Palavra, literatura e cultura nas formações discursivas coloniais

Ana Pizarro
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Comentário: Ligia Chiappini (Univ. Livre de Berlim)

PARA ALÉM DA LITERATURA COM A LITERATURA

O texto que me cabe comentar foi publicado como introdução ao primeiro volume da trilogia intitulada América Latina, Palavra, Literatura e Cultura, relativo à época colonial (entre os séculos XV e XVIII na América Hispânica, começos do XIX, no Brasil). Aparentemente simples e circunstancial, é, entretanto, complexo, novo e denso, espesso e plural (para utilizar palavras caras à autora) nas vozes que cruza e nos conceitos com que opera.

Quem pode acompanhar o processo de sua lenta gestação, contemporâneo ao processo de gestação mesmo da trilogia que introduz, percebe aqui um diálogo de várias vozes e uma reflexão produzida na troca com estudiosos ilustres da nossa literatura e história cultural; o esforço de sintetizar sem fechar demais os problemas, de inovar nos conceitos utilizados, sem exagerar com falsa novidade meramente nominal, de incorporar, transpor, integrar os argumentos que se foram somando ao longo do debate no qual nasceu o primeiro volume desta antologia sobre "alguns temas de nossos discursos na situação histórica colonial" e os outros dois volumes subseqüentes (1).

Em textos anteriores com que este dialoga direta ou indiretamente, Ana Pizarro vinha fazendo esse esforço de síntese simultaneamente ao debate em questão, iniciado com a intenção de fazer uma nova história da literatura latino-americana, que incluísse Brasil e desse espaço a uma produção cultural geralmente ausente das histórias literárias referentes à região, como é o caso das diversas manifestações das culturas dos índios, em diferentes países da América do Sul e Central (2).

Um ponto que foi crucial na discussão desde o início foi a incorporação do Brasil, superando culturalmente o tratado de Tordesilhas que ainda nos persegue, pelo menos na relação dos estudiosos com a nossa literatura. A literatura, na América Latina, com sua condição tradicionalmente empenhada, é menos e é mais do que literatura, porque condensou muito. E desenvolveu métodos de análise da realidade concreta e imaginária que valem para além dela, ajudando a estudar outras manifestações da cultura. Mas também exigiu -súmula de saberes como diria Barthes- que os literatos se municiem do trabalho de historiadores, sociólogos, antropólogos, filósofos, para entender do que e do como os textos falam. Daí a necessidade de constituir um método comparativista contrastivo que ponha as contradições em evidência. E de rediscutir a periodização, segundo critérios novos, de modo a superar os tradicionais (cortes por séculos, por fatos da história política, por correntes literárias), procedendo de modo não linear e atentando para as simultaneidades, problematizando as épocas culturais que não dão conta da literatura como resposta criativa às influências impostas.

Valoriza-se o conceito de sistema, levando em conta a tomada de consciência literária e as tentativas de constituir uma literatura. Combinam-se movimentos e autores isolados, sem perder de vista o papel de certas cidades, enquanto núcleos privilegiados de produção para certos movimentos, estabelecendo-se tanto as constantes e dominantes quanto as diferenças. No caso das culturas indígenas, faz-se a diferença entre sistemas auto-suficientes como Popol Vuh ou que constituem uma espécie de mescla, como Arguedas; uma produção anterior à colonização, mas estudada a partir dos meados do século XIX, da produção atual , em quechua, náhualt, tupi-guarani, em linguagem oral, expressões populares folclóricas e estudo contemporâneo, provindo ou não de tradição pré-colonial.

Há portanto uma grande variedade da perspectiva que se quer. abrangente. E uma das questões essenciais é "como representar essa espessura do funcionamento da literatura numa sociedade(...) em que "estão funcionando ao mesmo tempo elementos que pertencem ao sistema popular, ao sistema culto, elementos que vêm de sistemas anteriores, elementos que anunciam os posteriores, elementos residuais". Perspectiva, finalmente, generosa, contra preconceitos e discriminações, mas realista e ciente dos seus limites.

É perceptível também a passagem que o grupo fez entre o projeto de publicar uma história da Literatura Latino-americana para uma antologia de textos críticos, dispostos de acordo com os períodos delineados no documento final da reunião de Campinas. Se tal passagem se explica por problemas imprevistos que ocorreram , o fato é que ela também demostra uma certa compreensão súbita do grupo da necessidade de talvez por isso antes de partir para um projeto mais ambicioso, dentro da linha várias vezes enfatizada na introdução ao livro de 85, sobre o caráter não exaustivo e ainda provisório, do trabalho, dentro das possibilidades atuais de um grupo composto basicamente de estudiosos de literatura e especialistas em certas literaturas nacionais, sem a visão mais abrangente, exigida pela perspectiva comparativista adotada. Assim, nessa etapa, fica para o leitor a tarefa de estabelecer relações, sobretudo entre as literaturas hispano-americanas e brasileiras, Ana Pizarro, primeira leitora, em introduções como esta, começa por dar o exemplo:

"(...) no hay en los trabajos de este volumen un desarrollo comparativo de las dos unidades culturales, Hispanoamérica y Brasil. Es una tarea necesaria que la investigación deberá asumir en el futuro. El aporte que pueden entregar estos articulos es el de un primer paso: el del señalamiento de algunos temas al modo de columnas paralelas que permitan al lector reflexionar sobre las relaciones, que un estudio posterior necesitará integrar en el juego de sus identidades, correlaciones, desfases (3)."

Na verdade, a opção pela antologia temática assim organizada, evidencia que o resultado do trabalho transcende a história literária , pois esta, como gênero consagrado e conhecido, não daria conta dos princípios que norteiam este projeto. É como se ele ficasse, ao mesmo tempo aquém e além de uma história literária. Aquém de uma nova, ainda por inventar, e além dos modelos existentes que ele , como Pizarro diz, transborda. Desdesenhar fronteiras disciplinarias e assumir a amplitude de um olhar cultural, situando-se na confluência de várias disciplinas , entre as quais a crítica literária é apenas uma, eis o desafio muito discutido em outros momentos desse diálogo e no texto de 85. Mas, ao mesmo tempo, com a modéstia de quem sabe que as categorias fundamentais com que estão trabalhando são retiradas dos estudos literários, embora com alguma ajuda de história, sociologia, antropologia. Se a realidade é múltipla (e, sendo na América Latina essa multiplicidade étnica, social geográfica, cultural e, portanto, temporal--tópico constante da discussão-- ficam mais insuficientes ainda os métodos da "estrita perspectiva histórico-literária tradicional" tal como Ana, brevemente, a define. Reconhece-se também a necessidade, sobretudo para o período colonial, de sair das fronteiras das disciplinas, armando um "amplo olhar cultural num espaço de fusão, intersecção de disciplinas: sociologia da cultura, história literária, história das idéias, semiologia, crítica literária ou antropologia cultural".

Nos livros anteriores fora feito todo um trabalho de rastrear a história e esclarecer conceitos básicos, como os de América Latina e Literatura Latino-americana. O resultado é a concepção da unidade na diversidade, a Literatura latino-americana vista dinamicamente, primeiramente só como hispânica, depois, a inclusão do Brasil na década de 80, mais ou menos ao mesmo tempo, a das culturas indígenas. O Caribe é visto como latino e não latino, mas com afinidade geográfica, étnica , cultural e social, a unidade se fazendo pelos laços estruturais de conformação cultural, por formas similares de existência histórica, de resposta econômica, social e cultural que se expressam no discurso literário apesar das diferenças e da metrópole colonizadora. Identificam-se desenvolvimentos análogos dos países em situação colonial, onde a economia mercantil nasce como resposta à colonização e onde se vive respondendo aos estímulos de fora, como no caso da industrialização e, hoje, a globalização.

A perspectiva comparatística e integradora, sem perder a dimensão política, permite o uso de conceitos fundamentais da moda e fora de moda, como o de mediação quando diz, por exemplo: "Unidade diversificada, o discurso da literatura latino-americana não constitui senão a plasmação a nível estético da organização que estrutura historicamente o continente e que se expressa na cultura através de toda uma série de mediações." Um dos pontos fundamentais que, de modo atualizado mas não modernoso, porque bastante equilibrado, ela pontua é o da relação entre canon e corpus . O que se propõe é ultrapassar a história canônica, levando em conta que os cânones se definem conforme séries ou sistemas diferentes e diferentemente. A noção de sistema aqui faz sistema.

Na relação entre canon e corpus interessa destacar a afirmação de que não se trata de enfiar no cânon, por exemplo, as literaturas indígenas, mas de considerá-las como corpus num livro, diria eu, que não por acaso, transbordando a historiografia da literatura e a própria literatura, se coloca como título: palavra, literatura e cultura. Assim como a literatura é uma parte da cultura, o canon literário, é parte da literatura e parte de um corpus mais amplo, formado por manifestações simbólicas de diferentes culturas em contato, no caso, na maior parte das vezes, violento, violência essa direta ou indiretamente trabalhadas pelo imaginário e expressa através de linguagens diferentes não necessariamente escritas e não necessariamente verbais. A isso se junta outra afirmação de Ángel Rama no debate da Unicamp e aqui reaproveitada, de que não dá para estudar diretamente o que se convencionou chamar de "Literatura Indígena" mas sim o que nós, estudiosos de literatura, com toda nossa formação condicionada pela história literária canônica, divididos já entre o canon europeu e o americanizado, fizemos com elas, no sentido de interpretá-las. Sem perder de vista que, por mais que nos esforcemos, não podemos mudar de pele... de cultura (daí a pertinência da situação dos estudos deste volume, como por exemplo a explicita Lienhard logo no título do seu belo texto: "La percepción de las prácticas "textuales" ameríndias: apuntes para un debate interdisciplinario (4)".

O texto de Lienhard nos permite colocar um problema que incomoda porque é tematizado tanto por ele quanto por Ana Pizarro-- na esteira das tendências atuais dos estudos culturais-- mas, ao mesmo tempo, silenciado, ou melhor, sua tematização se dá, deixando na sombra um aspecto que me parece de suma importância. Trata-se da ampliação do conceito de literatura, na tentativa de ultrapassar os limites do canon ocidental e da própria literatura escrita. Diz Lienhard no texto citado, comentando as limitações de Mariátegui e dos indigenistas do início do século: "Mariátegui no ignoraba--aunque las desconocía--ciertas manifestaciones de la producción textual indígena: narraticiones, cantos, ritos. Pero, para él y los demás intelectuales indigenistas", tales manifestaciones no alcanzaban--"todavía"-- el status de lo "literario" o de lo artístico en general. Miembros de una sociedad que atribuye un prestígio especial al discurso transcrito en las hojas de un libro (fetichismo de la escritura), ellos se imaginaban la "literatura" exclusivamente bajo forma de un texto escrito--según los cánones europeos. De este modo, quedaron ciegos --o sordos-- ante las expresiones orales o multimediales que cumplen, dentro de las colectividades indígenas todavía predominantemente orales, una funcíon más o menos análoga a la de la "literatura" en las sociedades alfabetizadas (5)."

Nos outros textos de Ana Pizarro a que aludimos e neste mesmo que comentamos, há afirmações semelhantes sobre a literatura, por exemplo, neste trecho: "Frente a este canon las investigaciones sobre la oralidad y sobre sus distintas expresiones estéticas - cuya línea retoman y desarrollan algunos de los trabajos de este volumen - ponen en evidencia un cuestionamiento de éste, así como la necesidad de reformular el corpus, de lo que se considera la literatura del período a partir de la producción cultural que se realiza desde los márgenes (6)".

Tal como Lienhard, portanto, Ana Pizarro fala em alargar os limites do canon para além do estabelecido pelo gosto das elites européias e para além do próprio universo da escrita e, mesmo, das manifestações verbais. Tudo isso é muito importante e a riqueza do material trabalhado pelas antologias comprova plenamente o acerto da perspectiva. Minha questão é por que não se discute a necessidade que se tem, para ampliar o leque das manifestações simbólicas a estudar, de continuar trabalhando com um conceito que foi pensado em função da letra, a partir de uma produção discursiva que cumpre funções não "mais ou menos semelhantes" como quer Lienhard, numa aproximação muito genérica, mas fundamentalmente diferentes.

Ana Pizarro freqüentemente oscila, parecendo intuir o nó do problema. É quando diz , por exemplo, que ampliar o corpus não significa querer enfiar tudo no canon. Ou quando, em textos anteriores cita, embora sem incorporar plenamente à sua perspectiva, textos como os abaixo de Roberto Schwarz e Beatriz Sarlo que apontam mais diretamente para o silêncio a que me refiro. Diz Roberto Schwarz: "Como hay una intención latinoamericana y social en todo esto, mezclamos problemas y procesos muy diversos. Creo que hay que adoptar una diversidad metodológica también. El tratar las cuestiones indígenas no es incluso un problema de periodización, ahí hay problemas proprios: no se trata seguramente de arte en el mismo sentido en que se habla de arte en la tradición europea. Se trata de otra cosa que está siendo más o menos sintetizada en la práctica. Creo que hay que aceptar que queremos que estén juntos, pero no son iguales y uno no los puede tratar con el mismo criterio (7)."

O problema que me interessa discutir é que não se pode, em nome da defesa da cultura indígena, negra, feminina, etc... das chamadas minorias que são maiorias, demonizar a literatura porque ela hoje também está ameaçada. Beatriz Sarlo, na Abralic, deu um depoimento simples mas contundente. Para ela, a função que pensa ter como crítica é a defesa de 10 bons romances que conhece e não encontram editora, porque vêm sendo desbancados pelo best seller num mercado dominado pelas multinacionais do livro. Levando essa sua lógica adiante, pode-se dizer que a literatura erudita, de herança européia, branca e ocidental, está tão ou mais ameaçada hoje do que a indígena ou a negra, as quais a mídia incorpora quanto mais não seja para transformá-las em espetáculo que vende a um público ávido pelo exótico e despreparado para ler literatura difícil e canônica.

Ainda Beatriz Sarlo, na mesma direção de Roberto Schwarz: "No caso das literaturas indígenas não é propriamente o literário, é mais bem o simbólico discursivo, que pode ter função religiosa, mitológica, Ter função propriamente de voz. A literatura é antes o que uma sociedade aceita como tal. É necessário o funcionamento diferenciado destas textualidades em cada uma das formações sociais." Antonio Candido fala da má consciência nossa, de leitores da literatura erudita e canônica: "Lemos Mallarmé, Proust, Joyce, Kafka, mas afirmamos ao mesmo tempo, que a literatura autêntica poderia ser outra - a do índio, a do negro, a afroamericana, a popular, É uma velha tradição de má consciência (8)(...)" E sua proposta é dar o tratamento possível, nessa fase do desenvolvimento das pesquisas, a essas "outras literaturas", sem esquecer esse ponto, estando consciente da formação culta de cada um, de seus limites e possibilidades e dessa tendência à má consciência que, se ignorada, apenas escamotearia populistamente as diferenças mesmo quando, ao contrário, diz querer respeitá-las.

O que eu gostaria de lembrar aqui é que não me parece possível negar o cânon sem atravessá-lo, ou seja, se insistimos em inserir na rubrica de literatura tudo aquilo que até aqui não cabia nela, temos que começar discutindo o que é literatura para os que inventaram o termo e o que significa ampliar o conceito e estendê-lo a outras produções simbólicas, inclusive para além do escrito e do verbal. Qual a vantagem do uso do conceito assim ampliado? O que dele estamos conservando quando o retomamos? O estatuto de arte? O estatuto de criação dignificada e respeitada como necessária à humanidade? E tudo aquilo que definiu a literatura a partir da criação do conceito? a gratuidade, o trabalho com a linguagem? a dimensão da individualidade? Serão traços transferíveis para sociedades que se estruturam de modo inteiramente diferente? Para agrupamentos humanos com outros valores e hierarquias? Para sociedades ou até mesmo, comunidades, em que os textos orais, escritos, pintados, esculpidos têm ainda um valor ritual e mítico? Penso na distinção de Northrop Frey entre mito e literatura, por exemplo, onde diz que a diferença essencial entre um e outro é que o primeiro conserva seu valor de verdade, enquanto o segundo, quando acaba o mito, caracteriza-se pela ficcionalidade aceita em si mesma. As convenções são outras, as funções são outras, as regras e os usos são outros, outros os valores em jogo.

Todos sabemos que literatura é um conceito do fim do século XVII, que nasceu em substituição ao conceito de belas letras. Enquanto estas investiam na erudição, a literatura é colocada, a partir do século XVIII, a serviço da ciência e do pensamento, como parte da Humanitas e da civilidade. As belas letras incluíam o conhecimento dos oradores, dos poetas e dos historiadores. Mas, desde o final do século XVII, especializam para nomear as belas artes, "produções do imaginário mais para o agradável do que para o útil. A expressão pode apontar pejorativamente, para a literatura como algo sem relação com a realidade que só leva em conta o prazer estético.

O conceito de literatura como forma de conhecimento e expressão de uma cultura opõe-se funcionalmente às belas letras, porque estas eram expressão de um mundo mundano, o mundo da corte, em que era preciso exibir o "bel esprit". No conceito moderno de literatura há progressivamente o descolamento da sua relação com a realidade e uma valorização da gratuidade contra o utilitarismo do mundo burguês, espécie de antídoto ou até válvula de escape e, em muitos casos, disfarce de que ela também serve a ele, pelo menos em parte, porque é contraditória. No conceito de literatura entra, portanto, a consciência da intransitividade da linguagem. A medida em que se autonomiza, a literatura toma consciência dos seus limites, da sua incompletude que é, paradoxalmente, o que lhe dá consistência e plenitude. A relativização do primado da linguagem já está dentro da própria literatura e é simultânea à insistência nesse primado. Contraditória, por excelência, na sua intransitividade transitiva ou na sua transitividade intransitiva, na sua onipotência impotente ou na sua impotência onipotente, a literatura se debate, também nestas terras, desde seu nascedouro, entre dois gumes, como bem nos mostrou Antonio Candido, cujas palavras aparecem no debate com Ana Pizarro e ela reproduz concordando: "Quando os escritores do século XVIII começaram a tratar temas indianistas, usaram rigorosamente do soneto, do poema épico, do canto heróico; mas ao eleger o tema já esboçavam um movimento de divergência, incluindo no universo da literatura culta algo do universo das culturas relegadas. Nesses casos, a literatura revelou ser, por meio da ambigüidade, um instrumento de reação contra o estatuto colonial. Portanto, ela serviu primeiro para impor tal estatuto, para expressar a reação contrária (9)."

Antonio Candido nos alerta, e Ana também incorpora isso à sua reflexão na introdução ao livro resultante da reunião de Campinas, contra a tendência a demonizar a literatura por seu caráter ideológico e por sua função conservadora em relação aos objetivos das classes dominantes, em diferentes períodos, pois, consciente dos 2 gumes, sabe que seu caráter contraditório exige a dialética: "Na América Latina a literatura foi uma imposição. É curioso ver a correspondência dos capitães gerais, a insistência ao mandar promover criações literárias. Significa isso que era uma literatura odiosa, reacionária? Não. Isso é um mecanismo de dominação e dentro desse mecanismo de dominação foi produzindo seus contravenenos. Foi assim (10)." Ana Pizarro intui que os fenômenos que quer apresentar transbordam o próprio conceito e fala de 3 sistemas: o erudito em espanhol, português ou outra língua metropolitana; o popular, na expressão americana das línguas metropolitanas ou em crioulo (Caribe) e o sistemas em língua nativa, conforme a região.

Tudo isso mostra que, se o conceito não é mais o mesmo, é preciso, para superá-lo, analisá-lo, incorporá-lo, ampliá-lo, passar por dentro dele. Senão se cai na negação superficial que não supera mas contorna o problema, de modo simplista e até mesmo condescendente, populista, discriminando quando se quer lutar contra a discriminação. E é preciso levar em conta que a própria história do conceito nos impede de ignorar a dimensão intrínseca do fenômeno literário, sua especificidade, sem ignorar tampouco as convenções e as determinações histórico-sociais que delimitam o valor estético, sendo este, como queria Mukarovski, a um só tempo, histórico e objetivo. Reformular o corpus do que se considera como literatura, a partir do confronto com uma produção cultural que se realiza nas margens é uma das propostas. Mas o que isso quer dizer? Que essa produção das margens também é literatura? Com isso a estamos canonizando com aquela ou no lugar daquela? Com que objetivo dizemos que essa produção é literatura? O melhor não é dizer que, além da literatura, outras manifestações simbólicas, principalmente numa região com a diversidade cultural e étnica da América Latina são de importância extrema, não só porque expressam setores importantíssimos da sociedade ágrafos ou analfabetos, mas porque até hoje tem mais gente nas margens e isso nos levaria até a re-situar a literatura, também diante do universo da imagem, bem como aos nossos estudos? Hoje também temos que falar de uma literatura de índio, e de negro, e de minorias? Ou não? Questionar o canon desde a oralidade parece-me correto, mas é preciso discutir o que é específico de um e de outro. Não dá para julgar um pelo outro. Até para ver seus cruzamentos e retomadas recíprocas, o que um faz com o outro, as relações e cruzamentos do oral e do escrito, do erudito e do popular, fenômeno muito rico não apenas na América Latina mas mundialmente sempre ocorrido, embora aqui se torne mais interessante porque a letra se impõe e impõe uma cultura com mais violência e a voz se opõe e engole a letra e a luta continua...

Ana fala mesmo numa literariedade indígena, referindo-se à poesia laboral, mortuária, satírica, afetiva. Tais especificações, porém, por si sós, negam a literariedade pura que o conceito formalista supõe. São contradições e oscilações como essa que mostram a necessidade de equacionar melhor o problema. Para tanto, é preciso, entre outras coisas, tratar das diferenças de funções e de categorias dos discursos, levando em conta o pragmatismo popular, a gratuidade burguesa e o entretenimento da sociedade manipulada pela mídia. Distinguir os textos que servem a um lazer produtivo e ativo daqueles que favorecem um lazer alienado, passivo. A literatura que enriquece e desafia a imaginação e a inteligência dos produtos que as embotam na repetição e na facilidade. Se nos cegamos na luta contra o cânone, vale tudo e não distinguimos esses níveis que o próprio mercado e suas agências, por exemplo, as próprias editoras, distinguem. Só assim estaremos adotando uma postura democrática, aberta ao trabalho do leitor, à sua participação e reflexão; ao alargamento das sensibilidades, do conhecimento e do erotismo. De qualquer modo, o problema não é de hoje. Nunca foi fácil definir literatura e o conceito não é estático. Nesse sentido talvez hoje a Europa e os países do chamado primeiro mundo estejam mais confusos do que nunca, oscilando sempre mais entre a culpa e a arrogância. Enquanto nós uma coisa sabemos: reivindicamos tudo de bom que eles têm, do celular e do computador ao bom poema e ao bom romance - a literatura.


(1) Palavra, Literatura e Cultura, organização de Ana Pizarro, São Paulo, Editora da Unicamp e Memorial da América Latina, volume 1: A situação colonial, 1993; volume 2: A emancipação do discurso, 1994 e volume 3: Vanguarda e Modernidade, 1995.

(2) Veja-se especialmente o prefácio e a longa introdução que Pizarro faz ao livro La literatura latinoamericana como proceso, organizado por ela, com textos de Antonio Candido, R. Gutierrez Girardot, J. L. Martinez, D. Miliani, C. Pacheco, A. Pizarro, A. Rama, J. Leenhardt, B. Sarlo, R. Schwarz. Buenos Aires, Bibliotecas Universitárias, Centro Editor de América Latina, 1985 . Esse livro apresenta os principais textos lidos no Encontro de Campinas-UNICAMP/ 1983-pelos participantes diretos do projeto então denominado "História da Literatura Latinoamericana" . Fragmentos dos debates desse encontro são retomados por Pizarro na sua introdução. Veja-se também o texto com o qual ela introduz outro livro que organiza, com os resultados anteriores do mesmo projeto, alcançados na reunião de Caracas de 1982: Hacia una historia de la literatura latinoamericana, México, El colegio de México/ Universidad Simón Bolívar, 1987.

(3) Da morte de Ángel Rama, em 1983, à falha de alguns participantes que não entregaram os textos prometidos, entre outros.

(4) p. 24 do texto que estamos comentando. Essa posição foi enunciada com toda a clareza por Ángel Rama no encontro de Campinas e é aqui fielmente recuperada por Ana Pizarro.

(5) No primeiro volume da trilogia, Palavra, Literatura e Cultura, pp. 169-185.

(6) p. 172

(7) pp. 20 e 21 do texto que estamos comentando.

(8)La Literatura Latinoamericana como proceso, cit. p. 44.

(9) La literatura latinoamericana como proceso, cit. p. 82.

(10) Idem, p. 31.