Gaúchos e ladinos

Darcy Ribeiro
- Comentários -

Comentário: Ruben G. Oliven (UFRGS)

As Américas e as Civilizações, livro do qual o presente texto faz parte, é o segundo volume de Estudos de Antropologia da Civilização, obra em que Darcy Ribeiro se propôs a entender a formação dos povos americanos. O primeiro volume intitula-se O Processo Civilizador e nele o autor desenvolve seu esquema teórico. Inserindo-se na escola evolucionista da Antropologia, sua preocupação era de entender as etapas da evolução socio-cultural, termo que é utilizado como sub-título do primeiro volume. Seu pressuposto central é que a história da humanidade nos últimos dez mil anos pode ser compreendida através de uma sucessão de revoluções tecnológicas e de processos civilizatórios. A determinadas modificações substanciais no equipamento dos homens sobre a natureza corresponderiam transformações qualitativas na forma de ser das sociedades. A evolução socio-cultural seria, assim, uma sucessão de processos civilizatórios gerais, que progressivamente levaria a humanidade da condição tribal às macro-sociedades nacionais modernas.

O presente texto faz parte do capítulo X de As Américas e as Civilizações que tem por título "Os Rio-Platenses". Nele o autor faz uma distinção entre ladinos e gaúchos . Segundo ele, ambos eram mestiços, resultando do cruzamento de alguns poucos pais europeus com uma variedade de mães indígenas. Embora se identificassem mais com os pais, eles tenderiam a falar o guarani melhor que o espanhol. Os ladinos seriam os que, habitando os vilarejos ou se ocupando principalmente da lavoura e do artesanato, acabaram por ser menos mestiçados e mais europeizados, em função da constante incorporação de uma pequena quantidade de espanhóis que vinham à região do Prata. Os gaúchos, por sua vez, eram os mestiços resultantes do caldeamento de índias e espanhóis e habitavam os amplos espaços pastoris, dedicando-se ao gado que se multiplicava no campo. Mantiveram, pela endogamia, suas características biológicas e tendiam, pelo isolamento, a conservar as técnicas de subsistência, as formas de organização social, a visão de mundo, os hábitos e a língua. A influência central do ladino era o porto que o colocava em contato com o mundo e tendia a torná-lo cada vez mais exógeno. A influência central do gaúcho era a campanha, que o deixava atrelado ao país e dedicado ao pastoreio.

A maior parte dos autores que tratam do gaúcho ressaltam sempre que trata-se de um tipo social específico. Embora haja muitas interpretações sobre sua origem e evolução, o gaúcho é sempre caracterizado como um homem que vagueia sobre seu cavalo tendo como interlocutor privilegiado a natureza como ela se descortina nas vastas planícies do pampa argentino, brasileiro ou uruguaio. O pampa é o nome dado às extensas planícies da Argentina, do Brasil (na região da Campanha do Rio Grande do Sul) e do Uruguai, cujas pastagens naturais são ideais para a criação de gado. Para uma análise do complexo pastoril euro-americano ver STRICKON, Arnold. "The Euro-Amrerican Ranching Complex" . In: Anthony Leeds & Andrew P. Vayda (eds). Man, Culture and Animals. The Role of Animals in Human Ecological Adjustments. Washington , D.C. , American Association for the Advancement of Science, Publication no. 78, 1965.

 

Darcy Ribeiro está primordialmente se referindo à Argentina e ao Uruguai. Neste último país, a figura do gaúcho freqüentemente se transforma num símbolo nacional na medida que o país teve na pecuária sua atividade principal. Já na Argentina, a situação é mais complicada. Lá o gaúcho é uma figura nacional, mas os sentimentos em relação a ele oscilam. Na virada do século XIX, ele era visto como símbolo de atraso que gradualmente deveria ceder seu lugar aos imigrantes mais modernos (este é o caso do Presidente Sarmiento citado no texto). Mais tarde, ele passa a ser uma figura romantizada que poderia contra-arrestar o materialismo dos imigrantes. (Ver SLATTA, Richard. "The Gaucho in Argentina 's Quest for National Identity" . Canadian Review of Studeis in Nationalism 12 (1), 1985 e DELANEY, Jeane. "Making Sense of Modernity: Changing Attitudes toward the Immigrant and the Gaucho in Turn-of- the Century Argentina " . Comparative Studies in Society and History 38 (3), 1996). Já no Brasil, o gaúcho é sempre um tipo regional que comparece na construção social da identidade do estado do Rio Grande do Sul (ver OLIVEN, Ruben George. A Parte e o Todo. A Diversidade Cultural no Brasil-Nação. Petrópolis, Vozes, 1992).

O gaúcho brasileiro é visto como um tipo social muito distinto de outros do país, guardando às vezes mais proximidade com seu homônimo da Argentina e do Uruguai. Na construção social da identidade do gaúcho brasileiro há uma referência constante a elementos que evocam um passado glorioso no qual se forjou sua figura, cuja existência seria marcada pela vida em vastos campos, a presença do cavalo, a fronteira cisplatina, a lealdade, a honra, a virilidade e a bravura do homem ao enfrentar o inimigo ou as forças da natureza, etc. Mas a figura do gaúcho, tal como a conhecemos, sofreu um longo processo de elaboração cultural até ter o atual significado gentílico de habitante do estado. Traçando a história da palavra gaúcho, Augusto Meyer mostrou que ela não teve sempre o significado heróico que adquiriu na literatura e na historiografia regional. No período colonial, o habitante do Rio Grande era chamado de guasca e depois de gaudério, este último termo possuindo um sentido pejorativo e referindo-se aos aventureiros paulistas que tinham desertado das tropas regulares e adotado a vida rude dos coureadores e ladrões de gado. Tratava-se de vagabundos errantes e contrabandistas de gado numa região onde a fronteira era bastante móvel em função dos conflitos entre Portugal e Espanha. No final do século XVIII, eles são chamados de gaúchos, vocábulo que tem a mesma conotação pejorativa até meados do século XIX, quando com a organização da estância, passa a significar o peão e o guerreiro com um sentido encomiástico. O que ocorreu foi a ressemantização do termo, através da qual um tipo social que era considerado desviante e marginal foi apropriado, reelaborado e adquiriu um novo significado positivo, sendo transformado em símbolo de identidade regional (ver MEYER, Augusto. Gaúcho, História de uma Palavra . Porto Alegre, Instituto Estadual do Livro, 1957).

Chiripá : "Vestimenta rústica, sem costuras, usada antigamente pelos homens do campo. É constituído de um metro e meio de fazenda que, passando por entre as pernas, é preso à cintura em suas extremidades por um cinta de couro ou pelo tirador" (NUNES, Zélio Cardoso e NUNES, Rui Cardoso. Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul . Porto Alegre, Martins Livreiro, 1982, p. 115-116).