencerem ao orbis terrarum, assim dotando-as desse ser, mediante uma hipótese a priori e incondicional.

Fica estabelecido desse modo, e de acordo com as exigências mais estritas da interpretação histórica o fato inicial do processo, cujo desenvolvimento vamos reconstruir. Não incorramos no equívoco que tradicionalmente cometeram os historiadores de considerar esse fato como um erro só porque mais tarde, as mesmas terras permanecerão dotadas de um ser diferente. Ao contrário, aceitemos o fato tal como a história nos entrega e seja esse o nosso ponto de partida para ver de que maneira se vai passar de um ser a outro, uma vez que nisso consiste o que chamamos a invenção da América.

V

Admite-se sem dificuldade que o próximo passo consiste em explicar como foi recebida a crença de Colombo.

Se excluirmos a atitude conformista de alguns, unicamente porque na discordância se abriga um novo desenvolvimento, o exame dos testemunhos revela um certo ceticismo, tanto na reação oficial como na científica. A clareza aconselha a considerá-las em separado.

A atitude da Coroa está regulada por um interesse primordial: garantir de fato e de direito os benefícios que pudessem advir do achado de Colombo. Assim, em primeiro lugar, preocupou-se em equipar e enviar o mais rápido possível uma armada para organizara colônia, iniciar sua exploração e prosseguir as expedições de reconhecimento (11)." Estes objetivos de ordem prática se sobrepõem em interesse ao problema geográfico e científico. O que importava era que as terras encontradas fossem tão proveitosas como garantirão almiran te, a quem, neste ponto, se concedia pleno crédito.

Em segundo lugar, a Coroa preocupou-se com o mesmo empenho em obter da Santa Sé um título legal que amparasse os seus direitos. Aqui também a questão do ser das terras encontradas não era primordial: o importante era assegurar juridicamen- te o domínio sobre elas. Mas, como para a obtenção do título respectivo era forçoso definir o seu objeto, a chancelaria espanhola se viu obrigada a pronunciar-se e a expressar uma opinião oficial acerca do problema que aqui interessa.

À primeira vista não se percebe a dificuldade: o aconselhável, parece, seria apoiar a crença do almirante. De fato, isso fizeram os reis no primeiro impulso de entusiasmo, como se percebe pelos votos que se apressaram a lhe enviar ao seu regresso, reconhecendo nele seu almirante, governador e vice-rei das "ilhas que se descobriram nas Índias", isto é, na Ásia12. Logo se reparou no perigo de semelhante admissão: Colombo podia estar enganado e, nesse caso, um título legal amparando regiões asiáticas não protegeria direitos sobre as terras efetivamente encontradas. Era necessário, pois, arbitrar uma fórmula suficientemente ampla e indeterminada, que incluísse o maior número de possibilidades. E foi o que se fez.

Com efeito, as terras que Colombo havia encontrado foram oficialmente definidas, a instância e sugestão da Coroa, na ambígua fórmula empregada na bula Inter caetera de 3 de maio de 149313. Nesse documento, elas são designadas vagamente como "ilhas e terras firmes" situadas nas "partes ocidentais do Mar Oceano, até o Índico"14. Verifica-se que o espírito dessa fórmula era não excluir a possibilidade de que as terras referidas fossem asiáticas, mas para que fossem incluídas sem qualquer dúvida, faltava precisar o que deveria ser entendido pela expressão indefinida "partes ocidentais". A esta exigência respondem, primeiramente, a famosa linha alexandrina, mal chamada de repartição (15), depois, as negociações de Tordesilhas (16) e a célebre declaração contida na bula Dudum siquidem, em que expressamente se reconheceram para a Espanha direitos sobre terras insulares ou continentais na Ásia (17).

Numa palavra, por previsão política e por cautela jurídica, a Coroa acabou mostrando-se cética a respeito das afirmações de Colombo. Não que as recusasse como falsas; ao contrário, considerou-as como prováveis, pois era o que mais desejava, mas havia dúvida e nisto se fundamenta o escárnio em relação à atitude do almirante: já não se trata de uma crença.

VI

Vejamos, agora, qual foi a reação científica. O estudo dos documentos pertinentes mostra que, em termos gerais, os teóricos não deram crédito incondicional ao almirante18, como seria natural, se não nos esquecermos de que as premissas da sua crença eram discutíveis e que não apresentou suficientes provas empíricas em seu apoio. Não é que se negue a Colombo ter conseguido estabelecer contato com a parte do extremo oriente da Ilha da Terra e que, conseqüen- temente, tenham chegado a regiões asiáticas, mas sim que se coloque em dúvida semelhante fato, porque nada obrigava a aceitá-lo de uma maneira indiscutível. Foi Pedro Mártir quem melhor colocou a questão.

Desde a primeira vez que o humanista refere-se à viagem de Colombo, constata-se seu ceticismo no fato de que se abstém de toda a tentativa de identificar as terras achadas e que se contenta em dizer que o explorador havia regressado das "antípodas ocidentais", onde encontrou umas ilhas (19). Isso é tudo.

Pouco depois, Pedro Mártir fixa sua posição inicial: diz que a viagem de Colombo foi uma "feliz façanha", mas não porque admita que tenha conseguido alcançar, segundo quer o navegante, o outro extremo da Ilha da Terra, mas porque dessa maneira se começava a ter conhecimento dessa parte da Terra, compreendida entre o Quersoneso Áureo (hoje Península de Malaca) e a Espanha, que permaneceu oculta, "desde o princípio da Criação" e que, por esse motivo, chama o "novo hemisfério"20. O problema concreto a respeito do ser das terras que Colombo encontrou não parece, pois, inquietá-lo ainda.

Mais tarde, Pedro Mártir ratifica sua idéia a respeito da verdadeira importância da exploração e acrescenta que até a rivalidade entre Espanha e Portugal se enfraquece diante do supremo objetivo de chegar a conhecer a ignorada metade da Terra21. Nesta ocasião, porém, já se refere de maneira expressa à crença Colombo. Considera que é inaceitável, porque "a magnitude da esfera parece indicar o contrário", isto é, porque a seu juízo, a distância percorrida é insuficiente para haver alcançado o extremo oriente da Ilha da Terra; mas, apesar disso, não se atreve a negá-lo decididamente, pois "não faltam aqueles que opinam que o litoral Índico dista muito pouco das praias espanholas22". Pedro Mártir tem ciência, pois, do dilema que existe a respeito da dimensão do orbis terrarum e admite que Colombo pode estar certo.

Nas Décadas23, o humanista insiste na sua opinião, mas acrescenta, primeiro, que Aristóteles e Sêneca eram autoridades a favor da relativa vizinhança entre a Ásia e a Europa; segundo, que a presença de papagaios nas ilhas encontradas por Colombo é indício favorável à crença do explorador; terceiro, que em compensação, não era correta a sua idéia de que a Ilha Espanhola (hoje Haiti é São Domingos) era o Ofir mencionado na Bíblia, e, quarto, que as terras que Colombo encontrou bem podiam ser "as Antilhas e outras adjacentes", isto é, um arquipélago Atlântico que nada tinha a ver com as regiões asiáticas24.

Finalmente, como Pedro Mártir não podia deixar de se pronunciar sobre o problema do ser concreto das terras encontradas, apesar de considerá-lo de importância secundá-ria, a fórmula de "novo hemisfério", que havia antes empregado, mostrava-se insatisfatória, porque referia-se cinicamente a uma divisão geométrica da terra, sem alusão ao seu sentido geográfico e moral. Foi nesta conjuntura que Pedro Mártir cunhou a famosa expressão "novus orbis" como fórmula adequada para satisfazer a essa exigência no ambi- ente de dúvidas que então reinava a respeito25. De fato, ao insistir sobre o qualificativo de "novo", sustentou a idéia de que se tratava de algo de que não se tivera conhecimento antes; quanto à substituição da palavra "hemisfério" por "orbe", nisso funda- menta seu acerto, porque, ao mesmo tempo em que conseguiu manter dessa maneira a mesma significação genérica e, portanto, o sentido funda- mental que atribuía à empresa, não deixava de se referir, também, ao conteúdo do ignoto hemisfério como um "mundo" na sua acepção moral, mas sem avaliar previamente se as terras encontradas formavam parte de um orbe diferente do orbis terrarum ou se eram parte deste, como queria Colombo. Apesar da ambigüidade provocada pelo qualificativo "novo", que unicamente aludia ao desconhe- cimento que se tinha a respeito das terras achadas, bem como do hemis- fério ocidental, a fórmula constitui-se num acerto extraordinário, não surpre- ende, portanto, seu êxito histórico, embora essa circunstância não tenha deixado de provocar muitos equívocos26.

Em resumo, esta análise das idéias de Pedro Mártir mostra que, do ponto de vista científico, a crença de Colombo suscitou uma dúvida, não um repúdio, e nisto coincide com a reação política e jurídica dos círculos oficiais.

VII

Inteirados do ceticismo com que foi recebida a crença de Colombo, convém agora examinarmos o sentido que tem do ponto de vista da nossa reflexão.

Se consideramos, em primeiro lugar, que essa crítica não foi plena e cabalmente repudiada, foi por ter sido aceita como mera hipótese. Ora, é óbvio portanto, em segundo lugar, que se aceitaram também os fundamentos em que se apoiava, a saber: a imagem que previamente se tinha sobre o orbis terrarum como uma ilha, cuja extensão tornava possível essa hipótese. Da mesma maneira, pois, como no caso pessoal de Colombo, estamos na presença de uma hipótese com fundamento a priori. Em terceiro lugar, diferentemente de Colombo, esta hipótese não é aceita de um modo incondicional e imprescindível, porque a suposta excessiva dimensão da Ilha da Terra não se impõe como uma verdade indiscutível, mas sim- plesmente como uma possibilidade. Podemos concluir, pois, que a reação oficial e científica consistiu em postular a mesma hipótese de Colombo, não como uma crença invulnerável aos dados empíricos, mas simplesmente como uma idéia, cuja verdade era possível em certo grau de proba- bilidade, ou para dizer de outra ma- neira, como uma noção que pode ser modificada de acordo com a expe- riência e, portanto, condicional e sujeita à prova.

O contraste a respeito da atitude de Colombo é enorme. Exemplificando, é o mesmo que existe entre o homem apaixonado e seu amigo, a quem aquele fez o panegírico a respeito da fidelidade, elegância e beleza da mulher que é o objeto do seu amor. O amigo receberá os desmesurados elogios com a natural reserva de indiferença e imaginará que tudo quanto faça e diga essa mulher, será deturpado pelo seu admirador num sentido favorável aos interesses da sua paixão, por mais que ela, talvez, o esteja enganando ou, mesmo, apesar de que se enfeite e se vista com visível mau gosto. No entanto, como é possível que ocorra o contrário, pode bem acontecer que ela seja o que dela se diz e que reúna em si tantas qualidades, o amigo aceitará tudo quanto se lhe tenha dito, mas sob a condição de verificá-lo por sua conta própria. Formulará ao apaixonado desejos de conhecê-la ou, o que é o mesmo, à maneira de cortesia, exigirá a prova da sua crença.

Este é o diálogo inicial da nossa história. Desde logo os dois pontos de vista não entram em conflito aberto, porque a atitude da Coroa e dos teóricos admite para Colombo a possibilidade de acerto. Exige-se do almirante ouro e se lhe pede provas; ele, enclausurado no mágico círculo da sua crença invulnerável, não duvida da satisfação que dará às demandas dos incrédulos. Alegre, vitorioso, confiante e agraciado com favores e títulos, prepara a bela e poderosa frota e, qual um Moisés marinho, à conduzirá à Terra prometida.

Nosso próximo passo será examinar em que deve consistir concretamente a prova que se pede a Colombo e quais podem ser as conseqüências do êxito ou do fracasso que tenha a respeito, isto é, o que é que está em jogo, o que é que se arrisca neste desafio. Antes de dirigir a atenção a estas importantes questões, não será demais fazer notar que, sendo os dados que se podem encontrar em qualquer livro de história os mesmos sobre este assunto, a diferença entre o relato e o resultado não poderia ser maior. Colombo já regressou à Espanha e foram discutidos amplamente seu achado e suas opiniões. Está prestes a empreender sua Segunda travessia e, no entanto, ainda não se descobriu nenhuma América. Por quê? Mera e simplesmente porque a América ainda não existe.

VIII

Na Segunda Parte deste livro, descrevemos o cenário cultural em que se desenrolou o drama que estamos reconstruindo; estamos agora a assistir ao seu primeiro ato. O cenário nos apresenta uma imagem estática e finita de um universo que, criado perfeito, já está composto, mais tudo o que nele existe e de uma maneira inalterável. A imagem de um universo irredutível e singular, no qual o homem é hóspede estranho, inquilino de uma ilha que não deveria existir e onde, prisioneiro, vive na eterna condição de servo temeroso e agradecido. Mas eis que um homem cruzou o Oceano, façanha cujo sentido é, para a época, o de uma viagem pelo espaço cósmico. Afirma, é verdade, que apesar de desconhecidas, as terras que achou são apenas regiões extremas dessa mesma ilha que Deus, em sua bondade, benevolamente destinou como morada aos homens, vizinhos que se desconhecem, embora habitantes do mesmo cárcere. E assim deve ser. Mas se por acaso não fosse assim? Se, por ventura, essas terras pertencessem a outra ilha, a um desses "outros orbes" de que falavam os pagãos? Que serão, então, seus povoadores, esses filhos do Oceano, cuja origem não se pode vincular ao pai comum dos homens e que, em todo o caso, pelo seu isolamento, permaneceram à margem da Redenção? Esta é a angústia contida na dúvida que o achado suscitou, mas também a remota promessa de uma possível brecha, de uma escapatória da milenária prisão. Mas, em tal caso, seria preciso alterar as noções recebidas; conceber de outra maneira a estrutura do universo e a natureza da sua realidade; pensar de outro modo as relações com o Criador e despertar a idéia de que é outro o lugar do homem no cosmos, outro o papel que está chamando a desempenhar e não o de servo, que um rígido dogma ensinou-o a aceitar.

Assim, insinuamos a tremenda crise que, embora distante, já se delineia no horizonte, a da situação constrangedora provocada pela atitude de ceticismo com que foram recebidasas opiniões do almirante. Assim começamos a nos dar conta, não só da dificuldade de convencimento do contrário - e nisto se fundamenta a grande força da tese de Colombo e o motivo do seu apego, com tenacidade exemplar, a ela, até o dia de sua morte - mas também do verdadeiro e profundo sentido desta história da invenção da América, que estamos contando. Nela haveremos de ver, como se verá, o primeiro episódio da libertação do homem de seu antigo cárcere cósmico e de sua multissecular servidão ou impotência, ou se se prefere, a libertação de uma arcaica maneira de se conceber a si próprio, que já havia produzido os frutos que estava destinada a produzir. Não foi em vão, nem casualmente, que a América chegou ao cenário como a terra da liberdade e do futuro e o homem americano, como o novo Adão da cultura ocidental.

Mas não nos antecipemos além do necessário e, tendo em mente esta perspectiva que aponta para o fundo do que está em jogo na prova que se pede a Colombo, consideremos cuidadosamente, pela ordem, estas três questões: o que se deve provar, como e em quê pode consistir a prova.

1. Pede-se que Colombo prove sua crença, pois é ele quem a afirma, isto é, que prove, de alguma maneira, que as terras que achou pertencem ao extremo oriente do orbis terrarum.

2. Mas como pode provar essa circunstância? A resposta não oferece dúvida: deverá mostrar, de maneira inequívoca, que pela sua situação, pela sua natureza e pela sua configuração, as terras encontradas ajustam-se à idéia e à imagem que se tem a respeito da Ilha da Terra. Isto é, pede-se ao almirante que ajuste a sua crença aos dados empíricos e não que ajuste estes àquela. O pedido é justo, mas, bem visto, seria muito pedir ao homem que, segundo sabemos, não tinha condição espiritual de satisfazê- la. Equivale a pedir ao homem apaixonado a prova dos motivos que inspiram a sua paixão e que ele considera de si evidentes para todos e que, portanto, não só não requerem prova, como também não se podem provar diante de quem não os aceita de antemão. Para um homem em semelhante caso, a prova de que a sua amada é bela ou bondosa consiste em dizer que é bondosa ou bela, pois seu amor a converteu em norma suprema da bondade ou da beleza.

3. Por último, em que pode consistir a prova que seria suficiente para convencer os céticos? Não é difícil verificar que deverá reunir duas circunstâncias. Com efeito, o fato de que tenham aparecido terras no lugar onde apareceram, não basta por si só para provar que pertencem ao extremo oriente da Ilha da Terra, como pensa Colombo, porque isso foi, precisamente, o que despertou a dúvida. Será preciso, então, mostrar, em primeiro lugar, que não se trata meramente de um arquipélago, mas de uma extensa massa de terra, que corresponde ao litoral do orbis terrarum. Era, pois, necessário mostrar ou que os litorais reconheci- dos por Colombo correspondiam a essa exigência, conforme ele mesmo acreditava27, ou que ao poente das ilhas achadas e vizinha a elas se localizava essa extensa massa de terra.

O cumprimento desse requisito não seria, no entanto, suficiente porque, em segundo lugar, os litoraisda massa de terra teriam que mostrar algum traço que os identificasse com os da Ilha da Terra, ou mais concretamente dizendo, com os litorais da Ásia. Muito bem, do possível acúmulo de tais indícios, somente um, nessa época, era inequívoco, a saber: a existência da passagem marítima que Marco Polo empregou na sua viagem de regresso à Europa, isto é, o lugar onde terminava o extremo meridional das costas orientais da Ásia onde, portanto, juntavam suas águas os oceanos Atlântico e Índico. A passagem, em suma, que daria a um viajante que viesse da Europa pela rota do ocidente, o acesso à Índia. Não nos esqueçamos, para ter presente mais adiante, que a localização dessa passagem poderia oferecer uma alternativa, conforme se aceitasse uma das duas possibilidades que existiam sobre o assunto, de acordo com as teses da península única ou da península adicional28.

Em conclusão, e para que isto fique inteiramente claro, a prova requerida para sair da dúvida consistia em demonstrar, primeiro, a existência de uma massa considerável de terra nas vizinhanças das regiões encontradas em 1492 e, segundo, a localização da passagem marítima que permitisse chegar ao Oceano Índico. Se fossem demonstradas ambas as coisas, a afirmação de Colombo estaria convertida numa verdade empiricamente comprovada; caso contrário, já apontamos as terríveis conseqüências que disso poderiam resultar.

Esta constatação proporciona o esquema fundamental para compreender o significado das explorações que foram empreendidas imediatamente após a viagem de 1492. Passemos a estudar esses acontecimentos, mas sempre tratando de imaginar as expectativas que havia em torno dos seus resultados.

IX

Dentre essas explorações, o primeiro lugar corresponde, pela sua data à segunda viagem de Colombo, já que a frota partiu de Cádiz no dia 25 de setembro de 1493(29).

Do ponto de vista político e mercantil, a expedição resultou numa terrível desilusão: o almirante não pôde, como não poderia, cumprir aquilo que a sua exaltada imaginação havia prometido. Os indígenas não eram os dóceis vassalos que havia dito, pois, fosse a culpa de quem fosse, haviam assassinado em massa a guarnição cristã que o almirante tinha deixado em Navidad. Além disso, o tão cobiçado ouro não aparecia de nenhum lado. Por outra parte, as incursões punitivas e predatórias que assolaram o interior da ilha Espanhola serviram, entre outras coisas, para desiludir Colombo quanto à identificação da ilha com a famosa Cipango (Japão) (30). Tudo isto e outras adversidades foram motivo de um descontentamento geral que se traduziu de imediato em surda hostilidade contra o almirante e num crescente desprestígio da empresa.


As hipóteses da península única e da península adicional

Para nós, o verdadeiramente decisivo foi o resultado do reconhecimento do litoral sul da região que os naturais chamavam "Terra de Cuba" e que, desde a viagem anterior, Colombo suspeitou ser parte da terra firme da Ásia. O objetivo primordial da exploração era confirmar essa suspeita para sair da dúvida sobre ser ou não uma ilha (31). Depois de um penoso e longo percurso costeiro que revelou inúmeras singularidades da natureza e outras peculiaridades, que Colombo não tardou em interpretar como indícios comprobatórios da natureza asiática da terra, a frota, ao desviar-se para o sul, chegou a um lugar onde a costa alterava a sua direção para o poente. Igual ao homem que já está persuadido da verdade mas que, não obstaste, vê-se obrigado a comprovar, bastou a Colombo essa circunstância para convencer-se de que nesse ponto se iniciava a costa do litoral atlântico do Quersoneso Áureo (a Península de Malaca) e que, conseqüentemente, a frota havia percorrido a costa sul de Mangi, a província meridional da China. A seu critério, pois, estavam preenchidos os dois requisitos da prova que lhe era exigida. De fato, havia encontrado com a massa continental da Ilha da Terra e se, com certeza, não navegara pela passagem marítima que dava acesso ao Oceano Índico, localizara-a, em princípio, pois conseguira alcançar a costa da península em cujo extremo se encontrava a referida passagem.

Mas fazia falta algo mais do que apenas a sua convicção pessoal para calar aos incrédulos na Espanha e como nada do que podia demonstrar era suficiente para esse fim, Colombo teve a rara lembrança de propor um instrumento jurídico como testemunho probatório (32). Diante de escrivão público e de testemunhas, fez com que todos os tripulantes da armada declarassem, sob juramento e sob pena de terríveis castigos corporais e altas multas, que a costa que haviam explorado não podia ser a de uma ilha, pois era inconcebível que existisse uma tão grande; além disso, obrigou-os a subscrever a otimista ilusão de que "antes de muchas leguas, navegando por Ia dicha costa (isto é, a que Colombo acreditava ser a do Quersoneso Áureo), se hallaría tierra donde tratan gente política, y que saben el mondo". O desejo de regressar o quanto antes foi, sem dúvida, o motivo que levou todos a assinarem documento tão extraordinário, tanto mais que Colombo havia anunciado que tinha o projeto de continuar a viagem e circunavegar o globo, o que, dada a lamentável condição dos navios e a falta de alimentos, criou uma atmosfera de pavor entre todos (33).

O regresso foi penosíssimo. Após incontáveis perigos, a frota chegou a Jamaica, circunavegou a ilha, passando dali para a costa meridional da Espanhola. Ao chegar ao cabo mais oriental desta ilha, Colombo anunciou a sua intenção de cruzar a ilha de San Juan (Porto Rico), que reconhecera quando vinha da Espanha, com o desejo de recrutar escravos, mas foi impedido pelo que o padre Las Casas chama de "modorra pestilenta” (34). Verifique-se o que significa isso no jargão médico dos nossos dias. O certo é que o almirante se achou às portas da morte e assim o levaram à Villa de la Isabela, onde a frota ancorou no dia 29 de setembro de 1494. Ali o esperava a alegria e o apoio do seu irmão Bartolomeu, mas o aguardava também o desastre na colônia, a rebelião, a fome e a primeira reprimenda dos reis, que se manifestou de forma visível na pessoa de um certo Juan Aguado (chegou à Isabela em outubro de 1495), o comissionado que enviaram para fiscalizar a sua conduta.

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X

As promessas de Colombo revelaram-se uma falsa sedução. As esperanças de ouro, colhido como fruta madura reduziam-se ao futuro aleatório de umas minas que requeriam suor e privações. O clima suave e os ares perfumados e benignos cobraram em vidas de cristãos seu pestilento encanto. Furacões diabólicos semearam naufrágios. A sonhada concórdia que iria presidir a fundação e a vida da nova colônia traduziu-se em ódio, prevaricação e dissidência; os dóceis e inocentes povoadores naturais daquele fictício paraíso, supostos amigos dos cristãos e amantíssimos vassalos, mostraram sua natureza selvagem: gente preguiçosa e perversa, boa para assassinar se oferecia a ocasião; má para trabalhar e para recolher tributos. Adoradores ocultos de Satanás, ou ao menos dóceis instrumentos de seus terríveis desígnios, a beata imagem da idade do ouro rediviva transmutou-se, no conluio do desencanto, na idade de ferro, quando dominava a crescente convicção de que aqueles desnudos filhos do Oceano formavam parte do vasto império da barbárie do senhorio, confessado ou não, do príncipe das trevas, o inimigo do homem. Um profundo ceticismo assomava a empresa, que a muitos terá parecido louco e perigoso sonho que acarretaria a ruína da Espanha (35)

Era preciso cortar o mal e Colombo, com sua tenacidade característica e sustentado pela verdade da sua crença, lançou-se resoluto na ingrata tarefa (36).

É óbvio, no entanto, apesar de tantos rumores de maledicência corno desencadearam então, que era difícil, se não impossível, retroceder num assunto em que andava tão compro-metido o prestígio político e religioso da coroa da Espanha. Os reis, por outra parte, continuaram favorecendo o seu almirante (37), mas aprenderam que o caráter e a condição de estrangeiro de Colombo eram sementeiras de discórdia e que não era homem a quem se confiar questões de governo e de administração. Foram aceitos com rara tolerância o desastre e a frustração, mas não sem que a Coroa adotasse uma mudança de atitude de muitas conseqüências. De fato, lançadas por terra as primeiras delirantes expectativas, compreendeu-se que o regime de monopólio oficial estabelecido nas origens da viagem de 1492 para que a Espanha se beneficiasse dos supostos tesouros com que o céu lhe havia agraciado, era mais um ônus do que um beneficio, dadas as condições que a realidade das terras achadas impunha. A exploração e a colonização ficaram abertas, pois, àquele que melhor a postulasse e à cobiça de quem se sentisse tentado a fazer fortuna (38). Esta mudança acarretou conseqüências de enorme alcance ao imprimir sua marca na estrutura política e administrativa do império, cujos fundamentos se lançavam nesse momento, e provocou de imediato uma inusitada aceleração de desenvolvimento no processo que estamos examinando.

Quanto ao problema que nos interessa diretamente, não faltaram aqueles que, sem muita demonstração de juízo crítico, aceitaram como boa a "prova" trazida por Colombo a favor de sua crença inicial. Andrés Bernáldez ficou realmente convencido de que a Terra de Cuba fazia parte da Ásia, conforme queria o almirante, mas o certo é que, em termos gerais, esse exemplo não teve seguidores.

Miguel de Cuneo, amigo pessoal de Colombo e seu companheiro na viagem, mostra-se incrédulo. Ao final da sua animada descrição da exploração, dá-nos a informação de que, já de volta à Espanhola, o almirante discutia freqüentemente com um certo abade de Lucerna, homem sábio e rico, por não poder convencê-lo de que a Terra de Cuba era parte da Ásia. Cuneo acrescenta que ele e muitos outros pensavam da mesma maneira que aquele néscio abade (39). Desconhecem-se os prós e os contra dos argumentos, mas é óbvio que a base da "prova" apresentada por Colombo, isto é, a inusitada extensão da costa de Cuba, não foi aceita como indício suficientemente contrário à sua insularidade.

Pedro Mártir também não se deixou seduzir. Com sua habitual cautela, o humanista limitou-se a informar seus pares a respeito da viagem. Constata-se, porém, que ele se mostrou impressionado não tanto pela identificação com a Ásia mas pela segurança com que Colombo sustentava que a costa explorada pertencia a uma terra firme e não a mais uma ilha, como as outras que haviam sido encontradas (40). Pedro Mártir demonstra uma profunda consciência do verdadeiro problema em questão, pois verifica-se que ele distingue entre a possibilidade real e surpreendente de que existisse semelhante massa de terra nessas partes do Oceano e a conclusão de que, necessariamente, haveria de se tratar da Ilha da Terra. O assunto, entretanto, parece-lhe ainda demasiado duvidoso e toma o partido de se refugiar na hipótese que, evidentemente, era a mais segura: a de supor que todas aquelas terras, Cuba inclusive, eram insulares, se bem que já não insistisse na anterior sugestão de identificá-las com o arquipélago das Antilhas.

Pode-se concluir que essa segunda viagem de Colombo tem o sentido de ser uma primeira tentativa de trazer a prova que se requeria para demonstrar que se tinha conseguido estabelecer a conexão entre Europa e Ásia pela rota do ocidente, mas uma tentativa fracassada. Tem, além do mais, o interesse particular de mostrar que Colombo aceitava como certa a tese que temos chamado da península única como a verdadeira visão dos litorais atlânticos da Ásia. Tenhamos presente esta determinação decisiva para entender a sua terceira viagem e o problema que os seus resultados desencadearam.

XI

Quando, em 1496, Colombo regressou à Espanha, nada se sabia ainda de certo a respeito da existência de uma terra de massa comparável ao orbis terrarum em regiões vizinhas ao primeiro achado de 1492. No ano seguinte, aproveitando a nova atitude da Coroa, empreenderam-se várias explorações que resolveram a questão num sentido afirmativo. Soube-se que ao poente das ilhas encontradas pelo almirante jazia uma grande massa de terra. Este importantíssimo fato favorecia a crença de Colombo, pois preenchia o primeiro requisito exigido pela prova, de maneira que a hipótese de que se tratava do extremo oriente da Ilha da Terra não só parecia possível, como se pensava até então, mas era provável. Essas regiões habitadas por homens, que outra coisa podiam ser se não litorais desconhecidos, mas de existência sabida do orbis terrarum. Colombo continuava convencido de que a Terra de Cuba não era uma ilha adjacente a esses litorais, mas parte deles (41). Dentro do quadro geral do problema, no entanto, esta opinião cada vez mais solitária deixou de ter verdadeira importância, porque se tratava da modalidade de um mesmo e funda mental fato. Constata-se, então, que todo o peso da dúvida passa a gra- vitar, a seguir, em torno do segundo requisito da prova: a localização da- quela passagem marítima que daria acesso ao Oceano Índico e às riquezas das regiões que já estavam na iminência de caírem nas mãos dos portugueses (42). Assim independen- temente de se saber se Cuba era ou não o que Colombo supunha, decisivo era encontrar aquela passagem, a qual, de acordo com a imagem que ele e muitos outros tinham dos litorais da Ásia, deveria estar nas imediações da linha equatorial, pois, por essas latitudes terminava a península do Quersoneso Áureo (43). Este era, conse- qüentemente, o próximo passo exigido pela lógica da prova; isto foi, realmente, o que Colombo pretendeu fazer na sua viagem seguinte. Mas tudo se complicou enormemente, como veremos, pelo inesperado aparecimento de uma massa de terra austral que semeou o desconcerto.

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XII

Para a sua terceira viagem (a frota zarpou de Sanlúnar de Barrameda, no dia 30 de maio de 1498), Colombo elaborou o projeto de navegar para o sul até alcançar regiões equatoriais e daí prosseguir em direção ao poente (44). Pretendia primeiro verificar se encontrava uma terra que o rei de Portugal afirmava existir nesse caminho (45) e, segundo, estabelecer contato com os litorais da Ásia, buscando a passagem pelo Oceano Índico que, segundo a imagem que fazia dele, estaria por essas latitudes. Mas a realidade lhe reservava uma surpresa desconcertante.

Depois de alcançar, aproximadamente o paralelo 9o de latitude norte e de percorrê-lo em direção oeste, sem ter encontrado a terra preconizada pelo monarca lusitano, aportou em uma ilha densamente povoada por gente de melhor compleição e mais branca do que aquela que havia encontrado até então. Chamou a essa ilha La Trinidad - nome que conserva até nossos dias - e corretamente calculou que se achava ao sul do colar das ilhas dos canibais que havia reconhecido em sua viagem anterior.

Colombo pensou que estivesse num arquipélago adjacente ao extremo meridional do orbis terrarum, ou concretamente falando, vizinho às costas do Quersoneso Áureo (Península de Malaca) que, para ele, começava a formar-se na altura da Terra de Cuba; logo, porém, os marinheiros constataram um estranho fenômeno que semeou o desconcerto no intimo do almirante: o golfo onde a frota havia penetrado (hoje Golfo de Paria na Venezuela) era de água doce, circunstância que pressupunha a presença de caudalosos rios e indicava, por conseguinte, uma enorme extensão de terra. Viu-se obrigado a concluir, então, que aquele golfo não estava formado pelos litorais de um apertado grupo de ilhas, como Colombo supunha, mas pela costa de uma terra de dimensões continentais. De início, o almirante resistiu em aceitar essa óbvia inferência que ameaçava a validade das suas idéias preconcebidas, mas como a exploração posterior não dera margem a dúvidas, viu-se obrigado a reconhecer o seu equívoco inicial. Lembrou-se, então, das informações que lhe haviam dado os caribenhos a respeito da existência de grandes terras ao sul das suas e acabou por se convencer do inevitável: a frota havia aportado não em arquipélago próximo à passagem para o Oceano Índico mas em terra firme (46). Para Colombo, homem do seu tempo e habituado a pensar respaldado em autoridades, surgiu de imediato a dificuldade de explicar primeiro como era possível que houvesse semelhante terra no hemisfério sul que, de acordo com as idéias correntes então, estava ocupado apenas pelo Oceano (47) e, segundo, como era possível que houvesse falta de informações a respeito dela.

No que se refere ao primeiro ponto, Colombo recorreu à tese elaborada no século XIII, sustentada principalmente por Roger Bacon e da qual ele tinha conhecimento por intermédio do Cardeal d'Ailly (48), tal tese supunha que a terra seca ocupava seis sétimas partes da superfície do globo, contra uma que congregava todos os mares, de acordo com a autoridade do Livro de Esdras. Era, então, possível aceitar a noção de que os litorais achados pertencessem a uma grande massa austral de terra firme. Quanto ao fato de não se ter tido noticia alguma a respeito da sua existência, Colombo afirma: "muy poco ha que no se sabia otra tierra más de Ia que Tolomeu escribió” (49), de maneira que nada havia de surpreendente naquela circunstância. O que é surpreendente, no entanto, é que Colombo não tivesse invocado neste lugar os seus conhecimentos da geografia de Marco Polo, que ampliou e corrigiu as noções de Ptolomeu. Mas o caso é que a terra recentemente achada não parecia acomodar-se adequadamente a esses conhecimentos e nisso consistia o verdadeiro problema do achado. De fato, como ajustar essa tão inesperada experiência à imagem geográfica que vinha servindo para Colombo de esquema fundamental e que estava baseada, justamente, no relato de Marco Polo? Que relação poderia ter com o orbis terrarum esta inusitada extensão de terra?

O problema é mais complicado do que parece. Convêm que tenhamos a devida consciência dele.

De acordo com a tese invocada por Colombo, era possível explicar a existência da terra recém-achada mas é de se notar que o argumento supõe a continuidade desses litorais em relação aos de Cuba, que o almirante imaginava pertencerem à terra firme da Ásia. De fato, a tese se baseava, precisamente, na afirmação da unidade geográfica de toda a terra não submersa, ou seja, que a Ilha da Terra era a que ocupava as seis sétimas partes da superfície do globo. Consequentemente, já não existiria a passagem marítima para o Oceano Índico, onde Colombo supunha, e toda a sua idéia de que a costa do Quersoneso Áureo começava em Cuba desmoronava pois, em lugar dessa península, havia esta nova e inusitada terra austral.

Por outra parte, se supunha, pari salvar esse esquema, que a terra firme recém-achada chamada Paria pelos naturais, era uma ilha austral comparável ao orbis terrarum e situada a sudeste do extremo do Quersoneso Áureo, então a tese invocada por Colombo não conseguia realmente explicar a sua existência, pois já não se tratava de regiões da Ilha da Terra, mas de um desses orbis alterius mencionados pelos pagãos, mas recusados pela Igreja e pelas doutrinas escolásticas mais modernas (50) e que, por estar habitado, acarretava as dificuldades antropológicas e os problemas religiosos que temos exposto.

Diante desta conjuntura Colombo não soube realmente como se orientar e, por isso, apesar de ter afirmado antes o seu convencimento de que a terra achada tinha dimensões continentais, refugia-se, pouco depois, numa cláusula condicional que revela o seu desconcerto (51). Todo o problema provinha da necessidade de explicar aquele golfo de água doce que implicava a presença de imensas terras capazes de gerarem caudalosos rios. Não haveria um outro modo de se dar conta do fenômeno? As observações que, nesse momento, Colombo insere no seu Diário a respeito da variação da agulha, da assombrosa amenidade do ar, da boa compleição e da cor dos naturais habitantes de Paria, nos previne que o almirante cogitava em alguma explicação que lhe fosse mais satisfatória e, de fato, quando já estava em mar aberto, no seu percurso de regresso na busca da Ilha Espanhola, confiou ao seu Diário um extraordinário dilema: ou aquela terra de onde vinha é "gran tierra firme" ou é, diz "adonde está el Paraíso Terrenal" que, segundo a opinião comum "está no fim do oriente", a região onde ele havia estado (52).

Façamos uma parada para permitir a Colombo que medite e amadureça tão alucinante possibilidade como era esta de haver localizado, por fim, o Paraíso Terrestre, problema que tantos teólogos e geógrafos cristãos haviam tratado de resolver em vão (53). O almirante regressou (no último dia de agosto de 1495) a São Domingos, a nova capital da Espanhola. Eram muitos os aborrecimentos que ali o aguardavam, mas era urgente também dar ciência aos soberanos do resultado da sua viagem. No dia 18 de outubro despachou uma carta com o resultado de suas especulações (54). Não é fácil determinar com precisão o que pensou, mas é necessário tentá-lo com o auxílio de documentos posteriores.

XIII

Ou era uma enorme terra firme a que havia achado ou era onde estava o Paraíso Terrestre. Eis aqui o dilema que preocupava Colombo quando desembarcou em São Domingos. Consideremos, antes de tudo, o que significou esse dilema.

O motivo que obrigava Colombo a pensar que se tratava de uma terra firme de grande extensão era, já o sabemos, a necessidade de explicar o golfo de água doce como resultado de algum grande rio que nele tinha a sua desembocadura. E se não se conformou cabal e plenamente com essa inferência foi pelas dificuldades que, segundo vimos, atendiam igualmente à idéia de que essa terra firme estivesse unida à Ásia ou à de que estivesse separada. Se ocorreu a Colombo corno dilema que havia estado na região onde se achava o Paraíso Terrestre, foi porque à essa maneira lhe pareceu que poderia sair desse conflito, pois já não havia necessidade de justificar o golfo de água doce como resultado de um grande rio engendrado numa imensa extensão de terra. De fato, no Paraíso Terrestre existia uma fonte de onde, no dizer das autoridades mais respeitadas, procediam os quatro grandes rios do orbis terrarum. Não seria, portanto, dessa mesma fonte que procedia o caudal de água que formava aquele golfo? Esta possibilidade deve ter impressionado tanto a Colombo, não só porque se enquadrava admiravelmente à sua maneira de pensar e à sua crescente convicção de ser um mensageiro de Deus, mas também pelo brilho que este achado emprestava à sua empresa, que não se deu conta nem do caráter extravagante da idéia nem, de imediato, das novas dificuldades que ela implicava. Mas era necessário mostrar como era possível e mesmo provável essa ocorrência. E a este propósito particularmente é que vai encaminhada a carta aos soberanos.

A carta começa com um preâmbulo dedicado a defender a empresa dos maledicentes empenhados em desacreditá-la. Esta parte inicial da epístola é uma reprodução quase literal de uma passagem do Diário, que apresenta o interesse de Colombo em empregar aqui, pela segunda vez, o conceito de ",outro mundo" para qualificar o conjunto das terras que, por seu empenho e trabalho, se havia colocado sob a soberania da Espanha. Também é interessante porque Colombo ratifica a sua crença de que Cuba é uma parte da Ásia (55).

Vem, a seguir, o relato da viagem e da exploração e chegado o momento em que conta como pôde sair daquele golfo de água doce, que tanto o preocupava, o almirante inicia a fundamentação teórica de sua hipótese do Paraíso Terrestre.

Não é o caso de entrar em detalhes exaustivos. Eis aqui o essencial do argumento: o globo terrestre, pensa Colombo, não é uma esfera perfeita; ao contrário, sua forma é a de uma pêra ou de uma bola que tivesse uma protuberância como um seio de mulher cujo bico estaria abaixo da linha equatorial no "fim do oriente", diz e que é, esclarece, onde termina a terra e suas ilhas adjacentes. Isto é, no extremo oriente da Ilha da Terra. No cume desse grande monte ou seio, de acesso paulatino, pois se inicia em pleno oceano a uma distância de cem léguas dos Açores, acha-se o Paraíso Terrestre (56). Fixadas essas premissas, a conclusão era óbvia: como a Terra de Paria estava "no fim do oriente", estava próxima do Equador e mostrava as qualidades da região mais nobre da Terra e como, por outra parte, as observações celestes revelavam que a frota havia navegado costa acima a partir do meridiano marcado por aquelas cem léguas dos Açores, parecia natural pensar que a água doce que aquele golfo produzia procedesse do Paraíso. É certo que ele, Colombo, não pretendia que se pudesse chegar até esse jardim proibido que, provavelmente, ainda estava longe dos litorais que explorou, mas não era o caso de se levar em conta a sua hipótese?
Na medida em que o almirante desenvolve sua argumentação, mais se constata o seu desejo de se convencer da sua efetiva convicção; é que se deu conta de que a hipótese não solucionava o problema pela simples razão de que implicava, da mesma maneira que a hipótese de um rio, uma extensão considerável de terra. De fato, se tem em conta que, segundo admite o próprio almirante, o Paraíso estava longe do golfo de água doce e que, por outra parte, tinha que ser muito grande, pois foi feito para abrigar a espécie humana (57), acaba por se demandar uma extensa terra firme, que era precisamente a conseqüência que se queria evitar com a nova hipótese.

Se Colombo teve consciência dessa ressalva, a verdade é que não a expressa. Pode-se supor, no entanto, que algo parecido devia ter em mente pois, em lugar de concluir afirmando aquilo que tanto havia se empenhado em demonstrar, acaba por se encontrar no mesmo dilema inicial. Acredita que a terra que achou "es grandísima, y haya otras muchas en el austro, de que hamás se hubo noticia"; acredita, também, que do Paraíso "pueda salir" a água, se bem que de longe, e que venha a formar aquele golfo (58). Repete os argumentos da tese de haver muito mais terra seca do que a submersa pelo Oceano e tudo isto para terminar na mesma cláusula condicional e dúbia de que "si no procede (a água doce do golfo) del Paraíso, procede de um río que procede de tierra infinita del austro de la cual hasta ahora no se ha habido noticia". Acrescenta, porém, "yo muy asentado tengo en el ánima que allí, adonde dije, es el Paraíso Terrenal” (59).

Vê-se que Colombo, em lugar de dirimir o dilema que ele mesmo criou, acabou aceitando seus dois extremos. Até esse momento, para Colombo, os litorais encontrados em sua terceira viagem pertencem a uma extensa terra firme austral, quer provenha de um rio a água que aquele golfo produz, o que admite que poderia acontecer, quer provenha da fonte do Paraíso, que é o que ele gostaria que fosse.

Mas o que pensar do verdadeiro problema que o almirante deixou intacto? Supõe Colombo que essa grande terra austral esteja ou não unida ao continente asiático?

XIV

Para resolver este problema decisivo faz-se necessário recorrer a outras três cartas de Colombo. Examinemos esses testemunhos pela sua ordem.

Numa carta ao rei católico em 18 de outubro de 1498 (60), o almirante alude à terra encontrada na sua terceira viagem e diz que se deve acreditar que é extensíssima. Mais adiante, faz o inventário de tudo aquilo que ele havia colocado sob o domínio da Espanha por seus trabalhos e atuação: a ilha Espanhola, Jamaica, setecentas ilhas e uma grande parte, diz, "de la tierra firme, de los antiguos mui conocida y no ignota, como quieren decir los envidiosos o ignorantes". Refere-se, está claro, às costas da Ásia que ele declara ter percorrido na sua segunda viagem; além do mais, muitas outras ilhas no caminho da Espanhola à Espanha e agora deve-se acrescentar esta outra terra de grande dimensão recém-achada e que "es de tanta excelência” (61).

O texto não nos tira das dúvidas, mas parece indicar que Colombo pensa nessa terra como algo diferente e separado da outra terra firme que declara ter sido muito conhecida dos antigos, isto é, da Ásia.

De fins do ano de 1500, temos uma carta que Colombo dirigiu a Dona Juana de la Torre, que tinha sido ama do príncipe Dom João, escrita provavelmente na caravela que conduziu o almirante de regresso à Espanha (62). Citando previamente São João e Isaías que falam de um "céu novo e uma nova terra” (63), o almirante pensa a si mesmo como mensageiro eleito por Deus para revelá-los, pois, segundo ele, isso foi o que fez nas suas duas primeiras viagens. Acrescenta que depois empreendeu "viaje nuevo al nuevo cielo y mundo que hasta entonces estaba en oculto" e esclarece que se esta sua façanha não é respeitada na Espanha "como los otros dos (viagens) a las Indias", não deve surpreender, pois tudo que vinha dele era menosprezado.

Deste documento emana, com bastante clareza, que Colombo distingue a terra achada na terceira viagem daquelas que encontrou nas anteriores, que expressamente qualifica de viagens às Índias (isto é, à Ásia), enquanto identifica a primeira como uma viagem a um "nuevo mundo" que até então estava oculto (64). Parece, pois, que concebe a Terra de Paria como alguma coisa separada e distinta do orbis terrarum.

Por último, em carta de fevereiro de 1502 ao Papa (65), Colombo realiza de novo o inventário do que a Espanha lhe deve. Nas duas primeiras viagens encontrou mil e quatrocentas ilhas, trezentas e trinta e três léguas "de la tierra-firme de Ásia" outras enormes e famosas ilhas a oriente da Espanhola que é, diz, "Tarsis, es Cethia, es Ofir y Ophaz e Cipango", e na terceira viagem achou "tierras infinitísimas" e acreditei e acredito diz, "que allí en la comarca es el Paraíso Terrenal."

Nesta ocasião, a distinção entre a terra firme achada nas duas primei- ras viagens, que Colombo expressa- mente identifica com a Ásia, e a encontrada na terceira viagem é mais clara, de sorte que estes três testemunhos parecem ser suficientes para concluir que Colombo, pouco depois de haver escrito a famosa carta em que expôs a hipótese do Paraíso, convenceu-se de que havia achado uma terra de dimensões continentais que ocupa- va parte do hemisfério Norte e que se estendia pelo hemisfério Sul, situada a sudeste do Quersoneso Áureo e separada da Ásia. Em suma, que havia achado um orbe austral comparável ao orbis terrarum, habitável e habitado como este, e que, por acréscimo, continha o Paraíso Terrestre. Um orbe ao qual, embora incidentalmente, mas não casualmente, qualificou corno um novo mundo.

XV

Ao considerar a óbvia importância de que se reveste a conclusão a que chegou o almirante, é necessário que nos esforcemos por entender seu alcance e sentido. Para isso é preciso esclarecer que motivo o levou a decidir-se em favor da independência geográfica das terras que havia encontrado na sua terceira viagem em relação às achadas nas viagens anteriores. Devemos verificar, além do mais, porque, ainda em 1502 e pela última vez, insistiu em nelas localizar o Paraíso Terrestre, sem insistir, no entanto, na teoria que serva de fundamento para essa idéia, isto é, a de que o globo terrestre aparentava, no hemisfério Ocidental, a forma de uma pêra ou bola com algo semelhante a um seio de mulher.

Quanto ao primeiro motivo, não será difícil averiguá-lo se nos lembrarmos de quais eram as conseqüências do dilema que Colombo deveria resolver. De fato, já vimos que se supunha a continuidade entre os litorais atlânticos da Ásia e os da nova terra firme austral, o esquema geográfico adotado por Colombo para explicar seus achados anteriores era insustentável. Vinha abaixo a tese que imaginava a Ásia dotada de uma só Península - o Quersoneso Áureo - em cujo extremo estaria a passagem para o Oceano Índico. Se, no entanto, se supunha que a Terra de Paria não estava unida ao orbis terrarum, seria necessário imaginá-la corno um orbe distinto. Neste caso, é certo, punha-se a salvo aquela tese, mas à custa de se enfrentar os problemas que haviam levado a Igreja e tratadistas recentes a não aceitarem a possibilidade de mundos diferentes abrigados no globo.

Colombo decidiu-se - e já vimos com que timidez - por essa última opção. É óbvio que o motivo determinante foi o desejo de salvar o esquema geográfico de que ele vinha se servindo para poder identificar a terra de Cuba com a Ásia e que lhe permitia vislumbrar a existência de um acesso ao Oceano Índico, ao sul dessa terra e ao norte da recém encontrada Paria. Isto é decisivo, pois assim vemos que Colombo pretendia a separação e a independência da inesperada terra firme austral como uma necessária conseqüência do seu esquema anterior e não como resultado de uma observação dos dados empíricos que se lhe tivessem imposto. Em outras palavras, afirmou a existência de um "novo mundo" como uma suposição a priori, porque o que verdadeiramente lhe importava afirmar desse modo era a existência da tal passagem de mar ao Oceano Índico da qual dependia, como sabemos, a prova da sua primeira e fundamental crença: a de haver chegado na sua primeira viagem ao extremo oriente da Ilha da Terra.

Mas não se entende bem, então, como tomou o almirante uma decisão que o levava a enfrentar as objeções e perigos inerentes à idéia que abraçou. Isto nos leva, precisamente, ao segundo ponto que suscitamos no início deste item, a saber: a razão pela qual insistiu em localizar o Paraíso Terrestre nessa terra que lhe parecia ser um novo e inédito mundo. Também parece difícil encontrar neste caso a resposta. Lembre-se que o Paraíso Terrestre, por definição, era parte do "mundo", isto é, daquela província cósmica, que Deus, em sua bondade, havia designado ao homem para que nela vivesse. Visto desta maneira, embora se possa dizer que a independência geográfica da terra firme austral a convertia num "novo mundo", o fato de nela estar alojado o Paraíso Terrestre anulava esse conceito para convertê-la, em troca, no primeiro e mais antigo mundo, de sorte que, definitivamente, se Colombo separava fisicamente os dois orbes, conseguia manter a sua união moral, de que dependem a condição e a qualidade para que sejam mundos.

Em suma, o "novo mundo" intuído por Colombo não era propriamente isso, mas parte do mesmo e único mundo de sempre. Não postulava, pois, o pluralismo cuja possibilidade havia sido admitida pelos pagãos com todas as suas conseqüências. Se o almirante se arriscou a apoiar-se nessa inaceitável e herética noção, foi porque acreditava que somente assim se poderia salvar a crença, cuja verdade se propusera a provar. Mas é claro que esta indireta maneira de sustentar a existência da passagem que conduziria as naves espanholas às riquezas da Índia, como ele pensava, não podia convencer ninguém e que, por conseqüência, seus esforços nesse sentido foram em vão. O que verdadeiramente tem de interessante a hipótese de Colombo é que, pela primeira vez, o processo se aproximou de um desenlace crítico da antiga maneira de conceber o mundo. No entanto, a crise ainda não era iminente, porque as idéias de Colombo careciam de toda a probabilidade de serem aceitas, por duas razões decisivas. A primeira, porque a teoria cosmográfica elaborada por Colombo para justificar a existência do Paraíso Terrestre nas regiões recém-achadas mostrava ser um verdadeiro disparate científico (66); a segunda e mais importante, porque a idéia de 'separar as duas massas de terra, o que implicava admitir um "novo mundo", não era necessária para explicar satisfatoriamente os fatos revelados até então pela experiência, segundo vamos ver a seguir. Considerou-se a crise que já se anunciava. Examinemos as razões que a sustentaram.

XVI

As notícias do achado da Terra de Paria, chegadas à Espanha em 1499, despertaram um grande interesse em reconhecer mais amplamente essas regiões e deram novo impulso e nova orientação para a empresa. A Coroa autorizou, e se realizaram em rápida sucessão, as conhecidas viagens de Ojeda (maio de 1499 a setembro de 1500); Guerra e Niño (junho de 1499 a abril de 1500); Yáñez Pinzón (dezembro de 1499 a setembro de 1500); Lepe (dezembro de 1499 a outubro (?) de 1500); Vélez de Mendoza (dezembro de 1499 a julho de 1500) e Rodrigo de Bastidas (outubro de 1500 a setembro de 1502 (67).

O conjunto dessas explorações revelou a existência do enorme litoral que hoje se conhece como a costa atlântica setentrional da América do Sul, desde o Golfo de Darién (formado pelas costas do Panamá e da Colômbia) até o cabo extremo oriental do Brasil. Bem, como os novos achados não se prolongaram além desses extremos, não se estabeleceu, por uma parte, a continuidade e a conexão dessas costas com as da terra setentrional reconhecida em anos anteriores nem se estabeleceu, por outra parte, em que direção poderia se estender a costa além do cabo extremo em que se havia chegado. Estas indeterminações provocaram uma situação ambígua que convém registrar.

A idéia de Colombo no sentido de que existia uma grande massa de terra que penetrava pelo hemisfério austral ficou estabelecida fora de qualquer dúvida. Como não se sabia, empiricamente, que estaria unida à massa de terra firme setentrional, a possibilidade de que houvesse uma passagem marítima para o Oceano Índico no trecho ainda inexplorado permanecia em aberto. A hipótese de Colombo a respeito de um "novo mundo" separado do orbis terrarum não podia, pois, ser descartada. Mas o importante era que, ao contrário do que pensou Colombo, essa não era a única alternativa para se acreditar na existência da passagem para o Oceano Índico, que havia sido empregada por Marco Polo no seu regresso à Europa. Como também não se sabia em que sentido se estendia a costa além do cabo extremo ocidental explorado, era possível supor que dobrasse em direção ao poente e que, portanto, esse cabo seria o extremo meridional de uma grande península asiática, aquela que Marco Polo teria circunavegado. Em outras palavras, pensou-se que esse grande e novo litoral não era o de um estranho "novo mundo", separado e distinto da Ilha da Terra, mas o da Ásia. Concretamente dizendo, era o daquela grande península adicional que haviam desenhado Martín Behaim no seu globo e Henrico Martellus no seu planisfério.

Em resumo, as explorações realizadas entre 1499 e 1502 mostraram que as idéias de Behaim e de Martellus podiam ser corretas, de sorte que surgiu o dilema que registraremos a seguir.

De um lado, temos a hipótese segundo a qual se. supõe que a massa de terra firme no hemisfério Norte é o extremo oriental da Terra ou orbis terrarum e que a massa que penetra pelo hemisfério Sul é um outro orbe, um "novo mundo". A condição dessa hipótese é, pois, que a passagem marítima para o Oceano Índico fosse a da separação entre ambas as massas de terra firme. Esta é a hipótese de Colombo, com a versão, segundo a qual, o almirante insistia em postular que a Terra de Cuba se identificasse com a terra firme da Ásia.

Temos, do outro lado, a hipótese que consiste em supor que as ditas massas de terra firme são contínuas e que se identificam com o litoral extremo oriental do orbis terrarum e, concretamente, como os da sua grande península asiática, diferente do Quersoneso Áureo. Para esta segunda hipótese, a condição era a de que ao sul dessa branca massa de terra firme se acharia a famosa passagem para o Oceano Índico, empregada por Marco Polo.

A cartografia da época do documenta de maneira curiosa e interessante esse dilema. Realmente, temos do ano de 1500 o justamente famoso mapa manuscrito de Juan de la Cosa, em que se pode ver a expressão gráfica do dilema (68). Neste documento, o cartógrafo apresenta como costa contínua tudo o que está compreendido desde os reconhecimentos setentrionais das expedições inglesas até o cabo extremo oriental daquilo que hoje se conhece como Brasil. Mas, de um lado, a partir desse cabo se configura uma costa hipotética que se estende diretamente para o oeste, expressando a idéia e a esperança, acrescentamos, de que essas terras austrais constituam a penetração mais meridional da Ásia. No entanto, e por outro lado, Juan de la Cosa interrompeu o desenho do litoral com uma imagem de São Cristóvão, padroeiro dos navegantes, mas também de Colombo, precisamente no lugar onde, segundo este, estaria a passagem para o Oceano Índico. Desse modo, assim parece, o cartógrafo quis registrar ou, pelo menos, insinuar a outra hipótese ou possibilidade.

XVII

O sentido ou ser das terras que tinham sido achadas desde que Colombo realizou sua primeira viagem continuava dependendo da localização da passagem para o Oceano Índico. Mas agora a localização dessa passagem oferecia duas possibilidades. Conseqüentemente houve duas viagens cujos resultados deveriam resolver o dilema. Referimo-nos à chamada terceira navegação de Américo Vespúcio (viagem portuguesa, maio de 1501 a setembro de 1502) e à quarta e última viagem do almirante (maio de 1502 a novembro de 1504).

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Este e o item seguinte são dedicados ao estudo dessas duas expedições que, embora independentes, constituem um único e grandioso acontecimento nos anais da história da Cultura do Ocidente. Como tal queremos apresentá-las aqui, não só porque assim o exige a lógica do processo, mas também porque, desse modo, Colombo e Vespúcio aparecem como os colaboradores que em realidade foram, e não como os rivais que uma mal aconselhada paixão pretendeu fazer deles. E além do mais, querem também reparar a injustiça histórica que foi cometida com ambos - com o primeiro, ao atribuir-lhe o suposto "descobrimento da América" que não realizou, nem poderia ter realizado; com o segundo, ao responsabilizá-lo pela suposta auto-atribuição dessa inexistente façanha.

Comecemos por tomar ciência dos propósitos que motivaram ambas as expedições e, primeiro, daquela em que Vespúcio tomou parte (69).

A frota zarpou de Lisboa em meados de maio de 1501 com destino às regiões subequatoriais recentemente achadas. Vespúcio capitaneava um dos navios e, pelo que se sabe, a armada seguia sob o comando de Gonçalo Coelho. Em princípios de junho, chegaram a Cabo Verde, na costa ocidental da África, encontrando ali dois navios da frota de Álvares Cabral que vinham de regresso da Índia. Vespúcio recolheu informações a respeito dessa viagem e as transmitiu a Lorenço de Médici, em carta de 1501. Deste documento e de uma epístola anterior, é possível inferir os propósitos de Vespucio (70) Na exploração que realizou sob o comando de Ojeda (1499-1500), pretendeu-se, como disse Vespúcio, "dar la vuelta a un cabo de tierra, que Tolomeu llama Cattegara, el cual está unido al Gran Golfo, (71) isto é, que naquela ocasião se quis alcançar o extremo sul da penetração mais meridional da Ásia para passar, por ali, ao Sino Magno formado pelas águas do Oceano Índico (72). Não se conseguiu tão desejado objetivo mas agora, nesta nova viagem, pretendia- se tentá-lo de novo. Vespúcio não o diz de uma maneira expressa, mas a análise da carta autoriza essa inferência, pois, de outro modo, não se entende sua afirmação expressa de que abrigava a esperança de visitar, nesta viagem, as regiões que Álvares Cabral havia reconhecido na sua recente navegação para a Índia (73).

Em suma, no que diz respeito pessoalmente a Vespúcio, o objetivo da viagem consistia em navegar até as costas subequatoriais, reconhecidas durante a exploração que fez sob o comando de Ojeda, e que considerava serem dos litorais asiáticos. Conseguido esse primeiro objetivo, pretendia prosseguir a viagem costeira em busca do lugar onde pudesse passar para o Oceano Índico. Localizada essa passagem, desejava continuar a navegação em busca da Índia e chegar até Lisboa através do Cabo da Boa Esperança, completando assim, pela primeira vez na história, a circunavegação do globo. Não lhe faltava razão, pois dizia na carta que comentamos que o alimentava a "esperanza de cobrar fama impere- cedera, si logra regresar a salvo de este viaje” (74).

Vejamos agora quais foram os projetos que motivaram Colombo. Sabe-se que no dia 26 de fevereiro de 1502, quando a armada em que seguia Vespúcio percorria a costa atlântica acreditando ser uma península asiática, Colombo apresentou um memorial solicitando a autorização e os meios para empreender nova viagem. O documento se perdeu, mas o objetivo da exploração pode ser inferido pela resposta dos reis, pelas instruções que a acompanhavam e por uma carta subscrita pelos monarcas sem o nome do destinatário, mas dirigida àquele que fora o capitão de uma frota portuguesa recém enviada à Índia pela rota do oriente (75). Dessas peças documentais, deduz-se que a expedição tinha propósitos completamente semelhantes àqueles que motivaram a de Vespúcio. A alusão a um percurso que seria muito extenso, a afirmação de que o roteiro não passaria pela Ilha Espanhola, a per- missão para levar a bordo intérpretes árabes e, sobretudo, a carta destinada ao capitão português acusam, sem dar lugar a dúvidas, que o destino da exploração era alcançar as regiões da Índia, já reconhecidas pelos portugueses, sendo lícito supor-se que também se abrigaria a esperança de que o almirante regressasse à Espanha pela via do Cabo da Boa Esperança. Mas é claro que, para realizar projeto tão ambicioso, a meta imediata de Colombo consistia, como a de Vespúcio, em encontrar a passa - passagem para o Oceano Índico, só que a buscaria em outras latitudes. Lembre-se que, segundo as idéias que Colombo elaborou ao regresso da sua terceira viagem, essa passagem deveria estar na separação marítima entre a Ilha da Terra e o "novo mundo", onde supunham que estava o Paraíso Terrestre, e por esse rumo, de fato, os reis determinaram que ele fosse buscá-la (76).

Eis aqui os objetivos das duas viagens destinadas a resolver o grande dilema, de cuja solução depende a verdade do ser que se vinha atribuindo as novas terras. Muito mais importante, pois de sua solução dependia a validade da maneira tradicional cristã de entender o mundo com tudo o que isso significava. Se Colombo alcançasse o lugar para alarme algum. O cenário está pronto. Agora é de se ver como vai se desenvolver, na sua dupla trama, esta espetacular comédia, nunca tão bem dos equívocos.

XVIII

Em princípios de agosto de 1501, depois de uma penosa travessia, a armada portuguesa em que seguia Vespúcio alcançou a costa do que hoje chamamos Brasil (77). Convencidos os navegantes de se acharem sobre o litoral asiático, iniciaram a exploração costeira em direção ao sul seja para reconhecer aqueles territórios que estariam sob o domínio de Portugal, seja para buscar o cabo extremo que permitiria o acesso ao Oceano Índico. Verificando que a costa se prolongava em direção ao sul, além do que se havia suposto, a frota chegou ao ponto onde terminava a jurisdição de Portugal e começava a castelhana, de acordo com a partilha e o Tratado de Tordesilhas. Legalmente ali teria que se suspender o reconhecimento, mas se tornava insensato abandonar a exploração, pois calculavam que a costa não se prolongasse muito mais. Com esta esperança, decidiu-se continuar a exploração, mas sob o amparo de um expediente que, em todo caso, servia para salvar as aparências. A exploração se despojou do seu caráter oficial (78), de maneira que, a partir desse momento, adquiria o caráter de uma viagem de trânsito e, a fim de evitar suscetibilidades, resolveu-se confiar o comando provisório da armada a Vespúcio. Assim foi como se explicou a sua intervenção direta nessa parte da viagem. Seja o que quer que tenha sido, o importante é que não acharam tão desejada passagem, mas se constatou, em compensação, que aquela costa se prolongava sem fim até as regiões tempestuosas vizinhas ao círculo antártico (79). Esta circunstância mostrou-se sobre maneira desconcertante em vista das noções anteriores que haviam motivado os projetos da exploração e era preciso tentar algum ajuste para explicar o novo dado. Com este enigma na bagagem, a frota regressou a Lisboa nos primeiros dias de setembro de 1502. Deixemos Vespúcio com a preocupação de resolvê-lo para irmos ao alcance de que, mais ou menos nessa data, lutava contra a inclemência de um mar adverso.

Colombo iniciou a travessia oceânica no dia 26 de maio de 1502, partindo da Ilha de Ferro, nas Canárias (80). Por motivos que parecem mistificados, não obedecem às instruções dos reis e se dirigem à Ilha Espanhola em busca da Vila de São Domingos. Esta mudança de itinerário modificou a rota originalmente projetada: agora deveriam navegar a partir de São Domingos não em busca da Terra de Paria que ficava a sudeste, mas a procura da costa da terra firme asiática que ficava a ocidente e que, como sabemos, Colombo imaginava como um prolongamento do litoral de Cuba. Uma vez avistada a terra firme, o projeto era costeá-la em busca da passagem do mar que, segundo ele, a separava daquele "nuevo mundo", que havia encontrado em sua viagem anterior.

Na execução desse plano, a frota chegou a uma costa que se estendia do oriente para o ocidente, o litoral Atlântico da hoje República de Honduras, e dali se iniciou a busca. Foi preciso, antes de tudo, realizar a navegação costeira em direção ao oriente, com a esperança de achar logo o cabo onde a costa dobrasse em direção ao sul e conduzisse a frota ao extremo do que se supunha ser uma península. Este trecho da navegação foi penosíssimo mas, no dia 14 de setembro, finalmente encontrou-se o cabo que, não sem motivo, Colombo denominou Cabo Graças a Deus, nome que ainda conserva. A costa se estendia diretamente ao sul; o almirante já se encontrava na região ainda inexplorada e, portanto, no trecho em que se deveria achar o lugar por onde, de acordo com as suas noções, Marco Polo teria alcançado o Oceano Índico.

Não é o caso aqui de relatar os pormenores da exploração. Basta lembrar que, na medida em que avançava, a relutante ausência da passagem era compensada pela confirmação de serem asiáticos aqueles territórios, confirmação tão indubitável que, quando Colombo teve notícias de minas de ouro não muito distantes, sentiu-se autorizado a concluir que eram as de Ciamba, região do Quersoneso Áureo, que Marco Polo situava como uma província ao extremo meridional dessa península (81). Com esta segurança, que prometia o próximo e inevitável encontro da desejada passagem para o Oceano Índico, a frota veio dar a uma entrada de mar que parecia ser o começo do que tanto se buscava. Isto aconteceu no dia 6 de outubro. Onze dias mais tarde, certificaram-se concretamente do engano: aquela entrada era apenas uma baía e a alucinada esperança esfumou-se para sempre.

A triste realidade trouxe consigo, no entanto, um consolo: constatou Colombo que se achava, não certamente na vizinhança de um estreito de mar que lhe permitisse alcançar o Oceano Índico, mas sim sobre a costa de um estreito de terra, istmo estreito que, como uma muralha, separava a frota daquele oceano. Disseram-lhe os nativos, e Colombo assim acreditou, que do outro 1ado, a apenas nove jornadas através das montanhas, encontrava-se uma opulenta província chamada Ciguare, rica em ouro, jóias e especiarias, onde havia mercadores e senhores de poderosos exércitos e armadas, distante dez dias de navegação do rio Ganges (82).

Tão extraordinária notícia convenceu o almirante de que seria em vão buscar a passagem de mar nestas latitudes, tanto mais que a costa inclinava-se para o oriente, na direção da terra de Paria, indicando assim até ela uma possível continuidade. Mesmo antes de deixar a Espanha, Colombo já havia suspeitado de que isso poderia acontecer, segundo comprova uma carta de Pedro Mártir (83). Isso esclarece porque Colombo abandonou tão prontamente a busca da passagem marítima e porque deu tão fácil crédito à informação que lhe forneceram os nativos a respeito da existência de um istmo. Em todo caso, os resultados dessa exploração o obrigavam, como também aconteceu a Vespúcio, a modificar o esquema geográfico que lhe havia servido de base.

Podemos concluir que, do ponto de vista dos propósitos que motivaram as duas viagens, ambas foram um completo fracasso, mas um fracasso que teve, no entanto, a conseqüência de tornar possível uma inesperada e decisiva revelação. Para mostrar como isto pôde acontecer, é preciso que tenhamos conhecimento prévio das idéias que Colombo e Vespúcio formularam, cada um por sua vez, a partir de suas respectivas experiências. Examinemos primeiro a hipótese do almirante.

XIX

Para determinar qual terá sido o pensamento de Colombo, depois de sua quarta e última viagem, em relação ao problema que nos interessa, é preciso recorrer à estranha carta que, da Jamaica, dirigiu a Fernando e a Isabel, no dia 7 de julho de 1503, a chamada Lettera Raríssima. (84)

Desde o início, o que surpreende neste documento é o silêncio total que o almirante mantém a respeito da busca da passagem do mar ao Oceano Índico que, como sabemos, foi o objetivo principal da viagem. Isto se deve às informações que recolheu, referentes à existência de um istmo que separava aquele Oceano do Atlântico, que alteraram radicalmente as suas noções anterioriores. Realmente, do conteúdo da Lettera Rarissima deduz-se com clareza que a notícia daquele istmo obrigou-o a abandonar definitivamente a sua suposição a respeito da existência de uma terra firme austral, independente e separada do orbis terrarum para aceitar, em troca, a idéia da sua união, a tudo considerando como os litorais da Ásia. Em outras palavras, o fracasso a respeito da localização da passagem marítima convenceu o almirante a aceitar como verdadeira a tese da península adicional da Ásia, de maneira que acabou pensando que os litorais das duas massas de terra firme, localizadas em ambos os hemisférios, eram contínuos, mas sempre na crença de que Cuba não era uma ilha, mas que formava parte da terra firme. Um dos croquis do mapa desenhado por Bartolomeu Colombo (85), a propósito da viagem e à margem de uma cópia da Lettera Rarissima, é o testemunho cartográfico que expressa a nova hipótese do almirante.

Vejamos agora o que Vespúcio pensou sobre a inesperada comprovação de que a terra firme que havia explorado se prolongava interminavelmente até o polo antártico. É óbvio que essa circunstância tornava impossível sustentar a anterior identificação desses litorais com os da suposta península adicional da Ásia porque, se fosse o contrário, não se podia explicar o acesso marítimo empregado por Marco Polo para o Oceano Índico. Era forçoso concluir que se tratava de uma terra firme, separada do orbis terrarum pelo mar. O que era então essa terra? No espírito de Vespúcio deveria imperar o desconcerto, de que se encontram vestígios nas primeiras cartas que escreveu depois do regresso da viagem. De fato, na carta dirigida a Lorenço de Médici para dar-lhe conhecimento da exploração (86), mostra-se moderado e reticente, atitudes que foram explicadas unicamente pelo temor que lhe inspirava o rei de Portugal. Pode ser, mas o certo é que quase nada disse a respeito da questão que aqui nos interessa. Afirma que a terra explorada é de dimensões continentais; que a armada percorreu suas costas até próximo dos cinqüenta graus de latitude sul; que observou e tomou nota dos movimentos dos corpos celestes visíveis naquele hemisfério e de outras coisas que lhe pareceram dignas de registro, porque tinha o projeto de escrever um livro com o relato de suas viagens; e, por último, que a armada penetrou até a "región de los antípodas", pois o percurso abarcou "una cuarta parte del mundo” (87). Isso é tudo. Está claro que se Vespúcio tinha nesse momento alguma idéia mais precisa, não a expressou, mas nos parece que a carta revela, antes, as incertezas do seu íntimo.

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De fins de 1503 ou princípios de 1504, temos outra carta de Vespúcio que também nada esclarece, pois é um documento escrito na defesa de alguns conceitos afirmados na anterior (88). Não se pode dizer o mesmo, no entanto, da seguinte na ordem cronológica, a famosa carta chamada Mundus Novus, cujo texto vamos considerar a seguir (89).

Disse Vespúcio, numa passagem que se tornou célebre, que é lícito designar como "novo mundo", as regiões que visitou durante a viagem por duas razões. A primeira, porque ninguém antes soube que existiam; a segunda, porque é opinião comum que o hemisfério Sul estava ocupado somente pelo Oceano. Bem, parece claro que esses dois motivos justificam qualificar as regiões a que se refere Vespúcio como algo "novo" no sentido de recém achadas e não previstas. Mas, por que há de ser lícito considerá-las como um "mundo"?

Vespúcio responde de uma maneira indireta quando acrescenta, em continuação, que se é certo que alguns admitiam a possibilidade da existência de semelhante terra no hemisfério Sul, também negaram com muitas razões que fosse habitável, opinião que agora a experiência desmente, pois a terra que ele visitou está habitada por "más multitud de pueblos y animales que nuestra Europa, o Asia o bien África", disse. Desse esclarecimento resulta, primeiro, que ele concebe inequivocamente as terras que explorou como uma entidade geográfica diferente do orbis terrarum, pois de uma maneira expressa as distingue das três partes que tradicionalmente o integravam. Mas, segundo, que a existência de semelhante entidade não era tão imprevisível como afirmou a princípio, já que admite que alguns reconheciam essa possibilidade. Assim vemos que, para Vespúcio a verdadeira novidade do caso está em que se trata de umas terras austrais inabitáveis e de fato inabitadas e, por isso, são não só algo novo no sentido de que eram desconhecidas, mas que constituem exatamente um "mundo" novo.

O pensamento de Vespúcio é muito claro se estiver referido ao horizonte cultural que lhe empresta sua significação. Para ele como para qualquer contemporâneo seu, a palavra "mundo" referia-se, já sabemos, ao orbis terrarum, unicamente à Ilha da Terra, ou seja, àquela porção do globo que compreendia Europa, Ásia e África e que havia sido destinada por Deus ao homem, para que nela vivesse com exclusão de qualquer outra parte. Assim, é que se a ele pareceu lícito designar as regiões recém exploradas como um "novo mundo" é porque as imaginou, como já as haviam imaginado antes hipoteticamente Cristóvão Colombo, como um dos tais orbis alterius admitidos pelos pagãos, mas não aceitos pelos autores cristãos, pois podiam implicar uma inaceitável e herética pluralidade de mundos. Contrariamente a tudo quanto se vem afirmando e repetindo, não se deve ver na hipótese de Vespúcio uma genial e surpreendente intuição da América, conforme se tem pretendido entender. O que aconteceu foi que Vespúcio, atento à possibilidade empírica de continuar explicando como asiáticas as terras que explorou e tendo verificado, portanto, que estava na presença de uma entidade geográfica desconhecida, recorreu a um conceito antes empregado pelo almirante em conjuntura semelhante e que, como ele, também abandonará por ser uma solução inaceitável, como veremos em momento oportuno.

Esta maneira de compreender a intervenção de Vespúcio, expurga-a desse ar apocalíptico e quase milagroso apresentar (90) e que, não sem motivo, torna tão suspeita aos olhos preconceituosos daqueles que insistem em ver em tudo aquilo que se refere a Vespúcio a maléfica intenção de furtar a Colombo os lauréis de sua fama. Isso não quer dizer que a sua idéia não implica um decisivo passo no desenvolvimento do processo, como se verificará adiante, quando se comparar com a hipótese paralela que Colombo havia formulado nos preparativos de sua terceira viagem.

Antes de nos ocuparmos de tão importante tema, é interessante assimilar o curioso paradoxo em que veio dar a tentativa de resolver o dilema suscitado pela busca da passagem para o Oceano Índico. De fato, agora vê-se que o fracasso de ambas as viagens acabou provocando uma inversão diametral, pois, assim corno Colombo se viu obrigado a aceitar a tese que havia servido a Vespúcio como base da sua exploração, tese que postulava a existência de uma península adicional da Ásia, este também se viu forçado a aceitar a tese desprezada por Colombo, que supunha a existência de um novo mundo. Colombo iniciou a sua viagem com o propósito de comprovar sua hipótese da existência de dois "mundos" e voltou com a idéia de que tudo era um só e o mesmo mundo; Vespúcio iniciou sua viagem com o projeto de comprovar que tudo era um só e o mesmo mundo e voltou com a idéia de que havia dois. O processo, ao que parece, permaneceu encerrado num círculo vicioso, sem saída. No entanto...

XX

Em história, como manifestação que é da vida, não se sabe hoje qual é o dinamismo que torna impossível, excetuando a morte, que seus processos se afoguem em dúvidas. Por isso, em história, só os conceitos de erro, de contradição e de fracasso têm vigência verdadeira. Tudo é movimento e torna-se maravilhoso comprovar que uma situação que parece insolúvel é, em realidade, um novo e vigoroso ponto de partida para alguma meta imprevisível. Assim, contra toda a aparência, aquela inversão de termos na qual não se percebe alteração essencial a respeito da posição anterior, foi apenas a abertura pela qual o processo pôde tomar um novo e inusitado rumo. Vejamos como isto se operou.

A idéia que Vespúcio teve a respeito da existência do novo mundo parece-se tanto com aquela que Colombo havia tido que, vistas de fora, são quase idênticas. De fato, o almirante não só proclamou que havia encontrado uma imprevisível e extensa terra austral, diferente e separada do orbis terrarum, ignorada pelos antigos e desconhecida dos contemporâneos, como também a imaginou como um novo mundo. Uma cuidadosa reflexão permite descobrir, entretanto, que entre as duas hipóteses há uma diferença fundamental, alicerçada nos diferentes motivos que, respectivamente, levaram seus autores a formulá-las. Consideremos, primeiro, o caso de Colombo.

Colombo pensou que havia achado uma massa de terra firme austral, separada da massa de terra firme setentrional, não porque houvesse comprovado empiricamente, mas porque assim o exigia sua idéia anterior de que esta última era o extremo oriental asiático da Ilha da Terra. Em outras palavras, concebeu a existência de um novo mundo, obrigado pela exigência de resguardar a verdade da sua hipótese anterior. Vemos, então, que a explicação do novo dado empírico (a existência de uma massa de terra firme austra estava condicionada pela prévia idéia de que as terras achadas nas viagens anteriores pertenciam à Ásia. Trata-se, pois, de uma hipótese com fundamento a priori. Por isso, quando Colombo verificou, na quarta viagem, que não era necessário postular a separação das duas massas de terra firme para resguardar a sua idéia de que a massa setentrional era a Ásia (admitindo a tese da península adicional), sem dificuldades abandonou a sua hipótese da existência de um novo mundo.

É possível concluir, então, que a hipótese do almirante, dada a sua motivação, não pode colocar em crise a prévia idéia que lhe deu vida, ou dito de outra maneira, que o fato de haver encontrado uma massa de terra firme num lugar não previsto, não conseguiu impor-se como a revelação possível, pois Colombo acreditou poder explicá-la dentro do quadro da imagem tradicional do mundo.

Voltemos agora nossos olhos para a hipótese de Vespúcio: ele imaginou que havia explorado os litorais de uma massa de terra firme austral, separada da massa de terra firme setentrional, porque isto foi comprovado empiricamente, já que era impossível continuar supondo que aquela massa pertencesse à Ásia, apesar de ser essa a sua idéia original. Vespúcio, diferentemente de Colombo, concebeu a existência de um novo mundo, apesar e ao contrário da sua hipótese anterior. Vemos que a explicação do novo dado empírico - a existência de uma massa de terra firme austral - não está condicionada, como aconteceu a Colombo, pela prévia idéia de que as terras achadas antes pertenciam à Ásia, mas que é independente da verdade ou da falsidade dessa idéia. Trata-se de urna hipótese com fundamento a posteriori. Assim, a necessidade empírica que levou Vespúcio a supor que a massa de terra firme explorada não podia ser asiática não significou nada a respeito da massa de terra firme setentrional. Isto quer dizer que, em princípio, a separação ou não dessas duas massas de terra firme por um braço de mar, será indiferente para a validade da idéia de que as terras exploradas por ele não sejam asiáticas porque, em qualquer caso, não haverá necessidade de abandoná-la.

Dito de outra maneira, se existe uma separação marítima entre as duas massas de terra, conforme imaginou Vespúcio, torna-se necessário admitir, como ele próprio admitiu, que a massa meridional é uma entidade geográfica diferente da Ilha da Terra e torna possível supor a mesma coisa a respeito da massa setentrional. Se, no entanto, não existe essa separação marítima, será necessário então admitir que ambas as massas constituem uma entidade geográfica diferente da Ilha da Terra. Como esta última era a hipótese mais ousada, nada tem de surpreendente que ele se tenha definido pela primeira, como tampouco é surpreendente que mais tarde, segundo veremos, já não tenha insistido nela.

Podemos concluir que a hipótese de Vespúcio contém em si a possibilidade de transcender a premissa fundamental - a suposta excessiva dimensão da Ilha da Terra - que vinha obrigando a identificar as terras achadas com litorais asiáticos, pois cancelou, como necessário, o pressuposto - a passagem para o Oceano Índico - do qual dependia a validade dessa identificação. Ninguém contesta a decisiva importância desta conclusão, porque assim se compreende que a exploração realizada por ele conseguiu converter-se na instância empírica que abriu a possibilidade de explicar a existência das terras encontradas no Oceano de uma maneira diferente daquela determinada pela colocação inicial. Em suma, se nos ativermos aos termos concretos da tese de Vespúcio, não se pode dizer que esta superou a tese anterior de Colombo, porque ao conceberem a massa de terra firme austral como um "novo mundo", ambos permaneceram dentro do marco das concepções e das premissas tradicionais. Mas se nos ativermos às implicações da tese de Vespúcio, então deve-se dizer o contrário, porque ao conceber a massa de terra firme austral como um "novo mundo", abriu a possibilidade, que a tese de Colombo não continha, de imaginar a totalidade das terras achadas de um modo que ultrapassa o marco das concepções e premissas tradicionais.

Aqui nos despedimos de Colombo como do herói que, conduzindo as hostes à vitória, cai no meio do caminho, pois, se é certo que as suas idéias sobreviveram em muitos dos seus partidários, não é menos certo que o caminho com promessa histórica foi aquele que Vespúcio abriu. Vamos analisar em seguida como se atualizou a nova possibilidade.

XXI

A velha teoria da Ilha da Terra, como único lugar destinado ao homem para seu domicílio cósmico, está a ponto de entrar em definitiva crise e bancarrota. As probabilidades de salvá-la são, em verdade, escassas. Será tentado, no entanto, um último e desesperado esforço. Passemos a examiná-lo.

De acordo com a hipótese de Vespúcio, a situação é a seguinte: temos no hemisfério Norte uma extensa costa identificada como pertencente ao extremo oriental do orbis terrarum, ou mais concretamente, como o litoral atlântico da Ásia; e temos, no hemisfério oposto, separada da anterior, outra costa que, se estendendo em direção ao Pólo Sul, ficava rotulada como pertencente a um "novo mundo". Os mapas de Contarini (1506) e de Ruysch (1507 ou 1508) expressam graficamente esta tese (91).

Bem, já constatamos que esta solução não era aceitável porque implicava uma pluralidade de mundos, mas também acabamos de esclarecer que não era a única solução possível para dar conta dos resultados da exploração em que Vespúcio tomou parte. Efetivamente, vimos que uma vez admitido como necessário que os litorais da massa de terra austral não podiam continuar a ser entendidos como asiáticos, já era possível supor a mesma coisa a respeito da massa de terra setentrional, sendo que nessa possibilidade é que residia, exatamente, a enorme diferença entre as hipóteses paralelas de Vespúcio e Colombo. Foi assim que surgiu a idéia de que essa terra setentrional bem poderia ser outra grande ilha, igualmente até então desconhecida dos antigos e comparável àquela que Vespúcio, na falta imediata de um outro conceito, havia considerado lícito imaginar como um novo mundo.

Esta tese das duas grandes ilhas oceânicas, que viria substituir a
inaceitável hipótese de um "novo mundo", encontrou sua expressão numa série de mapas desenhados por volta de 1502. Referimo-nos aos mapas manuscritos conhecidos por King-Hamy-Huntington, por Kuntsmann II, por Nicoló Caneiro e por Alberto Cantino. Nestes documentos cartográ- ficos, apesar das diferenças de detalhe (92), a novíssima idéia de que a massa de terra setentrional constituía também uma entidade independente do orbis terrarum aparece clara e vigorosamente expressa. Ao mesmo tempo, é mantida a suposição de sua separação da massa meridional, mas de uma maneira tão notória e exagerada que o conjunto das novas terras não se impõe como uma única entidade em contraste com a enorme massa da Ilha da Terra, ao contrário, tem o aspecto de duas grandes ilhas situadas a ocidente da Europa, sem que fique sugerida ainda a imagem do oceano que agora chamamos de Pacífico.

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O sentido desta nova maneira de explicar a existência de todas as terras que haviam sido achadas desde 1492 é que, dessa forma, tentava-se salvar a concepção unitária do mundo exigida pelo dogma da unidade fundamental do gênero humano, ameaçado pela hipótese de Vespúcio, pois a tese das duas grandes ilhas oceânicas mantinha, pelo menos em aparência, a imagem geográfica tradicional do mundo.

A tentativa, entretanto, não era satisfatória. Embora essas duas grandes e estreitas ilhas (93) estivessem habitadas, sua existência oferecia, fossem ou não concebidas como um "mundo novo", as mesmas objeções religiosas e evangélicas que haviam levado os tratadistas cristãos a repudiar a idéia pagã de outros possíveis mundos, diferentes daquele abrigado na Ilha da Terra. Assim, a única coisa que se conseguia com a tese das duas ilhas era recusa verbal de uma explicação que expressamente, ameaçava o conceito fundamental da unidade do mundo, ao recorrer a uma imagem geográfica que, na aparência, apenas corrigia a imagem tradicional acrescentando-lhe duas ilhas que em nada a alteravam substancialmente.

As considerações anteriores nos permitem entender a fundo os motivos que levaram os autores dos mapas que acabamos de mencionar a aceitar e exagerar a suposta separação entre as duas massas de terra que haviam sido achadas, pois na medida em que se exagerava essa separação, nessa mesma medida se atribuía importância a essas terras, como uma entidade geográfica comparável ao orbis terrarum. Visto que este expediente não solucionava a essência o problema, conforme acabamos de explicar, e visto que a experiência acumulada na exploração de Vespúcio oferecia a possibilidade real da outra alternativa, a saber, a união das duas massas de terra, não havia nenhum impedimento para que não fosse aproveitada. Nisso consiste o próximo passo do processo, que vamos estudar a seguir.

Em suma, a tese de imaginar as novas terras simplesmente como duas ilhas oceânicas foi uma primeira tentativa de explicá-las como entidades geográficas independentes, sem a necessidade de recorrer à noção tradicional, mas inaceitável para o Cristianismo, da pluralidade de mundos. Se é certo que essa tentativa foi insuficiente, nem por isso foi em vão; ao contrário e graças a ela, as novas terras, inicialmente imaginadas como uma parte da Ilha da Terra, desprenderam-se totalmente dela. Trata-se, pois, do momento crítico em que surge a necessidade de lhes atribuir um sentido próprio, um ser específico que as individualize. Por ora, no entanto, ainda não se trata da América.

XXII

Para verificar de que maneira se deu o próximo passo no processo, é necessário recorrer a outro texto famoso de Vespúcio, sua carta datada de Lisboa, no dia 4 de setembro de 1504, conhecida como a Lettera ou, em sua versão latina, como as Quatuor Americi Vesputti navigationes.

O que primeiro chama a atenção é que neste documento se apresenta o conjunto das explorações sem alusão à circunstância de que, por algum tempo, as novas terras tenham sido consideradas como parte da Ásia. É que o autor simplesmente quis oferecer ao seu destinatário o panorama geral de suas viagens à luz de suas últimas conjecturas. Mas o verdadeiramente surpreendente é que já não emprega o conceito de "novo mundo", que propôs em carta anterior, como a maneira correta de conceber a massa de terra austral, cujos litorais havia percorrido. Tratemos de verificar, então, como Vespúcio agora entende as novas terras, pois elas não aparecem nem como parte do orbis terrarum nem como um desses outros orbes hipoteticamente admitidos pela ciência clássica.

Vespúcio afirma no preâmbulo que escreve de "cosas no mencionadas ni por los antiguos ni por los modernos escritores” (95). Esclarece, mais adiante, que seu desejo é o de transmitir o que viu "en diversas regiones del mundo" nas viagens que empreendeu com o objetivo de "descubrir nuevas tierras” (96). Esta maneira de se referir ao motivo de suas explorações como "novas terras" que formam parte "do mundo" repete-se ao longo da carta (97), e revela uma imprecisão e uma indefinição significativas. Mas isso não é tudo: no inicio do relato da primeira viagem, apresentada como uma empresa descobridora de "nuevas tierras hacia el ocidente", diz que se acharam "mucha tierra firme e infinitas islas, muchas de ellas habitadas, de las cuales los antiguos escritores no hacen mención", porque, acrescenta Vespúcio, "creo que de ellas (a terra firme e as ilhas) no tuvieran notícia; que si bien me recuerdo, en alguno he leído que consideraban que este mar oceano era mar sin gente” (98). Já vimos que Vespúcio repete o argumento que aduziu em sua carta anterior para justificar como lícita a designação de mundo novo, mas agora não insiste nesse conceito nem se refere tão somente ao hemisfério austral (como na carta anterior) pois está falando das terras achadas a ocidente da Europa.

Em outras passagens (99), a Lettera oferece dados de localização geográfica, mas em nenhum momento aparece a tentativa de definir ou de identificar as regiões de que trata, salvo no caso de uma das primeiras ilhas achadas por Colombo, provavelmente a Espanhola, que Vespúcio pensa ser a Antilha (100), indício de que não considera como parte da Ásia a terra firme adjacente.

É de significativa importância, de outra parte, um dos primeiros parágrafos relativos à segunda viagem, porque nele Vespúcio nos dá a entender que havia se decidido em favor da tese da continuidade das duas massas de terra firme (101), de onde é possível inferir-se que imaginava o conjunto das novas terras como uma unidade geográfica, uma grande barreira que corria de norte a sul ao longo dos dois hemisférios e que estava atravessada no Oceano no caminho da Europa à Ásia pela rota do ocidente.

Por último, a Lettera é prolixa em interessantíssimos dados e informações a respeito da riqueza das novas terras, sua flora, sua fauna e seus habitantes. Este aspecto do documento ultrapassa nossos interesses imediatos, salvo quando indica que, em nenhum momento, nada há que se possa interpretar no sentido de que Vespúcio pense que tais terras sejam asiáticas. Ao contrário, o autor traça um quadro de regiões inéditas, assombrosas e estranhas.

Da análise anterior é possível deduzirem-se duas afirmações fundamentais.

Primeira, que na Lettera temos o documento onde pela primeira vez o conjunto das terras achadas é concebido como uma única entidade geográfica, separada e diferente da Ilha da Terra.

Segunda, que na Lettera, entretanto, existe uma indeterminação a respeito do ser dessa entidade pois, ao mesmo tempo que Vespúcio abandonou o conceito de "novo mundo", nada propôs para substitui-lo. Vespúcio deve ter compreendido, pois, que se tratava de um conceito inadmissível pelo pluralismo de mundos que implicava, mas não pôde ou não quis, arriscar-se a propor o que seria adequado, dada sua nova visão das coisas.

Podemos concluir, então, que na Lettera atualizou-se a crise que ocorreu pela primeira vez quando Colombo se viu obrigado, contra todos os seus desejos, a reconhecer que uma parte das terras achadas por ele não podia ser entendida como perten- centes ao orbis terrarum. Mas agora a velha imagem medieval teve que ser substituída diante das exigências dos dados empíricos e, dada a incapacidade de serem admitidos por meio de uma explicação satisfatória, surge a necessidade de se atribuir um sentido próprio a essa entidade que está ali reclamando o seu reconhecimento e um ser específico que a individualize. Vespúcio não se deu conta desta necessária implicação nem tentou fazer frente àquela necessidade. Quando isto acontecer, a América terá sido inventada.

XXIII

Temos agora à vista uma gigantesca barreira atravessada de norte a sul no espaço que separa os extremos ocidentais e orientais da Ilha da Terra; o problema consiste em determinar que sentido ou ser será atribuído a esse imprevisto e imprevisível ente que havia brotado no Oceano. Para esclarecer esta incógnita, devemos ter ciência do conteúdo de dois famosíssimos documentos, a saber: o célebre texto intitulado Cosmographiae Introductio, publicado em 1507 pela Academia de Saint-Dié (102), que incluiu a Lettera de Vespúcio em tradução latina, e a não menos célebre e espetacular carta geográfica destinada a ilustrá-lo, o mapa-múndi de Waldeseemüller, também de 1507 (103).

Na Cosmographiae Introductio diz-se: a) que, tradicionalmente, o orbe ou a Ilha da Terra em que se abrigava o mundo, era dividido em três partes: Europa, Ásia e África; b) que em vista de recentes explorações, apareceu uma "quarta parte"; c) que, como foi imaginada por Vespúcio, não parece existir nenhum motivo justo que impeça que se a denomine Terra de Américo, ou melhor, América, pois Europa e Ásia têm nomes femininos; d) esclarece-se que essa "quarta parte" é uma ilha, diferentemente das outras três partes que são "continentes", isto é, terras não separadas pelo mar, mas vizinhas e contínuas (104).

O mapa de Waldseemüller ilustra graficamente os conceitos anteriores mas, para nós, sua verdadeira importância não é tanto que seja o primeiro documento cartográfico que ostenta o nome de Américo, mas que comprova que as novas terras são concebidas como uma única entidade geográfica independentemente de que exista ou não um estreito de mar entre as massas setentrional e meridional da gigantesca ilha. Efetivamente, o fato de que o cartógrafo tenha admitido ambas as possibilidades revela que agora já se trata de uma simples alternativa de interesse para o geógrafo, sem dúvida, mas carente de importância do ponto de vista da concepção unitária das novas terras.

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Se considerarmos esta tese dentro da seqüência do processo, constata-se de imediato que, quaisquer que sejam as suas implicações geográficas e ontológicas, atinge-se com ela um ponto culminante. Realmente, verificamos que não só se reconhece a independência das novas terras em relação ao orbis terrarum sendo, portanto, concebidas como uma entidade diferente e separada dele, mas também que - e isto é decisivo e novo - se atribui à referida entidade de um ser específico e um nome próprio que a individualize. Mal ou bem, mas antes bem do que mal, esse nome foi o de América que, desse modo, por fim, fez-se visível (106).

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Podemos concluir que conseguimos reconstruir passo a passo e na sua integridade, o processo mediante o qual a América foi inventada. Agora nós já a temos diante de nós, já sabemos como ocorreu o seu aparecimento no seio da cultura e da história, não certamente como o resultado da súbita revelação de um descobrimento que tivesse exibido, de um golpe, um suposto ser misteriosamente abriado, desde sempre e para sempre, nas terras que Colombo achou, mas como o resultado de um complexo processo ideológico que acabou, através de uma série de tentativas e hipóteses, por atribuir-lhes um sentido peculiar e próprio: o sentido do ser da "quarta parte" do mundo.

Com a conclusão anterior, alcançamos a meta final deste trabalho. Isso não quer dizer que aqui termina a reflexão, porque se é certo que agora já sabemos a maneira pela qual apareceu a América no cenário da história universal, não sabemos ainda qual é a estrutura do ser que, sob esse nome, foi atribuído às novas terras. É óbvio que haver mostrado de que maneira e por que motivos essas terras foram entendidas como a "quarta parte" do mundo, da mesma maneira e à semelhança da Europa, Ásia e África, não basta para revelar aquela incógnita. Abre-se, assim, perante nós a possibilidade de uma nova reflexão que, tomando como ponto de partida os resultados a que temos chegado, nos mostre em que consiste o ser da América e que nos entregue, portanto, a chave do significado da sua história e do seu destino. Semelhante reflexão excede, entretanto, os limites deste livro, de sorte que, com a ressalva de tentá-la em outra oportunidade, vamos nos restringir a expor, a seguir, as que podem ser consideradas suas articulações essenciais.


(1) É habitual apresentá-los assim. Veja-se, por exemplo, Morison, Admiral of the Ocean Sea. I, p. 201 e II, p. 47, 219, 307.

(2) Ao aceitar o objetivo asiático da empresa de Colombo, nós o fazemos com pleno conhecimento das polêmicas suscitadas a respeito. Muitos anos de debates resultaram numa prova irrefutável em favor da verdade desse objetivo. De qualquer maneira, a questão carece de importância para nós porque, para a compreensão do processo que vamos reconstruir, é indiferente que Colombo tenha imaginado haver chegado à Ásia depois de ter achado terra, pois nisso consiste a tese dissidente.

(3) Segunda Parte deste livro, III, 1 e 2.

(4) 4 - Ibid. IV, 1.

(5) 5 - Ibid. IV, 3

(6) O texto deste famoso documento está em Navarrete, Colección, II, v.

(7) Segunda Parte deste livro, V, 4. Nas Capitulaciones (Navarrete, Colección, II, v.) Fernando e Isabel se deixam ostentar como "senhores que são", diz o texto, "dos referidos mares oceanos" e enviam Colombo para os explorar, prometendo torná-lo almirante deles.

(8)- Vide nota 2.

(9) Diario del primer viaje de Colón, Raccolta, I,i e Navarrete, Colección I, 1.

(10) Las Casas, Historia, 44.

(11) Na mesma Carta (Barcelona, 30 de março de 1493), em que os reis dão as boas vindas a Colombo pelo seu regresso, já o encarregam de organizar, com a maior brevidade, uma segunda viagem. Navarrete, Colección, II, xv.

(12) Ibid.

(13) Ibid.

(14) "... per partes occidentales, ut dicitur, versus Indus, im mari Oceano..." Ibid.

(15) Veja-se a segunda bula Inter caetera, junho de 1493, pré-datada em 4 de maio desse ano. A linha é de demarcação e não de partilha, como se diz habitualmente. O texto da bula em Navarrete, Colección, II, XVIII.

(16) Tratado de Tordesilhas, concluído em 7 de junho de 1494 e ratificado pela Santa Sé até 1506. No tratado não só foi modificado o traçado da linha; modificou-se também a sua natureza, porque agora já se trata de uma partilha do mundo conquistável entre Espanha e Portugal. Uma circunstância capital para se entender o significado do convênio de Tordesilhas, é que nele já se pensa o Oceano como suscetível de posse. A Espanha já havia dado claras indicações de tão inusitada pretensão. Navarrete, Colección, II, v e II, xli. Portugal, por sua vez, abrigou os mesmos desejos na interpretação que inutilmente quis dar ao alcance da bula Aeternis regis, de 22 de junho de 1481. Como o Papa não concordou neste ponto, ou seja, no de atribuir soberania sobre o Oceano nem a favor de Espanha nem de Portugal, estas duas potências se entenderam sobre a questão em Tordesilhas, assim o Oceano ficou legalmente incorporado, pela primeira vez, ao orbis terrarum. (Sobre isto, veja-se mais adiante nossa análise da Cosmographiae Introductio).

(17) A bula Dudum siquidem é de 26 de setembro de 1493. Nela ficou confirmada a linha traçada na segunda Inter caetera e, de maneira expressa, foram ampliadas a concessão, a doação e a designação "a todas y cualesquier islas y tierras firmes halladas y por hallar, descubiertas y por descubrir que, navegando o caminando hacia ocidente o mediodía son o fueron o aparecieren, ora estén en las partes ocidentales o meridionales y orientales de la India". Tradução castelhana em Levillier, América la bien llamada, Kraft, Buenos Aires, 1948. I, 247-8.

(18) A este respeito consultar Tribaldo de Rossi, Su libro de cuentas (Raccolta, Fonti, II, 1), O Compendio della Cronaca Delfina (Resumo de Sanuto da Crónica escrita por Pietro Dolfin. Raccolta, Fonti, II, 2), Pietro Parenti, Crónica (em Uzielli, Toscanelli, p. 34), Rolando Malipiero, Crónica (Raccolta, Fonti, II, 25), Lucas Fancelli (Raccolta, III, i, 165), Allegretto Allegretti, Diario Sensi (Raccolta, III, ii, 3), Battista Fregoso, Crónica (Raccolta,III, ii, 75) e Aníbal Zenaro ou Januarius (Raccolta, III, ii, 141-2).Com exceção de Fregoso e Zenaro, todos empregam expressões ambíguas que demonstram a dúvida sobre a identificação, com a Ásia, das terras encontradas por Colombo.

(19) Pedro Mártir de Anglería, Opus Epistolarum. Alcalá de Henáres, 1530. Primeira edição castelhana, com estudo e tradução de José López de Toro, em Documentos inéditos para la historia de España. As cartas por nós citadas estão incluídas no primeiro tomo do Epistolarum, que corresponde ao tomo IX dos Documentos. Madri, 1953. A citação a que se refere esta nota é da carta a Juan Borromeo, Barcelona, 14 de maio de 1493. A referida passagem é a seguinte: "Post paucos indes dies rediit ab antipodibus occidius Christoforus quidam Colonus, vir Ligur, qui a meis Regibus ad hanc provinciam tria vix impetraverat navigia; quia fabulosa, quae dicebat, arbitrabantur. Rediit, preciosarum multarum rerum, sed auri praecipue que suapte natura regiones illae generat, argumenta tulit."

(20) Duas cartas, uma para o Conde de Tendilla e para o arcebispo de Granada; a outra para o Cardeal Ascâneo Sforza. Ambas são de 13 de setembro de 1493. Epistolarium, 133 e 134. O texto diz: "Mira res ex eo terrarum orbe, quem sol horarum quatuor et viginti spatio circuit, ad nostra usque tempora, quod minime te latet, trita cognitaque dimidia tantum pars, ab Aurea utpote Cheroneso, ad Gades nostras Hispanas, reliqua vero a Cosmographis pro incognita relicta est. Et si quae mentio facta, ea tenuis et incerta. Nunc autem, o beatum facimus!meorum Regum auspiciis, quod latuit hactenus a rerum primordio, intelligi coeptum est." Epistolario, 134. O problema concreto sobre o ser das terras que Colombo encontrou não parece, pois, inquietá-lo ainda.

(21) Carta para o Arcebispo de Braga, Barcelona, primeiro de outubro de 1493. Epistolario, 135.

(22) Ibid.

(23) Décadas. De Orbe Novo. A primeira edição é de Alcalá de Henares, 1530.

(24) Décadas, Dec. I, liv. I, 13 de novembro de 1493.

(25) Pedro Mártir empregou essa designação pela primeira vez em carta de primeiro de novembro de 1493, dirigida ao Cardeal Ascâneo Sforza. Epistotario, 138.

(26) Na carta a que se refere a nota anterior, Pedro Mártir escreveu a seguinte frase: "Colonus ille novi orbis repertor." Bem, estas palavras têm sido traduzidas habitualmente por "Aquele Colombo, descobridor do Novo Mundo", assim em maiúsculas, como se o autor se referisse a um ente geográfico que afirma ter sido descoberto por Colombo. Fica insinuado assim que Pedro Mártir já se refere, em 1493, a esse ente que agora chamamos Novo Mundo e que atribui à viagem de Colombo o sentido de o ter descoberto. Claro que nada pode ser mais falso e, se é verdade que os historiadores não chegam a tanto, corno admitir equívoco tão flagrante, não é menos verdade que, ao traduzirem aquelas palavras de Pedro Mártir da maneira indicada, acabaram por semear confusões nas quais eles próprios se vêem envolvidos. Veja-se, por exemplo, o caso de Samuel Eliot Morison, Admiral of the Ocean Sea, II, p.40-1. O autor não parece compreender que Pedro Mártir se mostra cético em relação à idéia de Colombo ter chegado à Ásia, e como, por outro lado, acredita que a expressão "novis orbis" foi empregada nesse momento por Mártir como nome próprio, pensa que se refere concretamente às ilhas achadas como se fossem regiões asiáticas. Assim, Morison acaba por atribuir a Pedro Mártir "o mesmo erro", diz, "que cometeu Colombo e ao qual aderiu obstinadamente por toda vida", quando, precisamente, o decisivo na atitude de Pedro Mártir foi ter resistido desde o início a isso que Morison chama o "erro" de Colombo. Morison pretende apoiar sua interpretação numa carta de Pedro Mártir de fins de 1494 (Epistolario, 142), sem se dar conta de que nessa carta o autor expõe a opinião de Colombo e não a sua própria.

(27) Colombo inclinava-se a acreditar que o litoral da Terra de Cuba era o da Ásia mas, nessa época, ainda tem dúvidas. Vide nota 31 desta parte.

(28) Segunda Parte deste livro, IV, 2.

(29) Convém deixar registrada a situação para aqueles que se interessam pelos detalhes.

a. Colombo suspeitava da existência de um colar de ilhas que se estendiam da Espanhola para o oriente e se fossem verdadeiras, tornaria mais breve a travessia do Oceano. Tratava-se das ilhas dos caribes e dentre elas se contava uma habitada só por mulheres e da qual Colombo foi informado na primeira viagem.

b. A respeito da Espanhola, a preocupação teórica principal consistia, para Colombo, em conseguir identificá-la com Cipango ou com Ofir. Também restava esclarecer se a terra contígua ao Golfo das Flechas, formava uma ilha separada ou se era o prolongamento extremo oriental da Espanhola.

c. No tocante à "Terra de Cuba" ou "Juana", havia uma dúvida totalmente semelhante à anterior, porque Colombo deixou de averiguar se a posição do litoral que explorou era um todo continuo ou se havia uma separação pelo mar, onde estava o promontório que ele chamou de Cabo de Cuba na primeira viagem.

d. Mas a grande questão consistia em saber se Cuba era terra insular ou se formava parte de terra firme. Se por acaso se tratasse de uma ilha, o projeto consistia em prosseguir na busca do continente, cujo achado era o desejo mais veemente do explorador e a missão especial encarregada pelos reis. Las Casas, Historia, I, lxxxi e xciv.

e. Por último, o programa incluía o objetivo geral de reconhecer o maior número possível de terras. A este respeito Colombo tinha em mente a região que os naturais lhe haviam assegurado existir no sul e à qual chamava Yamaye (Jamaica?).

(30) Las Casas, História, I, xci, "...y bien la llamaron los indios Cibao, de ciba, que es piedra cuase pedregal, o tierra de muchas piedras." Da mesma maneira Bernáldez, Historia, cap.121. Ver, também, Pedro Mártir, Décadas, Dec. I, liv. I, cap. 4, e I Reyes , IX, 28. Também Pedro Mártir, Epistolario, 124. Carta de 9 de agosto de 1495.

Outro local que Colombo tentou identificar foi a região de Saba. Nisto tem ocorrido algum equívoco. Em realidade não parece tratar-se da Espanhola, mas da Ilha Gorda, de difícil localização. Morison, Admiral Ocean Sea, II, pp.79 e 81. Syllacio foi quem afirmou tratar-se da Espanhola, mas deve corresponder a uma má interpretação originada num incidente relatado por Cuneo; Raccolta, III, ii, 107. Syllacio acreditou, por outro lado, que Colombo estava nas vizinhanças da Arábia pois supõe que a viagem foi via oriente e não através do Oceano. Ver Nicolo Syllacio ad sapientissimum L. Mariam Sforzam. Pavia, 1494. Trata-se de um relato baseado em informações de Guilhermo Coma, que estava na segunda viagem. Raccolta, III, ii, 83-94. Tradução inglesa em Thacher, II, p. 243-62. Verifica-se a fantasia exaltada de Syllacio sobretudo na parte em que relata a expedição de Ojeda y Gorbolán a Cibao em busca de ouro.

31 - Na Información y testimonio sobre a exploração de Cuba, Colombo declara expressamente que, ao regressar da primeira viagem, estava em dúvida se essa terra era ou não uma ilha. Disse que "no declaró afirmativo que fuese tierra firme, salvo que lo pronunció dubidativo, y Ia había puesto nombre la Juana, a memoria del príncipe don Juan, nuestro señor". Navarrete, Colección, II, lxxvi.

32 - "Informacíon y testimonio acerca de Ia exploracíon de Cuba". 12 de junho de 1494. Navarrete, Colección, II, lxxvi.

33 - Bernáldez, Historia, cap. 123.

34 - Las Casas, Historia, I, xcix, reluta-se em admitir que Colombo tivesse intenção de ir às ilhas dos caribes para fazer escravos. É de se temer, no entanto, que esta era a sua intenção. Veja-se Pedro Mártir, Décadas, Dec. I, liv. III, cap. 8.

35 - Consulte-se, entre os muitos testemunhos que se pode citar para documentar esse ceticismo, a Carta de Colombo sobre sua terceira viagem (Navarrete, Colección, I, p. 244-5) e outra Carta de Colombo transcrita em parte pelo padre Las Casas (Historia, I, cxxxvi).

36 - Lembremo-nos dos comovedores esforços de Colombo para impressionar favoravelmente aos reis e ao povo durante o percurso de Sevilha a Almazán, onde estava a corte. Bernáldez, Historia, cap. 131, e Las Casas, Historia, I, cxii.

37 - Vejam-se, por exemplo, os documentos em Navarrete, Colección, II, cix,cxiii, cxiv, cxxii, cxxv e cxxvi.

38 - Real Provisión a respeito dos que queriam povoar as índias e dos que desejavam descobrir novas terras. 10 de abril de 1495. Navarrete, Colección, II, lxxxvi.

39 - Cuneo, "Relato da Segunda viagem". Raccolta, III, ii, 107.

40 - Pedro Mártir, Epistolario, 142, 152, 156,158 e 164. Duas cartas são de fins de 1494 e as restantes, de 1495.

41 - Isso é o que se infere da afirmação em sua Carta sobre a terceira viagem, em que diz que os reis eram agora senhores do monte Sophora, que está na ilha Espanhola. Navarrete, Colección, I, p. 244. Pierre d'Ailly, Imago Mundi, cap. 39, menciona esse monte como um promontório na Índia oriental, para onde Salomão enviava sua frota. Colombo numa anotação repete a informação. Anotações, 304, 374 e 500.

42 - Não parece casual que tenha sido exatamente até 1495, quando os portugueses decidiram realizar a viagem à Índia apesar de o Cabo da Boa Esperança ter sido descoberto anos antes. A viagem só foi empreendida por Vasco da Gama em 1497.

43 - Colombo, anotação 36 à História rerum ubique gestarum de Pio II (Aeneas Sylvius Piccolomini).

44 - Colombo, Carta sobre a terceira viagem enviada aos reis em outubro de 1498. Raccolta I, ii, 26-40. Diz Colombo: "... y yo navegué al austro, con propósito de llegar a la línea equinoccial y de allí seguir al poniente hasta que la isla Española me quedase al septentrión."

45 - No Diario del tercer viaje. Raccolta, I, ii, 5, expressamente afirma-se esse propósito: "... y quiere ver (Colombo) cuál era la intención del rei don Juan de Portugal, que decía al austro había tierra firme." Sobre o mesmo assunto, consulte-se a Carta dos reis a Colombo, de 5 de setembro de 1493. Navarrete, Colección, II, lxxi.

46 - Colombo, Diario del tercer viaje. "Yo estoy creído que esta es tierra firme grandisima, de que hasta hoy no se ha sabido." Raccolta, I, ii, 22.

47 - Segunda Parte deste livro, III, 3.

48 - Ibid., III, 2.

49 - Colombo, Diario del tercer viaje. (Raccolta, I, ii, 22.) Em nenhum momento parece que Colombo tenha identificado esta terra firme que achou com a que o rei de Portugal havia imaginado.

50 - Segunda Parte deste livro, III, 2 e 3.

51 - Colombo, Diario del tercer viaje. Diz: "Y si esta es tierra firme, es cosa de admiración, etc..." Raccolta, I, ii, 22.

52 - Ibid. Raccolta, I, ii, 24.

53 - Uma interessante especulação sobre o Paraíso Terrestre em Las Casas, Historia, I, cxli-cxlv. Vejam-se as anotações de Colombo ao Imago Mundi de d'Ailly, números 19, 40, 47, 313, 397 e 398.

54 - Carta sobre sua terceira viagem, já citada nestas notas. Raccolta, I, ii, 26-42. Escrita entre 30 de maio e 31 de agosto de 1498 e enviada em outubro desse ano.

55 - Veja-se nota 41

56 - Carta de Colombo sobre sua terceira viagem. Raccolta, I, ii, 34-6. Pedro Mártir, Décadas, Dec. I, liv. 6 em diante, considerou absurdas e ininteligíveis estas especulações de Colombo. Sabemos que esta idéia de uma montanha de água não necessita de antecedentes medievais. Veja-se a Segunda Parte deste livro, III, 3 e nota 22.

57 - Veja-se Las Casas, Historia, I, cxlv.

58 - Carta de Colombo sobra sua terceira viagem. Raccolta, I, ii, 37 e 38.

59 - Ibid. Raccolta, I, ii, 39.

60 - Raccolta, I, ii, 46-8.

61 - Ibid. I, ii, 46 e 47.

62 - Navarrete, Colección, I, 265-76.

63 - São João, Apocalipsis, XXI, I: Et vidi coelum novum, et terram novam. Isaías, LXVI, 22: Quia sicut coeli novi, et terra nova, quae ego facio stare coram me, dicit Dominuis: sic stabit semen vestrum, et nomen vestrum.

64 - É significativo que Colombo altere expressamente os textos citados por ele, quando os aplica à Terra de Paria, pois em lugar de repetir "nuevo cielo y tierra" diz que empreendeu "viaje nuevo al nuevo cielo y mundo que hasta entonces estaba en oculto". Navarrete, Colección, I, pp. 267-68.

65 - Raccolta, I, ii, 164-6.

66 - Pedro Mártir, Décadas, Dec. I, liv.6 em diante.

67 - Veja-se José Toríbio Medina, El descubrimiento del Oceáno Pacífico; Vasco Núñez de Balboa, 1913-20, para um relato dessas viagens. Para a de Ojeda, que é "a segunda navegação de Vespúcio", consultar Levillier, América la bien llamada, I, pp. 107-14 e 123-34.

68 - O original deste mapa encontra-se no Museu Naval de Madri. Referências: Harrisse, The Discovery of North America. Londres e Paris, 1892. Reproduzido em Nordenskiöld, Periplus, 149, Lâminas XLIII e XLIV.

69 - Esta viagem de Vespúcio, como tudo o que fez, motivou longas e apaixonadas discussões eruditas que, para nós, se revestem de importância secundária. Decisivo em nosso problema não são os itinerários e outros detalhes dessa natureza, mas os conceitos que aparecem nos escritos do navegante.

70 - Carta de Cabo Verde, 4 de junho de 1501, e Carta a Lorenzo di Pier Francesco de Medici, Sevilha, 18 de julho de 1500. Referências: Levillier, América la bien llamada, II, 278-81 e 275-8. Texto com tradução para o castelhano e para o inglês: Vespúcio, Cartas, 126-41; 283-9 e 94-125; 271-83.

71 - O texto citado diz: "perche mia intenzione era di vedere si potevo volgere uno cavo di terra, che Ptolomeo nomina in Cavo di Cattegara, che e giunto con il sino Magno." Carta de 18 de julho de 1500. Vespúcio, Cartas, 98.

72 - O "Sino Magno" ,a que se refere Vespúcio é o nome que se dava ao golfo que separava o Quersoneso Áureo da suposta península adicional, em cuja existência Vespúcio acreditava.

73 - "E io tengo speranza in questa mia navegazione rivedere, e correre gran parte del sopradetto, e discoprire molto piu." Carta de Cabo Verde. Vespúcio, Cartas, 136.

74 - "... Spero venire in fama lungo secolo, se io torno con salute di questo viaggio." Carta de Cabo Verde. Vespúcio, Cartas, 128.

75 - A Carta autorizando a viagem, o documento de instruções e a Carta para o capitão da armada portuguesa, em Navarrete, Colección, I, 277-82. Os três documentos estão datados de Valência de la Torre, a 14 de março de 1502.

76 - Diego de Porras, Navarrete, Colección, I, 284. Fernando Colombo, Vida, cap. 88, e Oviedo, Historia, Primeira Parte, III, cap. 9, documentam a busca da passagem corno meta imediata da viagem.

77 - Para a reconstrução pormenorizada do itinerário da terceira viagem de Vespúcio, Levillier, América la bien llamada, II, 322-37

78 - Isso explica que a partir desse momento os textos não descrevem o itinerário como até então. Levillier distribui os dias em que a armada esteve sob o comando de Vespúcio, ao menos nominalmente, digo eu, da seguinte maneira: 20 dias até a chegada ao rio Jordão (hoje rio da Prata); 10 dias gastos na exploração da sua embocadura, os demais no restante do percurso para o sul.

79 - De acordo com Levillier, Vespúcio levou a exploração até a Patagônia, em 46o ou 47o de latitude sul. Quando os navegantes chegaram ao rio Jordão, devem ter acreditado que, por fim, haviam dado com o extremo da península e, por conseguinte, com a passagem para o Índico. Isso explica o tempo que gastaram explorando essa embocadura.

80 - Para a reconstrução do itinerário da quarta viagem de Colombo, veja-se Morison, Admiral of the Ocean Sea, II, caps. 44-50.

81 - "Yo, que, corno dije, había llegado muchas veces a la muerte, alli supe de las minas de oro de la província de Ciamba, que yo buscaba." Colombo, Lettera Rarissima, 7 de julho de 1503, Navarrete, Colección, I, 298. Ciamba é a Conchinchina da geografia de Marco Polo.

82 - Colombo, Lettera Rarissima. Navarrete, Colección, I, 299.

83 - Pedro Mártir, Carta ao Cardeal Bernardino de Carvajal. Espistolario, 168. 5 de outubro de 1496, mas evidentemente da data posterior ao regresso de Colombo em outubro de 1500. Disse Pedro Mártir que Colombo "supone que estas regiones (Paria) están consignas y pegadas a Cuba, de manera que ambas sean el proprio continente de la India Gangética".

84 - Com este título Jacobo Moreli publicou a carta em 1810. Em 1505, havia sido impressa em Veneza, em tradução latina. A carta deve ter chegado à Espanha, no mais tardar, em fins de julho de 1504. Texto em Navarrete, Colección, I, 296-313. Trata-se de um estranho documento que revela a confusão mental do almirante, vítima, na oportunidade, de sua abalada saúde. Veja-se a alucinação que teve nesta viagem e que relata em cores tão patéticas.

85 - Os croquis originais foram desenhados por Bartolomeu Colombo à margem de uma cópia da Lettera Rarissima. Veja-se: F. R. von Wieser "Die Karte des Bartolomeo Colombo über die vierte Reise das Admirals." Reimpressão de Mitt. Des Inst. Für Österreichische Geschichtsforschung. Innsbruck, 1893.

86 - Carta de 1502, enviada de Lisboa a Lorenzo di Pier Francesco de Medici, Vespúcio, Cartas, 142-53.

87 - Esta expressão não se refere à idéia de um quarto continente; significa que a navegação compreendeu 90o de latitude terrestre, ou seja, 40o de Lisboa até o equador e 50o até o limite da exploração.

88 - Carta fragmentária relativa à terceira viagem. 1502, Vespúcio, Cartas, 154-69.

89 - Carta chamada "El Nuevo Mundo". 1503, Vespúcio, Cartas, 170-95.

90 - Veja-se a respeito e como exemplo, as exaltadas frases do meu admirado amigo Roberto Levillier em sua América la bien llamada, II, pp. 334-5.

91 - Contarini, Giovanni Matteo, Mapa gravado por Francesco Roselli, Florença (?) 1506. Referências: J. A. de Villiers, A Map of the World designed by Gio. Matteo Contarini, Londres, 1924. Reproduzido na citada obra de Villiers.

92 - Uma diferença notável é que o Kuntsmann II unicamente traça o desenho dos litorais das novas terras, sem se atrever a completá-los imaginariamente, como acontece nos três mapas.

93 - Esta idéia está confirmada pelo título do mapa de Cantino, que expressamente se refere às novas terras como ilhas. A mesma idéia parece no título que o primitivo editor italiano deu à Carta de Vespúcio de 4 de setembro de 1504, sem que isso signifique que este tenha sido o pensamento de Vespúcio.

95 - Vespúcio, Cartas, 201.

96 - Ibid. 201.

97 - lbid. 203, 233, 251 e 259.

98 - Ibid. 204-5.

99 - Ibid. 205 e 233.

100 - Ibid. 246.

101 - "En cuarenta y cuatro días llegamos a una tierra, que juzgamos era tierra firme y continuación de la más arriba mencionada." Refere-se à que acharamna primeira viagem. Vespúcio, Cartas, 233.

102 - Cosmographiae Introductio. Cum quibusdam geometrial ac astronomiae principiis ad eam rem necesariis. In super quatuor Americi Vespucii navigationes. Universalis cosmographiae descriptio tam in solido quam plano eis etiam insertis quae Ptholomeo ignota a nuperis reperta Sunt.

103 - Waldeesmüller, Martin. Universalis Cosmographia secundum Ptholomaei Traditionem et Americi Vespucii aliorumque lustrationes. Sr. Dié ou Estrasburgo, 1507. Referências: Jos. Fischer e Franz von Wieser, The Oldest Map with the name America of the Year 1507 and the Carta Marina of the Year 1516 by M. Waldsseemüller.(Ilacomilus). Innsbruck, 1903. Reproduzido pelos mesmos autores em Die Weltkarten Waldsseemüllers, Innsbruck, 1903.

104 - " ... et sunt tres prime partes cótinentes/quarta es insula." Constata-se que o termo "continentes" está empregado sem distinção do termo "ilha", na sua acepção latina, para significar que uma coisa está próxima da outra, está junto ou é contígua a ela.

106 - A este respeito, é pertinente lembrar uma aguda observação de Nietzsche, quando diz: "a originalidade consiste em ver alguma coisa à qual ainda não se pode dar um nome, apesar de já estar à vista de todos. Conforme as pessoas se organizam, o nome é o que torna a coisa visível. As pessoas originais têm sido também, em sua maioria, as que dão nomes às coisas". (La Gaya Ciencia)

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