Uma pergunta

Fernandez Retamar

Tradução:

Lisiane Nunes Ferreira

RETAMAR, Fernandez. Caliban: apuntes sobre la cultura de nuestra America . Buenos Aires: Editorial la Pleyade , 1984. p.9-15: Una pregunta.

UMA PERGUNTA

Um jornalista europeu, esquerdista, para aumentar seu conhecimento, perguntou a alguns dias atrás: Existe uma cultura latino-americana? Conversávamos, como é natural, sobre a recente polêmica em torno de Cuba, que acabou de enfrentar, de um lado, a alguns intelectuais burgueses europeus (ou aspirantes a isso) com uma visível nostalgia colonialista, e de outro a um plano maior dos escritores e artistas latino-americanos que resistiam as formas abertas ou não da época do colonialismo espanhol cultural e político. A pergunta pareceu-me revelar uma das razões da polêmica, e também podia expor dessa maneira: Vocês existem? Pois duvidar de nossa cultura é duvidar de nossa própria existência, nossa realidade humana, e portanto estar disposto a tomar partido a favor de nossa irremediável condição colonial, já que se suspeita que não seríamos exceto eco desfigurado do que ocorre em outra parte. Essa outra parte são as metrópoles, os centros colonizadores, cujas "direitas" nos empobreceram, e cujas supostas "esquerdas" pretenderam e pretendem orientar-nos com piedosa atitude. Ambas coisas com o auxílio de locais intermediários de variadas categorias.

Se bem que este fato, de alguma maneira, é sofrido por todos os países que emergem do colonialismo - esses nossos países em que esforçados intelectuais metropolitanos chamaram de tardios e sucessivamente de bárbaros, nação de cor, sub - desenvolvidos, terceiro mundo - acredito que o fenômeno abarca uma crueldade singular ao tratar-se da que Martí chamou "nossa América mestiça ". Mesmo que possa facilmente defender-se, a indiscutível tese de que todo homem é um mestiço, e incluso toda sua cultura; mesmo que isso pareça especialmente válido no caso das colônias, contudo, tanto no aspecto étnico como no cultural é evidente que os países capitalistas alcançaram a algum tempo uma relativa homogeneidade nesta ordem. Diante de nossos olhos realizaram alguns reajustes: a população branca dos Estados Unidos (diversa, mas de comum origem européia) exterminou a população aborígene e deixou de lado a população negra, para ficar sobre essas divergências de homogeneidade, oferecendo assim o modelo coerente que seus discípulos os nazis pretenderam aplicar também a outros conglomerados europeus, pecado imperdoável que levou alguns burgueses a estigmatizar em Hitler o que aplaudiam como diversão sã dominical em westerns e filmes de Tarzan. Esses filmes propuseram ao mundo- também a quem estamos aparentados com essas comunidades agredidas e nos regozijávamos com a evocação de nosso extermínio- o monstruoso critério racial que acompanha os Estados Unidos desde sua arrancada até o reconhecimento da Indochina. Menos à vista o processo (e talvez, em alguns casos, menos cruel), os outros países capitalistas também se deram uma relativa homogeneidade racial e cultural, sobre as divergências internas .

Tampouco pode se estabelecer uma aproximação necessária entre mestiçagem e mundo colonial. Este último é sumamente complexo, apesar das básicas afinidades estruturais, e incluiu países de culturas definidas e milenárias, alguns dos quais padece-ram (ou padecem) de ocupação direta - a Índia, Vietnã - e outros de indireta - China; países de ricas culturas menos homogêneas politicamente, e que sofreram formas muito diferentes de colonialismo - o mundo árabe - ; países, enfim, cujos esqueletos foram selvajemente desarticulados pela espantosa ação dos europeus-povos da África negra - apesar de que também conservam certa homogeneidade étnica e cultural: fato este último, por certo, que os colonialistas trataram de negar criminal e infundadamente. Nestes povos, em maior ou menor grau, ocorre a mestiçagem, mas é sempre acidental, sempre à margem de sua linha central de desenvolvimento.

Mas existe no mundo colonial, no planeta , um caso especial: uma grande zona em que a mestiçagem não é acidente mas a essência , a linha central: nós, "nossa América mestiça . Martí que tão admiravelmente conhecia o idioma, empregou este adjetivo de maneira precisa, como o sinal distinto de nossa cultura, uma cultura de descendentes de aborígenes de africanos, de europeus - étnica e culturalmente falando- Em sua "Carta de Jamaica"(1815), o Libertador Simón Bolívar havia proclamado: "Nós somos um pequeno gênero humano: possuímos um mundo distinto, cercado por mares extensos, novo em quase todas as artes e ciências"; e em sua mensagem ao Congresso de Angostura (1819), acrescentou:

Tenhamos em mente que nosso povo não é o europeu, nem o americano do norte, mas sim é uma mistura de África e de América do que uma emanação da Europa: pois até mesmo a Espanha deixa de ser européia devido ao seu sangue africano, devido a suas instituições e devido a seu caráter.

É impossível afirmar com certeza a que família pertencemos. A maior parte dos indígenas foram aniquilados; o europeu se misturou com o americano e com o africano, e este se misturou com o índio e com o europeu. Todos nascidos do seio de uma mesma mãe, nossos pais, diferentes em origem e em sangue, são estrangeiros, e todos diferem visivelmente na epiderme; esta dessemelhança traz um retorno da maior transcendência.

Já neste século, num livro confuso, mas cheio de instituições ( A Raça Cósmica , 1925), o mexicano José Vasconcelos determinou que na América Latina se estava forjando uma nova raça: "feita com o tesouro de todas as anteriores, a raça final, a raça cósmica".

Este feito único está na raiz de incontáveis mal-entendidos. A um mal-entendido entusiasmá-lo, deixá - lo indiferente ou deprimi-lo as culturas chinesa ou vietnamita ou coreana ou árabe ou africana, mas não lhe ocorreria confundir um chinês com um norueguês, nem um bantú com um italiano; nem lhe ocorreria perguntar-lhes se existem. Ao invés disso, às vezes alguns latino-americanos os toma por aprendizes, como imitações ou cópias de europeus, incluindo entre estes os brancos, de quem Martí chamou "a América européia", assim como tomam a nossa cultura por imitação ou cópia da cultura burguesa européia ("uma emanação da Europa", como dizia Bolívar): este último erro é mais freqüente que o primeiro, já que confundir a um cubano com um inglês ou um guatemalteco com um alemão é difícil devido a certas tenacidades étnicas; parece que os rio-platenses andam nisto menos diferenciados étnica mas não culturalmente. É que na raiz está a confusão, porque descendentes de numerosas comunidades indígenas, africanas, européias, temos, para nos entender em poucas línguas: as dos colonizadores. Enquanto outros colonizadores ou ex-colonizadores, em meio de metropolitanos, ficam conversando entre si em sua língua, nós, os latino-americanos, seguimos com nossos idiomas de colonizadores. São as línguas francas capazes de ir mais além das fronteiras que não temem atravessar as línguas aborígenes nem os créoles .

Agora mesmo, que estamos discutindo, que estou discutindo com esses colonizadores, de que outra maneira posso fazer salvo em uma de suas línguas, que já é também nossa língua , e com quais instrumentos conceituais que já são nossos instrumentos conceituais? Não é outro o grito extraordinário que lemos numa obra que por acaso seja do mais extraordinário que lemos numa obra que por acaso seja do mais extraordinário escritor de ficção que já existiu. Em A Tempestade , a última obra de William Shakespeare, o deformado Calibán de quem Próspero roubara a ilha, escravizara e ensinara a linguagem, o repreende: "Me ensinaste a Linguagem/ e dele obtenho? O saber de caluniar. A praga vermelha!/ Caia em ti, por me haver ensinado!"( You toght me language, and my profit on't ? Is I Know how to curse. The red plague rid you / For learning me your language! ) (A tempestade, ato 1, cena 2).