Sem medo do conselheiro Acácio

Nelson Rodrigues
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Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

Uma das grandes intuições, ou constatações, de Nelson foi precisamente esta, que está apresentada nesta crônica: a de que a língua portuguesa no Brasil ainda não estava domesticada, ainda precisava ser trazida para o âmbito propriamente cultural necessário para a enunciação do modo de ser dos falantes, da comunidade que dela se serve (Em parte por isso Nelson sempre mencione o escritor português Eça de Queirós, neste caso o Conselheiro Acácio: o cronista admirou profundamente o trabalho de linguagem que Eça havia feito).

Não é inédita a constatação: antes dele, no Brasil, pelo menos em dois momentos historicamente decisivos houve quem se preocupasse com o mesmo tema. Em meados do século 19 José de Alencar constatou o mesmo problema, e propugnou pelo abrasileiramento da língua; depois, nos anos de 1920, Mário de Andrade, mais que outros, aproveitou a voga modernista para discutir o mesmo tema. A diferença entre eles e Nelson é que este conseguiu escrever em brasileiro, de fato: impôs ritmo à linguagem escrita, tanto em seu teatro (que é certamente o primeiro caso de literatura dramática em que os personagens falam uma língua representativa do Brasil) quanto em sua crônica.

Enquanto os escritores brasileiros em geral, antes de Nelson, lutavam com (contra) a linguagem herdada, de forma a tentar diagnosticar o problema, Nelson encaminha a solução: traz a linguagem cotidiana para um patamar de enunciação efetivo e eficaz, mas sem os excessos da gíria passageira, cria expressões que retornam à linguagem comum, alcança um ritmo sintático expressivo, ganha comunicação imediata.

E tudo isso dito com humor, a partir da imagem de um ícone da inteligência artificial e artificiosa no país, Rui Barbosa, homem cuja linguagem era famosa e respeitada justamente por ser inatingível pelo comum das pessoas - e bem ao contrário do que ele próprio, Nelson Rodrigues, conseguiu.