Um dia sem assaltos

Nelson Rodrigues

RODRIGUES, Nelson. O remador de Ben Hur . São Paulo: Cia. das Letras, 1996. p.115 - 118: Um dia sem assaltos.

Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

UM DIA SEM ASSALTOS

(Texto publicado em 3 de abril de 1969 e republicado em O remador de Ben Hur )

Imaginemos que um milionário paulista, não tendo mais o que fazer, resolva contratar um gramático. Seria tempo perdido. Podia anunciar nos classificados: - PRECISA-SE de um gramático etc. etc.". Não encontraria um. No Brasil de hoje, é mais fácil achar uma girafa do que um gramático. E, no entanto, vejam vocês: - houve um tempo em que o brasileiro gostava de escrever certo e de falar certo. Mas os usos, o gosto, os valores mudam, obviamente, de geração para geração.

Lembro-me de um jogador de futebol. Um locutor volante, antes do jogo, atropelou um craque. E este disse: - "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor, esfuziante, resolveu prolongar a entrevista. Perguntou: - "Vocês vão jogar o quatro-três-três ou o quatro-dois-quatro?". Há uma pausa aterrada. Bem se via que o jogador estava preparado para uma pergunta e não para duas. Pensa, pensa e, súbito, baixa-lhe a inspiração. Responde: - "Fazerei de tudo pela vitória". O locutor exulta: - "Acabaram de ouvir" etc. etc.

Eis o que eu queria dizer: - nunca se falou tão errado, nem se escreveu tão errado. Mas, coisa curiosa. Talvez por isso mesmo a língua brasileira ganhou em plasticidade, sim, lucramos em música verbal. E se, por acaso, ainda existir algum neto retardatário e obsoleto dos antigos gramáticos, será ele o primeiro a fingir-se analfabeto. Há, porém, uma figura que fala corretissimamente, sem os nossos freqüentes deslizes gramaticais: - o ladrão de banco. Assalta com a metralhadora e com a gramática.

Nunca me esqueço do filme Dillinger, que passou, no Rio, há uns dez anos. Era a biografia do famoso bandido. A estréia foi, se não me engano, numa segunda-feira, e no Rex. Entre parênteses, o Rex é um cinema que já nasceu velho. No dia de sua inauguração, parecia contemporâneo da primeira batalha do Marne e do fuzilamento de Mata-Hari. E outra singularidade: - desde o primeiro dia de vida, o Rex teve pulgas voracíssimas.

Vi o anúncio e decidi: - "Esse, eu não perco". Filme de gangster é, naturalmente, uma preferência comprometedora. E, portanto, escolhi a última sessão, que seria a mais vazia. Às dez para as dez, estava na bilheteria. Imaginei que só eu, entre 5 milhões de cariocas, estaria interessado em Dillinger. Mas chego lá e caio das nuvens. Cinema entupido. E não se pense que eram marginais, desclassificados de ambos os sexos, que estavam lá. Vi grã-finos, intelectuais, ministros, banqueiros e, até, um pastor protestante.

Por que o brasileiro tem essa fascinação pelo filme de gangster? Era a pergunta que eu me fazia, sem lhe achar resposta. E observei que todos, inclusive eu, tínhamos vergonha de estar ali. Mas vimos o filme. Como se sabe, Dillinger foi um dos mais espantosos ladrões de banco de sua época. Mas uma das passagens que gelaram a platéia de maravilhado horror foi a seguinte: - o gangster estava na casa de dois velhinhos. Marido e mulher teriam seus oitenta anos. Daí para mais. E, súbito, o bandido vê o velhinho cochichando no telefone. Desconfiou. A simples suspeita bastou. Assassinou o casal, a machadadas. Houve, no cinema, um silêncio de rebentar os tímpanos.

Os assaltos aos bancos deliciavam a platéia. Quando acabou, ouvi uma grã-fina sussurrar para outra grã-fina: - "Que homem! Que homem!". A outra respondeu, baixinho também: - "Com esse, eu me casava!". A sensação que tive foi a de que éramos uma platéia de ladrões de banco e assassinos de velhinhos. O que eu queria dizer é que tenho pensado muito no filme do bandido. Pela primeira vez no Brasil assalta-se banco e repito: - assaltar bancos tornou-se uma rotina da cidade.

O leitor de jornal sente-se frustradíssimo quando passa um dia sem assalto. Ainda ontem ou anteontem, dizia um meu amigo, quase irritado: - "Hoje ninguém assaltou". E o pior é que ninguém se espanta. Ou, na melhor das hipóteses, há um espanto sem terror. O fato adquire uma naturalidade cínica. Todos parecem raciocinar nos seguintes termos: - se podemos depositar nos bancos, abrir contas, fazer cheques, também podemos assaltá-los. No cinema e, pois, na ficção, o mesmo assalto tem uma outra e apaixonante dimensão. O incidente passa sem nenhum apelo emocional.

E reparem como não há nem um relativo susto. Senhoras gordas continuam levando suas contas da luz e do telefone; os depositantes comparecem; os caixas pagam e recebem; o gerente boceja na sua mesa ou discute futebol. Ninguém pensa que, a qualquer momento, pode levar uma rajada de metralhadora.

Se me perguntassem por que não há horror, eu diria: - o horror exige retórica. Nos bons tempos, havia o conselheiro Rui Barbosa. E nada acontecia, no Brasil e no mundo, que não tivesse o seu orador. Houve o desastre da "barca Sétima". Morreram, digamos, cem crianças. Não tenho nenhuma certeza numérica. Mas, digamos: - cem. O conselheiro Rui Barbosa ocupou a tribuna. E o que fazia chorar, mais do que as mortes, o luto das famílias, os enterros, era a retórica do conselheiro. Hoje, não há um brasileiro, vivo ou morto, que não use, com efusão e abundância, o erro de português. Nos bons tempos, todo mundo falava certo e escrevia certo. Era a eloqüência com gramática.

Rui foi, do berço ao túmulo, o gramático irremediável. Poderei dizer, sem exagero, que a sua glória é, sobretudo, gramatical. Nada mais correto do que sua frase. Pois bem. Repito: - cada acontecimento íntimo ou coletivo, doméstico ou político, tinha o seu Rui. Fosse batizado, noivado, enterro, aniversário, a retórica era fatal. Hoje, falta um Rui, ainda que modesto, ainda que menor, para estimular o nosso espanto, o nosso horror, a nossa indignação.

E, além disso, a imprensa brasileira moderna vive da objetividade. Não há mais, como nas gerações românticas, uma única e escassa metáfora. Lembro-me, agora, de uma velha tragédia. Imaginem que dois estudantes foram mortos, ali, no largo de São Francisco. Um repórter maluco correu para a redação e criou uma metáfora que era assim: - "Primavera de sangue". E a metáfora, a simples metáfora, levantou o país.

Eis o que eu queria dizer: - como não há mais tribunos, substituímos a retórica e a gramática do Rui pela piada. Os ladrões de banco não inspiram o nosso medo, o nosso espanto, o nosso horror; tampouco justificam uma providência prática da polícia. Mas o povo faz dos assaltos um novo filão de piadas. Os bandidos trancam os presentes nos banheiros. E já se diz que as bancárias querem banheiros de Paulina Bonaparte, com bicas de ouro, leite de cabra, e crocodilos deslizando sem marola etc. etc.

Reparem, ao mesmo tempo, como os nossos gangsters são de um alegre cinismo. O último banco estava a dois passos de uma delegacia, a dois passos de outra delegacia e pertinho do Palácio do Exército. Não houve nem atropelo nem risco. E todos fazem a divertida constatação: - é mais arriscado atravessar uma rua do que assaltar um banco.