Palavra, literatura e cultura nas formações discursivas coloniais

Ana Pizarro

Tradução:

Sérgio R. da Silva

PIZARRO, Ana. Palabra, literatura y cultura en las formaciones discursivas coloniales. In: PIZARRO, Ana (Org.) América Latina: Palavra, literatura e cultura. Campinas: UNICAMP, 1993. Vol. 1, pg. 19 - 37.

Comentário: Ligia Chiappini (Univ. Livre de Berlim)

PALAVRA, LITERATURA E CULTURA NAS FORMAÇÕES DISCURSIVAS COLONIAIS

O conjunto de problemas que apresentamos nos trabalhos deste volume fazem parte de uma reflexão de alguns temas, de nossos discursos, na situação histórico colonial. A perspectiva que se desprende destes trabalhos surge da configuração de um espaço de problemas específicos, que possuem um tempo e um ritmo próprios, que sugerem uma forma de periodização e exigem um tratamento adequado, em relação aos quais faremos algumas observações na presente introdução. Esta perspectiva poderia qualificar-se de histórico-literária e comparativa.

A reflexão que publicamos, longe de estabelecer normas, de pretender a exaustão, de propor a en ganosa objetividade das narrativas históricas, tenta enfrentar este período, através de um número de temas, como uma proposta de problematização. Ao falar de história literária estamos utilizando uma expressão convencional por uma pers- pectiva que a ultrapassa. Em efeito, sobre tudo quando nos aproximamos ao conjunto de formações discursivas observadas no Novo Mundo, entre os séculos XV e fins do século XVIII, na América Hispânica e até o princípio do século XIX, no Brasil - a história pro- priamente colonial -, a linguagem ne- cessita desfazer as fronteiras disci- plinárias e assumir uma ampla visão cultural, em um espaço de fusão, de intersecção de disciplinas, tais como: a história cultural, a sociologia da cul- tura, a história literária, a história das idéias, a semiologia, a crítica literária ou a antropologia cultural e simbólica, entre outras. A estrita perspectiva histórico-literária tradicional, assenta da na seqüência da contingência e o relato particularizado, não parece entregar os instrumentos necessários para dar conta de uma realidade múl- tipla em manifestações e plural em linhas de mundo simbólico, como é a que observamos hoje no período que nos ocupa: oralidade, diversidade de estratos míticos, formas diferentes de escritura, transcrição, tradução, mul- tiplicidade de línguas, textualidades variadas, receptores inscritos em or- dens culturais altamente diferenciadas e inclusive antagônicas, em tanto ins- tâncias geradoras de sentido. Assim a sintaxe que aborda o discurso crítico desliza suas significações entre o gesto, o texto, a festa, a musica- lização, o detalhe arquitetônico, o ri- tual fúnebre, ou bem entre a simbo- logia pictográfica, a escritura ideo- gráfica, a versão oral, a transcrição, a transposição a um código cultural diferente, o alfabeto.

Mais além da transdisciplinari-dade, a problematização das concepções histórico - literárias tradicionais tem a ver com o canon , com a discussão da possibilidade de pensar a história em termos de esquema linear e unicultural para concebê-la como articulação de séries ou sistemas que, ao justapor- se, enfrentar-se, transformar-se ou apoiar-se, não podem ser absorvidas em uma significação única, senão em níveis diferenciados e em forma de relação. Neste sentido começam a ser relevantes novas instâncias de aná- lises, tais como os mecanismos desta relação, seu estabelecimento, seu pro- cesso, as possibilidades que propõem um discurso que, pelas condições da situação colonial em que se gestiona, desenha em sua história a busca de expressão. Os trabalhos sobre o perío- do colonial nos últimos anos deram passos importantes neste sentido. As pesquisas que agora apresentamos abrem novos espaços nessa direção.

A discussão relativa ao canon parecia ter a ver com situação colonial com várias questões que importa aclarar: o questionamento do canon como tal, a diferenciação entre canon peninsular e canon colonial, a constituição do corpus e a evolução da função literária.

Em uma primeira aproximação, o restringido âmbito da "literatura" em sua dimensão de "belas letras" resulta amplamente transbordado pela pluralidade das práticas discursivas orais e escritas que pode ser observado no Novo Mundo na dupla linha de tradições onde se inscrevem: por um lado a oralidade, a formação pictográfica, ideográfica e incipientemente fonética, por outro a literatura escrita e em línguas européias; por um lado a gestualidade, o manuscrito, a memória, por outro as letras, o livro, a leitura; por uma parte a pluralidade lingüística e cultural em diversos graus de complexidade, por outras as línguas européias apontando à homogeneização; por uma parte as "palabras pronunciadas con el corazón caliente", "la flor y el canto", por outro a literatura; por um lado os poetas, por outro os donos do dizer. Em ambas tradições culturais haverá uma reorganização de funções a partir de 1492, que dará conta de sua nova situação, a de literaturas em relação. É o momento em que surge para o pesquisador a possibilidade de análise comparada nos termos de nossos interesses atuais. Surgem as novas fronteiras culturais que delineiam a face do continente hoje.

Dominação e submissão estabelecerão a ordem da cultura e ditarão o canon da literatura que desembarca, mudando para a ilegitimidade as manifestações equiva lentes das culturas originárias. O canon , então é dominado pela escritura e as formações discursivas construídas a partir dela; o canon é o gênero que se institui de acordo com o modelo peninsular, o absoluto estético da identidade frente à sua ocupação, desde sua perspectiva, indefinido e menor da alteridade. Este canon rege os critérios da história literária, como os da historiografia que o regulará mais tarde, como disciplina que experimenta, recordando a expressão de Foucault, "uma repugnância singular em pensar a diferença, em descrever os desvios e dispersões, em dissociar a forma do idêntico" (1).

Frente a este canon as pesquisas sobre a oralidade e sobre suas distintas expressões estéticas - cuja linha retomam e desenvolvem alguns dos trabalhos deste volume - colocam em evidência um questionamento, assim como a necessidade de reformular o corpus do que se considera a literatura do período a partir da produção cultural que se realiza desde a ocasião. Se trata neste caso de retomar o caminho aberto pelas solitárias publicações de Miguel León Portilla, Angel María Garibay, Georges Baudot, León Cadogan ou Jesús Lara. A constituição de uma formação cultural construída com base numa pluralidade de linhas, a sistemas paralelos em relação de submissão que propiciam novas instâncias emergentes portadoras do signo transcultural, desenhará a tônica da "história verdadeira" da literatura do continente na pluralidade dos discursos que ajustam sua expressão.

Ao questionar o canon desde a oralidade fica também em evidência outro fenômeno, o do corpus da literatura do período colonial - como o da literatura latino-americana em geral hoje - ainda está em constituição. Nos parece relevante neste sentido a apresentação de textos como o da Relação autobiográfica da monja Ursula Suárez, um documento descoberto recentemente, uma escritura que está anunciada desde os interstícios onde vivem as formas de submissão que não conseguiram formas de autorização. Neste caso é a escritura de mulher, outra forma de diferença.

Se trata agora da relação entre o canon e o corpus . O problema central, de acordo com W. Mignolo, seria o da configuração do corpus que, no entanto "construção disciplinária de um campo de pesquisa", foi construído através do canon . A instauração do canon tem sido um processo de entronização, produto das circunstâncias históricas. Sendo o canon um " corpus verbal na qual uma comunidade cria sua identidade", o colonizador peninsular impôs seu modelo e estabeleceu seu próprio sistema de hegemonias:

Enquanto que a constituição do canon - disse o crítico - representa a estética e o gosto daqueles que regulam as práticas discursivas, a configuração do corpus reflete, em troca, os princípios que regulam a ocupação do estudo das práticas discursivas (2).

Estes conceitos não devem identificar-se. Não se trata, com a inserção de novos e diferentes discursos no âmbito da literatura, de transformar o canon senão de reformular o corpus , como não é questão, com a consideração de textos informativos, da discursividade oral ou de documentos pictográficos de "recolocar o canon do corpus ", senão de considerá-lo como parte do corpus . No caso das literaturas indígenas, se trata inclusive de aceitar uma realidade que é própria da história da região, que existem sistemas paralelos com formas canônicas incertas em tradições simultâneas e com valorização equivalente nas respectivas culturas.

O certo é, em relação a este problema, que as pesquisas coloniais têm expandido seu campo de estudo mudando o interesse tradicional do estudo das idéias estéticas no tempo, pelo estudo da diversidade de práticas culturais sincrônicas, dialógicas, relacionais e interativas (3).

Uma situação parecida, ainda que com outras características, se apresentou com a omissão tradicional da unidade cultural luso-brasileira na configuração do corpus literário latino-americano, de onde prevaleceu uma hegemonia hispano-americana, estimulada pela variável lingüística que tende a representar muitas vezes um risco ao estudo comum. No caso dos estudos que publicamos, estamos tentando entregar uma perspectiva que, sendo considerada, não perca de vista as necessárias diferenças entre ambas unidades culturais onde não só os discursos parecem obedecer a ritmos históricos comuns (sistema monárquico de dominação colonial, formas de trabalho de encomenda ou escravidão, extração mineira, estabelecimento de sociedades de vice-reinos) a partir de gêneros e situações - crônica, literatura de viagens, teatro de evangelização - senão que existem zonas geográficas contíguas que desenvolverão um imaginário comum mais tarde, como sucede com o Rio Grande do Sul, Uruguai, o Norte argentino e o mundo "gaucho". No entanto, não há nos trabalhos deste volume um desenvolvimento comparativo das duas unidades culturais, hispano-américa e Brasil. É uma tarefa necessária que a pesquisa deverá assumir no futuro. O aporte que podem entregar estes artigos é de um primeiro passo: o da sinalização de alguns temas ao modo de colunas paralelas que permitam ao leitor refletir sobre as relações, que um estudo posterior necessitará integrar no jogo de suas identidades, correlações, falta de correspondente.

Nesta linha de reflexão a presença de unidade cultural luso-brasileira constitui um referente cuja solidez e configuração cultural ocupa um espaço de consideração no conjunto da cultura latino-americana. Não pode ser, evidentemente, pensado assim, senão como um referente cultural que conseguiu constituir uma unidade federativa, onde os desígnios dos libertadores hispano-americanos não tiveram êxito. Pode formar países independentes como foi o propósito de alguns estados ou grupos deles, com tentativas como a Confederação do Equador (1824) ou a República do Piratini (1836), cujas identidades se mostram até hoje como unidades sub-culturais: o nordeste e o Rio Grande do Sul, com propostas literárias de perfiladas diferenças locais que deram num regionalismo "que quem sabe - disse Antonio Candido - corresponde em parte a literaturas nacionais atrofiadas" (4). Nesta medida, a consi deração desta literatura - que começa por seu conhecimento - no corpus que observamos constitui uma necessidade ineludível. Sua incorporação na presente publicação obedece a ela. Pensamos neste sentido que um dos equívocos desta investigação consiste, neste princípio de integração, numa proporção adequada (entre um quarto e um terço dos materiais observados), entrando assim numa via que se abriu nos estudos históricos-literários do continente, os solitários trabalhos de Pedro Henríquez Ureña.

Toda esta situação possibilita que o desenvolvimento dos estudos literários latino-americanos consiga construir um corpus, um objeto de estudo onde linhas de desenvolvimento paralelo e de diferenciações leves, assim como sistemas que expressam tempos culturais diferentes e às vezes antagônicas, se articulem não na direção linear e monocultural da história literária tradicional, assentada sobre um único canon de raiz metropolitana, senão em linhas plurais em relação, em seus complexos movimentos de contato, em seus jogos de hegemonias e subalternidades, de paralelismos, de não-correspondência, de recusas ou de integração. O campo se abre também para o estudo dos mecanismos que operam neste sistema de relações cuja complexidade tem o rosto da história vivida e cujo propósito deverá ser a apreensão em sua dinâmica cabal dessa outra coerência que constitui o perfil de nossa história cultural. Nos parece que os estudos que apresentamos iniciam em diferente medida um caminho neste sentido.

A imposição do canon apresenta para observação, outros fenômenos próprios da situação colonial. Em efeito, a mudança do canon metropolitano, à nova sociedade em formação, cria um processo de diferenciação no interior desse mesmo canon . Este ponto será tratado mais adiante, mas queremos assinalar que um primeiro problema é a existência de um canon alternativo, ou de outra cultura que nos processos de colonização passa a constituir-se em subalterna. No caso da colonização do Novo Mundo esta alteridade não tem, por razões históricas, a presença que tem em outras culturas contra-hegemônicas como no caso da hindu frente à inglesa ou a árabe frente à francesa, por exemplo; é por isso que sua situação é de luta pela sobrevivência. Agora bem, outro problema diferente, é a emergência de um canon colonial ao interior mesmo do canon peninsular e que traça uma linha que vai de autores como o dramaturgo Juan Ruiz de Alarcón, ao caso já muito conhecido de sor Juana Inés de la Cruz , para assinalar dois autores importantes, cujo discurso, sendo também metropolitano, se situa ao mesmo tempo nos espaços emergentes de uma subjetividade literária outra (5). Essa alteridade que gerada, no interior mesmo do canon metropolitano, organiza em seu desenvolvimento, um discurso diferenciado.

Quando refletimos em torno ao canon não podemos deixar de apontar a existência de funções diferentes a respeito do que denominamos hoje literatura no período colonial. Se observarmos o sistema cultural em línguas européias, fica evidente que existem duas funções muito distintas entre as que oscilam os primeiros textos do que hoje se considera a literatura do período. Estes textos, no começo , durante a primeira metade do século XVI, não possuem uma vontade produtora de discurso simbólico com caráter estético, no entanto são percebidos como tais em seu momento. Sua função é nada mais que instrumental, se escreve pela obrigação de informar. Aponta a respeito Mignolo:

Se as cartas e as relações formam parte da "história literária" ou da "história da historiografia", não a formam pela intenção de escritura (i.e. nem Colón nem Cortés se propunham fazer "literatura ou história"), senão por uma troca epistemológica na qual se consolidam a história literária e a história da historiografia e se recuperam, do passado, aqueles textos, que "mostram", de uma perspectiva da recepção, certas propriedades ou historiográficas ou literárias ainda que estas propriedades não sejam características na produção de tais discursos (6).

Cartas relatórios do descobrimento e conquista, de ordem informativa, diários, relações da conquista e a colonização de dimen-sões organizativas para responder a pedidos oficiais se inscrevem na órbita do pragmatismo. Dificilmente se pode considerar o texto das Cartas del descubrimiento y la conquista de Chile de Pedro Valdivia, por exemplo, como um documento "artístico", não passa de simples informe em que as estratégias do discurso obedecem a uma retórica comum, no ânimo de obter favores reais. Tentou-se ver neste documento a um "notável escritor", mais além da discussão conhecida sobre a autoria de suas cartas. O entendemos como juízo de historiador, que aponta mais bem a interpretar com justiça que "revelam uma personalidade de sumo interesse e força de caráter" (7). Mais que fazer uma valoração de sua escritura, haveria que pensar a estes textos como formando parte de nossa literatura, não por suas propriedades estéticas, senão por serem documentos fundamentais de nossa cultura, como textos que se escrevem num ato fundacional, onde a escritura vai à par e cumpre, na visão atual, uma função simbólica que se aproxima à da fundação das cidades, de caráter instaurador. A fundação é um ato simbólico, um ato de cultura e, por isso de construção social nos termos das forças em jogo. O discurso ampa ra esta função sem demasiada consciência, pois se trata de documentos primeiros que inauguram e por isso informam. Mas ao mesmo tempo não têm a dimensão histórica de seu ato. Não podem entregar mais que a "visão imperial", desenvolver uma exaltação narrativa que permita dar satisfação à "mentalidade suntuária" que significa esperar do rei através do relato das façanhas pessoais uma quota de poder, riqueza e honras (8). É a dualidade que os atravessa.

O canon , ao interior do qual eles emergem em forma marginal, é o europeu, o modelo dos futuros gêneros: carta, crônica. Se constituem em documentos fundadores de identidade, com caráter, como assinala Alfredo Bosi para a literatura brasileira, "obliquamente estético", mais bem por uma função posterior, na medida em que são retomados periodicamente pela literatura como afirmação de identidade. Como na América hispânica, os primeiros textos do Brasil são textos de viajantes e missioneiros que falam sobre o homem e a natureza da Terra Nova: de Vaz de Caminha, Lopes de Sousa ou Fernão Cardim, entre outros. Eles desenham, disse Bosi, as "condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte (9)".

Os textos oscilam entre esta função, hoje literária, e a vontade propriamente estética, como é o caso de um texto antecipado de teor épico: La Araucana , de Alonso de Ercilla y Zúñiga (1569, 1578, 1589), como a obra dos cronistas indígenas, já ao final do século, o teatro de evangelização. São textos que, guiados por uma concepção canônica, desenvolvem às vezes perspectivas de outra voz.

No caso da função evangeli-zadora, os textos adquirem caráter literário dentro da tradição européia, ainda que nos autos de Anchieta se trate de uma mistura de línguas metropolitanas e utilização de línguas indígenas. Esta função se consolida no século XVII com a organização e a instalação da sociedade colonial. O canon está assentado na reprodução da corte metropolitana e suas pautas distantes, sua sociabilidade, suas festividades. Se tratará então da literatura cortesã dos vice-reinados: elogios, sonetos, elegias abrirão as prazerosas dimensões do universo barroco, estabelecendo com claridade o sistema de hierarquias do esquema de poder monárquico e o corpo da Igreja. A teatralização, a alegoria, a cerimônia, o exibicionismo, disse Beverley, são a essência do poder do vice-reinado, não simplesmente sua expressão.

Em tonalidade às vezes definidamente escravista, pois, outras vezes como proposta estética, a literatura oficial instaura, funda, reassenta o domínio imperial num espaço que não está vazio de cultura: o faz em lugar a outro sistema. Esta relação gera em boa medida o caráter do posterior produto cultural.

A outra literatura, a da oralidade que detêm os mesmos indígenas, que transcrevem cronistas ou missioneiros permanece como corrente soterrada a partir do momento da conquista. Estes discursos, de que dão conta também as pesquisas da segunda metade do século XIX, e do nosso século, adqui rem à par da função que desempenham em sua cultura, seja estética, ritual, ou lúdica, uma função de resistência cultural que os impulsiona a uma saída de defesa étnica. Uma função similar terão os discursos orais de origem africana que descem dos barcos negreiros no Caribe e na costa atlântica e que estarão em evidência séculos mais tarde através dos processos transculturais que irão gerar, a partir deles, formas discursivas textuais. Seus ritmos e vozes adquirem presença em algumas manifestações do sistema literário ilustrado e se tornam texto em algum poema de sóror Juana, também intuído na sátira de Gregório de Matos.

Os receptores são diferentes em cada série. Para os primeiros, se trata de textos dirigidos a um leitor identificado: o monarca, o vice-rei, membros do poder local. Por outra parte, são textos dirigidos ao público mais vasto da metrópole: escritos de viagem, literatura geográfica para um público ávido de informações sobre a aventura do além-mar. É também a aventura que se lê e tem seu espaço nas festas, a literatura de acontecimento público. A outra série discursiva, produzida nos idiomas regionais da oralidade, interpela ao público massivo dos setores indígenas assim como o relato de origem africana convoca a outros ouvidos. Eles ajustam um público majoritário, do qual conhecemos pouco sobre a situação de recepção.

Como se pode observar, se apresenta aqui um campo de problemas que tem relação com a construção do imaginário social do continente: o que se constrói em seu interior e fora dele, em movimentos sucessivos e sobrepostos, em conflitos e enfrentamentos, onde a subjetivida de do discurso que propõe este imaginário, como veremos, se desenvolve através da visão do outro, através da fissura na visão canônica, através da explosão da unicidade da visão autoral. A imagem que se vai formando de si mesmo o conteúdo está permanentemente atravessada pela visão do outro, no marco de um processo ideológico que se denominou a "consciência crioula" e que parece ser evidente já nos primeiros decênios do século XVII.

O trabalho sobre este campo de problemas impulsiona ao aparecimento de um instrumental metodológico que permita abordar estas formações discursivas que se apresentam como um espaço de tensão. Aproximar-se aos mecanismos interculturais próprios das situações coloniais, nas quais se criam condições hegemônicas e contra-hegemônicas com mecanismos específicos de produção estética, com tempos culturais e cânones diferenciados, com a emergência de processos de autorização, com formas próprias de articulação dos tempos culturais, com relações de contraste, assim como de continuidade entre as culturas, todo o qual integra a dimensão do estético centrado na busca de expressão própria. Isto não parece ser um problema relevante na história literária dos países europeus do século XIX, momento em que os preocupa a identidade (10). O caso da América Latina, como de outras culturas periféricas, é diferente. Se trata de uma voz que se constitui dentro de uma tradição ocidental e que ao mesmo tempo constrói frente a ela sua própria subjetividade. Sua emersão se dá, então em termos da voz alternativa, de discurso outro, e esta situação entrega as condições para a manifestação de sua estética.

A conquista e a colonização significam o início de uma ordem cultural de tempos diferenciados. A reorganização da sociedade que as implicam se projetará num sistema complexo. Formas e segmentos das estruturas sociais comunitárias pré-existentes, traços feudais e escravistas que se articulam na direção do mercado nascente com a classe primária do mercantilismo, apresentam, desde o princípio, um caráter ao seu desenvolvimento cultural. Desde aí, seu passo estará marcado pelas tensões de uma diversidade que não consegue sua síntese. A construção do imaginário e da palavra que o expressa se manifestará assim num processo de tempos sobrepostos, ainda que seqüênciais, uns ligados ao mercantilismo nascente e aos modelos culturais que vêm com ele, - na presente publicação se explicitam os mitos e as utopias, as primeiras ima gens da América, bárbara e sedutora, a primeira figuração do colonizador, plasmada nas pictografias, falada nos poemas -, os outros ligados às diversidades culturais e étnicas. Estes tempos culturais, que implicam diferentes formas do imaginário, distintas concepções estéticas, modos de relação com o homem e o universo no processo que cria a colonização, se articularão num complexo composto de segmentos de modos de produção, sociabilidade e imaginário, incertos em diferentes graus de desenvolvimento e distintos momentos na direção imposta pela metrópole. É a sintaxe dos espaços e temporalidades através da qual a sociedade organiza sua existência, que se torna discurso e dará o perfil a seu desenvolvimento literário e cultural, onde vão a plasmar-se os diversos tempos que combinam o tempo do continente.

Se nenhuma história é de fato uma corrente homogênea e seqüencial, o caráter da história cultural latino-americana, nestas condições de gênese e funcionamento, aparece como uma dobra de heterogeneidade e segmentação, de seqüência e simultaneidade que permitem pensar sua estrutura como a de uma coerência outra, em termos similares à de outras realidades de condição colonial, pós-colonial ou periférica (11).

Apreender a pluralidade dos tempos culturais e dos discursos, apontando ao processo histórico, abre espaço à densidade deste. É neste sentido e nesta linha de reflexão onde se dá uma proposta comparativa, para a qual Walter Mignolo anota aqui a necessidade de uma "hermenêutica diatópica".

Este comparatismo implica por uma parte formas de enunciação e significação comuns, por outra, o estudo de relações de forte contraste que conduz a formas especiais de textualização. Estamos diante de uma história de formações discursivas cuja peça se situa nas fronteiras e demarcações culturais. O problema de outra época, do estudo da diferença constitui, como vemos, um desafio. Fronteiras e demarcações atravessam esta realidade em várias direções. Atravessam-na vertical e horizontalmente. Há demarcações tênues entre Hispano-América e Brasil, onde se observa grandes linhas comuns: movimentos de construção do discurso, tendências, gêneros, temas; onde há diferenças, entretanto numa relação que merece ser estudada co mo tema específico de pesquisa. Há fronteiras nítidas e em relação problemática com o mundo indígena e de origem africana. Há demarcação cultural com Europa, conflitiva por sua relação permanente de pertinência e diferenciação.

A reflexão comparativa que fazemos surge de um material parcial: somente dos temas que compõem este volume e que não abarcam todos do período . Sem embargo, permitem organizar alguns problemas desta ordem. Estamos pensando, por outra parte, no fenômeno da relação tal como se dá no continente, e deixamos de lado boa parte do espaço desta relação como: as práticas discursivas, a realidade e os problemas americanos que geram um movimento de idéias na Europa - a discussão sobre a natureza do índio, entre outras, e que aqui desenvolve Rolena Adorno, de imagens e de textos, como o já famoso "Los caníbales" e demais alusões dos Ensayos de Montaigne - leitura de Thévet e Léry -, a textualização do El Dorado en Voltaire, a presença do gigante da Patagônia em Tasso. Como se unem nessa direção as textualidades, qual é a recepção e que produzem estes textos da Terra Nova, como o assinala Iris Zavala a respeito do Inca Garcilaso e o discurso das utopias francesas de final de século XVII e começo do século XVIII. Isto é, qual é a presença e o impacto, no imediato e mais além do imediato, de tudo aquilo que faz, por exemplo, que o Brasil esteja em moda nas cortes européias em 1550. "Com o Novo Mundo - disse Manuela Carneiro da Cunha - descobre-se também uma Nova Humanidade. Resta o problema crucial de inseri-la na economia divina, o que implica inseri-la na genealogia dos povos". A discussão sobre sua natureza apresenta um dos temas relativos ao impacto do que se denomina descobrimento, em relação ao qual Jean-Paul Duviols aponta seu limite: moveu as mentalidades sem conseguir transformá-las. Se propôs a encontrar o que se buscava, reconstituir uma sociedade onde o discurso do idêntico toma lugar ao da diferença. Este foi o desígnio, a realidade propôs alternativas.

A Europa vem a América: frente a presença impávida dos mitos de origem, da visão cósmica e da origem que rege a natureza e os destinos, descem dos barcos os mitos da imposição. Ambos moverão as vontades coletivas, dinamizarão às massas indígenas, como fará o mito de Inkarri, que toma forma no enfrentamento. É o enfrentamento dos imaginários, que não se extinguem com a morte física senão que se acrescentam.

A literatura geográfica detêm as figurações míticas européias e então dos barcos desceram amazonas, acéfalos, gigantes, cidades utópicas, construções de eterna felicidade, fontes de eterna juventude. Este imaginário se tornará não somente texto na literatura dos viajantes, senão que tomará consistência nos hospitais-vilas, em asilos, nas missões capuchinhas, mercederias, francis- canas e jesuíticas que se instalam no México, Colômbia, Venezuela, Peru, Brasil, nas trinta vilas do Paraguai. Há textos que transformam a vida. Aqui a textualidade européia se transforma em construção social: Erasmo y Tomás Moro, as Saturnalias de Luciano tem elaborado pré-figurações que aqui se objetivam; a Arcadia , o Paraíso , a Edad de Oro se impõem dos textos como a imagem do continente. A cartografia põe em evidência os mecanismos de negação do pré-exis tente, e os mapas da Terra Nova encherão de monstros ali onde o conhecimento europeu não alcança para ultrapassar os espaços do desenho. O conhecimento sobre a nova realidade nos textos dessa literatura, como na estampa da época, está proporcionado em grande parte não pela realidade mesma, senão por antigas lendas às vezes anteriores ao mundo grego, que foram difundidas por Marco Polo e Mandeville. Neste imaginário da desmedida, da barbárie, o discurso legitimador da empresa se incorpora à razão européia.

A tradição literária européia que se estabelece com a conquista e se diversifica com a instalação da sociedade colonial, ao princípio do século XVII, não pode ser vista como a totalidade do que se produz e do que está por trás dos textos da época, se trata de uma proposta selecionada pelas necessidades da empresa: o ethos heróico, a instauração social. No começo os discursos privilegiados são os do direito, da teologia, da administração, da historiografia. É o memorial, a relação, a crônica, a carta, gênero que está representado com profusão na Espanha e Portugal durante o século XV. Logo os temas, os gêneros, os estilos se diversificam e nem sempre começam a responder ao modelo metropolitano. Estes modelos, como mostra Mabel Moraña (12), protegiam o discurso colonial de toda suspeita contra o princípio da autoridade; eram modelos que transmitiam seu prestígio e que situavam o discurso à margem da censura. Apropriar-se dos cânones imperiais era de alguma maneira, também uma forma de trazer ao continente os universais humanísticos do Império, adiciona a pesquisadora.

Do mesmo modo como se reeditavam na Nova Espanha os modelos festivos do mundo ibérico - as alegorias móveis meridionais, telúricas, teológicas, também com os concursos líricos -, o espírito da lírica trovadoresca, enriquecida pela lírica popular galaico-portuguesa e moçárabe, assim como pela poesia italiana que a remoçava, ganhava o âmbito da poesia escrita em endecassílabos, nas cortes de vice-reinados. Era uma lírica que no século XVI transitava nos âmbitos da natureza, o amor, os mitos greco-latinos. Uma análise destes gêneros se encontra no artigo de Raquel Chang nesta publicação.

Os modelos que autorizavam os discursos se assimilavam com rapidez, no entanto sua reedição nas terras novas e na sociedade nascente se dá em grande medida como uma variável onde a função é outra, esta deslocada: tendência nativista, disse Affonso Ávila, de querer imitar a vida do reino. Mas, também, vontade de mostrar que se é como no reino, numa afirmação de legitimidade. Talvez seja a postura de Espinosa Medrano traduzindo Virgilio ao quechua. A reedição dos modelos, como no barroco arquitetônico onde a religiosidade na Espanha mostrou a intensidade da expressão, no entanto na América se tornou exteriorizada, se fez funcional às novas sociedades e prontamente na sátira, a comicidade foi estratégia de crítica, resistência à cultura hegemônica, como também uma arma contra os apressados crioulos que escalavam posições na sociedade do vice-reino, os "fidalgos caramurus" de Gregório de Matos. O auge do feliz cortesão tinha que ver, evidentemente, com as capitais do vice-reino, mas também com os centros produtores da riqueza que emanava do Novo Mundo. Assim a grande arquitetura do barroco brasileiro, o barroco de Minas Gerais onde está o caso significativo do Aleijadinho, se encontra na segunda metade do século XVIII quando a extração do ouro gerou as condições propicias. Neste contexto, o do discurso enunciado a partir de uma sociedade assediada por uma dupla situação: a de estar sob a monarquia e a de ser colônia dela, a perífrase, o hipérbato, as oposições e os jogos do discurso modelizante, a órbita de Góngora sobre tudo, como a de Quevedo em parte, oferecem a possibilidade - nítida em sóror Juana por exemplo - de estratégias de mascaramento para uma proposta transgressora. As vezes os imaginários se unem e onde se pensa encontrar, como nas representações do demônio do teatro jesuítico, no entanto fonte de comicidade, a herança portuguesa de um Gil Vicente, a linha transtextual se orienta melhor para modos de percepção da cultura indígena.

As culturas indígenas estão presentes na evolução do discurso de formação desta literatura que constrói sua expressão como voz submissa, se apresenta oculta permanentemente, de forma contínua assumindo parcialmente outras funções. Tal é o caso das linhas genéricas que deixam uma marca mais ou menos significativa na poesia do sistema erudito: os cantos floridos da poesia asteca em Bernardo Balbuena ou Sigüenza e Góngora, os elementos reiterativos, de justaposição ou o uso do estribilho em alguma poesia lírica, segundo assinala Raquel Chang; na dramaturgia que estuda Décio de Almeida Prado, o constante deslocamento do espaço, ao modo das festividades indígenas.

Os mitos de origem permane-cem e se reeditam com o tempo em ritmos e provérbios, repetições e antíteses, na acumulação incessante que dá o caráter da oralidade que se registram em missioneiros e cronistas. Uma linha importante de problemas nesta relação - universo cultural indígena e constituição do discurso de formação na situação colonial - tem que ver com a tradução das formações discursivas, com a apropriação-manipulação desse discurso e a posterior reivindicação de uma "escritura indígena" de parte dos autores mestiços como Alva Ixtlilxóchitl, Tito Cusi Yupanqui ou Guaman Poma de Ayala com sua verdadeira crônica "alternativa" da área andina. Este é um problema que afeta sobre tudo a hispano-América; no Brasil não existem documentos similares, se não é o vestígio de alguns versos nos apontamentos do cronista Léry.

Na tradução dos discursos indígenas ao espanhol ou ao francês nos encontramos com o nítido problema do estudo através das fronteiras culturais. É justamente o caso que requer uma análise onde a situação do pesquisador necessita mudar de perspectiva entre uma e outra cultura, aceitando que a postura do sujeito que o pesquisa não é imparcial senão que observa de sua cultura, e que não trata de assimilar a outra cultura à sua como se essa fosse universal. Este princípio de observação se encontra nas perspectivas como a de Lienhard ou Brotherston nos textos que apresentamos. Um desenvolvi- mento maior desta reflexão metodoló- gica de Mignolo, que se encontra numa direção similar em nossos textos, é uma proposta para o desenvolvimento futuro na metodologia comparativa de discursos em situação colonial ou periférica (13).

Se não existe a neutralidade da leitura, esta terá ainda menos possibilidades de existir em condições quando o discurso falado é feito por uma voz que expressa a situação hegemônica. Isto é o que acontece com as traduções da discursividade indígena. Acontece com cada um desses textos, onde sua tradução produz um texto diferente na medida que, como observava Angel Rama, reproduz a cultura em que está imerso o tradutor. Com Benjamin, poderíamos expressar mostrando que o que está em jogo é a cultura e o tempo em que foram escritos, também a cultura e o tempo que os lê e os traduz.

Foi mostrado a qualidade de tradução de todo texto, assim como sua capacidade de ser texto único. Na tradução é permanente a possibilidade pendular de estar mais perto do dis curso em seu contexto original, ou de levá-lo à cultura que o traduz. Como se opera no caso das formações discursivas do período colonial? Mostramos somente que se trata de operações múltiplas. Aí a memória pode ser transcrita em termos pictográficos e poderá ser reativada em outra versão a partir dela. É, então, em uma segunda operação, falada. Esta oralidade se transcreve na linguagem alfabética aprendida e em línguas vernáculas. A escritura se altera em uma versão em línguas européias. Pode ter sido escrita diretamente do informante a estas línguas. Daí surgem as versões diferentes dos tradutores. A operação é mais simples ou mais complexa, dependendo do caso. Agora caberia se perguntar pelas possibilidades dos transcritores ou dos tradutores de situar-se nos espaços culturais da língua indígena quando os eles não pertencem a ela, dada a normativa e o peso ideológico da estrutura colonial. O trabalho sobre o texto traduzido deve começar então por reconstruir o sistema de leitura que o tradutor não explicitou: organização de valores, sistema de poderes, formas de raciocínio, único meio para conhecer a perspectiva que observou ao outro, suas estratégias de ocultar-se ou sua incapacidade de ver suas possibili- dades de expressar, etc. Estes textos são em geral recuperados e começam a ser trabalhados pela crítica a partir da segunda metade do século XIX. A tarefa de uma observação nesta ordem de problemas comparativos não pode, senão ter caráter contrastivo, a cultura hegemônica não assimila a sua órbita à subalterna sem modificá-la; é necessário levar adiante essa "hermenêutica diatópica" que permita estabelecer não somente os espaços de translação possíveis, senão o caráter contrastivo fundamental e os mecanismos com que se apropria a diferença da outra série cultura.

Na reivindicação que faz a escritura mestiça dos cronistas mencionados, o discurso submisso está assumido desde o começo a partir da autorização que significa escritura alfabética e o gênero de caráter modelizante. Neles a busca de estratégias apropriadas é uma prática que expressa a convicção acerca do papel da memória histórica como discurso que funciona na construção do destino dos povos.

A Espanha e o mundo hispano- americano tem uma presença no Brasil que parece não mostrar equivalente em direção contrária. Relaciona-se a isso a existência de uma moda do universo cultural espanhol no período e até fins do século XVIII: repre- sentações em castelhano, vestidos, literatura escrita em espanhol, que provêm seguramente de uma tradição castelhanizante que persiste em Lisboa durante o século XVII. Na plástica esta relação tem sido mostrada (14) e que nos leva a observar alguns traços diferenciais. Com respeito à crônica, por exemplo, os textos que publicamos do mundo brasileiro mostram uma textualidade que vê mais ao indígena numa instância de reflexão, frente aos do hispano-americano, que o vê em uma instância bem mais de gestão. Isso faz uma visão mais etnológica no primeiro caso, em relação ao segundo onde a visão é a do colono. É claro: os primeiros são viajantes, os segundos conquistadores. É curioso também mostrar a diferença de tom com que se manifesta a dimensão erótica, bastante aberta no caso do Brasil, de um modo que não se observa na área hispânica. No teatro de evangelização a função e as estratégias são, similares.

Nesta aproximação as formações discursivas na situação colonial através dos temas que propomos no presente volume parece por em evidência o processo de relação intercultural. Dessa forma se levam a cabo vários movimentos, seqüenciais, superpostos, paralelos ou simultâneos, que organizam o discurso da série ilustrada. Parece, neste sentido, emergir primeiramente um espaço da alteridade . Se trata de um espaço ressaltado a partir do lado europeu, pela literatura de viagens, onde, como se poderá ver nos textos que publicamos, o legendário e o autêntico, a fábula e a observação traçam o imaginário que se projeta ou se encontra na Terra Nova. A literatura de viagens enfrenta a imagem do mundo que traz as costas com a outra cara da moeda, a da oralidade que se reproduz e se manifesta de imediato em alguns textos, cujo imaginário é absolutamente outro, como fica expresso pateticamente no encontro dos sábios astecas com os doze frades franciscanos em 1524. Os textos comportam assim as marcas deste espaço de alteridade por parte de seus escribas, o que é diferente da Europa, por um lado, e por outro as marcas da visão de mundo que se estremece ou fende com a imagem do retorno dos deuses e seu desmascaramento. É um espaço de monólogos.

Em um segundo momento este espaço se estabelece como tal, se constitui a partir de uma textualidade em que ambas culturas originam uma relação. É um momento mais dialógico. Se trata de uma relação de hegemonia e subalternidade que se assenta também com o outro componente da área caribenha e da costa atlântica, a cultura escrava de origem africana. Nas culturas andinas e mesoamericanas a componente dialoga nos termos de sua relação e a oralidade de uma se torna a transcrição, tradução, comentário, passando de uma cultura a outra, assim como desenvolvimento de mecanismos de preservação em autores como Inca Garcilaso.

Paralelamente se abre outro espaço que tem que ver com a textualidade do signo disjuntivo do sujeito colonial colonizador, onde o canon metropolitano começa a mostrar os interstícios de sua inserção num âmbito onde quem escreve é um homem que já não vive na metrópole, na expressão de Alfredo Bosi. Tudo isso faz com que o discurso gere estratégias específicas que colocam em evidência a contradição, como no caso de Alonso de Ercilla, autor de La Araucana , o maior poema épico do período, inscrito na tradição européia renascentista em oitavas reais, pletórico de imaginação greco-latina que pretende explicitamente mostrar a façanha de García Hurtado de Mendoza na conquista do Chile. O discurso vai construindo então um subdiscurso que o contradiz, possível de ser observado através de marcas textuais, de enorme admiração pelo vencido, quem constitui finalmente o real herói da epopéia. Uma situação próxima de dobro discurso foi assinalada por Antonio Candido a respeito do texto épico tardio de Santa Rita Durão chamado Caramuru (fins do século XVIII), uma das tentativas épicas diz que foram a debilidade e o anacronismo do século XVIII (15).

Ocorre com este tipo de escritura que começa a dar evidências das marcas de fissura que se abre no canon metropolitano dando lugar gradualmente a um discurso diferente que vai adquirindo a forma enunciativa de uma subjetividade literária outra, uma subjetividade alternativa, a do canon colonial, cuja textualidade já não é mais a mesma da anterior. É neste espaço que surgem produções como as de sor Juana, Sigüenza e Góngora, conhecida como a "nova afirmação hispânica.

O espaço se consolida agora e vai emergindo então da América a escritura diferente, em um terceiro movimento, expressão de uma consciência crioula que ao assentar-se vai desenvolvendo ao mesmo tempo formas de apropriação transformadora da cultura metropolitana.

Um destes mecanismos de apropriação é a discronia da recepção que faz com que estilos seqüenciais dessa cultura se experimentem como simultâneos, onde os elementos se sobrepõem e articulam - rococó, barroco, neoclassicismo, culturas indígenas e africanas - em um espaço onde afinal a língua é tensionada entre a imposição e o lugar que vão ocupan- do os africanismos e indigenismos. Outra forma de apropriação tem a ver com a troca de função dos gêneros, os estilos, as idéias: o gongorismo, de caráter heterodoxo na Espanha, na América constitui o discurso oficial dos vice-reinados no século XVII, durante seu período de consolidação, ou a linguagem do barroco arquitetônico, que aí é interioridade e ao cruzar o mar é apropriado e transformado por mãos que o fazem exteriorizar-se.

Uma das formas mais clássicas desta apropriação é sem dúvida o movimento que assumindo a formalização do modelo o transpassa para uma dimensão étnica através de traços - os anjos da escultura barroca que tem rosto indígena -, temas como os das formas épicas que inserem em personagens e situações da história indígena, integração de elementos africanos da cultura escrava, critérios próprios da poesia oral, inserção de elementos lingüísticos, textos totalmente escritos em língua indígena como o teatro de evangelização, entre outros.

Um futuro desenvolvimento comparativo necessitaria estabelecer com precisão as formas que adotam estes mecanismos de apropriação cultural como modo de observar as instâncias através das quais se constitui nosso discurso.

A leitura dos trabalhos que publicamos planteia, finalmente, alguns questioamentos a respeito do momento em que surge a literatura latino-americana, questão que nos parece importante apontar. A presença desta preocupação nos colaboradores do volume não é um afã historicista pouco relevante, mas sim, tem a ver com a importância dos pressupostos que estão por trás do questionamento acerca de seu nascimento . Nessa direção parece visualizar-se a situação da maneira seguinte:

Uma primeira opção é a da lite-ratura geográfica: o que posterior-mente chamaremos de literatura latino- americana, surgiria com o texto do Diário de Colombo , não com uma visão européia ou colonialista clássica, mas porque este inicia o estudo do espaço da alteridade. Uma segunda opção estaria assentada em alguns pressupostos que têm suporte na realidade. Se iniciaria em um espaço estabelecido por esse imaginário da literatura geográfica européia no que - depois se saberá - é o Novo Mundo paralelamente com o imaginário desenvolvido pelas formações discursivas da oralidade que enfrenta o sucesso. Formações perdidas na história, é certo, mas similar às recolhidas nos "Presagios funestos" do Códice em relação à chegada de Cortês ao México. Uma terceira opção é que ela surgiria no momento da fixação e mudança das tradições ameríndias, onde a textualidade alfabética absorve a outra figura, o que implica o estabelecimento da relação em culturas hegemônicas e subalternas. Uma quarta opção é pensar no surgimento da literatura como o momento em que se textualiza uma vontade estética, de caráter ocidental, isto é, com os discursos onde prima a literariedade. Finalmente, poderia pensar-se o surgimento da literatura latino-americana no momento em que começa a forjar-se o discurso de uma subjetividade alternativa ao canon metropolitano perceptível através de marcas textuais. Como vemos, o problema do nascimento, mais que uma questão em si mesma, implica na noção que se está utilizando a respeito do que foi chamado literatura na situação colonial e que estatuto se outorga às formas de relação das formações discursivas nesse momento.

O desafio maior, talvez, dentro de muitos tantos que implica o trabalho em uma perspectiva histórica de nossos discursos, é tentar apreender o movimento de sua pluralidade, o que significa seu processo de evolução ao mesmo tempo que a dinâmica que traça sua densidade, o que faz a uma literatura de estratos múltiplos em relações de proximidade, de tensão, de transformação através de fronteiras e demarcações culturais, literatura de tempos distintos que se articulam nos espaços de outra coerência. Os trabalhos que apresentamos mostram temas desta densidade e a apontar instâncias deste processo, em um esforço por avançar na compreensão desse discurso que busca sua expressão.


(1) Foucault, Michel. La arqueologia del saber . Colombia: Siglo XXI, 1985.

(2) Cf. o artigo de Walter Mignolo nesta publicação, assim como: Tradiciones orales, alfabetización y literatura (o de las diferencias entre el corpus y el canon). In: IX Congresso Internacional da Associação de Lingüística e Filología da América Latina - ALFAL, Campinas, Brasil, 6-10, ago.1990.

(3) Cf. Adorno, Rolena. Nuevas perspectivas en los estudios literarios coloniales hispano- americanos, Revista de Crítica Literária latinoamericana , Lima, año XIV, nº 28.

(4) Candido, Antonio. Os brasileiros e a literatura latino-americana. Novos Estudos , São Paulo, Cebrap, v.1, nº 1, dez. 1981.

(5) Cf. Sandoval, Alberto. Aportes para una canonización de Juan Ruiz Alarcón en la literatura latinoamericana. Revista de Crítica Literaria Latinoamericana , cit.

(6) Mignolo, Walter. Cartas, crónicas y relaciones del descubrimiento y la conquista. In: Iñigo Madrigal, Luis. Historia de la literatura hispanoamericana . Madrid: Cátedra, 1988. t. I.

(7) Toribio Medina, José. Nota preliminar. Cartas de Pedro de Valdivia que tratan del descubrimiento y conquista de Chile . Ed. facsimilar. Santiago de Chile, 1953.

(8) Cf. o trabalho de Iris Zavala no presente volume.

(9) Bosi, Alfredo. História concisa da literatura brasileira . 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1988, p. 15.

(10) Burger, Peter. On literary history. Poetics , 14, North Holland, 1985.

(11) No sentido desta ordem de preocupações se inscrevem para os âmbitos árabe, hindu e africano, trabalhos como os de Edward Said, Gayatri Spivak, Mário de Andrade e Maria do Céu Carmo Reis, respectivamente.

(12) Cf. Mabel Moraña nas reflexões preliminares ao número monográfico que dirige na Revista de Crítica Literaria Latinoamericana , cit.

(13) Cf. Mignolo, Walter. Tradiciones orales..., op. cit.; Pizarro, Ana (coord.). La literatura latinoamericana como proceso . Bue nos Aires: CEAL, 1985; e Hacia una historia de la literatura latinoamericana. México, 1987.

(14) Amaral, Aracy. A Hispano-América na arte seiscentista do Brasil (abertura de pesquisa). São Paulo: Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, 1972.

(15) Vê-se a intervenção de Antonio Candido: Literatura e história. In: Pizarro, Ana. Hacia una historia... , op. Cit; vê-se também, do mesmo autor: Formação da literatura brasileira . 5 ed. São Paulo/Belo Horizonte: Edusp/Itatiaia, 1975.