A imitação da Europa no século XIX

Samuel Ramos
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Comentário: Ana Luiza de Oliveira Duarte Ferreira

Samuel Ramos Magaña nasceu em 1897, numa então pequenina cidade à leste do estado mexicano de Michoacan – Zitácuaro, no México; lá viveu até seus 14 anos, quando mudou-se com a família para Morélia, a capital michoacana, onde começou a publicar seus primeiros artigos críticos, em revistas estudantis tais como Flor de Loto e Minerva . Em 1915 concluiu aí mesmo o Ensino Preparatório, e iniciou o curso superior da Escola de Medicina, por influência de seu pai, que contaria com certo status como profissional da área da Saúde. Ramos demonstrava, contudo, desde há muito, na relação com o médico e filósofo positivista José Torres Orozco, um interesse maior pelo campo da reflexão filosófica – daí que, a princípio, se voltasse com afinco, entre outras coisas, ao estudo das proposições de Herbert Spencer. Abandonou o estudo da Medicina após um ano cursado.

Retomou-o, após mudar-se para a Cidade de México, em 1917, na Escola Médico Militar, por razão da morte de seu pai. Paralelamente, passou a assistir, em caráter informal, as aulas ministradas pelo já então ilustre pensador mexicano Antonio Caso – crítico a preceitos positivistas –, na Escola de Altos Estudos (futura Faculdade de Filosofia e Letras) da Universidade Nacional Autônoma do México. Apenas no ano de 1919, após concluir Medicina, efetuou, oficialmente, sua matrícula no curso de Filosofia. Na nova faculdade, teve contato com o então também estudante Vicente Lombardo Toledano.

Em 1921 assumiu como professor duas disciplinas, em instituições distintas: Problemas Filosóficos , na Escola Nacional Preparatória; e Lógica e Ética , na Escola Nacional de Maestros.

No mesmo ano conheceu o filósofo italiano, em visita ao México, Benedetto Croce, do qual traduziu, em 1925, Breviário de Estética , para edição mexicana; anos mais tarde traduziria obras de outros pensadores de reflexão crítica ao positivismo, como El arte como experiência , de John Dewey e La esencia de la Filosofia , Willhen Dilthey (ambos em 1944).

Por esses anos, cuidava ainda de publicar artigos nas mais diversas revistas filosóficas, científicas e literárias da capital, dentre as quais La antorcita e Examen (delas foi diretor, respectivamente, em 1924 e 1932), e ainda Forma, Ulises , Letras de México , El universal, México en el arte, Filosofia y Letras, Cuadernos americanos, Estaciones, Metáfora, e Siempre ; foi (importante ressaltar) um dos colaboradores do periódico que marcou época, naqueles primeiros anos do século XX – Los contemporáneos. Esteve, pois, em contato com diversos intelectuais considerados grandes nomes da inteligência mexicana de todos os tempos, e, sobretudo, contou com a amizade do dito “grupo sin grupo”, composto pelos responsáveis por esta última citada publicação – Carlos Peciler, Xavier Villaurrutia, Salvador Novo, Gilberto Owen, José Gorostiza, Jorge Cuesta, Jaime Torres Bodet, Enrique González Rojo.

Em 1922 publicara seu primeiro livro, sobre a obra de um de seus mais caros preceptores, Antonio Caso: ensayos críticos y escritos tocantes a todas las cuestiones filosóficas.

No ano de 1926 partiu para a Europa para se especializar na área da reflexão filosófica: fez cursos em instituições de renome na França – Sorbonne e College de France –, e na Itália – Universidade de Roma. Na ocasião, conheceu também a Rússia. Curiosamente (?), retornou ao México com uma postura bastante crítica em relação às reflexões apresentadas pelo antigo professor Antonio Caso.

Em 1928 editou seu segundo livro: Hipótesis , uma compilação de seus artigos críticos que vinham até então aparecendo na imprensa mexicana; logo em seguida, publicou outro, El caso Strawinsky , em duas edições de Los contemporâneos . Neste período, vieram a público três breves mas significativos textos – La cultura criolla , Psicoanalise del mexicano , e Motivos para uma investigación del mexicano – esboços iniciais de sua quarta e mais célebre obra, El perfil del hombre y la cultura en México , lançada no mesmo ano em que se casou com uma ex-aluna, Adela Palacios (1934) . Em 1935 foi editado seu trabalho sobre a obra de Diego Rivera, em 1938 seu Más allá de la moral de Kant , e, dois anos depois, Hacia un nuevo humanismo: programa de una antropología filosófica .

1933 é o ano do acirrado debate, por ocasião do Primer Congreso de Universitarios Mexicanos, entre um antigo colega de Ramos – professor Lombardo Toledano – e um antigo mestre de Ramos – professor Antonio Caso; o primeiro defendendo a institucionalização do socialismo como paradigma do ensino universitário do México, e o segundo em prol da manutenção do ensino liberal humanista.

Em 1934 é eleito presidente o também michoacano Lázaro Cárdenas.

Em 1941 Ramos publica suas reflexões acerca do universo intelectual mexicano que se foi esboçando após a criação da UNAM, em Veinte años de educación en México.

Era funcionário da Secretaria de Educação Pública do governo federal quando, em 1941, sugeriu à Faculdade de Filosofia e Letras da UNAM a criação da cadeira de História da Filosofia en México . Seu livro História da Filosofia en México chegou às livrarias em 1943.

No ano de 1944 tornou-se Doutor em Filosofia pela UNAM, e, de 1944 a 1952, foi diretor da já referida Faculdade de Filosofia e Letras por dois mandatos consecutivos. Neste período muitos intelectuais da Espanha vinham exilar-se no México, em face das arbitrariedades do regime ditatorial do general Francisco Franco; aí então Ramos fez uso de seu cargo para prestar-lhes apoio e garantir-lhes espaço no universo intelectual profissional mexicano. Foi assim que se tornou amigo íntimo do renomado pensador espanhol José Gaos.

Em 1946 e 1947 lançou mais dois livros sobre a obra de Antonio Caso: respectivamente, Antonio Caso: filosofo romântico e La estética de Caso . Em 1950 publicou Filosofia de la vida artística.

A partir de 1954 assumiu o cargo de coordenador da área de Humanidades, da UNAM. No ano seguinte, ajudou a criar o Seminário de Problemas Científicos e Filosóficos , núcleo interdisciplinar voltado para a promoção de encontros, palestras e publicação de trabalhos de autores nacionais; o primeiro livro lançado foi justamente Ramos de – Relaciones entre la filosofia y la Ciéncia (1955).

Em 1954 ingressou no Colégio Nacional , núcleo de estudos na área da Filosofia, das Ciências e da Literatura, do qual faziam parte pensadores influentes no contexto nacional, tais como José Vasconcelos, Alfonso Reyes, o prosista Mariano Azuela e os pintores Clemente Orozco e Diego Rivera. Vinha ocupar a cadeira de seu antigo professor, Antonio Caso, que morrera há oito anos.

Esteve em Cuba em 1941, na Inglaterra em 1945, novamente na França em 1951, em Porto Rico em 1956, nos Estados unidos em 1957, e novamente na Itália em 1958. Foi Doutor Honoris Causa da Universidade de San Marcos de Lima – Peru.

O mesmo título foi a ele concedido, no ano de 1953, pela principal instituição de ensino superior e pesquisa da cidade onde iniciou seus estudos filosóficos – a Universidade Nacional de San Nicolas de Hidalgo, de Morelia. Diz-se ainda que foi convidado para o cargo máximo na Reitoria da UNAM, em 1955, mas não assumiu por encontrar-se já bastante doente. Veio, enfim, a falecer, aos 62 anos, de câncer pulmonar, na Cidade de México.

Os textos a seguir apresentados correspondem a uma inédita tradução para o português, respectivamente, dos capítulos 1, 4 e 7 de sua obra-clássica El perfil del hombre y la cultura en México. Importante aqui destacar o tom ali utilizado por Ramos, ao estruturar seus argumentos: compõe o misto de uma artificial tentativa de objetividade, de parecer imparcial... com o uso de expressões coloquiais e a construção exagerada de metáforas. As frases são soltas, escassas de conjunções, é provável que com o intuito de que os argumentos se nos revelem claros, límpidos. Entretanto, as hipóteses mais fundamentais são repetidas insistentemente ao longo do texto, em especial após a definição de uma nova hipótese fundamental, numa espiral delirante, sem que se esboce uma lógica linear de proposições. Como se pode perceber desde o primeiro capítulo por mim traduzido, o referido autor opta, no referido livro, por uma curiosa primeira pessoa do plural; escolha que nos causa um certo desconforto, já que as idéias por ele apresentadas são defendidas com uma certa passionalidade. Em capítulos mais adiante, além disso, serão um tanto divertidas, aos olhos do leitor contemporâneo, as afirmações filosóficas peremptórias deste livro que, em última instância, parece pontuar a necessidade de relativização das perspectivas de análise da sociedade mexicana.

Bibliografia:

CORTÉS, Raúl Arreola Cortés. Samuel Ramos: la pasión por la cultura. In: http://dieumsnh.qfb.umich.mx/samuelramos.htm

ROVIRA GASPAR, Ma. del Carmen. Samuel Ramos ante la condición humana. In: http://www.ensayistas.org/critica/generales/C-H/mexico/ramos.htm

* Ver também: http://www.colegionacional.org.mx/Ramos.htm