A vaca premiada

Nelson Rodrigues

RODRIGUES, Nelson. A cabra vadia . São Paulo: Cia. das Letras, 1995. p.20-23: A vaca premiada.

Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

A VACA PREMIADA

( Texto publicado originalmente em 23 de janeiro de 1968 e republicado na coletânea A cabra vadia)

Não há ser mais pungente e, repito, não há ser mais plangente do que o brasileiro premiado. O inglês, não, nem o francês. Um ou outro recebe qualquer prêmio com modéstia e tédio. Quando deram a Churchill o Nobel de Literatura, ele nem foi lá. Mandou a mulher e continuou em Londres, tomando o seu uísque e mamando o seu charuto. O francês ou o alemão reagiria com o mesmo superior descaro.

E que faria o brasileiro? Sim, o brasileiro que, de repente, recebesse um telegrama assim: - "Ganhaste o prêmio Nobel. Gustavo da Suécia". Pergunto se algum brasileiro, vivo ou morto, teria a suprema desfaçatez de mandar um representante, como fez o Churchill. Por exemplo: - o meu amigo Otto Lara Resende. Se a Academia Sueca, por unanimidade ou sem unanimidade, por simples maioria, o preferisse.

Semelhante hipótese, que arrisquei ao acaso, já me fascina. O Otto, prêmio Nobel. Que faria ele? Ou que faria o Jorge Amado? Ou o Érico Veríssimo? Eis o que eu queria dizer: - qualquer um de nós iria, a nado, buscar o cheque e a medalhinha. Nem se pense que faríamos tal esforço natatório por imodéstia. Pelo contrário. Nenhuma modéstia e só humildade.

A nossa modéstia começa nas vacas. Quando era garoto, fui, certa vez, a uma exposição de gado. E o júri, depois de não sei quantas dúvidas atrozes, chegou a uma conclusão. Vi, transido, quando colocaram no pescoço da vaca a fitinha e a medalha. Claro que a criança, tem uma desvairada imaginação óptica. Há coisas que só a criança enxerga. Mas quis-me parecer que o animal teve uma euforia pânica e pingou várias lágrimas da gratidão brasileira e selvagem.

Cabe então a pergunta: - e por que até as vacas brasileiras reagem assim? O mistério me parece bem transparente. Cada um de nós carrega um potencial de santas humilhações hereditárias. Cada geração transmite à seguinte todas as frustrações e misérias. No fim de certo tempo, o brasileiro tornou-se um Narciso às avessas, que cospe ma própria imagem. Eis a verdade: - não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.

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