Nunca houve tamanha solidão na terra

Nelson Rodrigues
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Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

O Brasil, na visão de Nelson, nunca era unitário. Ele costumou tratar das diferenças como matéria de relevo em suas crônicas, sempre a partir de uma certeza: o Brasil era, para ele, o Rio. Claro que nos outros estados havia brasileiros, que se identificavam por uma série de fatores. Mas no Rio é que as coisas se configuravam.

No caso presente, o Brasil é o horizonte largo, que não há em São Paulo , cidade embretada no cimento e no progresso. O Amazonas e o Piauí representam uma fantasia de deserto, o que se evidencia pela pouca população ("muita gente", para Nelson, significa civilização) e por contraste com Pernambuco, que deu ao mundo um pensador, Gilberto Freyre, não por acaso um maldito na época, um sujeito tido como conservador e reacionário pela opinião da esquerda em geral.

Não é pequena a operação que o cronista faz aqui, no final. Depois de meditar sobre os aspectos mencionados, reconhece, ironicamente, que é preciso ter mania de grandeza, no Brasil, para compensar nossa pequenez. Em última análise, se trata de uma equação complexa de diagnóstico do Brasil em contraste com países desenvolvidos, dilema da época em que escreveu mas presente em toda a história do país, da colônia até hoje.