O boom em perspectiva

Ángel Rama
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Comentário: Flávio W. de Aguiar (USP)

Quem é Ángel Rama

Diante da vida de um intelectual como Ángel Rama não cabem perguntas no tempo passado. Ángel continua sendo fonte de inspiração para todos os que pensam numa América Latina onde se unam liberdade, uma vida cultural pujante e condições de vida mais dignas para suas imensas massas de deserdados.

Ángel Rama nasceu em Montevidéu, no Uruguai, em 30 de abril de 1926. Em 1945 começou a trabalhar como tradutor na Agência France-Presse e em 1947, começa a fazer cursos na Faculdade de Humanidades e Ciências. A partir de 1949 foi trabalhar na Biblioteca Nacional de Montevidéu e em 1948 ingressou no semanário Marcha , sem dúvida um dos jornais mais importantes que já existiram na América Latina. Ángel Rama dirigiu durante dois anos, com Manuel Flores Mora, a seção de literatura do jornal. Nas décadas seguintes exerceu uma atividade intelectual intensa e variada, tornando-se uma dos principais críticos de sua geração. Sua obsessão particular foi não só o estudo, mas a constituição, enquanto projeto libertador, de uma cultura latino-americana. Neste campo Ángel Rama trouxe um aporte absolutamente original. Saindo das declarações bombásticas e do mero plano das boas intenções sobre os desejos de uma unidade latino-americana, Ángel Rama entregou-se à pesquisa e reflexão sistemáticas sobre o assunto, formulando de fato uma visão integradora dos processos culturais do continente ao sul da fronteira dos Estados Unidos da América do Norte. Neste caminho, suas reflexões foram marcadas por alguns conceitos chaves que ele buscou, ou formulou, e que passamos a discriminar.

Sistema literário . Este conceito Rama foi buscar na obra do crítico brasileiro Antonio Candido, como uma relação triangular entre um grupo de escritores mais ou menos conscientes de sua posição, um conjunto de obras que vão constituindo uma tradição própria e dão margem a um sentimento de autonomia , embora não de isolamento, e um público leitor que se identifica com e através dessas obras como pertencentes a uma determinada cultura que nelas se expressa e com elas se constitui. Rama definia como sistemas nacionais precocemente formados na América Latina os do Brasil, do México e o de Buenos Aires.

Comarca . Este é um dos conceitos mais importantes e dinâmicos da obra de Rama, complementando o de sistema literário nacional. Rama sublinhou sempre o fato de que grande parte das fronteiras latino-americanas foram determinadas por acordos feitos na Europa pelos impérios coloniais e depois com o concurso do capitalismo britânico e o norte-americano em expansão. Nem sempre, ou melhor, quase nunca, esses acordos seguiam linhas geograficamente naturais ou respondiam a uma sensibilidade de regiões culturais definidas. Desse modo, ressaltava ele, não se terá uma idéia mais precisa dos processos culturais na América Latina quem só se fixar nas dimensões nacionais de nossas culturas. Para além portanto dessas fronteiras Rama atentava para a existência de regiões dotadas de uma certa homogeneidade cultural característica, que ele denominava de comarcas , cujas dimensões extrapolavam os limites dos países constituídos após o declínio dos Impérios. Haveria assim, pelo menos. Uma comarca pampeana, envolvendo parte da Argentina, o Uruguai e o extremo sul do Brasil; uma comarca andina, estendendo-se desde o norte da Argentina até a Colômbia e Venezuela; outra amazônica e ainda uma caribenha, reunindo as ilhas e as costas adjacentes.

Transculturação . Este conceito Rama foi buscar na obra do sociólogo, antropólogo e historiador cubano Fernando Ortiz, Cuntrapunteo cubano del tabaco y el azúcar , publicada em 1940. Ortiz usou este conceito para contrapor-se ao de aculturação , então muito usado na antropologia dos Estados Unidos, onde ele se achava exilado, para descrever os processos de integração de imigrantes e povos dominados nas culturas dominantes. Ortiz fazia a crítica deste último conceito por considerá-lo unilateral. Em seu lugar propunha a idéia de que nas Américas houvera um processo de transformações muito complexo das culturas originais que se chocaram no período da colonização e depois, inclusive nas culturas consideradas como dominantes. Rama transpunha essa leitura original para o plano da literatura e das operações culturais, vendo as formas artísticas sobretudo européias modificando-se para atender às demandas da intelectualidade desejosa de expressar-se com autonomia em relação às fontes, criando novos sistemas literários nacionais dentro da complexidade das culturas latino-americanas e suas comarcas de contornos indecisos.

Com este complexo corpo conceitual Rama conseguiu propor uma visão integrada da história cultural das Américas, observando nas diferentes culturas formadas um mesmo ritmo a partir aproximadamente de 1870. Segundo ele, a partir daí, quando os processos de independência política estão consolidados ou consolidando-se em regiões remanescentes, o continente inteiro passa a ser continuamente "assolado" por diferentes processos de modernização , onde camadas emergentes propõem um jogo tenso de identificação e crítica com o passado tradicional, e as novas relações e os novos modelos internacionais, sobretudo os da Grã-Bretanha, da França e dos Estados Unidos. Como consequência disto Rama propôs de forma consistente, pela primeira vez, uma história da literatura latino-americana que integrava os países de língua hispânica e o Brasil de língua lusa, além de outros de outras línguas, como o Haiti.

Rama tornou-se um intelectual de projeção internacional, tendo realizado muitas viagens à Europa e pelas Américas. A partir de 1973, quando houve o golpe militar de junho, Rama viveu no exílio, fixando residência na Venezuela. Deu aulas na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Em 1983 teve seu visto neste país não renovado, sem qualquer explicação, o que motivou protestos no mundo inteiro e nos Estados Unidos também. No fim deste ano, quando ia da Espanha para Bogotá, o avião em que viajava caiu em Mejorana del Campo, ainda em território espanhol, pondo fim a uma vida exemplar de dedicação à cultura e à liberdade, rigor crítico e coragem pessoal.

O boom em perspectiva

Este ensaio foi publicado pela primeira vez em livro em 1982, na Colômbia, no La novela latinoamericana . Panoramas, 1920 - 1980. Culmina uma série de artigos para periódicos e comunicações em congressos sobre este tema, que envolve as complexas relações entre criadores, público e mercado editorial. Rama aborda aí o tema sem abdicar de sua complexidade. Faz um levantamento comparativo das principais definições e observações críticas sobre o que considera um salto comum dos escritores - no caso, hispano-americanos, e que teve também repercussão no Brasil, em termos de recepção na Europa e também em suas culturas de origem. De um modo geral, identifica que houve, no pós-guerra um salto nas condições de vida sobretudo das camadas médias, na produção editorial de livros e periódicos, que fizeram com que os escritores, antes afeitos à produção para pequenos grupos, de elite ou de vanguarda, entrassem no patamar das edições massivas. De modo muito abrangente e compreensivo, Rama estuda, no fundo, o impacto dessa nova condição na consciência dos diferentes escritores e nos diferentes projetos culturais e políticos que os animavam. Não será difícil para o leitor perceber como, também, essa nova condição afetou os escritores brasileiros que, se não alcançaram o sucesso editorial dos de língua hispânica na Europa e nos Estados Unidos, também tiveram uma ampliação considerável do público leitor sobretudo a partir das reformas modernizantes a partir da década de 30, e também a partir dos projetos desenvolvimentistas do período populista.

Obras

Entre os livros de Ángel Rama contam-se:

Diez problemas para el narrador latinoamericano . Caracas, Síntesis Dosmil, 1972.

La generación crítica (1939-1969) . Montevidéu, Editorial Arca, 1972.

Los Gauchipolíticos Rioplatenses . Literatura y sociedad. Buenos Aires, Calicanto, 1976.

Los dictadores latinoamericanos . México, Fondo de Cultura Económica, 1976.

Transculturación narrativa en América Latina . México, Siglo XXI, 1982.

La ciudad letrada . Hanover, New Jersey, Ediciones del Norte, 1984.

Las máscaras democráticas del modernismo . Montevidéu, Fundación Ángel Rama, 1985.