O laboratório do escritor

e

Ficção e política na literatura argentina

Ricardo Piglia
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Comentário: Márcia Ivana de Lima e Silva (UFRGS)

A obra de Ricardo Piglia é marcada pela crítica às relações sociais e políticas. Quer se dedique à ficção quer escreva ensaios, Piglia não deixa escapar a consciência que possui a respeito da tarefa do intelectual (escritor ou não) numa realidade repleta de precariedades como a nossa, a latino-americana.

O livro O laboratório do escritor apresenta um conto "O fim da viagem", uma coletânea de entrevistas e uma conferência. Sobre esta última e sobre uma das entrevistas recai, principalmente, nosso interesse.

A entrevista intitulada "O laboratório do escritor", que dá nome ao livro, concedida a Beatriz Sarlo e Carlos Altamirano em 1982, mostra-nos o início da vida de escritor de Piglia, suas influências e sua consciência estética e política. Sobre sua obra, ele afirma que "tentei construir minhas histórias a partir do não-dito, de certo silêncio que deve estar no texto e sustentar a tensão da intriga" (p.84), ressaltando que esta é uma constante técnica por ele buscada.

Piglia alerta para a importância do trabalho com a linguagem como o fator essencial da literatura, pois ela "trabalha com os limites da linguagem, é uma arte do implícito" (p.84). Tais afirmações podem ser comprovadas pela excelência de seus textos ficcionais, tanto no apuro discursivo de suas narrações como na engenharia de criação dos universos fictícios. Sua concepção de literatura, no entanto, é maior do que essa, porque Piglia a vê como "um espaço fraturado, onde circulam diferentes vozes, que são sociais" (p.69), principalmente porque "as relações da literatura com a história e a realidade são sempre elípticas e cifradas. A ficção constrói enigmas com os materiais ideológicos e políticos, os mascara, os transforma, os coloca sempre em outro lugar" (p.72).

Essa mesma atitude crítica aparece na conferência "Ficção e política na literatura argentina", intervenção no congresso sobre Cultura e Democracia na Argentina , promovido pela Universidade de Yale em abril de 1987. Partindo da experiência de organização social dos índios, Piglia discute a relação entre literatura e política, concluindo que "o Romance e o Estado. Dois espaços irreconciliáveis e simétricos. Em um lugar se diz o que no outro se cala. A literatura e a política, duas formas antagônicas de falar do que é possível" (p.91). Para ele, a literatura carrega importância fundamental para a formação das diversas visões de mundo na sociedade, e o escritor, por conseguinte, tem um papel social intransferível, porque ele é capaz de desnudar os meandros das relações sociais e políticas.

O inusitado de sua conferência é a idéia de como se dá tal desnudamento: através da "negação e contra-realidade" (p.93). Ou seja, é fazer do texto literário o campo de possibilidade das diversas verdades, sem compará-lo necessariamente à realidade, pois seu maior compromisso é com a utopia, "a presença da ficção na realidade" (p.93).

Piglia parte da idéia de que "literatura é sempre inatural, diz em outro lugar, fora de hora, a verdadeira história. No fundo, todos os romances acontecem no futuro" (p.93), estabelecendo, assim, um novo paradigma para pensarmos a relação entre realidade e ficção. Dessa forma, propõe uma nova visão de literatura e, consequentemente, uma nova forma de organizar a história literária: "a tradição dessa política que pede o impossível é a única que pode nos justificar" (p.94).

Ao lançar sua intervenção no congresso quase como um manifesto, com afirmações contundentes e conceituação precisa através de frases curtas, Piglia ratifica sua crença de que a tarefa do intelectual, o escritor aí incluído, é ver e rever a realidade sempre criticamente, é buscar no acervo literário nacional (vale para qualquer país) páginas que possam compor uma memória digna de ser louvada, que possam contar a história do não dito, do subentendido.