Um dia sem assaltos

Nelson Rodrigues
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Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

Em texto que é um primor de ambigüidade, Nelson comenta mais uma vez o problema da língua portuguesa no Brasil. Por uma parte, insinua que a antiga retórica conseguia ser forte, conseguia sacudir a opinião pública; por outro, reconhece, mais implícita do que explicitamente, que a língua de hoje, de sua época, é que tem naturalidade, a naturalidade que ele próprio apresenta em seu texto.

Mas talvez se possa explicar a ambigüidade por um fator político conjuntural: como se sabe, Nelson foi um crítico forte da atuação das esquerdas, sobretudo daquela que aconteceu no período forte da ditadura militar (entre 1968 e 1972). Aqui, ironiza a naturalidade com que se assaltavam bancos, numa insinuação que se refere implicitamente aos assaltos feitos por organizações clandestinas de esquerda. Mas mesmo que a referência seja aos assaltos em geral, trata-se de outra variável do mesmo problema: Nelson, reacionário confesso, costumava apresentar restrições àquilo que lhe parecia decadência de certo padrão de costumes, neste caso a trivialização da violência.

Seja como for, o cronista ensaia esboçar uma pequena teoria acerca da linguagem de uso no país. Recolhe o folclore da fala do jogador de futebol, figura que no Brasil é mais entrevistada do que qualquer outro grupo de pessoas, não obstante todos sabermos que não tem quase nada a dizer, e parte daí para a constatação de que a linguagem antiga, de retórica eficaz, está acabada - sem nunca perceber que ele próprio foi um dos responsáveis pelo abrasileiramento do modo de ser da língua portuguesa. Contraditório, claro, como todo grande pensador-ensaísta.