Sem ridículo não há tango

Nelson Rodrigues

RODRIGUES, Nelson. O remador de Ben Hur . São Paulo: Cia. das Letras, 1996. p.111 - 114: Sem ridículo não há tango.

Comentário: Luís Augusto Fischer (UFRGS)

SEM RIDÍCULO NÃO HÁ TANGO

(Texto publicado em 2 de abril de 1969 e republicado em O remador de Bem Hur )

Um inglês pode ser premiado. Não há problema, nenhum, nenhum. Certa vez, um general inglês foi condecorado na França. Se não me engano, era a Legião de Honra. Vi uma fotografia colorida. A cerimônia era maravilhosamente plástica. Nunca vi tantos decotes, nem tantas casacas. Agora me lembro: o presidente da França era Lebrun. O que me deslumbrou, no episódio, foi o tédio do inglês. Ele é que parecia estar fazendo um favor à Legião de Honra.

Outro que pode ser premiado é o francês. Ou o alemão. Ou o norte-americano. Qualquer um dos citados acredita muito mais em si mesmo do que no prêmio. Já o subdesenvolvido, não. No princípio do século ou, se não me engano, na própria passagem do século, houve a prodigiosa Exposição Internacional de Paris. Aconteceu então esta coisa linda: - os prêmios choveram. Os primeiros contemplados foram visitantes ilustres. Reis, príncipes, rajás, duques, ministros, recebiam medalhas, tendo por fundo "A marselhesa".

No fim de quinze dias, até caixas de fósforos, até latas de azeite, tinham também o seu escudinho. E houve grave comoção nacional quando chegou aqui a notícia: - tinha sido premiada uma de nossas caixas de fósforos. A imprensa abriu seus títulos garrafais. As manchetes tremiam de patriotismo como de malária. O que não se imagina é a embriaguez da própria caixa de fósforos. De outra feita, houve, aqui mesmo, a Grande Exposição de Gado. Quando o júri anunciou os vencedores, foi uma apoteose. Eu, garotinho dos meus seis, sete anos, estava lá. Era a época em que todas as crianças se vestiam à marinheira. Eis o que eu queria dizer: - não há como descrever o impacto da vaca premiada. Do seu beiço pendia a baba elástica do narcisismo.

Eu temo pelo romancista, ou cientista, ou bacteriologista brasileiro, que recebe, um dia, o seguinte telegrama: "Ganhaste o prêmio Nobel. (a) Academia Sueca". Podemos imaginar a cena. O Gênio nacional está em casa vendo televisão e, possivelmente, o Chacrinha. A seus pés está uma bacia de pipocas. O caçula põe o dedinho no nariz. E, súbito, batem à porta. É o telegrama. E o Gênio brasileiro sabe que ganhou o prêmio Nobel. Pode tombar, cravejado de brilhantes. Mas vamos admitir que sobreviva. Instantaneamente estão alteradas todas as suas relações com o Universo. O Gênio vai reagir exatamente como a caixa de fósforos ou como a vaca premiada. Vejam agora o Gênio, em plena academia, recebendo o prêmio Nobel das mãos do próprio rei. Das duas uma: ou sai de maca, ou sai de rabecão.

E, se assim acontece com o brasileiro, seja ele uma caixa de fósforos ou gênio da prosa, é a mesma reação de qualquer outro latino-americano. Parece-me que premiar um sul-americano é uma imprudência, quase uma impiedade. Convém não excluir a hipótese de um enfarte fulminante. Na Exposição de Paris o prêmio deflagrou, na caixa de fósforos brasileira, um processo galopante de paranóia.

Fiz as reflexões acima para chegar ao Festival Internacional do Filme. Sempre que termina a Grande Resenha da TV Globo, corro ao Nino. Comigo vai a fome da madrugada. Chego, com o Scassa, o Gugu, o Alan Fontaine, o Armando Nogueira, o Abrahim Tebet etc. etc. Tarde da noite e o Nino estaria vazio. Ilusão. Nunca o vi tão cheio. Eu me enganava de que o Festival do Filme ia lá matar sua fome e tomar seus pileques.

Um Festival Internacional de Filme, seja aqui, seja em Cannes, Veneza, Berlim ou Praia do Pinto é um palco para apetites perversos e vis narcisismos. Há, também, o nosso velho conhecido: - o ridículo humano. A meu ver, a grande figura da festa foi, por certo, o Antônio Moniz Vianna. Era ele quem tinha de lidar com aquelas vaidades internacionais ouriçadas. Por um milagre de tato, conseguiu dar uma certa ordem ao conflito de histerias.

Mas não era isso que eu queria dizer. O que eu queria dizer é que a treva de tantos smokings deu-me a sensação de um outro Nino. Um único smoking é visualmente suportável. Vá lá. Mas quando são muitos, cada qual fica solene, hierático, bem-posto, como um defunto. Sim, havia qualquer coisa de macabro em tantos smokings instalados em tantas mesas. Finalmente, nós, da Resenha, arranjamos a nossa. Coincidiu que ficássemos perto da mesa em que os argentinos comemoravam a vitória do seu Martin Fierro. Quando muitos falam idiomas diferentes, ouve-se um idioma absurdo, sim, um idioma que jamais existiu. Ninguém entendia ninguém. No fim de quinze minutos, nós da Resenha também entramos na alucinação auditiva. A meu lado, o Scassa falava comigo e eu com ele, e nenhum de nós entendia o outro.

A rigor, só me interessava a mesa argentina. Não sei se vocês imaginam o que seja uma celebração de latino-americanos premiados. Não há nada mais patético. Falei da euforia da caixa de fósforos, quando ganhou, na Exposição de Paris, a sua medalhinha.

Falei também na lata de azeite brasileira que, na mesma exposição, recebeu um escudinho de consolação. Pois os cineastas argentinos reagiram, exatamente, como a nossa caixa de fósforos e como a nossa lata de azeite. Imaginei que cada um daqueles smokings e daqueles decotes estariam tecendo, junto aos respectivos bifes, as mais furiosas fantasias de onipotência.

Não saberia eu dizer se o prêmio foi ou não foi justo, porque não vi o Martin Fierro. Até hoje, ainda estou em convalescença do filme de Godard. Em certas situações vitais, costumamos dizer: - "Não tenho palavras". É a minha presente inibição. Diante de Godard não tenho palavras. Dizer o quê? Mas, pensando melhor, acho que tenho, sim, palavras. Eis o que me ocorre dizer: - "Em seu filme, Godard é um Luvizaro plástico". Se não me entendem, paciência. Mas repito: - "Godard é um Luvizaro plástico".

Quando saí, no meio do seu filme, ia pensando o seguinte: - se o cinema tem Godard, se admite Godard, vamos concluir que o cinema é uma falsa arte, uma antiarte. E, além disso, se o cinema nos aceita como espectadores, mais uma razão para não ser arte. Afinal de contas, somos os autores de Godard, nós o inventamos.

Mas eu estava falando de Martin Fierro, que tirou o primeiro lugar. Exatamente: - o primeiro prêmio. E já que não o vi, passo a palavra ao nosso Cavalcanti, o qual tem a seguinte opinião sobre o filme argentino: - "Horrível! Horrível!". Não importa. O importante era aquela funda, vital alegria da caixa de fósforos e da lata de azeite premiadas. O melhor é que, em se tratando de subdesenvolvidos, como é o caso dos sul-americanos, a alegria tem uma progressão fulminante. Primeiro é o premiado, depois os seus familiares e, sucessivamente, os vizinhos, os amigos, conhecidos, desconhecidos e credores.

Mas aquela madrugada estranhíssima, que a obsessão dos smokings tornara cadavérica, dizia eu, não podia passar sem um fato inusitado e, mesmo, alucinatório. Eis como tudo aconteceu. De repente, veio de lá do fundo do Nino, um pau-d'água. Parece que o uísque reativara, em suas profundezas, não sei que nostalgias também cadavéricas. E o bêbedo (já sei que vão me tirar o "a", do bêbado, e pôr um "e"), mas como eu dizia, o bêbado, com "a", estaca na mesa dos argentinos e, truculento, os interpela: - "E o tango? E o tango?". Queria "Pampa mía", Gardel, Le Pera.

Criou-se o "suspense". O paud'água grã-fino insistia: - "E o tango? E o tango?". Imediatamente, nós, da Resenha, olhamos o bêbado com uma solidariedade muda e ardente. Como responder ao irrespondível? Os argentinos inventaram o tango e o mataram. Não se cantam mais tangos em Buenos Aires , e não ser em botecos envergonhados e secretíssimos. Dirão vocês que há, no tango, um ridículo essencial. Concordo. Sem ridículo, não há tango. E, por isso, a Argentina o repudiou. Mas o ridículo é uma das dimensões vitais mais trágicas do homem, dos povos, de tudo. Por exemplo: - há algo mais burlesco do que uma mísera lagartixa, sem uma franciscana folha de alface? E, de repente, o pau-d'água começou a blasfemar contra Martin Fierro, porque Martin Fierro é o antitango.