A imitação da Europa no século XIX

Samuel Ramos

Comentário: Ana Luiza de Oliveira Duarte Ferreira

UM MODELO HERMENÊUTICO PARA UMA HISTÓRIA LITERÁRIA COMPARATIVA

Somente partindo da ALMA pode-se descobrir a história do homem.

Spengler.

O método

Todo aquele que se dedica à realização de investigações sérias sobre a “cultura mexicana” encontra um campo pleno de imprecisões. Antes de mais, a este olhar interessado se oferece todo um acervo de obras feitas por mexicanos, nas quais não se podem discriminar claramente qualidades originais que autorizam a proclamação da existência de um estilo vernáculo. E, contudo, quando existem obras, a falta de originalidade não quer dizer que o povo que as produziu carece efetivamente de uma cultura própria. Consideramos que o mais essencial acerca da cultura está num modo de ser do homem, mesmo quando neste não existe impulso criador. De sorte que, na ausência de uma cultura objetiva, pode existir uma cultura em um formato outro, próprio, quer dizer, subjetivo. Isso implica, então, a priori , não podermos nem afirmar nem negar a existência de uma cultura mexicana. Tal como o método cartesiano, esperamos, assim, que esta dúvida nos sirva para que justifiquemos a relevância da investigação que agora vamos começando a empreender. Partindo do conceito subjetivo de cultura, na exposição que segue nos preocuparemos sobretudo com a análise da psique do mexicano.

Para descrever como é a cultura mexicana, supondo-se que ela exista, é preciso selecionar o material que constituiria o objeto de nosso exame. Entretanto, para identificar este objeto sem confundi-lo com outros semelhantes, seria preciso saber de antemão em que consiste a cultura mexicana. Eis aqui um círculo vicioso. Para saber como é a cultura do México, necessitamos primeiro captar o objeto, mas não o podemos captá-lo sem dispor previamente do conceito acerca de como é esse objeto. Se pretendermos obter a solução do problema da pura observação dos fatos da cultura sem contar com uma idéia pré-definida sobre o que vamos buscar, penetramos em um beco sem saída.

Prescindamos por um momento de averiguar se a “cultura mexicana” tem uma realidade ou não, e dediquemo-nos a pensar como seria esta dita cultura, caso existisse. Isto implica em colocarmos a dedução abstrata em um plano diferente do plano das realidades efetivas. Sabemos que uma cultura está condicionada por certa estrutura mental do homem e pelos acidentes de sua história. Averigüemos, então, estes dados, e é possível que a questão coloque-se da seguinte maneira: Dada uma específica mentalidade humana e determinados acidentes de sua história, que tipo de cultura pode se estabelecer?

A “auto-degradação”

Não se admitindo a existência de uma cultura mexicana, seria insensato supor para o México a possibilidade de uma cultura de primeira-mão, quer dizer, original, visto ser biologicamente impossível, em qualquer que seja o território nacional, fazer-se tabula rasa da constituição mental que nos tem legado a história universal. Não nos tocou vir ao mundo separados da civilização que, sem ser obra nossa, se nos impôs, não por um azar, mas pelo fato de termos com ela uma filiação espiritual. Como conseqüência disso, é forçoso admitir, pois, que a única cultura possível entre nós tem de ser derivada .

O México se tem alimentado, durante toda sua existência, da cultura da Europa, e sentido tal interesse e apreço por seu valor que, ao fazer-se independente, no século XIX, a minoria mais ilustrada, no empenho de fazer-se culta à européia, ofuscou suas especificidades, nacionais. Não se pode negar que o interesse pela cultura estrangeira teve para muitos mexicanos o sentido de uma fuga espiritual de sua própria terra. A cultura, neste caso, é um claustro no qual se refugiam os homens que depreciam a realidade pátria, que desejam ignorá-la. Desta atitude mental equivocada, originou-se, então, há mais de um século, a “auto-depreciação” mexicana, cujos efeitos na orientação de nossa história têm sido graves.

Por outro lado, “os povos hispano-americanos - diz Carlos Pereyra (1) em História da América - s ofreram as conseqüências da tese auto-depreciativa sustentada constantemente durante gerações, até formar o arraigado sentimento de inferioridade étnica que uma reação esperada pôde converter em egolatria”. A reação nacionalista atual parece, pois, justificada em seu ressentimento contra a tendência cultural europeizante, que se passa a considerar responsável pela parca estima do México pelos próprios mexicanos. A hostilidade nacional em relação à cultura européia encontra ainda novas razões justificadoras em face dos múltiplos fracassos da imitação estrangeira.

A imitação

O juízo comum não tem sido justo ao condenar a cultura como culpada de muitos dos fracassos nacionais. E o elucidar desta questão é tarefa fundamental, porque mais precisamente a depreciação da cultura é que pode vir a acarretar sérias conseqüências. Os fracassos da cultura mexicana não dependem de uma deficiência dela mesma, intrínseca, mas de um vício no sistema segundo o qual a temos experimentando e vivido. Tal círculo vicioso se estabelece a partir da prática da imitação, que se universalizou no México há mais de um século.

Os mexicanos têm imitado por muito tempo, sem dar-se conta de que estão imitando. Acreditam, de boa fé, estar incorporando a civilização ao país. O mimetismo nos é um fenômeno inconsciente, que corresponde a um elemento bastante peculiar da psicologia mestiça, em qualquer que seja o país.

E não é por vaidade que, ao aparentar-se possuir uma cultura alheia, se opera a imitação. O que tem motivado a imitação é, mais corretamente, a prática de se ocultar (mesmo inconscientemente) não apenas que o olhar pertence a outro, mas também o próprio olhar, inculto. Para que algo seja imitado, é preciso crer que vale a pena ser imitado, que é necessário imitar. Daí que não se explicaria nosso mimetismo, se não houvesse, entre nós, certa compreensão acerca do valor das culturas.

Basta revelar-se este valor à consciência mexicana, e a realidade nacional, por um juízo de comparação, resulta depreciada... e o indivíduo experimenta um sentimento de inferioridade. A imitação revela-se um mecanismo p sicológico de defesa, através do qual, criando uma aparência de cultura, liberamo-nos da sensação auto-depreciativa.

Ocorre-nos, neste momento, a seguinte pergunta: Por que, se o indivíduo é capaz de compreender a cultura e considerá-la como tendo um valor variável, não a adquire de modo autêntico? É que a verdadeira assimilação da cultura demanda um esforço contínuo e tranqüilo; e como o espírito mexicano está alterado pelo sentimento de inferioridade, e, além disso, sua vida externa, no século XIX, esteve à mercê da anarquia e da guerra civil, não se tem nem a tranqüilidade, nem a continuidade vitais. O que se há de fazer, há de ser feito e ponto, antes que uma nova desordem venha a interromper o trabalho.

De outro lado, assim processado, o comportamento dos indivíduos já não obedece à reflexão; cede ao impulso urgente e desesperado de se curar um mal estar interno. A cultura desde então perde seu significado espiritual e somente interessa como uma droga excitante para aliviar a penosa depressão íntima. Usada com este fim terapêutico, a cultura tomada como autêntica pode vir a corresponder uma mera imagem.

Esta teoria do mimetismo mexicano revela que a prática da imitação não provém da vaidade dos indivíduos, já que o vaidoso busca um determinado efeito de sua aparência nos outros, enquanto o mexicano, de maneira diversa, busca efeitos de sua imitação também em si mesmo.

Exemplos deste mimetismo há em todas as ordens da cultura mexicana, entretanto, alguns dos mais interessantes se encontram na obra constitucional mexicana do século XIX. Neste terreno podemos apreciar privilegiadamente a transcendência efetiva que a imitação vem apresentando na história do México. Destarte, vale a pena aqui recordar alguns dos casos mais característicos.

Sabe-se que o modelo das constituições que foram promulgadas em nosso país durante o século passado foi tomado dos Estados Unidos. O primeiro texto da constituição americana que conhecido no México, ao dizer de Carlos Pereyra, foi uma má tradução trazida por um dentista. Quando, após da queda do Império, suscitou-se no México o conflito entre “federalismo” e “centralismo”, frei Servando Teresa y Mier (2) dizia, em um vibrante discurso, que cortaria o próprio pescoço se algum de seus ouvintes soubesse “que casta de animal era uma república federada” . Esta frase dá uma idéia precisa da inconsciência característica da maneira com que então se começava a copiar as instituições políticas modernas estrangeiras. Em alguns momentos, vozes sensatas levantaram-se solitárias para assinalar a distância entre a realidade e a ilusão, mas não intentavam despertar aqueles homens que sonhavam. Por exemplo, o padre Mier combatia o federalismo com os seguintes argumentos:

A federação era uma maneira de unir o desunido; por isso a haviam adotado os Estados Unidos. Ali toda a história colonial exigia o pacto federal como única forma possível da nacionalidade nova; aqui era desunir o unido, quando tudo urgia para que se fizesse mais compacta, mais coerente a flamante nação mexicana, cuja população disseminada em um território imenso, não requeria uma ação administrativa descentralizada, mas, sim, uma ação política que acelerasse o movimento de coesão e reprimisse as tendências centrífugas das comarcas fronteiriças.

Por um dos azares que tanto se te repetido ao longo da história do México, a idéia centralista tornou-se sinônimo de reacionarismo. Com o triunfo do liberalismo, nosso país foi convertido em República Federal , ainda que de certa forma apenas nominalmente, porque a pressão da realidade, superior à da lei, obrigou os governos mexicanos do século XIX a imporem um centralismo dissimulado, para manter certa unidade em meio à anarquia reinante. Todos os princípios que informaram nossos estatutos constitucionais tiveram uma sorte parecida.

O desenvolvimento das democracias ibero-americanas - diz F. García Calderón (3) - difere consideravelmente do admirável espírito de suas cartas políticas. Estas contêm todos os princípios de governos aplicados pelas grandes nações européias, harmonia de poderes, direitos naturais, sufrágio liberal, assembléias representativas; mas a realidade contradiz o idealismo destes estatutos importados da Europa. As tradições da raça dominante criaram simples e bárbaros sistemas de governo. (4)

Em última instância, a imitação determinou na vida mexicana um efeito que não tem chamado muita atenção dos historiadores, mas que é, contudo, fundamental para se entender nosso passado imediato. Tal efeito, que consiste no desdobramento de nossa vida em dois planos separados, um real e outro fictício, somente pode ser advertido por quem observa os fatos com a perspectiva do tempo; os homens que os viveram, diferentemente, raramente podem perceber qualquer diferença entre a realidade e a ficção.

Por exemplo: quando é promulgada uma constituição no México, a realidade política tem de ser apreciada através dela; porém, como a realidade não coincide com tais preceitos, aparece sempre, entre nós, como inconstitucional. O leitor deve concentrar-se neste ponto. Se a vida se desenvolve em dois sentidos distintos – por um lado a lei, e por outro a realidade – esta última será sempre ilegal. E quando em meio à esta situação abunda o espírito da rebeldia cega, disposto a estalar ao menor pretexto, nos faz compreensível a série interminável de revoluções que fazem de nossa história nacional, no século XIX, um círculo vicioso.

Notas para uma Filosofia da História do México

Se abordarmos, dentro de uma concatenação lógica, a série de acontecimentos políticos mexicanos desenrolados no século passado, descobriremos que não fazem “história”.

Os fatos que adquirem categoria histórica têm de ser determinados por uma profunda necessidade social atual. A sucessão dos fatos se alinha, no tempo, em um desenvolvimento contínuo, caracterizado pela soma de um elemento novo ao passado, de maneira que nunca se pode referir-se ao passado de uma mesma maneira. Em suma: se concebêssemos a história como deveríamos concebê-la, ela não equivaleria à conservação de um passado morto, mas a um processo vivente no qual passado se transforma em um presente sempre novo. Na história, cada momento tem sua data específica e não volta a repetir-se jamais.

Contudo, na análise das experiências histórias hispano-americanas, afirma García Calderón: “em nossa vida, há um ricorso (5) que torna a trazer, em sucessivas revoluções, os mesmos homens com as mesmas promessas e os mesmos métodos. A comédia política se repete periodicamente; uma revolução, um ditador, um programa de restauração nacional.”

Esta periodicidade em nossas experiências históricas parece obedecer à intervenção insistente da mesma força cega do individualismo, que transforma a história nacional numa conduta destituída de um objetivo que vá além de afirmar uma determinada influência política. Quando se empreende uma reavaliação da história do México à luz de uma maior consciência crítica de seu sentido, a monótona narração dos ricorsi (sic) terminará reduzida a nada mais do que uma exposição, em poucas linhas, de um fenômeno marginal que não emana de uma necessidade profunda do povo mexicano. Assim, a revolução mexicana se manifesta em outros acontecimentos, que têm verdadeiramente apresentam considerável valor histórico.

Diz Justo Sierra (6), tratando do século XIX, que o México não teve mais que duas revoluções, quer dizer, duas acelerações violentas de sua evolução... desse movimento interno originado pelo meio, pela raça e pela história, e que impele um grupo humano a realizar perenemente um ideal, à busca de um estado superior àquele em que se encontra. A primeira revolução mexicana foi, para ele, a Independência , (7) a emancipação da metrópole, nascida de duas convicções, às quais um grupo criollo havia chegado - a da impotência da Espanha para governar na América, e a de sua capacidade de auto-governar. Esta primeira revolução foi determinada pela tentativa de conquista napoleônica, na Península Ibérica.

A segunda revolução foi a Reforma , (8) foi a necessidade profunda de fazer estabelecer uma Constituição política, quer dizer, um regime de liberdade, baseando-o: em uma significativa transformação social; na supressão das classes privilegiadas; na distribuição eqüitativa da riqueza pública, em sua maior parte, até então, imobilizada; na regeneração do trabalho; na criação plena da consciência nacional por meio da educação popular. Esta segunda revolução foi determinada pela invasão americana, que demonstrou a impotência das classes privilegiadas para salvar a pátria, e a inconsistência de um organismo que pudesse ser chamado nação.

No pano de fundo da história, ambas revoluções não são senão duas manifestações do mesmo trabalho social: emancipar-se da Espanha foi o primeiro; o segundo, foi emancipar-se do regime colonial. Duas etapas de uma mesma obra de criação de um ser nacional dono de si mesmo. (9)

O círculo vicioso que acabamos de diferenciar na massa amorfa de fatos que constituem o nosso passado nacional constitui, pois, um movimento mais propriamente anti-histórico, ou, mais especificamente, um obstáculo que tem retardado a ação das forças históricas positivas. Ao considerar esse elemento como acidental e desnecessário para a compreensão do nosso destino, porém, não desconhecemos seus efeitos reais. O papel que desempenha em nossa vida é comparável, então, ao das enfermidades, que nunca podemos considerar como parte integrante do destino de um homem, porque não provêm da raiz interna de seu caráter. Ainda que costumem impor-se ocasionalmente nas rota estabelecidas, alterando a marcha daquele destino.

É certo que a história - diz J. Sierra -, que em nosso tempo aspira ser científica, deve concentrar-se na fixação dos fatos, na análise e na coordenação de seus caracteres dominantes, para verificar a síntese; contudo, deve fazê-lo destacando os períodos de nossa história em que as repetições dos mesmos erros, das mesmas culpas, com sua lúgubre monotonia, comprimem o coração de amargura e de pena. (10)

No que diz respeito a outros processos que constituem a coluna dorsal da nossa história, há que se distinguir bem, em cada um deles, a genuína situação real que determinam, e não apenas a medida em que espelham os acontecimentos desenrolados na Europa. Isto porque esta dualidade altera um pouco a fisionomia dos fatos transcendentais do passado, os quais perdem sua naturalidade, e tomam o aspecto de um simulacro da história européia.

Tal é o efeito do procedimento mimético já descrito. Este vício tem impedido que nossos homens, contando com os elementos da civilização européia, realizem, senão uma obra criadora, ao menos uma obra mais espontânea, na qual se revelaria, com toda sinceridade, o espírito mexicano. Se temos algo do que lamentar de nossa história é, pois, esse temor de nossos antepassados - talvez pelo efeito da “auto-degradação” - de não terem sido eles mesmos, sinceramente, com suas qualidades e defeitos; de terem ocultado a realidade sob uma retórica da além-mar.

Por sorte, este é um erro que em nossa história contemporânea se tende a corrigir, com um afã de sinceridade, que há de produzir efeitos positivos, onde quer seja, incluive em terreno mexicano. Estas observações dão idéia do que poderia ser, com mais amplitude e detalhe, uma Filosofia da História do México.

O espírito espanhol na América

Afirmamos, bem no início deste ensaio, que nossa cultura é derivada ; porém, deve ficar claro, após as observações acima, que não consideramos como cultura mexicana a derivação da européia, efetuada por meio de imitação. Pode-se questionar, então, se existiria, acaso, outro procedimento melhor, através do qual uma cultura derive de outra? Sim: a assimilação. Entre o processo da imitação e o da assimilação existe a mesma diferença que há entre o mecânico e o orgânico. Aqui também a observação da história nos permitirá descobrir se, por trás do movimento de aparente imitação, operou-se um processo de íntima assimilação cultural.

Não sabemos até que ponto se pode falar de assimilação da cultura, se, remontando-nos à nossa origem histórica, advertimos que nossa raça carrega o sangue de europeus que vieram para a América, trazendo consigo uma cultura de além-mar. De certo que houve mestiçagem, mas não de culturas, pois ao se colocarem em contato colonizadores e indígenas, operou-se a destruição da cultura destes últimos em favor da dos primeiros. “Foi - diz Alfonso Reyes (11) - o choque do jarro de barro contra o de caldeirão de cobre. O jarro poderia ser muito fino e formoso, mas era mais quebradiço.”

Ao longo do desenvolvimento da cultura na América devemos distinguir duas etapas: uma primeira de transplantação , e uma segunda de assimilação. Não todas as culturas são criadas mediante este mesmo processo de geração. Algumas, as mais antigas, germinaram e cresceram no mesmo solo que sustenta suas raízes. As americanas, mais modernas, se têm constituído pelo enxerto de materiais estranhos, que provêm de uma cultura pretérita, a qual, rejuvenescida pela nova seiva, se converte em outra manifestação vivente do espírito humano.

Para que possamos dizer que em um país se formou uma cultura derivada é preciso que os elementos selecionados da cultura original sejam já parte inconsciente do espírito daquele país. E lembramos que entendemos, aqui, por cultura, não somente as obras da pura atividade espiritual desinteressada da realidade, mas também outras formas da ação que estão inspiradas pelo espírito. Conforme este ponto de vista, a vida mexicana, desde da época colonial, tende a canalizar-se, aqui, dentro de formas cultas trazidas da Europa. Os veículos mais poderosos desta transplantação foram dois: o idioma e a religião. Foram estes os dois objetivos fundamentais da educação empreendida pelos missionários espanhóis que, em uma façanha memorável, realizaram no século XIX a “conquista espiritual” do México.

A obra missionária foi seguramente facilitada por certa receptividade da raça aborígine, que era tão religiosa como a do homem branco que vinha dominá-la. No México havia, então, um terreno muito bem preparado para que a semente cristã vingasse no Novo Mundo.

Nos tocou o destino de ser conquistados por uma teocracia católica que lutava para subtrair seu povo da corrente de idéias modernas que advinham do Renascimento. Apenas organizadas as colônias da América, então, lhes impôs a metrópole uma reclusão para que fossem apartada da heresia, daí o fechamento dos portos e a proibição do comércio com terras não-espanholas. Destarte, que o único agente civilizador no Novo Mundo foi um catolicismo que, num uníssono projeto pedagógico, modelou as sociedades americanas dentro de um sentido medieval da vida. Não somente a escola, mas a direção da vida social ficou submetida à Igreja, cujo poder era semelhante ao de um Estado dentro de outro.

Salvador de Madariaga (12), dedicando-se a uma análise profunda da alma espanhola, concluiu que sua essência era a paixão . “Na Espanha - disse- a religião é, antes de qualquer outra coisa, uma paixão individual como o amor, o ciúme, o ódio ou a ambição.” Se levarmos-se em conta que com esse tom passional foi caracterizado catolicismo na Espanha, e em decorrência todo tipo de ensino transmitido pela Igreja, podemos vislumbrar a profundidade com a qual a cultura católica marcou o coração da nova raça.

Designemos a cultura referente a esta nova raça com o nome de “criolla”. Ela fixou no inconsciente mexicano certos traços que, ainda quando não exclusivos dos espanhóis, estiveram de certo intimamente aderidos ao caráter hispânico ao longo séculos de dominação colonial. Como esta ação da Espanha através da Igreja se exerceu com grande energia - quanto a isso, bom ter em mente que as primeiras influências que recebemos são em geral as mais perduráveis -, o sentimento criollo de cultura representa a porção mais rígida do caráter mexicano.

A tenacidade do espírito conservador em nossas sociedades tem esta origem. Quando don Lucas Alamán (13) fundou o Partido Conservador, já em princípios do século XIX, sua política consistia em aliar-se à Igreja e regressar ao mesmo sistema administrativo espanhol, colonial. A presença dessa cultura tradicional pode ser notada, contudo, facilmente, ainda, nos prejuízos morais e religiosos e nos costumes de toda nossa classe média de província.

Mas há que se lembrar que, nos últimos tempos, a forte resistência que o tradicionalismo impôs em relação às mudanças exigidas pelo tempo, veio a provocar uma reação vigorosa, em nome da modificação do espírito mexicano em um sentido moderno.

E esta reação teria origem em algum elemento psíquico mexicano estranho ao fundo espanhol de nosso caráter? Não cremos que assim seja, porque o espanhol em nós não aparece somente como uma tendência parcial, mas, generalizadamente, como uma maneira de agir que se manifesta em todas as nossas tendências, por mais divergentes que possam ser, entre si. A verdade é que podemos encontrar certos traços comuns entre as tendências tradicionalista e moderna; e eles devem ser encarados como manifestações hereditárias dessa unidade psicológica na qual se condensa o verdadeiro caráter espanhol.

O individualismo espanhol

Na teoria psicológica de S. Madariaga sobre o espanhol, afirma-se que ele, como homem passional, tem de ser necessariamente rebelde em relação a todo encadeamento de fatos da vida coletiva e é, em conseqüência, um individualista. O individualismo é, de fato, a característica mais marcante em todos os aspectos da história espanhola. A conquista da América, por exemplo, não foi obra da Espanha como nação, mas uma façanha de aventureiros individuais que trabalhavam por contra própria. Já entre os ibéricos primitivos que viviam em tribos, assinala-se, haveria um grande orgulho contrário a toda união ou disciplina.

O curioso da Espanha é, pois, que ali se pode ser individualista até o extremo, sem deixar de ser espanhol. Parece que naquele país, quanto mais exaltado é o individualismo, mais se é profundamente espanhol, como é o caso exemplar de don Miguel de Unamuno. (14) A instabilidade da vida espanhola, depois de seu efêmero período de unidade e grandeza imperial, é decorrente da força centrífuga dos indivíduos, a qual dificulta toda ação coletiva uniforme. As direções da política, da arte, da literatura ou das idéias são determinadas pela ação de personalidades e não da coletividade, às vezes sem uma adequada correlação com a realidade à volta, com as necessidades gerais. Cada espanhol parece um átomo rebelde cujo movimento tende a separar do centro natural de gravitação.

Pode-se dizer que a independência das colônias espanholas não é explicável com base na noção de lei biológica, visto que os países nascentes corresponderiam a novos seres já bem preparados para viver independentes, e que daí vieram a segregar-se de seus progenitores. A política da Espanha, durante seu domínio na América, jamais concebeu a possibilidade de que suas colônias formassem, no futuro, unidades nacionais que se bastariam; contudo, foram justamente as tendências inerentes ao caráter espanhol o elemento mais determinante no referido processo (mais poderoso que a vontade dos governos). A independência aparece, então, como uma conseqüência de causas psíquicas internas, que são os impulsos dispersivos antes descritos: “O espanhol de ultramar - diz Madariada - era tão individualista quanto seu irmão europeu. A força centrífuga tão característica do homem de ações passionais, revelou-se inesperadamente na primeira ocasião.” Cada uma das colônias tendia a converter-se em outras tantas Espanhas. Não obstante o fato de que a revolução de independência hasteava uma bandeira contra a Espanha ao grito de “morram os guachupines” , (15) nesta mesma atitude de negação revelava-se a psicologia hispânica. Não fazíamos outra coisa que não emanciparmo-nos da Espanha à espanhola.

A influência do meio

Não é difícil de se prever que, sob a pressão das novas condições de vida na América e, sobretudo, por influência da mestiçagem, os traços espanhóis de nossa raça sofreram modificações importantes. Trataremos agora de descobrir quais foram as principais.

As modernas doutrinas psicológicas nos ensinam que não é possível definir o caráter individual de um homem se não se conhecem certas experiências da infância que delimitam o caminho evolutivo a ser seguido por sua alma. Devemos remontar, então, ao começo da nossa história para averiguar se houve algum fato capaz de projetar a evolução da alma mexicana dentro de uma órbita determinada.

O dado que buscamos existe. É a circunstância peculiaríssima em meio a qual os países hispano-americanos entraram na cena histórica. Quando estes vieram ao mundo, já existia, ao seu redor, toda uma civilização pronta. Alfonso Reyes definiu muito bem esta situação dizendo que fomos “convidados ao banquete da civilização quando a mesa já estava posta”.

Não era possível que as novas raças americanas fizessem seu próprio caminho desconsiderando os caminhos que já haviam sido traçados no mundo. Os descendentes dos conquistadores tinham, em razão do sangue espanhol que lhes corria nas veias, um vínculo com a Europa. Prosseguindo a imagem de Reyes, não podiam ser diferentes os pratos que a serem desfrutados especificamente por eles; mais do que isso, eles próprios sentiam um desejo imenso de comê-los.

Não eram homens primitivos, possuíam espíritos bem desenvolvidos, para os quais a civilização era uma exigência vital. E, naquele momento, encontravam-se em meio a um mundo primitivo que não correspondia a suas necessidades. Dentre os caudilhos americanos, Bolívar (16) oferece um raro exemplo de personalidade, destacadamente por sua justa visão acerca da realidade local; dizia ele: “Nós não somos europeus nem tampouco índios, mas uma espécie intermediária entre os aborígenes e os espanhóis. Americanos de nascimento, europeus de direito; quer dizer, nosso caso é dos mais complexos.”

O esforço civilizador da Espanha, por mais meritório que tenha sido, não teve as proporções requeridas para vencer as dificuldades do mundo americano. O problema consistia, antes de mais, na necessidade de se povoar a enorme extensão do Novo Continente. E Espanha não tinha, na época, nem excesso de população que pudesse emigrar; nem p propósito de colonizar a América, e sim de explorá-la. Por isso, ao longo de toda a nossa história, tal questão se manteve premente, sem que fosse apresentada qualquer solução. O argentino Alberdi (17) afirmava, ainda no século XIX, que “na América civilizar é povoar”.

A escassez de população foi, pois, uma das causas de que no México se debilitasse a energia original da raça espanhola. Um punhado de homens dispersos em um imenso território e, além de tudo, em grande parte das vezes, incomunicáveis, em razão da intrincada geografia, sentia-se inferior ante à força da natureza. A civilização vai aparecendo, assim, em ilhas rodeadas por deserto. Ao passar da ação de conquista à vida rotineira, colonial, nesses raros pontos de civilização, a raça perdeu seu dinamismo aventureiro.

Uma vez estabelecida certa organização social, política e econômica, a Nova Espanha não podia reproduzir de modo íntegro a vida da metrópole. O homem já não era o mesmo, pois o índio havia alterado sua fisionomia branca com um matiz de cor. Vivia em outra terra, respirava outra atmosfera, contemplava outra paisagem; em suma, habitava um outro mundo. Aqui a cultura original se encontrava como desmembrada e desincorporada.

O destino histórico colocara aqueles homens na fronteira de dois mundos não eram, ambos, plenamente seus. Já não era europeu, porque vivia na América, nem era americano, porque o atavismo conservava seu sentido europeu acerca da vida. Será deste conflito psicológico, enfim, que derivarão os acidentes peculiares da nossa história, aqui descritos - o sentimento de inferioridade e o mimetismo, principalmente.

A servidão colonial

Os elementos de que lançou mão o controle colonial espanhol - diz J. Sierra - visando a submissão ou assimilação definitiva dos grupos cultos da América, no século XVII encontravam-se exacerbados. Contudo, (1) como nesta época a Espanha cessava de ser uma potência de primeira ordem pelo esbanjar insensato de sua riqueza e de seu sangue; (2) como deixara de ser uma grande potência marítima, sem deixar de ser uma grande potência colonial (contra-senso que haveria de levar ao fim seu império americano); (3) como nunca pôde ser, pela escassez de sua população rural, uma verdadeira potência colonizadora... tivemos a paralização do desenvolvimento da Nova Espanha. Nesta época, tudo aqui se consolidava, mas o consolidar-se terminava, digamos assim, por se amortizar na rotina do statos quo : o século XVII é um século de criação, o século XVIII é de conservação, o seguinte de decomposição, e sob estes fenômenos aparentes prosseguia em sua marcha lenta o crescimento social local. (18) Desde o princípio a organização colonial contribuíra para que o espírito da nova raça se sentisse deprimido.

Os conquistadores eram soldados, não homens de trabalho; exploravam as novas possessões através da violência contra a raça vencida. Por isso o trabalho na América não teve e tem o significado propriamente de um bem que se realiza, visando a libertação de uma realidade precária, mas de em um opróbrio que se sofre em benefício dos amos. A vontade e a iniciativa dos mexicanos careciam de oportunidade na qual exercitarem-se. A riqueza não era obtida, então, mediante um ofício, um esforço concentrado e organizado, mas mediante a obtenção, por razões efetivamente justas, do privilégio de se explorar as classes mais baixas. O comércio era um monopólio do clássico “ abarrotero ” (19) espanhol, que vinha à América visando retornar à sua terra dispondo de uma fortuna considerável. A mineração e a agricultura eram fontes de uma riqueza que também migrava para à Europa. Uns quantos privilegiados podiam educar-se em colégios e seguir depois uma profissão liberal; esta podia ser, em geral, duas: a de cura e a de “licenciado”. As melhores oportunidades para a classe média estavam, conduto, na burocracia. Assim, a massa da população reduzida à inatividade fez-se indolente e resignada à pobreza, da qual não se tinha esperança de escapar, a não ser através da ajuda de um Deus que parecia se manifestar em forma de loteria. Além do mais, como a riqueza que se produzia era subtraída do México, não é de se estranhar que a economia social local, deste período, tenha sido desastrosa.

Destarte, fica claro que aquele não constituía um ambiente próprio para que se fortalecesse o caráter mexicano. A decadência da Espanha acentuou estes vícios de organização, e repercutiu prejudicialmente na psicologia mexicana. A vida monótona e rotineira da Nova Espanha tendeu a perpetuar a inércia da vontade e a destruir no espírito mexicano todo ímpeto de renovação. O governo espanhol cuidou de evitar que de outras partes do mundo chegassem à colônia homens ou idéias que pudessem agitar aquelas águas estancadas. Este ritmo foi conservado no México até nossos dias, podendo ser observado na vida de nosso povo, a qual movimenta-se com uma lentidão semelhante à imutabilidade dos povos asiáticos.

O “egiptismo” indígena

Esta rigidez talvez não seja alheia à influência do sangue indígena. Não cremos que a passividade do índio seja exclusivamente um resultado da escravidão a que foi submetido ao ser conquistado. Diferentemente, se deixou conquistar, é provável, porque seu espírito estava disposto à passividade. Desde antes da conquista os indígenas caracterizavam-se pela reação a toda mudança, a toda renovação. Viviam apegados a suas tradições, eram tradicionalistas e conservadores. No estilo de sua cultura estampou-se o desejo do imutável.

Em sua arte, por exemplo, observa-se de um modo muito claro a propensão a repetir as mesmas formas, o que nos leva a pensar mais propriamente, em seu caso, na existência de um procedimento acadêmico de produção artística, e não em verdadeira atividade criadora. Hoje ainda a arte popular indígena é a reprodução invariável de um mesmo modelo, que se transmite de geração para geração. O índio atual não é um artista; é um artesão que fabrica suas obras mediante uma habilidade aprendida por tradição.

O estilo artístico monumental da época pré-cortesiana revela uma escassa fantasia., dominada quase sempre por um formalismo ritual. Na escultura abundam as massas pesadas que, estáticas, não comovem. Ao invés das formas artísticas imprimirem na pedra algo de movimento, parecem aumentar seu peso inorgânico. A expressão da arte da M eseta Mexicana (20) é a rigidez da morte, como se a dureza da pedra ali vencesse a fluidez da vida. Ao refletir sobre a arte mexicana, por uma associação inevitável, nos vem à lembrança do espírito egípcio.

Rigidez, uma rigidez inumada, extra-humana - diz Worringer (21) - é o signo dessa cultura. Como poderia haver nela lugar para a eterna fluidez do espaço [ Sem dúvida, também a rigidez pode ser um elemento de grande valor artístico; mas depende da vitalidade, quer dizer, da fluidez que seja vencida por essa rigidez. Há uma rigidez demoníaca, uma rigidez na qual o temor respeitoso, a mais valiosa prenda do homem, chega à sublime superação e alcança sublime repouso. Contudo, há outra rigidez sóbria e seca, cuja base é uma apatia e insensibilidade internas, frente aos estremecimentos mais profundos da vida. Me parece que a rigidez egípcia corresponde a este último grupo. Não representa um ser estático como superação do devir dinâmico, mas um ser anterior a todo devir ou mesmo posterior a ele.

Acaso a alma indígena não teria essa mesma “apatia e insensibilidade” ? Se o índio mexicano parece inassimilável à civilização, não é porque seja inferior a ela, mas distinto dela. Seu “egiptismo” o faz incompatível com uma civilização cuja lei é o devir. Como uma influência mágico, o “egiptismo” indígena parece ter sido herdado por todos os homens e coisas do México, que se opõem a ser arrastados pela torrente da evolução universal. O novo nos interessa somente quando é superficial como a moda. Para a idade que tem o México, o país mudou muito pouco. As alterações promovidas entre nós são mais aparentes do que reais; são nada mais que disfarces que ocultam um sempre-mesmo fundo espiritual.

O começo da vida independente

Por sorte, para a evolução social mexicana, esta força estática não é a única que atuou em nossa vida coletiva. Desde o princípio do século XIX a direção de nossa história tem caído nas mãos de uma minoria dinâmica que tem estado bastante a par das idéias modernas da Europa.

Ao se consumar a independência, o México não queria seguir vivendo dentro de formas antigas de existência. Mas as marcas que a época colonial lhe imprimira extraviaram seu esforço e criaram obstáculos de tal forma intrincados, que tornavam quase impossível encontrar-se saída para os problemas instituídos. Seguramente os mexicanos de então não careciam de inteligência nem de capacidade para melhorar suas vidas; entretanto, qualquer desejo de transformação se havia intumesceu na inércia colonial.

Até este período não se tinha consciência disso, porque não havíamos desfrutado de liberdade para exercitar nossa capacidade criadora. Mas agora, ante à urgência imediata de organizarmos um país, nos demos conta da obsessão do mimetismo, como da dificuldade de se promover transformações sociais.

Sentimos que nossa vontade fraquejava; porém, é preciso enfatizar, nossa debilidade não era, desde este período, real. Em parte, devia-se à falta de exercício, em parte, era relativa à magnitude de nossos projetos.

Os mexicanos desejaram, pois, fazer tabula rasa do passado e começar uma nova vida como se até então nada houvessem vivenciado. Contudo, existe uma lei biológica superior à vontade do homem, que o impede de suprimir radicalmente o passado como influencia efetiva na conduta atual. O que se pretendia fazer no México, naquele momento - não por soberba, repitamos, mas por irreflexão - era dar as costas a nosso próprio destino - e com a palavra destino queremos designar precisamente certas forças que atuam de modo inapelável em nossas vidas.

Sem se darem conta, os homens que iniciaram a construção de nossa nacionalidade livre tomavam sozinhos a responsabilidade de uma empresa demasiadamente árdua, sobre-humana; uma obra de tamanha magnitude, diante da qual a raça mais forte se sentiria apequenada. Sublinhou-se, assim, a desproporção entre as possibilidades reais e o ideal que aqueles homens perseguiam, e daí então originou uma das experiências que deixaram as marcas mais prejudiciais no inconsciente mexicano.

Sem terem ainda experimentado a possibilidade de agir livremente, os homens deste período esbarraram em seu próprio sentimento de inferioridade. E dizemos “sentimento”, porque seria impróprio concluir, através do raciocínio que aqui vamos apresentando, um anelo de degradação da raça mexicana... Não pretendemos afirmar, neste ensaio, que a “inferioridade mexicana” é um fato.

Não cremos, portanto, na teoria das raças inferiores, que pôde sustentar-se enquanto se considerava absoluto o valor da cultura européia. Neste mesmo sentido, Hegel, (22)em suas Lições de Filosofia da história , atribui aos americanos uma real inferioridade. Os próprios mexicanos assim pensaram, no século passado, e então formularam uma tese de auto-depreciação. Nossa idéia não deve tomar-se como compatível com esta.. Muito pelo contrário, desejamos sinceramente demonstrar que aquele sentimento carece de uma base objetiva, pois até hoje a biologia de nossa raça não encontrou nenhum dado para supor que esteja marcada por qualquer deficiência orgânica ou funcional.

Por outro lado, após a guerra, a revisões críticas acerca da cultura européia, feitas a partir de vários pontos de vista filosóficos, mudou muito a condição de indiscutível superioridade dela sobre as demais culturas do globo. As correntes ideológicas anti-intelectualistas, ao conceder um valor aos elementos irracionais da vida, permitiram apreciar de um modo mais justo as “raças de cor”. Por outro lado, o problema biológico da mestiçagem é ainda uma questão tão controversa, que não se pode concluir nada sobre sua influência no melhoramento ou degeneração das raças.

As reações contrárias ao sentimento de inferioridade, mas que comprovam sua existência, são todos os movimentos que tendem a exaltar, de um modo exagerado, a personalidade individual ou coletiva. Assim, por exemplo, o barão de Humboldt (23) argumentou em defesa de que “México é o país mais rico do mundo” ; idéia que, ao invés de ser aproveitada como princípio de ação prática, tornou-se como artigo de fé para adular a vaidade patriótica, e ocultar a miséria real. Deve considerar-se também como uma reação contra o sentimento de inferioridade o idealismo utópico dos mexicanos livres, que pretenderam implantar no país um sistema político com todas as perfeições modernas, sem ter em conta as possibilidades efetivas do meio ambiente. Quer dizer, então, que os fracassos da história mexicana no século XIX não se devem a uma interna deficiência da raça, mas sim à excessiva ambição das minorias dirigentes, que, obcecadas por planos fantásticos de organização nacional, ignoraram os verdadeiros problemas do povo mexicano.

Na realidade, ao iniciar o processo da independência, o quadro era o seguinte: uma raça heterogênea, dividida geograficamente pela extensão do território: de um lado, o grosso da população, miserável e inculto, passivo e indiferente tal como o índio, e acostumado a uma vida sub-humana; de outro, uma minoria dinâmica e educada, mas de um individualismo exagerado pelo sentimento de inferioridade, rebelde a toda ordem e disciplina. O problema mais urgente era então o econômico e o da educação; em face destes, o político se fazia secundário. Porém, foi comum atacar-se apenas e tão somente este último, o político, fazendo-se uso de um idealismo cego por completo em relação aos dados da experiência concreta.

Pode-se dizer que o mexicano é (1) idealista, e é através de seu idealismo que intenta exaltar a idéia (depreciativa) que tem de sua própria personalidade; é também (2) individualista, não se envolve em projetos comuns, apenas na afirmação de si mesmo, enquanto indivíduo. E quando a realidade se nega de modo irreversível à concretização de seus projetos, antes de renunciar a seus fins e dedicar-se a esboçar outros, deriva inconscientemente seu esforço para o plano da ficção. Assim, ainda que de um modo ilusório, termina por satisfeito, no impulso de afirmar sua individualidade. Estas últimas idéias completam a teoria do mimetismo mexicano, esboçada ao iniciarmos ente ensaio.

Psicanálise do mexicano

“Que dose de verdade pode suportar o homem?” Esta interrogação de Nietzsche (24) nos vêm à mente ao concluirmos as notas referentes ao capítulo anterior, e nos leva a prevenir o leitor sobre o conteúdo do capítulo que por ora se apresenta, o qual corresponde a uma exposição crua, ainda que desapaixonada, daquilo que, segundo nosso entendimento particular, constitui a psicologia mexicana. Seria abusar da tese que circunscreve todo este trabalho deduzir-se, a partir de sua leitura, um juízo geral depreciativo acerca do mexicano, apenas porque aqui ele é tomado como responsável por seu caráter atual, simplesmente pelo fato de que este caráter deve ser considerado decorrência de um devir histórico que independe de nossa vontade.

Mesmo assim, pode-se dizer que não é muito lisonjeiro sentir-se possuidor de um caráter como o que desenharei mais adiante. Mas é um alívio saber que se pode mudá-lo como se muda de roupa, pois ele é emprestado, e o levamos como um disfarce para dissimular nosso ser autêntico, pelo qual, especificamente, cremos, não existe razão pela qual envergonhar-se. Não se trata, portanto, de uma auto-depreciação, e também não se trata do desejo tolo de falar de coisas desagradáveis com a finalidade única de “épater la petite burgeois” .

Somos os primeiros a julgar que certas questões relativas à alma humana devem permanecer inéditas, quando não se ganha nada em troca, por exibi-las à luz do dia. Mas, no caso do mexicano, pensamos que lhe é prejudicial ignorar o caráter de que tem disposto, porque ele é contrário a seu destino, e a única maneira de muda-lo é precisamente dar-se conta do embuste. A verdade, em situações como esta, é mais saudável do que viver no engano. Advirta-se que em nosso ensaio não nos limitamos a descrever os traços mais evidentes do caráter mexicano, mas, mais propriamente, aprofundamo-nos até descobrir suas causas ocultas, a fim de saber como alterar nossa alma.

O objetivo deste trabalho não é criticar os mexicanos com uma intenção maligna; cremos que a todo mexicano é permitido analisar sua própria alma, assim como tomar a liberdade de publicar suas observações, se se tem a convicção de que estas, desagradáveis ou não, serão proveitosas aos demais, fazendo-os compreender que levam em seu interior forças misteriosas que, se não forem advertidas a tempo, são capazes de frustrar nossa existência. Os homens não acostumados à crítica crêem que tudo o que não é elogio lhes é prejudicial, quando muitas vezes elogiá-los é a maneira mais fácil de causar-lhes dano.

Muitos já trabalharam o sentimento de inferioridade de nossa raça, mas ninguém, que saibamos, se valeu sistematicamente desta idéia para explicar nosso caráter. Aquilo ao qual prioritariamente se dedica ente capítulo é, pois, o aproveitamento metódico das teorias psicológicas de Adler (25) no estudo do caso mexicano.

Deve supor-se a existência de um complexo de inferioridade em todos os indivíduos que manifestam uma exagerada preocupação por afirmar sua personalidade; que se interessam vivamente por todas as coisas ou situações que significam poder, e que têm um afã imoderado de predominar, de ser em tudo o primeiro. Afirma Adler que o sentimento de inferioridade aparece já na infância, quando as crianças dão-se conta da insignificância de suas forças em comparação com a de seus pais. Ao nascer, o México encontrava-se numa relação com o mundo civilizado semelhante à da criança, frente aos adultos. Como vimos no capítulo anterior, o México surgia, então, num momento em que já imperava uma toda uma civilização já madurecida, que o espírito infantil mexicano não poderia compreender em sua totalidade. Desta situação desvantajosa nasceu, enfim, o sentimento de inferioridade, o qual estabeleceu-se desde a conquista, e em face da mestiçagem. Contudo, este sentimento ainda não atuava de maneira consideravelmente notável no caráter mexicano, até o México tornar-se independente, no primeiro terço do século passado. (26)

Cremos ser desnecessário fundar esta interpretação com base em documentos. Se o leitor se interessa honradamente pela questão e encara estas idéias com bons olhos, encontrará em suas próprias observações dados para comprová-las. Mais do que fazer uma descrição anedótica da vida mexicana, pretendemos estabelecer como funciona geralmente a alma do indivíduo, quais são suas relações habituais e a quais movimentos correspondem.

Não existe razão para que o leitor se ofenda ao ler estas páginas, nas quais não se afirma que o mexicano é inferior, e sim que se sente inferior , coisa muito diferente. Se em alguns casos individuais o sentimento de inferioridade traduz deficiências orgânicas ou psíquicas reais, na maioria dos mexicanos é uma ilusão coletiva que resulta de medir o homem com escalas de valor muito altas, correspondentes a países de idade avançada. Convidamos, pois, a penetrar em nossas idéias com inteira equanimidade. Então, se mesmo em face de tais esclarecimentos, o leitor ainda assim sentir-se ofendido, o lamentamos sinceramente, mas reiteraremos que em nossos países da América existe, como disse Keyserling (27), “um primado da suscetibilidade” ; e, assim, sua reação de desgosto pode ser considerada a mais contundente comprovação de nossa tese.

O “pelado”

Para descobrir o impulso fundamental da alma mexicana foi preciso examinar alguns dos principais movimentos coletivos aqui desenrolados. Platão (28) sustentava que o Estado é uma imagem ampliada do indivíduo. Nas próximas páginas demonstraremos que, de fato, o mexicano se comporta em no âmbito privado da mesma maneira que na vida pública.

A psicologia do mexicano é resultante das relações estabelecidas com base no desejo de se ocultar um sentimento de inferioridade. No primeiro capítulo deste livro explicou-se que tal propósito é intentado enquanto se falseia o mundo externo, como uma maneira de exaltar a consciência de que o mexicano tem seu valor. Imita-se, assim, em nosso país, elementos da civilização européia, para sentirmos que nosso valor é igual ao do homem europeu, e formarmos dentro de nossas cidades um grupo privilegiado, que se considera superior a todos aqueles mexicanos que vivem fora da civilização. Mas o processo de ficção não pode deter-se nas coisas exteriores, isso não basta para restabelecer o equilíbrio psíquico que o sentimento de inferioridade quebrou. Esse processo se aplica também ao próprio indivíduo, falseando a idéia que tem de si mesmo. A psicanálise do mexicano, em seu aspecto individual, é o tema que agora abordaremos.

Para compreender o mecanismo da mente mexicana, a examinaremos em um tipo social em qual todos os movimentos se encontram exacerbados, de uma maneira tal que se percebe muito bem o sentido de sua trajetória. O melhor exemplar para estudo é o “pelado” mexicano, pois ele constitui a expressão mais elementar e bem desenhada do caráter nacional. Não falaremos de seu aspecto pitoresco, que se reproduz à exaustão no teatro popular, na novela e na pintura. Aqui somente nos interessa vê-lo por dentro, para saber que forças elementares determinam seu caráter.

Seu nome o define com muita exatidão. É um indivíduo que leva sua alma a descoberto, sem que nada esconda em seus mais íntimos estímulos. Ostenta cinicamente certos impulsos elementares que outros homens procuram dissimular. O “pelado” pertence a uma fauna social de categoria ínfima e representa o desejo humano da grande cidade. Na hierarquia econômica, é menos que um proletário e, na intelectual, um primitivo. A vida lhe foi hostil de todas as formas, e sua atitude frente a ela é a de um negro ressentimento.

É um ser de natureza explosiva, com quem tratar é perigoso, porque reage violentamente ao menor contato com o Outro. Suas explosões são verbais, e têm como tema a afirmação de si mesmo em uma linguagem grosseira e agressiva. Criou um dialeto próprio cujo léxico abunda em palavras de uso corrente às quais confere um sentido novo.

É um animal que se entrega a pantomimas de ferocidade para assustar aos demais, fazendo-nos crer que é mais forte e decidido. Tais reações estão em desquite com a sua situação real, que é a de um zero à esquerda. Esta verdade desagradável trata de emergir à superfície da consciência, mas uma outra força impede que isso ocorra plenamente, mantendo dentro do inconsciente tudo aquilo que pode vir a rebaixar o sentimento de valor pessoal. Toda circunstância exterior que possa vir a ressaltar a sensação de inferioridade faz com que o indivíduo reaja violentamente, com a pretensão de sobrepor-se à depressão. Daí a constante irritabilidade que o faz renhir com os demais pelo motivo mais insignificante. O espírito belicoso não se explica, neste caso, por um sentimento de hostilidade ao gênero humano. O “pelado” busca rinha como um excitante para elevar o tom de seu “eu” deprimido. Necessita de um ponto de apoio para recobrar a fé em si mesmo, mas como está desprovido de todo valor real, tem que supri-lo com um fictício.

É como um náufrago que se agita no mar e de repente descobre uma tábua de salvação: a virilidade. Os termos utilizados pelo “pelado” abundam em alusões sexuais que revelam uma obsessão fálica; considera-se, assim, o órgão sexual como símbolo da força masculina. Em seus combates verbais atribui ao adversário uma feminilidade imaginária, reservando para si o papel masculino. Com este ardil pretende afirmar sua superioridade sobre o combatente.

Querendo demonstrar estas idéias com exemplos, defrontamo-nos, desafortunadamente, com o fato de que a linguagem do “pelado” é de um realismo tão cru, que é impossível transcrever muitas de suas frases mais características. Não podemos omitir, contudo, certas expressões típicas. O leitor não deve levar a mal o fato de citarmos aqui palavras que no México se pronunciam apenas e tão somente em conversas íntimas. Isto porque o psicólogo vê, através de sua vulgaridade e grosseria, outro sentido nobre. E seria imperdoável que prescindisse de um valioso material de estudo por ceder a uma mal entendida decência de linguagem. Seria como se um químico se recusasse a analisar as substâncias que cheiram mal.

Quando o “pelado” mexicano sente-se acuado, consola-se gritando a todo mundo que tem “muitos ovos” (assim chama os testículos). O importante é advertir que neste órgão não faz residir somente uma espécie de potência, a sexual, mas toda a classe de potência masculina. Para o “pelado”, um homem que triunfa em qualquer atividade e em qualquer parte, o faz porque tem “muitos ovos”. Citemos outra de suas expressões favoritas: “Eu sou seu pai” , cuja intenção é claramente afirmar o predomínio. Quase sempre, em nossas sociedades patriarcais, o pai é para o homem símbolo de poder. É preciso advertir também que a obsessão fálica do “pelado” é comparável aos cultos fálicos, que têm como pano de fundo a idéia da fecundidade e da vida eterna. O falo sugere ao “pelado” a idéia de poder. Daqui derivou um conceito muito empobrecido do homem. Como ele é, por suposição, um ser sem conteúdo substancial, trata de preencher seu vazio com um único valor que está a seu alcance: o de macho.

Este conceito popular de homem se converteu em um prejuízo funesto para todo mexicano. Quando este se compara com o homem civilizado estrangeiro e esta comparação o faz ressaltar sua nulidade, consola-se do seguinte modo: “Um europeu - diz - tem a ciência, a arte, a técnica, etc, etc; aqui não temos nada disso, mas... somos muito homens”. Homens na acepção zoológica da palavra, quer dizer, um macho que desfruta de toda a potência animal. O mexicano, amante de ver-se como fanfarrão, crê que esta potência se demonstra com a valentia. Imagine o leitor se ele descobre que essa valentia não passa de uma parca cortina de fumaça!

Não devemos, pois, deixar-nos enganar pelas aparências. O “pelado” não é nem um homem forte, nem um homem valente. A fisionomia que nos mostra é falsa. Trata-se de uma camouflage para despistar a si e a todos com quem estabelece contato. Pode ocorrer que, enquanto as manifestações de valentia e de força são maiores, maior seja, na realidade, a debilidade que se quer encobrir. Por mais que com esta ilusão o “pelado” engane a si mesmo, enquanto sua debilidade estiver presente, ameaçando traí-lo, não pode estar seguro de sua força. Vive em um contínuo temor de ser descoberto, desconfiando de si mesmo, e por isso sua percepção das coisas e das situações se faz anormal; imagina que o primeiro recém-chegado é seu inimigo, e desconfia de todo homem que se aproxima.

Feita esta breve descrição do “pelado” mexicano, é conveniente esquematizar sua estrutura e funcionamento mental, para que se entenda a psicologia do mexicano.

•  O “pelado” tem duas personalidades: uma real, outra fictícia.

• A personalidade real fica oculta por esta última, que é a mais evidente, tanto para o sujeito como para os demais.

• A personalidade fictícia é diametralmente oposta à real, porque o objetivo da primeira é elevar o tom psíquico depressivo, em face da observação da segunda.

• Como o sujeito carece de todo valor humano e é impotente para adquiri-lo de fato, se serve de um ardil para ocultar sua sensação de valer menos.

• A falta de apoio real que tem a personalidade fictícia cria um sentimento de desconfiança de si mesmo.

• A desconfiança de si mesmo produz uma anormalidade de funcionamento psíquico, sobretudo de percepção da realidade.

• Esta percepção anormal consiste em uma desconfiança injustificada dos demais, assim como uma hiperestesia/ suscetibilidade ao contato com outros homens.

• Como nosso tipo vive de uma imagem falsa, sua posição é sempre instável e o obriga a vigiar constantemente seu próprio “eu”, desatendendo a realidade à sua volta.

A falta de cuidado com a realidade e a conseqüente postura ensimesmada autorizam a classificação do “pelado” como “introvertido”.

Pode-se pensar que a presença de uma sensação de valer menos, no “pelado”, não se deve ao fato de ser mexicano, mas à sua condição de proletário. Efetivamente, esta última circunstância é capaz de criar por si só aquele sentimento, mas há motivos para considerar que não é o único fator o determina propriamente “pelado”. Façamos notar aqui que este associa seu conceito de masculinidade com o de nacionalidade, criando o impressão errônea de que a valentia é nota peculiar do mexicano. Para corroborar que a nacionalidade cria também por si uma sensação de valer menos, pode-se destacar a suscetibilidade de seus sentimentos patrióticos e sua expressão repleta de palavras de baixo calão e gritos. A freqüência das manifestações patrióticas individuais e coletivas é um símbolo de que o mexicano está inseguro do valor de sua nacionalidade. A prova decisiva de nossa afirmação se encontra no fato de que aquele sentimento existe igualmente nos mexicanos cultos e inteligentes que pertencem à burguesia.

O mexicano da cidade

O tipo que vamos apresentar por ora é o habitante da cidade. É claro que sua psicologia difere da do campesino, não somente pelo gênero de vida que este último leva, mas também porque este quase sempre, no México, pertence à raça indígena; e, mesmo que o índio corresponda a uma parte considerável da população mexicana, desempenha na vida atual do país um papel passivo. O grupo ativo é outro, o dos mestiços e brancos que vivem na cidade. É de se supor que o índio influiu na alma do outro grupo mexicano, porque mesclou seu sangue com este. Mas sua influência social e espiritual se reduz hoje ao mero fato de sua presença. É como um coro que assiste silencioso ao drama da vida mexicana, embora o fato de ser limitada sua intervenção não implique em deixar de ser importante. O índio é como essas substâncias chamadas “catalíticas”, que provocam reações químicas apenas por se fazerem presentes. Nenhuma coisa mexicana pode subtrair-se desta influência, porque a massa indígena é um componente denso que envolve tudo o que há dentro do país. Consideremos, pois, que o índio é o hinterland do mexicano. (29) Contudo, por ora não será o objeto específico desta investigação. (30)

A nota do caráter mexicano que mais salta à vista é a desconfiança. Tal atitude precede a todo contato com os homens e as coisas. Faz-se presente haja ou não fundamento para fazer-se. Não é uma desconfiança moral, porque o mexicano geralmente carece de princípios. Trata-se de uma desconfiança irracional, que emana do mais íntimo de seu ser. É quase seu sentido primordial da vida. Ainda quando os fatos o justificam, não há nada no universo que o mexicano não veja e julgue através de sua desconfiança . É como uma forma a priori de sua sensibilidade. O mexicano não desconfia de tal ou qual homem ou de tal ou qual mulher; desconfia de todos os homens e de todas as mulheres. Sua desconfiança não se circunscreve ao gênero humano; se estende a tudo quanto existe e acontece. Se é comerciante, não crê nos negócios; se é profissional liberal, não crê em sua profissão; se é político, não crê na política.

O mexicano considera que as idéias não têm sentido e as chama pejorativamente de “teorias”; julga inútil o conhecimento dos princípios científicos. Parece estar muito seguro de seu suposto sentido prático. Mas, como homem de ação, é torpe e, no final das contas, não dá muito crédito à eficácia dos fatos. Não tem nenhuma religião nem professa nenhum credo social ou político. Apresenta o mínimo de envolvimento ideológico possível. Nega tudo sem razão nenhuma, porque ele é a negação personificada.

Mas, então, em nome de que vive o mexicano? Pode ser que, indagado quanto a isso, ele responda que não é necessário ter idéias e crenças para viver... com o propósito de não ter de pensar no assunto. E assim acontece, de fato. A vida mexicana dá a impressão, em conjunto, de uma atividade irrefletida, sem plano algum. Cada homem, no México, somente se interessa pelos fins imediatos. Trabalha para hoje e amanha, mas nunca para depois. O porvir é uma preocupação que aboliu de sua consciência. Nenhum mexicano é capaz de aventurar-se em empresas que somente oferecem resultados a longo prazo. Portanto, suprimiu da vida uma de suas dimensões mais importantes: o futuro. Tal tem sido o resultado da desconfiança mexicana.

Em uma vida circunscrita ao presente, não pode funcionar mais que o instinto dos indivíduos. A reflexão inteligente somente têm eficácia quando podemos parar por um momento. É impossível pensar e obrar ao mesmo tempo. O pensamento supõe que somos capazes de esperar, e quem espera está admitindo o futuro. É evidente que uma vida sem futuro não pode ter norma. Assim, a vida mexicana está à mercê dos ventos que sopram, seguindo à deriva. Os homens no México vivem à sorte de Deus. E o esperado é que, sem disciplina nem organização, a sociedade mexicana seja um caos no qual os indivíduos gravitam como átomos dispersos.

Este mundo caótico, efeito direto da desconfiança, recai sobre ela, dando-lhe uma espécie de justificação objetiva. Quando o indivíduo se sente flutuar em um mundo instável, no qual não está seguro nem da terra na qual pisa, sua desconfiança aumenta e o faz apressar-se em buscar, no momento presente, um rendimento efetivo. Assim, o horizonte de sua vida se estreita mais e sua moral se rebaixa até um estado em que a sociedade (não obstante sua aparência de civilização) assemelha-se a uma horda primitiva na qual os homens disputavam as coisas como feras famintas.

Um ponto intimamente relacionado com a desconfiança é a suscetibilidade . O desconfiado está sempre temeroso de tudo, e vive alerta, na defensiva. Suspeita gravemente de qualquer gesto, de qualquer movimento, de qualquer palavra. Interpreta tudo como uma ofensa. Nisto o mexicano chega a extremos inacreditáveis. Sua percepção é já francamente anormal. Por razão da suscetibilidade hiper-sensível, briga constantemente. Já não espera que o ataquem, ele próprio toma a iniciativa de ofender. Amiúde estas reações patológicas podem se manifestar das mais diversas formas, inclusive ao cometerem delitos plenamente desnecessários.

As anomalias psíquicas que acabamos de descrever provém, sem dúvida, de uma insegurança de si mesmo que o mexicano projeta para fora sem dar-se conta, convertendo-a em desconfiança do mundo e dos homens. Estas transposições psíquicas são ardis instintivos para proteger o “eu” de si mesmo. A fase inicial da série é um complexo de inferioridade experimentado como auto-desconfiança, que logo o sujeito, para livrar-se da desagradável sensação que isso acompanha, objetiva como receito em relação aos outros seres.

Quando a psique humana quer apartar dela um sentimento desagradável, recorre sempre a processos de ilusão como o que temos aqui descrito. Mas no caso especial com o qual nos ocupamos aqui este recurso não é de resultados satisfatórios, porque o véu que se estende sobre a moléstia que se quer evitar não a suprime, somente a faz mudar de motivação. O mexicano tem habitualmente um estado de ânimo que revela um mal-estar interior, uma falta de harmonia consigo mesmo. É suscetível e nervoso; quase sempre está de mal humor e é, algumas vezes, iracundo e violento.

A força que o mexicano se atribui fundando-se em sua impulsividade, nos parece falsa; a verdadeira energia consiste em governar inteligentemente os impulsos e as vezes em reprimi-los. O mexicano é passional, agressivo e guerreiro por debilidade; quer dizer, porque carece de uma vontade que controle seus movimentos. Por outro lado, a energia têm gastado esses atos não condiz com seu grau de vitalidade, que, em geral, é bastante débil. Como explicar então a violência de seus atos, somente considerando-a resultante da sobre-excitação que lhe causa, interiormente, o mesmo desequilíbrio psíquico?

Nosso conhecimento da psicologia do mexicano seria incompleto se não comparássemos a idéia que ele tem de si mesmo com o que ele é realmente. Alguns parágrafos atrás falávamos da força que se atribui ao mexicano, e que nos faz supor que ele dispõe de uma idéia consistente em relação a sua pessoa. Suspeitamos também que alguns leitores deste ensaio reagirão contra nossas afirmações, buscando argumentos para não aceitá-las. É que aqui nos atrevemos a descobrir certas verdades que todo mexicano se esforça por manter ocultas, já que sobrepõe a elas uma imagem de si mesmo que não representa o que é, senão o que queria ser.

Então, qual seria o desejo mais forte e mais íntimo do mexicano? Deseja ser um homem que predomina entre os demais por sua valentia e seu poder. A sugestão desta imagem o exalta artificialmente, obrigando-o a viver conforme ela, até chegar a crer na realidade do espectro que de si mesmo criou.

O burguês mexicano

Nesta última parte de nosso ensaio nos ocuparemos do grupo mais inteligente e culto dos mexicanos, que pertence em sua maior parte à burguesia do país. O conjunto de traços que configuram seu caráter são reações contra uma sensação de valer menos, a qual, não derivando-se nem de uma inferioridade econômica, nem intelectual, nem social, provém, sem dúvida, do mero fato de ser mexicano. No fundo, o mexicano burguês não difere do mexicano proletário, salvo que, neste último, o sentimento de inferioridade se encontra exaltado pela concorrência de dois fatores: a nacionalidade e a posição social. Parece haver um contraste entre o tom violento e grosseiro que é permanente no proletário urbano, e a certa finura do burguês, que se expressa com uma cortesia exagerada. Mas todo mexicano das classes cultas é suscetível de adquirir, quando um momento de ira lhe faz perder o domínio de si mesmo, o tom e a linguagem das classes mais pobres. “Parece um pelado!”, é a repreensão que se faz a este homem iracundo. O burguês mexicano tem a mesma suscetibilidade patriótica do homem do povo e os mesmos prejuízos que este, no que diz respeito ao caráter nacional.

A diferença psíquica que separa a classe elevada de mexicanos das classes mais baixas radica em que os primeiros dissimulam de um modo completo sua sensação de valer menos, porque o nexo entre suas atitudes manifestas e os movimentos inconscientes é tão indireta e sutil, que sua descoberta é difícil. O pelado, diferentemente, exibe numa franqueza cínica o mecanismo de sua psicologia, e são muito simples as relações que unem em sua alma o inconsciente e o consciente. Já foi dito que se apóiam numa contradição .

É conveniente desenhar com maior precisão de que maneira estes sentimentos de íntima deficiência que irritam a psique do indivíduo provocam as reações que se tem descrito. São sentimentos que o indivíduo não tolera em sua consciência, por serem desagradáveis e pela depressão que lhe causam; e justamente pela necessidade de mantê-los ocultos no inconsciente, se manifestam como sensações vagas de mal estar, cujo motivo o próprio indivíduo não concebe nem pode conceber. Quando logram emergir à consciência, assumem matizes variados. Enumeremos alguns deles: debilidade, desvalorização de se mesmo, sentimento de incapacidade, de deficiência vital . O reconhecimento que o indivíduo faz de sua inferioridade se traduz em uma falta de fé em si mesmo.

O mexicano burguês possui mais dotes e recursos intelectuais que o proletário para consumar de um modo perfeito a obra de simulação que deve ocultar seu próprio sentimento de inferioridade. Isto eqüivale a dizer que o “eu” fictício, construído por cada indivíduo, é uma obra tão bem acabada e com tal aparência de realidade, que é quase impossível distinguí-la do “eu” verdadeiro.

Ocupemo-nos, desde agora, em definir com quais elementos o mexicano realiza sua obra de ficção; ou, em outras palavras, que relações suscita seu sentimento de inferioridade. A operação consiste, em sua forma mais simples, em sobrepor ao que se é, a imagem do que se quer ser, e tomar este desejo como um fato. Algumas vezes, seu desejo se limita a evitar a depreciação, a humilhação, depois, em escala ascendente, encontramos o desejo de valer tanto como os demais, o de predominar entre eles, e, por último, a vontade de poder.

A tarefa de construir a própria imagem conforme um desejo de superioridade, demanda uma atenção e um cuidado constantes. Isto converte cada mexicano em um introvertido , de maneira que se perde correlativamente o interesse pelo que realmente é. Considera os homens e as coisas como espelhos, mas somente toma em conta aqueles que lhe fazem ver precisamente a imagem que deseja que reflitam. Por outro lado, é indispensável que outros homens acreditem nesta imagem, para fazê-lo sentir segurança em relação à sua fé. E é assim que sua obra de fantasia se realiza com a cumplicidade social.

Não pretendemos nós afirmar que este comportamento é típico exclusivamente do mexicano. Nenhum homem normal, seja qual for sua nacionalidade, poderia viver sem o auxílio de ficções parecidas. Contudo, uma coisa é aceitar pragmaticamente a influência penetrante de uma ficção, sabendo que o ela de fato é, e outra coisa é vivê-la sem dar-se conta de que é uma mentira. Nesta primeira situação, tem-se uma situação na qual se possui ideais ou arquétipos como estimulantes para superação das resistências e dificuldades da vida humana; enquanto que, na segunda, não significa propriamente viver, e sim fazer da vida uma armadilha.

Não caberia aplicar a esta atitude nenhum qualificativo moral, por não derivar-se de um propósito consciente e deliberado. Os recentes descobrimentos da psicologia nos mostram que, não por ser cego, o inconsciente carece de lógica, ou, ao menos, apresenta uma lógica consideravelmente diversa da racional. O mexicano ignora que vive uma mentira, porque há forças inconscientes que o empurram nesta direção, e é provável que, se se desse conta do engano, deixasse de viver assim.

Como o auto-engano consiste em crer que já se é o que se quer ser, o mexicano se mantém satisfeito no que diz respeito à sua imagem, e acaba por abandonar o esforço em prol de seu melhoramento efetivo. É, pois, um homem que atravessa os anos sem experimentar nenhuma mudança. O mundo civilizado se transforma, surgem novas formas de vida, de arte e de pensamento, que o mexicano procura imitar a fim de sentir-se à altura de um homem europeu; mas, no fundo, o mexicano de hoje é o mesmo que o de há cem anos, e sua vida transcorre dentro da cidade aparentemente modernizada, como a do índio no campo - em uma imutabilidade egípcia.

Podemos representar o mexicano como um homem que foge de si mesmo para refugiar-se em um mundo fictício. Mas assim não liquida seu drama psicológico. No subterrâneo de sua alma, pouco acessível a seu próprio olhar, ladra a incerteza de sua posição, e, reconhecendo obscuramente a inconsistência de sua personalidade, que pode desvanecer ao mais leve soprar, se protege, como os ouriços, com um revestimento de espinhos. Ninguém pode tocá-lo sem ferir-se.

Tem uma suscetibilidade extraordinária à crítica, e a mantém a linha antecipando-se a esgrimir a maledicência conta o próximo. Pela mesma razão, a auto-crítica se inviabiliza. Necessita convencer-se de que os outros são inferiores a ele. Não admite, portanto, superioridade nenhuma e não conhece a admiração ao próximo, o respeito e a disciplina. É engenhoso na desvalorização do próximo, até o aniquilamento. Pratica a maledicência com uma crueldade de antropófago . (31) O culto do ego é tão sanguinário como o dos antigos astecas; se alimenta de vítimas humanas. Cada indivíduo vive encerrado dentro de si mesmo, como uma ostra em sua concha, numa eterna postura desconfiada em relação aos demais, encerrando malignidade, para que ninguém se aproxime. É indiferente aos interesses da coletividade e sua ação é sempre de sentido individualista.

Terminamos estas notas de psicologia mexicana perguntando-nos se acaso será impossível expulsar o fantasma que se aloja no caráter mexicano. Para isso é indispensável que cada um pratique com honradez e valentia o conselho socrático de “conhece-te a ti mesmo” . Sabemos hoje que não bastam as faculdades naturais do homem para adquirir o auto-conhecimento, que é preciso equipá-lo de antemão com as ferramentas intelectuais que a psicanálise tem fabricado. Quando o homem assim preparado descobre o que é, o resto da tarefa se fará por si só; Os fantasmas são seres noturnos que se desvanecem quando expostos à luz do dia.

O perfil da cultura mexicana

Escreveu Bolívar, entre suas observações sobre o Novo Mundo, que nós americanos somos europeus de direito. No México se abusou deste direito por todo um século, imitando a Europa arbitrariamente, sem outra lei que não o capricho individual. O pecado original do europeísmo mexicano é a falta de uma norma para selecionar a semente de cultura ultramarina que poderia germinar em nossas almas e dar frutos aplicáveis a nossas necessidades peculiares. Esta norma não pode ser outra que não a realidade local; mas se mantém, no México, ignorada, porque todo o interesse e a atenção estão voltados para a Europa. O erro do mimetismo europeu provém quiçá de um conceito errôneo de cultura que, por demasiadamente idealizada, se separa da vida como se não fosse indispensável o calor e a força vital para sustentar o espírito.

Se existe ou existirá uma cultura que determine a vocação da raça, que determine sua fatalidade história, nós trataremos de definir seu perfil mexicano, que há de surgir dada uma certa constituição orgânica da sociedade e do homem, produto de uma história peculiar.

Não podemos prosseguir praticando um europeísmo falso; mas também é preciso que fujamos de outra ilusão perigosa, que é a de um mexicano igualmente falso. Tal mexicanismo é o que, animado de um ressentimento contra todo estrangeiro, propõe um entendimento acerca de toda nossa vida a partir de pressupostos distintos daqueles dos quais nos temos servido até agora, como se fosse possível em um momento anular toda a história. Intenta-se afastar o México de todo contato com o mundo exterior, para livrar sua originalidade de todo elemento forâneo. Assim como o “europeísmo” se fundou no ideal de uma cultura que pode subsistir separada da vida, assim o “nacionalismo” se funda na crença em um México que já existiria, dispondo de uma fisionomia nacional bem definida, e ao qual somente é preciso trazer à luz do dia, como se desenterra um ídolo. Tal crença se tem sustentado com o argumento de uma realidade “exótica”, na qual figura a paisagem com suas montanhas e seus cactos, salpicada de pontos brancos: os índios com seu traje de manta. A nova arte se encarregou de amplificar, como uma caixa de ressonância, as dimensões do “pitoresco”, que encontrou favorável acolhida, sobretudo entre os turistas yanquis. Mas este México representado pelo charro (32) e pela c hina poblana (33), ou, melhor, o México lendário, selvagem - que surpreende e atrai tanto os europeus, que, aliás, para selvageria são também grandes mestres, como o provaram em 1914 - é um México de exportação tão falso quanto, por exemplo, qualquer caricaturização da Espanha. (34)

Da tendência “nacionalista”, de tudo o que há de ressentimento contra o estrangeiro - reação típica de uma consciência de inferioridade - resta, contudo, sem dúvida, um conteúdo moral de inquestionável valor para o México. É a voz de nossa mais profunda entranha, que quer fazer-se ouvir pela primeira vez depois de uma larga era na qual o mexicano fez ouvidos moucos para o que se tem anunciado como seu destino. Parece mentira que isto seja uma novidade. Mas é. Os mexicanos não viveram espontaneamente, não tiveram uma história sincera. Por isso agora devem acudir prontamente ao chamado dessa voz, que é uma ordem para viver com sinceridade. Havemos de tomar nosso próprio valor, e ter a humildade de aceitar a vida que nos cabe por sorte, sem nos envergonhar do fato de que talvez ela não seja tão sofisticada quanto gostaríamos que fosse. Todos os males que nos sobrevêm se devem ao fato de que não praticamos estas simples regras de austeridade, de que intentamos sempre aparentar uma situação muito superior à real. Muitos sofrimentos dos quais hoje padecemos se aliviarão no dia em que nos curarmos da vaidade. (35) Por viver fora da realidade de nosso ser, temos vivido às voltas de um ambiente caótico, em meio a qual caminhamos às cegas, sem plano nenhum, arrastados pelo vento que sopra mais forte; e nos momentos de desorientação, nada é melhor do que recolhermo-nos à intimidade, do que tornarmo-nos nativos. Assim se renovam sempre os homens e também os grupos humanos, quando atravessam crises de ofuscamento ou debilitação de suas energias. Entre nós, este retorno à terra haverá de dar-nos a saúde física e moral necessária para recobrar a confiança no porvir.

É consolador observar que desde há alguns anos a consciência mexicana se tem proposto a realizar um verdadeiro esforço de introspecção nacional. Contudo, tal exame de consciência não se tem empreendido, infelizmente, com o rigor, a profundidade e a objetividade que o assunto requer.

Mas como ser juizes imparciais em questões que a todos afetam, em seus interesses pessoais, e/ou em partidarismos passionais? A experiência humana ensina que quase nada se pode fazer contra um interesse ou uma paixão que não um interesse ou uma paixão maiores. Quer dizer, que somente podemos conhecer-nos como indivíduos ou como povo, quando às nossas pequenas paixões podemos opor a grande paixão da verdade, que é uma das formas do amor desinteressado em relação às pessoas e às coisas, reais ou ideais; amor pelo conhecido, cujo símbolo maior é o eros platónico . Desenvolver este amor pelo conhecimento deve ser uma das tarefas iniciais da educação mexicana. Quando vier a possuir esta paixão pela verdade, o mexicano disporá da força moral indispensável para fazer uma severa crítica de si mesmo, sobrepondo-se às suscetibilidades que possam impedir uma visão límpida e objetiva de seu mundo interno.

Só que, lograda esta alta posição mental - em que podemos considerar as coisas como se não fôssemos seres deste mundo, mas meros espectadores inteligentes - não seria o bastante para morder as entranhas da realidade. Faz-se mister associar a esta disciplina moral uma disciplina intelectual. Seria ocioso insistir sobre este ponto se não houvesse uma corrente de opinião francamente favorável à educação científica como preparação indispensável para investigar questões mexicanas. Ainda que, cremos, os estudos acadêmicos no México se tenham baseado geralmente num falso conceito de ciência.

Tal base corresponde a uma noção sumamente vulgar, efeito da ignorância ou da superficialidade, e no qual se percebe o eco distante do positivismo; consiste em crer que a ciência se obtém somente ao abrir os cinco sentidos da realidade. A função intelectual acaba por parecer, assim, uma coisa secundária no processo científico. A experiência, por sua própria virtude, surge dispondo de uma eficácia mágica para converter-se em idéias. E a investigação científica reduz-se à coleção de documentos, como se fosse suficiente amontoá-los para que, chegando-se a um volume considerável, fizéssemos brotar a luz do conhecimento científico. O “nacionalismo” ultra-montano (36) pensa que, sendo européia a ciência, toda cuidadosa preparação intelectual que dialogue diretamente com o estrangeiro impede o investigador de ver no objeto sua originalidade vernácula.

Não é, pois, estranho que com semelhante teoria da ciência se tenha propagado a idéia de se criar uma “ciência mexicana” sem necessidade de informa-se antes dos princípios da ciência universal?

Por isso é urgente que se faça compreender no México a verdadeira teoria da ciência, da qual a imagem vulgar que descrevemos é nada mais que uma caricatura. A investigação científica é impraticável se não se confronta realidade e pré-julgamento. O pré-julgamento é o que orienta a observação de tal ou qual fenômeno; graças a ele podemos descobrir as relações entre fatos diferentes; estabelecer a continuidade, em um mesmo processo, de acontecimentos aparentemente desconexos; em uma palavra, é ele que, através da experiência, nos leva à idéia científica. Importante: não se pode chegar a estes pré-julgamentos se não aprendendo, antes de investigar, os princípios da ciência respectiva.

Aqueles que crêem que podemos desenvolver no México uma cultura original sem relacionarmo-nos com o mundo cultural estrangeiro, não compreendem verdadeiramente o que é cultura. A idéia mais vulgar acerca do conceito de cultura é aquela que a associa à de saber puro; raramente ela é compreendida corretamente, como uma função do espírito destinada a humanizar a realidade.

Como de fato tal função não é de geração espontânea, a educação se vale, então, do acervo da cultura já acumulado até hoje, para desenvolver-se no espírito de cada indivíduo. Uma educação bem orientada não deve pretender o aumento do saber, mas a transformação desde em uma capacidade espiritual de conhecer e elaborar o material que cada experiência singular oferece. Somente quando da cultura tradicional extraímos sua essência mais sutil e a convertemos em “categoria” de nosso espírito, se pode falar de uma assimilação da cultura.

Cada espírito individual necessita, para crer e formar-se, do alimento e estímulo da cultura em suas formas objetivas. Daqui se deduz que a boa intenção de fazer um exame da consciência mexicana pode malograr se a separarmos do mundo exterior, virando as portas a toda influência cultural que venha de fora, porque, destarte, terminaremos por ficarmos às escuras.

Para o futuro da cultura nacional, são igualmente maus os dois métodos extremos que podem adotar-se na educação: (1) o distrair-se em absoluto da realidade mexicana, como se fez durante um século em nosso país, para adquirir uma cultura européia com o perigo de nossa morte espiritual; (2) a negação da cultura européia com a esperança utópica de criar uma mexicana, que naturalmente será impossível obter do nada. Não podemos jamais decifrar os mistérios de nosso ser se não penetrarmos nele iluminados por uma idéia-diretriz que somente podemos tomar da Europa.

Quando obtivermos alguma clareza acerca da maneira de ser de nossa alma, disporemos de uma norma para orientar-nos mais eficazmente um diálogo complexo e profícuo com a cultura européia, da qual há muitos elementos importantes, que nos podem interessar. Somente com um conhecimento científico da alma mexicana teremos as bases para explorar metodicamente o emaranhado da cultura européia, e separar dela os elementos assimiláveis a nosso clima.mAté hoje, a moda tem sido o único árbitro para valorar os produtos heterogêneos da vida espiritual do velho continente. Por falta de dados corretos sobre nossa alma, temos carecido de pontos de referência nossos, para ordenar a visão das coisas européias desde uma perspectiva mexicana. Nunca se pensou em uma seleção consciente e metódica das formas da cultura européia, capazes de aclimatar-se em nossa terra. É indiscutível que tal sistema é possível, tomando como base certas afinidades instintivas que inclinam nossa raça a preferir uns aspectos culturais, e não outros. O difícil é distinguir simpatias espontâneas de certos interesses extraviados, que são aqueles que de fato têm orientado as elaborações culturais em nosso país. Até hoje, os mexicanos, com exceção de uma ínfima minoria, não se interessaram por ir a fundo no estudo de sua própria cultura; permanecem na superfície, deslumbrados por suas esplendorosas falsa imagens.

Cremos que o México há de ter em seu futuro uma cultura “mexicana”; mas não a concebemos como uma cultura original distinta de todas as demais. Entendemos por “cultura mexicana” a cultura universal feita nossa , capaz de expressar nossa alma. É verdadeiramente curioso que, para formar esta cultura “mexicana”, o único caminho que nos resta seja seguir aprendendo a cultura européia. Nossa raça é ramificação de uma raça européia. Nossa história se tem desenvolvido em marcos europeus. Porém, não temos logrado formar uma cultura nossa, porque separamos a cultura da vida. Já não queremos ter uma cultura artificial, que viva como flor em estufa; não queremos o europeísmo falso. Pois é preciso, então, aplicar ao problema nacional o princípio moderno, que é já quase trivial de tanto que se repete: relacionar a cultura com a vida. Não queremos nem uma vida sem cultura, nem uma cultura sem vida, mas uma cultura vivente.

No diz respeito ao conhecimento científico, pois, é preciso relacionar a cada momento o estudo dos princípios da ciência universal e a observação concreta de nossa realidade. Um dos motivos de hostilidade em relação à cultura é o caráter individualista do mexicano, rebelde a toda autoridade e a toda norma. Aceitar, então, a idéia de “nacionalismo radical” seria tão problemático quanto perpetuar o caos espiritual; seria escolher o caminho do menor esforço e seguir realizando um labor fácil, a observação superficial, o estudo fragmentário e sem rigor científico. Se quisermos dar solidez à nossa obra espiritual futura, há que se preparar a juventude nas escolas e universidades, mediante uma severa educação orientada essencialmente para a disciplina intelectual e moral. Quando se chegar a obter este resultado, se comprovará que, ainda os indivíduos que galgam os altos cumes da vida espiritual, não cairão no orgulho de depreciar a terra nativa. Ao contrário, sua altura lhes permitirá compreender e estimar melhor a realidade mexicana.


(1) N.T. Carlos Pereyra, pensador e historiador mexicano, naturalizado espanhol, que viveu a transição do século XIX para o XX.

(2) N.T. Juntamente com San Martí (Argentina) e Andrés Bello (Venezuela/Chile), entre outros, frei Mier foi dos integrantes da chamada Gran reunión americana , que no início do século XIX lutou pela independência da Hispano-América.

(3) N.T. Francisco García Calderón , presidente peruano em 1881; destacou-se como pensador, jurista e diplomata.

(4) F. García Calderón. Les democraties latines de l´Amerique. p. 341.

(5) N.T. “Apelo”.

(6) N.T. Justo Sierra, ministro porfirista, pelo qual nutriram grande admiração muitos dos integrantes do célebre Ateneo de la Juventud , tal como professor de Samuel Ramos, Antonio Caso. Um dos principais responsáveis pela criação, no ano de 1921, da Universidade Nacional Autónoma de México.

(7) N.T. Declarada em 1810 pelo padre Miguel Hidalgo y Costilla.

(8) N.T. Movimento liberal e anti-clerical, que desembocou, no ano de 1857, na eleição de Benito Juarez e na promulgação de uma nova Constituição mexicana.

(9)México y su evolución social. Tomo I. P. 225.

(10)México y su evolución social. Tomo I. P. 200.

(11) N.T. Alfonso Reyes, um dos mais célebres integrantes do chamado Ateneo de la juventud ; poeta e ensaísta, autor de Ifigénia cruel e Visión de Anáhuac .

(12)N.T. Salvador de Madariaga, ensaísta espanhol de inícios do século XX; autor de Ensayos angloespañoles (1922), Guía del lector del Quijote (1926), e España (1931).

(13) N.T. Lucas Alamán, historiador mexicano que ocupou diversos cargos administrativos federais, na primeira metade do século XIX. Criou o Museo de História Nacional e o Archivo Nacional de la Nación .

(14) N.T. Miguel de Unamuno, ensaísta e poeta espanhol de inícios do século XX, autor de Del sentimiento trágico de la vida en los hombres y en los pueblos (1913).

(15) N.T. Termo com o qual eram chamados os elementos ligados à metrópole espanhola que, arbitrários e soberbos, despertavam ressentimento entre os habitantes do norte da colônia americana. Com o surgimento do projeto de independência, passou a designar, mais amplamente, todo e qualquer que vivesse da Espanha ao México, visto que qualquer um deles passou a ser encarado, em bloco, como inimigo do povo mexicano. Diz-se que “guachupines” teria origem na língua falada pelos astecas, o nahualt ; mais precisamente na palavra “catzopini”, que queria dizer “homem com esporas”. Contudo, o mais provável é que corresponda a uma apropriação irônica da expressão “cachopines de laredo”, através da qual se designavam habitantes de no norte da Espanha, os quais julgavam-se possuidores de um sangue puro e uma moral superior.

(16) N.T. Simon Bolívar, um dos mais célebres líderes do movimento de independência da América Espanhola, viveu e trabalhou sobretudo em território venezuelano.

(17) N.T. Juan Bautista Alberdi, intelectual argentino que viveu e produziu em meados do século XIX. O opositor do regime ditatorial de Rosas, lutou pela promulgação de uma Carta Constitucional liberal e federalista.

(18)México y su evolución social. Tomo. I. P. 113.

(19) N.T. Comerciante, dono de uma pequena venda de secos e molhados.

(20) N. T. Região de planalto, no coração do México, onde se localizam as ruínas da cidade de Tenochitlithan . Habitada pelo povo asteca e maia, é tida como referência geográfica importante da tradição nacional mexicana.

(21) N.T. Wilhelm Worringer, célebre estudioso da arte egípcia, autor da tese Abstração e Empatia , de 1907, na qual debatia as relações entre a produção dos artistas e seus contatos com o mundo.

(22) N.T. Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo idealista alemão da transição do século XVIII para o XIX, que compreendia a história como expressão de uma série de diversidades culturais, mas direcionada a um fim único, daí a percepção de que algumas raças seriam espiritualmente mais desenvolvidas do que outras.

(23) N.T. Alexander von Humboldt, famoso intelectual alemão, também de meados do século XIX, que viajou à América Latina, estudando a geografia local.

(24) N.T. Uma das principais bases do desconstrucionismo.

(25) N. T. Psicanalista austríaco, interessado nos principais fatores determinantes do comportamento humano.

(26)“Os povos jovens por sua vez – diz Keyserling – não têm o espírito reflexivo e crítico. São espiritualmente passivos, como todos os seres jovens; são infinitamente sugestionáveis e suportam más críticas, por debilidade fisiológica e moral ao mesmo tempo: estão constantemente perturbados por um sentimento de inferioridade.” In: L´evenir de l´esprit europeen. P. 28. Edición del Instituto de Cooperación intelectual. 1934.

(27) N.T. Hermann Keyserling, filósofo que, na transição do século XIX a XX, crítico às sociedades européias contemporâneas, apresentou uma visão relativizada acerca do papel social das mais diversas raças/culturas do globo.

(28) N.T. Platão, filósofo grego que escreveu República , no qual discute as noções de Estado e justiça, e no qual consta a famosa, alegoria da caverna, através da qual ressalta a importância social dos intelectuais.

(29) N.T. O mexicano rural.

(30) N. T. Foi abordado focadamente nas páginas 13 e 14.

(31) N.T. Há que se comparar a visão da antropofagia apresentada por Ramos com aquela apresentada pelos modernistas brasileiros. Sabe-se que ela foi prática corrente entre os nativos americanos, e que tem sido tomada, ao longo da história mexicana (vá lá: também da brasileira), como um dos pontos nodais e mais doloridos das tradições nacionais; daí que Ramos a associe às noções pejorativas de egoísmo, desrespeito, insubordinação, “maledicência”. Para especialmente um dos principais expoentes de nossa vanguarda, o poeta Oswald de Andrade, contudo, a atropofagia deveria ser encarada como uma reação do colonizado à violência imposta pelos inimigos, no caso, os colonizadores; mas não se trata, segundo seu ponto de vista, de uma reação desesperada e arrogante, visto que partiria do princípio de que, devorando o outro, se estaria adquirindo as forças físicas e morais dele. CF. Manifesto antropofágico.

(32) N.T. A figura tradicional do mexicano da zona rural, com sombreiro, bigodes e manta.

(33) N.T. O correspondente feminino do charro ; de saia rodada, rendada, florida.

(34) N.T. Aqui o autor utiliza a expressão “como cualquier Espanha de pandereta” , querendo dizer qualquer coisa como “qualquer Espanha que se traduza pelos lugares-comuns, reducionistas, da alegria do pandeiro e da charanga”.

(35) N.T. Nota-se aqui uma contradição no raciocínio do autor, já que, no primeiro capítulo por mim trabalhado, por diversas vezes afirma que a imitação é conduta que o mexicano não opera por vaidade (por super-estimar-se), mas, diretamente, por sentimento de inferioridade.

(36) N.T. Dois sentidos, ao menos na presente obra, articuláveis: “reacionário, intolerante” e “na Espanha, defensor da idéia de que à Igreja caberia, para o bem da humanidade, o controle dos aparelhos administrativos estatais.”