O folclore e a literatura

Price Mars 

Tradução:

Eugenio Michel da Silva

MARS, Jean Price. Ainsi parla l'oncle . New York : Parapsychology Foundation INC, 1954. p.5 - 50: Ensaios de etnografia.

O FOLCLORE E A LITERATURA

Alcançado o término de nossa pesquisa, podemos dar uma olhada genérica no seu conjunto e dele tirar alguma informação útil à vida e à originalidade de nosso grupamento social.

Em primeiro lugar, a demonstração não desmentiu as premissas colocadas no limiar destes estudos quando antecipávamos que o folclore era rico em matérias diversificadas.

Contos, lendas, adivinhações, canções, provérbios, crenças florescem com exuberância, generosidade e uma candura extraordinárias. Magníficas matérias humanas das quais se formaram o coração caloroso, a consciência infinita, a alma coletiva do povo haitiano! Melhor do que as narrativas das grandes batalhas, melhor do que a relação dos grandes fatos da história oficial, sempre constrangida a expressar apenas uma parte da inapreensível Verdade. Melhor do que as poses teatrais dos homens de Estado em atitudes de comando, melhor do que as leis que não podem ser senão européias emprestadas, mal-adaptadas a nosso estado social em que os detentores passageiros do poder condensam seus ódios, seus preconceitos, seus sonhos ou suas esperanças. Melhor do que todas estas coisas que são o mais freqüentemente ornamentos acidentais impostos pelas contingências e adotadas somente por uma parte da nação - os contos, as canções, as lendas, os provérbios, as crenças são obras ou produtos espontâneos que brotaram, num dado momento, de um pensamento genial, adotados por todos porque fiéis intérpretes de um sentimento comum, que se tornaram caros a cada um e transformados, enfim, em criações originais pelo processo obscuro do subconsciente.

Se uma mesma ciranda infantil, que não enfeia os lábios da aristocrata enfatuada de orgulho nobiliário, renasce idêntica na voz embriagada pela ternura da camponesa debruçada sobre seu pimpolho caindo de sono; se uma lenda que dá arrepios ao janota, repleto das mais recentes teorias de arte ou de ciência, estremece de medo igualmente o tarefeiro dos ateliês das grandes indústrias; se a crença que o homem grave rechaça com ostentação, sentado em seu escritório, obriga-o a duvidar da trama natural das coisas tão logo seus negócios declinam e o levam a procurar a justificativa de sua dúvida na palavra amarga do personagem shakespeariano:

"Há, na terra e no céu, "Mais coisas do que possa sonhar nossa filosofia;"

se a mesma crença conduz pouco a pouco o burguês a partilhar com seu serviçal do mesmo temor pelo desconhecido, porque em seu pátio terão sido juntadas coisas insólitas: pipoca, folhas murchas e outros ingredientes, enquanto alguém de seu meio é atingido pela doença ou pela morte; se o mesmo otimismo imperturbável galvaniza a energia de cada um nas horas mornas do desânimo, porque em cada um de nós, tanto na elite quanto na plebe, a confiança no reerguer-se das coisas daqui de baixo por alguma intervenção providencial forma o potencial das ações; enfim, se este pensamento miraculoso que está na base da vida haitiana e lhe confere sua marca própria - a tonalidade mística - se tudo isto é extraído do reservatório comum das idéias, dos sentimentos, dos fatos, dos gestos que constituem o patrimônio moral da comunidade haitiana, a soberba de uns e outros terá, em vão, investido contra a solidariedade das falhas e dos pecados; o bovarismo dos diletantes inutilmente terá lhes ditado atos de covardia e de mentira; a imbecilidade dos egoísmos de classe, em vão, terá provocado atitudes de antipatia e medidas de ostracismo - nada poderá impedir que contos, lendas, canções vindos de longe ou criados, transformados por nós, sejam uma parte de nós mesmos, para nós mesmos revelada como uma exteriorização de nosso eu coletivo. Nada pode impedir que crenças latentes ou formais vindas de longe, transformadas, recriadas por nós, tenham sido os elementos motores de nossa conduta e tenham condicionado o heroísmo irresistível da multidão que se fez massacrar nos dias de glória e de sacrifícios para implantar a liberdade e a independência do negro em nosso solo; nada pode impedir finalmente que, à época de transição e de incerteza em que vivemos neste momento, esses mesmos elementos imponderáveis não sejam o espelho que reflete o mais fielmente a face inquieta da nação. Eles constituem de uma maneira inesperada e espantosa os materiais de nossa unidade espiritual. Onde, pois, poderíamos encontrar uma imagem mais sincera de nossa comunidade?

O que, pois, jamais exprimiu tão perfeitamente a alma haitiana?

Mas, então, temos o direito de perguntar qual partido a arte e a literatura tiraram de nosso folclore? E, em primeiro lugar, existe uma arte haitiana, uma literatura haitiana?

Esta última questão aparece periodicamente nas preocupações da imprensa e, de tempos em tempos, a entrevista de um homem de letras a resolve pela afirmativa ou negativa. É um jogo de príncipes. Haverão de desculpar-nos por achar esta preocupação um tanto quanto estéril. Provavelmente, as razões que provocam o enunciado não residem absolutamente apenas na penúria das obras mas no seu modo de expressão, porque o haitiano erudito não se serve senão de uma língua de empréstimo - o francês - porque nutre seu pensamento de obras francesas, porque se preocupa, graças à mediação da língua, com tudo o que interessa à vida e à civilização francesas, infere-se disto que suas produções literárias não podem ser senão produções francesas. Embora encerrem a aparência de fundamento, estas razões são insuficientes para nos impedir de ter uma literatura e uma arte nativas.

Certamente, se a língua é o veículo do pensamento e a mensageira alada que sustém o principal atributo da vida social - a intercomunicação entre os membros de um mesmo grupo, - ela não cria o pensamento em si mesmo e tampouco é seu modo exclusivo de expressão. Ela não é senão um artifício para traduzir as emoções, as sensações, toda a vida interior. Em suas múltiplas funções, ainda é freqüentemente inferior e sempre posterior ao gesto que é, ele, a expressão mais elementar das necessidades da alma.

A língua é função de fatores psicobiológicos e sociológicos (1) que explicam sua gênese, condicionam sua existência, determinam sua evolução e engendram sua riqueza ou sua pobreza. Ela é, dentre as instituições, a que mais se adapta à mentalidade do grupo que dela se serve como do mais flexível instrumento da vida social. Mas ela pode ser intercambiável. E é por isso que povos diversos falam às vezes a mesma língua sem que entre eles exista uma identidade de sentimentos e de crenças, comunidade de gostos e de ideal. Não é verdade que muito faltaria para que os Estados espanhóis da América fossem simples decalques da Península Ibérica? Já se confundiu a literatura anglo-saxã de além mar com as produções literárias da Irlanda ou da Escócia? Quem jamais contestou a existência da literatura suíça, belga, canadense, de expressão francesa? Quem jamais impediu a língua inglesa de expressar o estado de espírito dos negros dos Estados Unidos nas obras de James Weldon Johnson, Dubois, Booker, T. Washington, Chesnut? E por que então a língua seria um obstáculo para que os haitianos tragam ao mundo uma noção de arte, uma expressão da alma que seja absolutamente muito humana e muito haitiana ao mesmo tempo?

Provavelmente, nosso maior literato do último século, senhor Delorme, nas obras apreciáveis que deixou a nossa admiração, tanto pela pureza do estilo quanto pela clareza da composição, nelas nada colocou que possa lembrar, mesmo de longe, que foram escritas por uma pena haitiana. Provavelmente, os romances do senhor Delorme tomem de empréstimo tanto o quadro de sua ação quanto os seus personagens da Turquia, da Itália, da França e nunca do Haiti, e estamos ansiosos em escrutar as razões que justificam um tamanho desdenho ou uma tamanha reserva. E sem limitar a liberdade e o direito do artista de procurar o sentido ou a inspiração de sua obra conforme os caprichos de sua fantasia, temos a inclinação de perguntar se o senhor Delorme não sucumbiu a um certo esnobismo, desconhecendo as possibilidades literárias do meio haitiano. Talvez tenha ele obedecido ao gosto do romantismo indo buscar no passado, à maneira de Alexandre Dumas, um longínquo congênere, os temas de seus livros? Talvez compreendera também que o sucesso e a glória não podiam coroar seu talento senão se escrevesse para um público estrangeiro mais apto a apreciá-lo do que o público haitiano? Há um pouco de tudo isso na atitude do grande escritor. Mas há outra coisa. Na nossa opinião, o senhor Delorme obedeceu a um dos mais estúpidos, dentre os mais mesquinhos preconceitos que jugulam a atividade haitiana, a saber, que nossa sociedade, em seu passado como em sua existência atual, não oferece interesse algum à arte do romancista. Assim, ele passou ao lado de mil e um dramas emocionantes, ao lado das perturbadoras peripécias da tragicomédia com as quais é tecida a vida haitiana; ele margeou esta humanidade desconcertante em que a vaidade coletiva e individual, a hipocrisia social, a besteira solene desferem os mais violentos ataques à simplicidade do coração, à dedicação tranqüila, à verdadeira cultura da inteligência e do sentido moral e nem mesmo percebeu que estas coisas existem. Ele, cuja voz encantadora de orador ninou os sonhos políticos de seus contemporâneos, que foi o ídolo da juventude ávida de saber e apaixonada pela beleza e que lhe abriu seus salões onde se discutiam todas as questões de arte e de literatura; ele que conheceu os triunfos precários e as derrotas súbitas da política, que foi embaixador de seu povo, junto aos Victor Hugo, Alfred de Lamartine, nada deixou em sua obra que seja um frêmito de sua sensibilidade afetada pela ação de seu meio, nada que nos permita ter uma opinião sobre os costumes de seu tempo, nem sobre outra época qualquer da vida haitiana. E este homem distinto, que poderia ter sido um grande escritor francês, não é conhecido na literatura francesa e quase não existe para a literatura haitiana. Na verdade, o caso do senhor Delorme é uma ilustração de nossa mentalidade que não atribui relevo à personalidade intelectual de um escritor a não ser se projetada sobre a tela incerta da glória estrangeira.

Felizmente, uma reação tardia reconduziu nossos escritores, poetas e prosadores, a extrair a matéria de suas obras do meio em que viviam e esta nova concepção de arte nos valeu nestes últimos trinta anos, uma floração de obras interessantes do ponto de vista haitiano.

Bastaria respigar entre os trabalhos de Georges Sylvain, Frédéric Marcelin, Fernand Hibbert, Justin Lhérisson, Massillon Coicou, Burr-Reynaud, Rey, Carolus e tantos outros que poderíamos citar, se fizéssemos um quadro da literatura haitiana, para demonstrar a preocupação cada vez mais evidente de nossos escritores em procurar à sua volta fontes de inspiração, traços de costumes, estudos de caráter e de fatos sociais que são muito apropriados a nossa maneira de amar, de odiar, de crer, a nossa maneira de viver enfim. E então como denegar a esta produção literária seu caráter nacional? Não é verdade que Séna Chacha, Epaminondas Labasterre, Féfé candidat, Eliézer Pititecaille, Boutenégue são tipos característicos de nossa terra? Não seria temerário acrescentar que um escritor estrangeiro que tentasse representá-los não lograria senão meio sucesso, qual fosse seu talento, porque, para dar-lhes vida, é preciso, em primeiro lugar, penetrar o segredo dos mecanismos que movem todos os paladinos do vício, da depravação e da mentira que pululam em nossa comunidade. Melhor do que isso, para tomar gosto pela palhaçada de seus gestos e saborear o ridículo de suas atitudes, é preciso ser haitiano. Há pois, definitivamente, uma literatura haitiana. Não pretendemos, repitamo-lo, jugular a liberdade do escritor e menos ainda tencionamos significar que as qualidades acima enumeradas sejam as únicas aptas a dar a investidura haitiana às obras literárias. Pareceria que uma certa sensibilidade comum à raça, até mesmo um certo volteio lingüístico, uma certa concepção da vida muito típica de nosso país com as quais um escritor de talento marcaria suas obras sem que seus personagens sejam haitianos, não deixaria de modo algum de lhes dar o caráter nativo que nossa crítica reclama. Mas, ao lado de tudo isso, seria preciso outra coisa de maior, mais autenticamente verdade humana e haitiana, seria necessário que a matéria de nossas obras fosse tirada às vezes desta imensa reserva que é nosso folclore, em que se condensam há séculos os motivos de nossas volições, em que se elaboram os elementos de nossa sensibilidade, em que se edifica a trama de nosso caráter de povo, nossa alma nacional.

Nossa literatura nele se inspirou?

Timidamente, tão timidamente que, exceto em Mimola , de Antoine Innocent, em que a ficção está aprisionada em preocupações de apologética, é meticulosamente que se pode descobrir aqui e acolá motivos, temas de folclore. Queremos exemplos disso?

Por que hesitaríamos em começar por uma das obras de Georges Sylvain? Na verdade, um escritor jamais pode justamente reclamar-se uma mais autêntica filiação francesa para o conjunto de suas obras quanto ao volteio clássico da língua e à bela ordenação do discurso. Georges Sylvain, muito cedo arrancado das letras e da pátria haitianas que foram as duas grandes paixões de sua vida, deixou em seu Cric-Crac o testemunho do mais formidável desafio ao qual um homem de talento tenha se consagrado. Transpor para o patoá e em versos crioulos as fábulas nas quais La Fontaine imortalizou-se, tal é o esforço que ele realizou. E, como na linguagem através da qual faz seus personagens falarem, animais e pessoas, mesmo quando estas últimas não são de nosso país, logra êxito com muita freqüência em dar-lhes a entonação, a mímica das pessoas de nossa terra, pergunta-se por que ele tinha necessidade de modelar seu pensamento por aquele do genial fabulista?

Você percebe que magnífica criação original teria alcançado Georges Sylvain se tivesse esquecido La Fontaine para não extrair seus temas integralmente senão das lendas e dos contos do Haiti. Não é lamentável que tenhamos perdido a mais bela ocasião de ter uma obra-prima de literatura folclórica?

Da mesma veia humorística e burlesca nasceram as fábulas locais de Carolus (2) saborosas e vigorosas. Escritas em francês, levam o leitor lentamente à conclusão moral que é sempre um provérbio crioulo.

De um outro gênero, e baseado em uma preocupação pedagógica, é a tentativa ousada do senhor Frédéric Doret que editou um opúsculo " Pour amuser nos petits " (Para distrair nossos pequeninos), no qual transpôs do francês ao crioulo as principais fábulas de La Fontaine. O intuito do senhor Doret, muito louvável, aplica o famoso preceito de Pestalozzi que diz que em matéria de educação é preciso ir do conhecido ao desconhecido. Não haveria relação com nosso assunto se, na prosa crioula do pequeno livro, não tivéssemos encontrado aforismos, provérbios que são matérias do folclore.

De resto, cada entrega da "Pequena Revista", que o senhor Doret dirige com tanto tato e autoridade, contém um conto tirado de nossas tradições orais. Não se conseguiria felicitar demais a clarividência deste bom haitiano que, em numerosos artigos, em numerosos livrinhos, preconiza o emprego do crioulo como ponto de partida para o ensino do francês, a fim de que a escola primária haitiana não seja mais um treino ao psitacismo, um ultraje ao bom senso, e que dê um ensino concreto, substancial e mais proveitoso à clientela popular para a qual foi criada. Deve-se desejar que todos os nossos pensadores se liberem dos preconceitos que os amarram e os obrigam a imitações obsequiosas do estrangeiro, que façam uso das matérias que estão ao seu alcance a fim de que de suas obras sejam liberados, ao mesmo tempo que um vigoroso fôlego humano, este perfume áspero e quente de nosso solo, a luminosidade impiedosa de nosso céu e este não sei o quê de confiante, de cândido e de enfático, que é um dos traços particulares de nossa raça.

Foi, em parte, a uma consideração semelhante que obedeceu o senhor Dominique Hippolyte, cujo perseverante labor aumentou a biblioteca haitiana com um novo volume de poesia: "La route ensoleillée".

Múltiplas são as notas de folclore sobre as quais sua musa modulou acordes simples e tocantes. E não pode ser senão prazeroso o fato de encontrar em nossos rapazes a preocupação por traduzir em obras de arte aquilo que sentem dever ao solo ancestral. O senhor Hippolyte não exprimiu o fundo de seu coração quando colocou como destaque de seus poemas este pensamento do senhor Charles Maurras:

"Tudo recebi do solo natal...".

Pode-se dizer que a mesma simpatia pelas coisas e as crenças do passado marcou muito fortemente a obra de Burr-Reynaud. Seu teatro e suas poesias estão completamente impregnados por ela. Ele contou que:

"Nos grandes bosques sombrosos, quando toca a meia-noite,”

"Sob a cascata branca de notas cristalinas, ”

"Pode-se ver avançar frouxamente e sem barulho”

"Uma mulher de seios nus, uma irmã das ondinas:”

"A dona da Água...”

Infelicidade do passante que pára, fascinado, para contemplar a beleza da imortal! Ele cai perdidamente apaixonado por ela. Ora, é do destino desta cruel soberana ser insensível aos desejos dos homens. Quanto mais selvagem e indomável é o amor que inspira, menos é possível o acesso ao seu coração. E é para levar a cabo sua obra de crueldade que ela aparece aos homens.

"Sob a cascata branca de notas cristalinas"

pronta a arrastar os impudentes às profundezas de seu império movente.

Com igual felicidade, o poeta nos fala da flor de bambu que eclode apenas uma vez por ano no Natal. Todos os que o amor mantém sob seu jugo e de quem o pavor e o desejo apoderam-se devem estar vigilantes para ir às profundezas da floresta colher as pétalas da flor rara, no Natal à meia-noite. Se, porventura, a noite sagrada os surpreende sob a árvore antes que se termine a misteriosa floração, por ela são envoltos como que por sua mortalha.

Bonito tema que o poeta evocou em versos delicados e sutis.

Bem antes de Burr Reynaud, Frédéric Marcelin em muitas páginas coloridas com humor e com malícia satirizou as superstições de Marilisse inquieta com as predições da cartomante, debruçou-se sobre a trágica aventura de Jan Jan por demais inocentemente fiel aos costumes ancestrais, e, inspirando-se nas crenças populares, sua pena nos conduz, com Mama em casa de Hougan que prepara o veneno destinado a Télémaque , o assassino do noivo por quem chorava a esquiva heroína. Mama se embrenhara na estrada, sozinha, durante a noite: "Com uma tristeza melancólica, encantadora, inimiga dos pródigos cintilamentos, evocatória dos pensamentos sonolentos, de fácil digestão, a lua passeava sua face morna sobre os bosques já adormecidos". A moça ultrapassara a barreira da propriedade onde residia o consultor e caminhava tateante através do jardim. De repente, ouviu um lamento grave, melancólico, doloroso, que parecia vir das profundezas da terra. Isso a fez tremer até desvanecer-se. E o lamento se prolongava, estendia-se no silêncio da noite, sinistro, indefinido.

Apavorada, Mama acorreu até a porta de Hougan e solicitou explicações sobre a proveniência deste estranho rumor.

Então o ancião instruído das coisas da terra lhe disse:

"O que lhe deu medo foi o grito do inhame crescendo sob a terra. É o esforço que ele faz para romper sua casca, é sua época, é isso que lhe arranca seu lamento..."

E quem pois se permitira, antes de Marcelin, a recolher estes feixes de crenças populares para daí tirar os efeitos de realismo e pitoresco com os quais impregnou alguns de seus livros?

O escritor tem um outro mérito que partilha com o senhor Fernand Hibbert. Dos quarenta trabalhos dos quais se compõe o conjunto de sua produção - romances, contos críticos, obras políticas - nem um único, nem o menor opúsculo trata de uma matéria que não se ligue estreitamente às coisas e à vida haitianas, embora Frédéric Marcelin e Ferdinand Hibbert tenham morado em Paris durante muito tempo e tenham estado muito envolvidos com a vida parisiense por seus gostos, sua educação, seu talento ou sua fortuna. É esta inflexível vontade de tirar partido da matéria haitiana para a edificação da obra de arte que lhes dá o lugar privilegiado que ocupam nas letras haitianas.

Eles nos parecem resumir o mais sério esforço que tenha sido feito até então para elaborar uma literatura verdadeiramente nativa. Entendemos bem - ainda uma vez - não condenar ao exclusivismo aqueles entre nossos escritores que procuram sua inspiração alhures que em nosso meio. Isso seria, na verdade, dar testemunho de uma deplorável estreiteza de espírito. E nós não sabemos em nome de qual dogma irredutível, condenaríamos à proibição um Damoclés Vieux, um Etzer Vilaire, um Charles Moravia, entre os mais notórios escritores de nossa época, ou um Léon Laleau, cujo talento se afirma fecundo e diverso, e tantos outros cujas produções literárias auguram uma colheita abundante e meritosa. O que seria necessário observar é que as obras dos escritores dos quais tratamos os colocam à margem das preocupações que são o objeto destes ensaios.

E agora, que podemos antecipar sobre a arte haitiana sem jogar com o paradoxo?

Algumas manifestações esporádicas de pintura e de escultura bastam para caracterizar uma produção artística? É verdade que Normil Charles existe e modela na argila os sonhos de glória que obcecavam outrora as mentes de nossos heróicos ancestrais?

Mas uma andorinha só não faz verão ...

Talvez não seja inoportuno fazer uma simples menção à música cuja estética se liga, de alguma forma, ao assunto que nos ocupa.

Nossas danças populares - vodu, yanvalou, pétro, iboméringue - têm todas seu ritmo e este ritmo se entende com a cadência da melodia que daí decompõe a medida.

Todas as cerimônias relativas ao vodu - evocações, iniciações, exorcismos, ritos expiatórios, etc., - não se realizam senão ao ritmo dolente dos cantos litúrgicos de uma linha tão simples quanto o cantochão. Parece-nos que caberia estudar estes temas e deles extrair poemas, peças dramáticas de uma veia original e nova. Ainda que não estejamos qualificados para falar disso do ponto de vista técnico, não encontramos uma única obra decisiva em toda esta produção confusa, nestes últimos tempos denominada: "Música voduística".

Pareceu-nos até mesmo que se confundia bastante facilmente rondas populares com temas voduísticos. Entretanto, a matéria está em gestação. Muitos operários estão trabalhando. Um Occide Jeanty, já maltratado pela idade mas cuja fronte ainda é acariciada pelas asas da Musa; um Lamote, cuja sensibilidade é uma reserva inesgotável de sonhos e de esperança; um Justin Elie, cujo talento amadurecido por tantos ensaios felizes nos leva a esperar dele um trabalho de grande estilo; um Franck Lasségue que, evadido para as margens do Sena, aí exala a nostalgia de sua alma vagabunda em notas lamentosas e todos os outros a quem obceca o problema de criar uma música haitiana original, sensual e melancólica. Todos são a garantia de que na matriz do Tempo se elabora a obra que marcará a aptidão da raça para uma arte pessoal, geradora de pensamentos e de emoções.


(1) Aqui confundimos facilmente língua e linguagem.

(2) Carolus é o pseudônimo de um escritor que se recolheu do mundo mas que de sua tebaida segue todos os movimentos