Complexo de vira-latas

Nelson Rodrigues
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Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

É verdade que todo cronista sabe perceber, na tradição da língua portuguesa do Brasil, a vida cotidiana, em seus aspectos íntimos; mas também é fato que Nelson Rodrigues, dentre os cronistas, alcançou flagrar certas cenas que outros não perceberam. Um caso notável está aqui: ao abordar o futebol, menos em seus aspectos óbvios como a escalação do time e o movimento do placar, e mais, muito mais naqueles aspectos sutis, como o que vem aqui explicitado: o significado profundo do futebol como representação de um modo de ser do país

O interesse de Nelson está em tomar a reação do brasileiro ao futebol, especificamente à Seleção Nacional (espécie de suprema representação do modo de ser do Brasil), como centro de interesse. Sua crônica faz um diagnóstico da época: o Brasil dos anos 50 era um país em arrancada industrializante, mas não conseguia ver-se como país merecedor de vitória. Nossa auto-estima baixa nos fazia tremer diante do estrangeiro, fosse ele o imortal inimigo chamado Uruguai, fosse ele, mais ainda, o império inglês.

E tudo isso dito numa linguagem colhida na fonte, na própria fala comum do país, com os exageros que o comentário popular sempre acrescenta, por ênfase, às observações que faz a respeito da vida.