Do fenômeno social da transculturação e sua importância em Cuba

Fernando Ortiz
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Comentário: Lívia Reis (UFF)

Publicado pela primeira vez em 1940, no livro Contrapunteo cubano del azúcar y del tabaco, o texto de Fernando Ortiz tornou-se referência obrigatória para toda e qualquer reflexão sobre o fenômeno da mestiçagem não apenas em Cuba mas por analogia, em toda a América.

Fernando Ortiz, filho de pai espanhol e mãe cubana, nasceu em Havana, em 1881. Cresceu entre Cuba e Espanha, onde graduou-se em bacharel e doutor em Direito. Viveu o momento histórico do fim de século em dois lugares com crises paralelas: Cuba, em processo de independência e, posteriormente jovem república e a Espanha, em processo de declínio do poderio colonial. Sua formação, tanto na Europa quanto em Cuba, favoreceu uma mente inquisidora que, embora tenha começado pelo estudo das leis, foi levada aos mais diversos campos do saber nos quais se destacou, deixando profundas marcas. Depois da carreira jurídica, dedicou-se à sociologia, a seguir à arqueologia, à história, à filologia, à antropologia, à musicologia, à lingüística, ao folclore e à etnologia.

Em Cuba, Ortiz é chamado o "terceiro descobridor", depois de Colombo e Humbold, pois sua obra erudita, científica e ao mesmo tempo vastíssima, foi um dos principais fatores na formação identitária de Cuba. Durante sete décadas ele pensou, escreveu livros, artigos para jornais, proferiu conferências, criou inúmeras revistas, editoras e instituições, enfim, foi o que hoje se poderia chamar de um agitador cultural. Porém, o fundamento de suas reflexões e as múltiplas facetas do pensador e do homem de cultura sempre giraram em torno de um tema principal: Cuba e a dinâmica de sua formação social, econômica e cultural.

Segundo outro escritor cubano, Lizandro Otero, "um dos primeiros problemas de Ortiz, no desempenho de suas investigações, foi a falta de instrumentos adequados à sua nova tarefa: não existiam precedentes, nem vocabulário científico adequados à descrição dos fenômenos que investigava" (OTERO, 1982).

Da necessidade gerada pela carência de uma terminologia científica própria, para as então nascentes Ciências Sociais, Ortiz criou novos termos como, por exemplo, afro-cubano, e aquele mais conhecido e que nos interessa discutir neste momento: transculturação, empregada pela primeira vez no ensaio em questão.

Do fenômeno social da transculturação e de sua importância em Cuba , é o segundo capítulo, em um conjunto de ensaios, daquela que vem a ser a obra mais importante e conhecida do escritor cubano: Contrapunteo cubano del azúcar y del tabaco . Nesta obra, produzida em plena maturidade, Ortiz analisa em profundidade a história econômica, ao mesmo tempo em que produz uma das obras literárias mais brilhantes da literatura cubana. Por seu estilo, na fronteira entre o literário e o ensaístico, por sua prosa irônica e irreverente, pelas freqüentes brincadeiras e jogos de palavras, a obra reduz a distância entre o olhar científico e o objeto. Como afirma Roberto González Echevarría, "o Contraapunteo define o cubano a partir do cubano, em um discurso cubano e mediante uma metodologia cubana"(ECHEVARRÍA, 1996, p.25).

Ao longo da obra, o autor constrói um jogo dialético entre o açúcar e o álcool, principais produtos de Cuba e elementos primordiais no desenvolvimento da economia cubana, do passado colonial aos dias de hoje. Contrapondo os produtos como entidades abstratas: o branco do açúcar ao marrom do fumo, o doce ao amargo, o alimento ao veneno, a carne ao espírito, o sol à lua, o dia à noite, a água ao fogo, aliados à uma imaginação exuberante e a uma documentação científica vasta e precisa, o resultado é uma obra sem igual na cultura e na literatura cubana.

O ensaio Do fenômeno social da transculturação e de sua importância em Cuba, além de propor e advogar o uso do termo teórico transculturação é, dentro do conjunto do livro, aquele mais preocupado com as questões relativas às ciências sociais. Ao traçar uma arqueologia da formação do povo cubano, o autor, com todo o vigor e ao mesmo tempo a leveza de sua retórica, visita os diversos grupos que se mesclaram e resultaram no que hoje chamamos de cubanos. Desde as origens pré-históricas, marcadas pela presença de diversos povos indígenas, nativos da ilha, em diferentes graus de desenvolvimento, até a chegada dos europeus com seu "furacão cultural" e, por último, dos negros, oriundos de várias etnias africanas, a história de Cuba foi a história do encontro múltiplo e variado, não apenas de povos, etnias, raças, mas sobretudo de culturas e economias distintas, em choque permanente.

O ponto primordial e a razão pela qual Ortiz advoga a criação e o uso de um novo vocábulo é, segundo sua própria argumentação, a inexistência de um termo que possa abarcar e significar este processo sempre em movimento, que é o encontro dos povos e de suas culturas. O vocábulo proposto, transculturação, designa simbiose de culturas, "fases do processo de transição de uma cultura à outra, porque este processo não consiste somente em adquirir uma cultura diferente" (ORTIZ,1983,p.90), como sugere o sentido estreito do vocábulo anglo-saxão, aculturação. O sentido que Ortiz atribui ao neologismo transculturação implica também a perda de uma cultura anterior, o que ele denomina desculturação, e a criação de novos fenômenos culturais, o que chama de neo-culturação. Todas as fases do processo, em seu conjunto, é transculturação.

Este ensaio de Ortiz, bem como grande parte de sua obra, teve como inspiração o interesse do antropólogo/sociólogo pela cultura negra que, transplantada da África, floresceu em Cuba, gerando muitos fenômenos culturais e idiossincrasias da cultura cubana ou da cubanidade. Ao longo do texto, pode-se vislumbrar que entre as variadas transculturações que marcaram a história de Cuba, o autor ressalta que nenhuma foi mais cruel que a dos negros. Como os brancos, os negros chegaram ao novo mundo que lhes era totalmente estranho mas, diferentemente dos primeiros, que chegaram com o afã civilizatório, de conquista e de riqueza, os negros foram transplantados totalmente contra sua vontade. Para Ortiz, embora o processo seja doloroso para todos, os negros, por sua condição de absoluta subalternidade em um sistema escravocrata, foram os que mais sofreram no movimento de transplantação espacial e cultural, corte radical com suas raízes, enfim, transculturação.

Para o autor, a necessidade do neologismo proposto é vital, pois não há nenhum outro fenômeno de maior transcendência na formação histórico- social do povo cubano que a mestiçagem, e esta não pode ser entendida sem um conceito teórico que lhe dê sustentação.

O exame atento do texto aponta para a possibilidade de leituras em várias direções: como documento etnográfico, análise sociológica, antropologia social, história cultural, além dos méritos literários, resguardados por uma linguagem rica em metáforas, imagens, comparações, aliterações, reiterações, ritmo etc... Para além destas possibilidades de leitura, um ponto deve ainda ser ressaltado: a extrema contemporaneidade da reflexão elaborada por Ortiz , em um trabalho produzido em 1940.

A forma pouco ortodoxa com que Ortiz analisa o processo civilizatório que se deu em Cuba, com suas sucessivas ondas migratórias de origens e culturas diversas, seus conseqüentes desencontros, choques, disputas, lutas hegemônicas, aplastamento racial, desarraigamento cultural e geográfico, para se alcançar enfim a dolorosa convivência e posterior interpenetração cultural, em nada faz lembrar as teorias de corte positivistas, tão em voga na época, seguidas pelo próprio Ortiz quando jovem. Mesmo com uma certa dose de empirismo, não se pode negar que no Contrapunteo , Ortiz logrou construir uma obra síntese, de equilíbrio teórico e metodológico, sustentada por uma reflexão original, desvinculada das amarras teóricas das principais correntes da época.

No momento em que os estudos literários e sociais se aproximam; em que o interdisciplinar se torna multidisciplinar; quando constatamos que somos produto de culturas híbridas que convivem a partir de sua heterogeneidade multicultural, o sentido de transculturação cunhado por Ortiz pode ser visto como grau zero, em uma possível escala dos estudos culturais latino americanos. O autor foi pioneiro entre os pensadores que, ao longo do século, vêm buscando entender e explicar os paradoxos culturais que fazem parte de nossa origem e formação, sempre buscando uma forma de ver o homem americano na sua multiplicidade. Sua reflexão permanece, na medida em que ainda é uma maneira atual e vigorosa de dirigirmos nosso olhar para nós mesmos. O conceito de transculturação continua básico para qualquer reflexão identitária, não apenas em Cuba, mas em toda a América .

Referências bibliográficas

1-GONZÁLEZ ECHEVARRÍA, Roberto. El contrapunteo y la literatura . In: La Gaceta de Cuba , Havana no.2, Ano 34, março/ abril, 1996.

2-LAMORE, Jean . Tranculturation: naissance d' un mot. In: LACROIX, Jean & CACCIA, Fulvio. Metamorphoses d' un utopie. Presses de la Sorbonne Nouvelle Édition, Paris: 1992.

3- LE RIVEREND, Julio. Ortiz y sus contrapunteos . In: Contrapunteo cubano del azúcar y del tabaco . Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 1983.

4- OTERO, Lisandro. Fernando Ortiz, pai da antropologia cubana . In: O Correio da Unesco. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1982.

5-ORTIZ, Fernando. Contrapunteo cubano del azúcar y del tabaco . Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 1983.

6-RETAMAR, Roberto Fernández. Caliban e outros ensaios . Trad. Maria Helena Matte Hiriart e Emir Sader. São Paulo: Busca Vida, 1988.