Sem medo do conselheiro Acácio

Nelson Rodrigues

RODRIGUES, Nelson. O Óbvio Ululante . São Paulo: Cia. das Letras, 1993. p.147-150: Sem medo do conselheiro Acácio.

Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

SEM MEDO DO CONSELHEIRO ACÁCIO

(Texto publicado originalmente em 19 de fevereiro de 1968 e republicado na coletânea O óbvio ululante )

O brasileiro não nasceu para ser inteligente. E direi mais: - nem pode ter um parente inteligente. Parece exagero ou piada (Já expliquei que as verdades mais solenes podem assumir, por vezes, a forma de piada). Nada mais trágico para uma família brasileira do que ter, em seu seio, um caso de inteligência. Eu citaria, para não ir mais longe, o exemplo de Rui Barbosa.

O maior dos brasileiros vivos. Lembro-me de sua agonia em Petrópolis. Rui estava morre, não morre, e já um vizinho nosso antecipava: - "O maior dos brasileiros mortos". Eis o que eu queria dizer: - o grande baiano foi uma das mais negras tragédias familiares de que tenho notícia (Não estou insinuando nenhum escândalo, desses que, em nosso tempo, merecem a manchete de O Dia e da Luta Democrática. Não, não. Por esse lado a família de Rui foi de uma correção imaculada. Faço a ressalva com a maior ênfase).

A partir do momento em que, ainda menino, manifestou o seu gênio, a família perdeu a paz, o sossego, o diabo. Uma vago primo, ou cunhada, ou tia, deixou de ter vida própria. Ninguém namorava, ninguém noivava, ninguém casava e nem enviuvava. O tempo era pouco para admirar o Gênio. E ficava toda a parentela de mãos postas, estupefata. Durante setenta anos, a família foi massacrada. Velórios, bodas, partos, nenhum acontecimento lúgubre ou festivo valia uma coriza daquele que era "o maior dos brasileiros vivos" e seria "o maior dos brasileiros mortos".

Pergunto se, durante os setenta anos intermináveis, algum primo, ou tia, ou filho, conheceu por um momento o tédio do mito. Setenta anos não são setenta dias. E pergunto se terá havido, na família de Rui, algum caso de admiração exausta. Não sei, ninguém sabe, nem Deus.

E o próprio Rui? Como se comportava ele diante de si mesmo? Como reagia diante da própria glória? Eis a verdade: - o gênio nunca foi um hábito para Rui. E aí está um traço forte do brasileiro e repito: - o brasileiro não sabe ser inteligente com naturalidade. Vejam o francês. Jean-Paul Sartre, por exemplo. É um homem que inspira, aqui, algumas admirações abjetas. Dizem: - "A maior cabeça do mundo". E, por vezes, tem o que eu chamaria "a nostalgia da burrice". Nessas ocasiões, diz as bobagens mais hediondas.

Do mesmo o inglês, que também é inteligente sem espanto, sem angústia, sem deslumbramento. E não há mistério. O inglês, ou francês, encontra a língua feita e repito: - um idioma pensa por ele. Uma lavadeira parisiense é uma estilista, um cocheiro fala como um grã-fino de Racine. Ao passo que nós temos de recriar, dia após dia, a nossa língua e pensar em péssimo estilo.

(...)