A nacionalização da literatura canadense

Camille Roy

Tradução:

Marcelo Domingues

ROY, Camille. Essais sur la litteráture Canadienne . Montreál: Beauchemin, 1913, p. 215 - 232: La nationalisation de la littérature Canadienne.

Comentário: Marcelo Domingues (UFRGS)

A Nacionalização da Literatura Canadense (1)

Há quarenta anos, Crémazie se perguntava se uma literatura nacional seria possível aqui no Quebec; ele desesperava-se com o fato de que nunca se tinha visto em nosso país constituir-se uma tal literatura, e entre outras más razões com as quais ele tentava sustentar sua tese, havia o gravíssimo motivo segundo o qual nós falamos e escrevemos em francês. Não possuindo, para exprimirmos nossas idéias, uma língua que fosse exclusivamente nossa, nós não poderíamos então criar e desenvolver em nosso país uma literatura que fosse realmente distinta da francesa. Impelindo até ao paradoxo, e até a uma tirada original, esta opinião própria, ele lamentava profundamente que nós, pessoas do Canadá, não falássemos o hurão ou o iroquês; o que, seguramente, concederia à nossa língua um sabor original, a nossas obras um perfume novo, virgem, o único que poderia fazer nossos discursos e livros apreciados por outros povos.

O tempo, que destrói e derruba tantas teorias, não teve pena de destruir mais essa. Nossa literatura se desenvolve, e isto basta para que não nos seja mais permitido duvidar de sua existência. Aliás, não são estes senhores de Lorette e de Caughnawaga que realizaram essa maravilhosa literatura, e nós nem mesmo furtamos a seus lábios este falar e este mel indígenas que deviam tornar tão atraente a literatura canadense. É nossa língua francesa que exprime e penetra com sua virtude e com seu tênue aroma nossos pensamentos, e é com todas as preciosas qualidades que lhe são inerentes e que herdamos de nossos pais que compusemos as obras mais deliciosas e mais substanciais que se vêem em nossa biblioteca nacional. E longe de pensar em mudar esta língua , nossa Société du Parler français não tem outro objetivo que não seja o de estudá-la para melhor conhecê-la, e de melhor conhecê-la para melhor conservá-la. Ao mesmo tempo, ela deseja ardentemente que nossa literatura se desenvolva na proporção em que nós melhor conheçamos nossa língua, e que essa literatura, assim como essa língua, conservem ambas seu caráter próprio e sua vigorosa originalidade.

Se hoje se impõe a questão de saber como convém proteger nossa língua contra as influências que poderiam corrompê-la, há também uma outra questão estreitamente exótica nossa literatura canadense. Em outros termos, e já que a palavra foi criada para as necessidades da sociologia e da política, colocou-se nesses últimos tempos o problema da nacionalização de nossa literatura. E uma vez que nossas revistas e certos jornais, que desejam estender a todas as fibras da alma canadense o movimento nacionalista, voltaram com alguma insistência a esse assunto, não será talvez inútil tentar precisar esta noite os dados do problema, e dizer em primeiro lugar aquilo que não se deve entender por nacionalização da literatura, para em seguida melhor compreender e definir o que isso vem a ser.

Tratar de assuntos canadenses e abordá-los de uma maneira canadense: essas são as palavras de ordem, ou o refrão que repetem nossos publicitários e nossos críticos. O que isso realmente quer dizer? E devemos entendê-lo em um sentido tão rigoroso que nos seja preciso censurar aqueles que exerceriam de outra forma sua atividade literária, e se ocupariam, por exemplo, em escrever sobre questões que revelassem uma outra história que não fosse a nossa? E seria preciso condenar todos aqueles que procurariam utilizar em seus livros os recursos de uma arte que não fosse o fruto espontâneo de nosso gênio nacional? É claro que, neste momento da história de nossa literatura, nossa principal ocupação, de nós, canadenses, não deve consistir em escrever romances de costumes nos quais se exponha a vida dos Tupinambás, muito menos em ensinar ao mundo como, na China, se desenvolveu e consolidou a dinastia reinante que Chou-Tchi fundou no século XVII. Mas talvez também não consista em escrever sobre o perigo que ameaça nossa literatura nacional.

Por outro lado, é realmente necessário que o escritor canadense se detenha tanto no estudo da história, dos costumes, da natureza de seu país, que não possa dedicar-se a outros assuntos, a assuntos que ultrapassam nossa vida canadense e nossas fronteiras? Se é isso o que realmente queremos dizer, trata-se sem dúvida de um outro excesso e de um outro erro.

Não pode ser de forma alguma proibido a nossos romancistas situar seus personagens em um outro meio que não seja aquele em que nós próprios nos movemos, e fazê-los viver uma outra vida que não seja a nossa; não podemos condenar os nossos filósofos por estudar os problemas mais gerais da psicologia, e por nos dizer em nossa língua francesa suas conclusões; não pode ser ruim que nossos moralistas tentem compreender o homem "oscilante" tal como ele existe por toda parte, e que em seus livros a linha fugidia de suas contradições. Também não devemos declarar de antemão que, para nós canadenses,

.......é loucura em qualquer outro segundo

Querer se ocupar em corrigir o mundo;

assim como não pode ser proibido a nossos poetas líricos exprimir com sua alma todos esses sentimentos, certamente internacionais e comuns a todas as almas, que a vida e a morte, a alegria e a tristeza, o amor e o ódio despertam em todos nós: temas perpétuos que nós, desde Orfeu até M. Louis Frechette e desde Stésichore até M. Pamphile LeMay, várias vezes retomamos e incessantemente afinamos com a lira. Não, tudo isso e muitas outras coisas que interessam à humanidade não podem ser proscritas de nossa literatura; bani-las seria desastrado, assim como contrário a todas as tradições do espírito francês. Não há escritores que tenham freqüentado mais e melhor todos os lugares-comuns do pensamento humano quanto os grandes escritores do século XVII, a menos que sejam Montesquieu, Diderot, Voltaire, Rousseau: e é justamente o que explica a sorte de uns e outros, de seus livros e de suas doutrinas através do mundo. Eles nos interessam por tudo que, em suas obras, ultrapassa a vida nacional, e brota do fundo eterno da consciência humana.

Não seria então conveniente fechar aos escritores canadenses um campo tão vasto, onde há lugar para todos os talentos e todas as ambições. Para nós, como para este personagem de Térence, nada do que é humano deve ser estranho. Trazemos em nós mesmos, em nossas pessoas, toda a substância e os acidentes da natureza comum. A declaração de Joseph de Maistre é pelo menos paradoxal, quando afirma que não há homens no mundo, mas somente franceses, russos, italianos e talvez persas. Todos esses indivíduos, e alguns outros, como por exemplo os canadenses, servem apenas para cobrir e envolver o que há de mais geral em nossa espécie. Vocês sabem, e podem ainda constatar todos os dias que não é preciso esfregar durante muito tempo o seu vizinho para encontrar, por baixo, o homem. Deixemos, pois, nossos escritores penetrar até esse fundo, e trazer em seguida para nossa literatura filosófica, moral, sociológica, alguma contribuição útil. E se eles se empenham nesse trabalho, não lamentemos muito, pois tal desejo já nos valeu algumas das melhores páginas de nossa literatura, e o profundo e sábio pensador que foi Étienne Parent só mereceu que o chamássemos de Victor Cousin do Canadá porque um dia ele ousou nos dizer o que pensava da Intelligence dans ses rapports avec la société (2).

E da mesma forma que não podemos exigir de nossos escritores que eles se restrinjam a um repertório de assuntos que sejam exclusivamente canadenses, não devemos censurá-los por submeterem às vezes seu espírito, seu gosto, seus hábitos de pensar, sua arte e, por assim dizer, sua consciência literária às influências que vêm do estrangeiro. Deixemo-los à vontade para pedir aos escritores da França alguns conselhos sobre a arte de escrever e de compor um livro; e, para formular aqui um princípio mais geral, deixemo-los assimilar tudo aquilo que, nas obras estrangeiras, possa ser aproveitável para a arte canadense, quer se trate do conteúdo ou da forma. Além do fato de que a língua em que escrevemos seja, geralmente, bastante pobre e não disponha de muitos vocábulos que nos seriam necessários para representar todas as nuances do pensamento, além do fato de que nosso gosto literário não seja sempre muito seguro, nem talvez ainda refinado o bastante, nada é mais suscetível de transformações e de progressos quanto os procedimentos da arte literária; não há fórmulas definitivas que possam retê-los e aprisioná-los completamente, e também nunca esgotamos todas as formas de entender e traduzir pelo livro a vida moral e a vida intelectual de nossos semelhantes. É por isso que é bom que o escritor se inquiete em saber o que se pensa em outros países além do seu, e como se escreve; é por isso também, sem dúvida, que as literaturas sempre realizaram muitos intercâmbios, e que as modernas, em particular, sempre comunicaram umas às outras aquilo que elas conceberam em algum momento como uma lei do bom gosto, ou como uma manifestação real da beleza literária.

Este intercâmbio fez com que elas constantemente se renovassem e enriquecessem. A própria literatura francesa talvez tenha sido, nesse sentido, mais do que qualquer outra, cosmopolita: desde Margarida de Navarra, que compunha seu Heptameron inspirando-se em Boccacio, até esses autores completamente contemporâneos, que, no teatro ou no romance, foram buscar na Noruega ou na Rússia novos meios de agradar e de emocionar. De resto, à medida que as relações internacionais tornam-se mais fáceis e mais freqüentes, à medida que todas as raças vão se aproximando e unificando seus costumes; ou, em outras palavras, à medida que o cosmopolitismo político e social se acentua e se desenvolve, o cosmopolitismo literário igualmente só poderá se afirmar e se expandir ainda mais.

A literatura canadense não pode então, sob o pretexto de melhor manter sua originalidade, isolar-se em suas obras, proibir a si própria de buscar lições úteis nas literaturas que são mais velhas e mais ricas do que ela. A proteção exagerada seria aqui uma política ruim; ao querer estabelecê-la, nós logo nos arriscaríamos a sofrer de uma deplorável indigência e de uma anemia perigosa.

Entretanto, é preciso reconhecer que um sistema de livre intercâmbio que fosse amplamente praticado poderia nessa matéria comprometer a independência das letras canadenses. As condições nas quais se desenvolve nossa literatura não são precisamente aquelas que as circunstâncias impuseram às literaturas européias; elas complicam-se, nesse país, com nossa situação de povo colono, originário do povo francês; e se nós temos muito a ganhar quando pedimos à França que nos entregue o segredo de sua arte maravilhosa, nós teríamos muito a perder se, através dessas relações, nos tornássemos apenas escritores franceses perdidos sobre as margens do São Lourenço.

Ora, é esse precisamente o perigo que pode correr nossa literatura canadense momento atual, e é o obstáculo em que podem se chocar todos os ensaios de literatura colonial. Porque essas literaturas devem, em um dado momento da história, formar se com todos os seus elementos: porque elas não podem, como as literaturas das metrópoles que nasceram com a civilização do povo do qual elas exprimem a vida, desenvolver-se lentamente segundo as leis progressivas que coordenam o próprio desenvolvimento das civilizações; porque não lhes é permitido primeiramente balbuciar em formas ingênuas seus primeiros cantos, já que se trata de lábios adultos que os proferem; porque elas querem se formar em um único dia, e estabelecer-se imediatamente em uma perfeição relativa que lhes permita rivalizar desde já com literaturas que são séculos mais velhas; elas apressam-se em freqüentar continuamente essas literaturas que são suas "irmãs mais velhas" ou suas "mães"; elas são tentadas, para se elevarem até essa altura e para brilharem com a mesma intensidade, a crescer através de processos artificiais e a se cobrir de ornamentos e de ouropéis que lhes são completamente estranhos.

Acrescente-se a esse fato que nós, canadenses, somos tentados ainda, por outras razões, a imitar servilmente os livros e revistas franceses. Ainda não temos aqui tudo o que é necessário para concluir nossa educação literária, lutamos e sofremos durante muito tempo, devemos durante muito tempo concentrar todos os nossos esforços em obras de primeira necessidade, para que hoje sejamos capazes de uma vida intelectual autônoma e suficientemente organizada. E é para a França, que nos deu nossa língua, nosso temperamento e nosso espírito, que pedimos ainda a cada dia os livros e as revistas que nos faltam para nos instruir e nos permitir tomar contato com a vida dos outros povos.

Aliás, justamente por causa dessa comunhão de língua e de origem, não queremos ignorar o que se diz e o que se escreve na França; e porque a literatura francesa que nos vem de Paris é geralmente mais perfeita em suas formas, mais atraente e mais substancial do que aquela que nos vem de Quebec ou de Montreal, nós lemos mais aquela do que esta. É por todas essas causas que, pouco a pouco, e quase fatalmente se não tomarmos cuidado, a literatura francesa poderia absorver a canadense, impedi-la de conscientizar-se o bastante de sua vida própria. Nesse ponto de vista, nossa inimiga, se nos fosse permitido utilizar uma expressão tão malévola quando se trata de designar a literatura de uma pátria-mãe do povo canadense, nossa maior inimiga é a literatura francesa contemporânea: é ela que ameaça apagar sob a onda incessantemente renovada de suas enxurradas a cápsula original que deve caracterizar a nossa literatura. Nós não nos arriscamos a perder nossa originalidade quando damos a nosso espírito, para nutri-lo e enriquecê-lo, a "substância medula" dos autores clássicos dos séculos XVII e XVIII; porém, é de se temer que nos tornemos pálidos imitadores quando freqüentamos a cada dia os romances, as poesias, os dramas, os estudos de todo tipo que a cada dia se publica na França. Essas visitas freqüentes e cotidianas criam entre nós um gosto literário muito parecido com o gosto francês; elas tornam nossa mentalidade cada vez mais semelhante à mentalidade da alma francesa; elas chegam mesmo a trazer para nossa língua as novidades menos felizes da língua que se escreve em Paris; e é devido a isso que, por vezes, nossos hábitos literários não nos são tão pessoais, que nós em muitos casos não fazemos mais do que apenas transpor para as coisas que nos interessam os procedimentos de escritores estrangeiros. Muitas vezes não somente " vemos tudo aqui com óculos franceses (3)", como também apenas destilamos pensamentos e uma literatura franceses.

Sem dúvida, não seria preciso levar muito adiante essa crítica, até o ponto de esquecer que nossos livros canadenses, principalmente quando eles forem bem feitos, parecerão de forma surpreendente com livros franceses. Devemos resignar-nos a fazer muita literatura "francesa" no Canadá. Apenas lembremos aqui o que não é canadense e que é preciso condenar: escrever novelas e romances onde a análise psicológica, ao invés de entrar no vivo da alma canadense, apenas deixa ver estados de consciência completamente franceses; fazer poesias nas quais o sentimento é puramente livresco, e sustentado por reminiscências francesas, como, por exemplo, acontecia seguidamente com este pobre e tão simpático Émile Nelligan; utilizar sem razão neologismos e todas essas palavras novas, estranhas, que inventam aqueles que, não tendo nada a dizer, procuram substituir a idéia pelo inesperado da expressão; empregar todos esses vocábulos afetados, ou pretensiosos e brilhantes como falsas jóias, que fascinam aos olhos mais do que despertam o pensamento; expor em sua prosa todas essas formas bizarras como se faz aqui muitas vezes em certas crônicas femininas, sem falar de algumas masculinas; fazer livros, em uma palavra, onde a língua é corrompida pelo jargão dos escritores doentes da França, onde o fundo é apenas uma demarcação do livro francês, onde a matéria, petrificada com lembranças de leituras mais do que com idéias pessoais, está impregnada de todos esses molhos picantes com os quais se acentua, na França, o tempero de certas obras.

E tudo isso não nos adverte o suficiente que, para sermos canadenses, é preciso em primeiro lugar sermos nós mesmos, e que todo o problema que agitamos sob a grande palavra de nacionalização da literatura canadense se recoloca e se reduz a este outro, muito simples, que é desenvolver entre nós uma literatura original. Ora, esse problema será sempre resolvido por cada um de nós, desde que submetamos a uma meditação bem pessoal a matéria de nossos livros, não importando a sua origem ou a fonte da qual a tomamos emprestada; desde que a tivermos fecundado com nosso espírito, que a tenhamos feito passar, por assim dizer, através dessa alma canadense, através desse temperamento que é nosso, e que deixará sobre essa substância e essa matéria a impressão e o movimento de sua própria vida.

Mas justamente para isso é preciso não deformar ou perverter em si mesmo o espírito e o temperamento canadenses e, tomando contato com os livros das literaturas estrangeiras, tomar emprestado a todas essas obras apenas aquilo que possa fortificar e desenvolver esse espírito e esse temperamento. E principalmente é preciso ainda compreender bem a alma canadense, ter consciência do que ela é, e pressentir o que ela deve sempre ser; é preciso se dar conta das influências ambientes às quais ela está há muito tempo submetida, e saber bem por quais ações e sob que formas manifestou-se sucessivamente através de nossa história. Se nós assimilamos de verdade esse conhecimento de nós mesmos e essa ciência da vida canadense, não perderemos a ocasião de fazer livros que sejam realmente canadenses. Há, de fato, entre o espírito nacional, entre os costumes, as tradições, as tendências, a fé de um povo, entre o meio físico e social em que se desenvolvem as almas humanas, há entre tudo isso e a vida literária e o gosto artístico, relações e dependências muito rigorosas para que não possamos aqui, com tudo o que caracteriza nosso povo, criar uma literatura que seja nossa, e bem distinta da literatura francesa contemporânea.

Quão diferente, de fato, é nosso espírito nacional do espírito que anima a França de hoje! A alma canadense parece-se ainda e muito com a alma francesa que aqui trouxeram os valentes colonos do século XVII; ela não seguiu muito exatamente, e em desenvolvimentos paralelos, as transformações da alma francesa que tinha ficado na Europa. E para marcar essa diferença a partir do traço essencial que a define, a alma canadense, a alma do povo canadense continuou muito mais completa e simplesmente impregnada das tradições da vida cristã. Por todas essas tradições conscientes ou por vezes maquinais, que são o fundo de nosso espírito, nós nos ligamos estreitamente então à França extremamente cristã, àquela que precedeu ou que não fez a Revolução.

Um jornalista francês que viveu muito tempo entre nós, Charles Savary, pretendia, não sem alguma razão, que por esse cristianismo tão liberado de todas as doutrinas estrangeiras, tão puro ainda de qualquer aliança, pelo menos entre o povo, nós encontrássemos a alma francesa que as influências do Renascimento não tinham ainda abalado e perturbado, e então nossa literatura poderia, muito mais seguramente do que o romantismo de Chateaubriand e de Victor Hugo não pôde fazer no século XIX, inspirar-se com os monumentos da história e da literatura da Idade Média. Ainda que essa conclusão possa ser contestável, por causa precisamente das civilizações muito diferentes que aparecem no século XIII e no século XX, é certo que nós conservamos aqui para a velha história da França um culto que não existe na própria França. O que nós mais admiramos em toda a história de nossa antiga pátria-mãe, não é a impiedade ou o diletantismo substituindo a idéia religiosa na vida pública e na vida social, mas é antes o pleno desabrochamento em terra francesa, e em todos os degraus da hierarquia política, da virtude do cristianismo; nosso ideal, na história da França, não é Combes destruindo peça por peça o edifício secular da França religiosa, mas é São Luís inclinando diante de Deus a potência civil, e procurando associar a sorte de seu governo aos destinos e à imortalidade da Igreja do Cristo. Igualmente, nossa história não é um capítulo da história da França contemporânea, mas antes uma página da história da França das Cruzadas; é a epopéia cavaleiresca que, com Cartier, Champlain, Laval, atravessou o Atlântico para completar em terra canadense seu último gesto! E então, para contar bem esta história, para manifestar realmente em suas nobres aspirações a alma popular, para permanecer nacional, nossa literatura deve ser antes de tudo francamente cristã (4).

Mas se nossa alma canadense está ainda completamente impregnada das generosas inspirações que aí depositaram os criadores e os principais operários de nossa história, ela não é mais o que ela era no dia em que aqui se veio procurar um campo novo para sua atividade. Ela modificou-se, remodelou-se, empobreceu-se de maneiras diversas ou enriqueceu-se ao contato dos homens e das coisas. Obrigada a concentrar durante muito tempo suas forças e sua aplicação sobre os penosos labores da vida material, impedida pelas necessidades da existência de entregar-se com bastante liberdade ao culto desinteressado da arte e da literatura, ela tornou-se mais positiva que a alma francesa contemporânea. Forçada a lutar durante muitos anos contra a natureza que precisava ser vencida, o solo que precisava ser aberto, e os inimigos que precisavam ser domados, ela adquiriu uma resistência refletida e um ardor combativo pouco comuns. Ocupada desde a conquista, desde 1760, em conquistar seu lugar na nação, ela acostumou-se a preocupar-se muito com as coisas do governo, e aprendeu a fazer funcionar a engrenagem das máquinas institucionais; nosso regime desenvolveu singularmente nela essa aptidão, e a alma canadense tornou-se, mais do que a alma francesa, capaz de governar sem violência e sem abalo sua vida pública. Mas, por outro lado, e para essa necessidade nova que ela criou para si, a alma canadense se compraz sem medida em todas as agitações, úteis ou vãs, da política, e deixa com prazer expandirem-se, nessa direção, sua força e sua atividade, e nem sempre com algum proveito. E ninguém duvida de que o romancista que quisesse pintar nossos costumes políticos encontraria mais de um assunto original no estudo de todas as influências múltiplas, nobres ou nocivas, ambiciosas e interessadas, que saturam a atmosfera de nossos parlamentos e que envolvem e cativam o eleitor: a virtude e a ingenuidade de uns e o cinismo de outros possuem aqui manifestações que os distinguem o suficiente, por certas nuances e por traços muito típicos, das políticas francesas de ultramar.

No mais, observemos ainda os costumes sociais que são o fundo da vida do canadense que habita nossas campanhas: e se eles não se parecem todos conforme estudamos sobre as margens do Chaudière, em plena região da Beauce, à beira de Trois-Rivières, nas montanhas de Charlevoix ou nas planícies que circundam Montreal, quanto diferem eles dos costumes que caracterizam a vida, tão primitiva ainda, mais isolada, rotineira e menos burguesa do verdadeiro camponês da França!

Aliás, com o meio social e físico influindo de maneira eficaz sobre os homens, nós transformamos ainda de outra forma nossas almas e consciências. Habitamos em uma província onde estamos mal distribuídos, em um país que não contém a vigésima parte de sua população considerada ideal. Resulta dessas condições de vida que a concorrência é aqui muito menos árdua do que nessa França onde se disputa cada polegada de terra, e onde é preciso rivalizar em todas as situações sociais; segue-se a isso que a regulamentação dos serviços públicos é aqui muito menos complicada. Nossas próprias vidas pessoais, menos pressionadas por uma atividade febril que reina na França, são menos arrebatadas pelo turbilhão dos negócios e menos submetidas a todas as tiranias das sociedades antigas e muito populosas. A partir disso temos, em nossos hábitos, em nossos costumes, muito mais dessa liberdade, dessa negligência e mesmo dessa displicência às quais não podem abandonar-se nações que sejam mais necessitadas e preocupadas com cada dia. Ocorre também que aqui tratamos mais de desfrutar a vida, se é que se pode dizer desfrutar quando se trata de não a utilizar o suficiente. Em todos os degraus da sociedade canadense, e principalmente em nossas classes dirigentes, buscamos muito mais as distrações, os passatempos fúteis, as conversas insignificantes dos clubes e salões; perdemos tempo na fumaça dos cigarros e procuramos muito menos adquirir para nosso espírito os conhecimentos mais elevados e mais precisos, uma cultura realmente superior. Sob mais de um ponto de vista, a vida canadense, sendo menos atribulada que a vida francesa e não tendo tantas preocupações prementes, é conduzida de uma maneira mais calma, sem muitas inquietações com o dia seguinte; nossos estados de consciência são, por isso mesmo, menos atormentados, mais pacíficos e muito mais simplistas.

Aliás, e vocês sabem bem, nosso clima, em primeiro lugar, esfriou consideravelmente o temperamento francês aqui no Quebec. E há mais de um século nós vivemos no comércio habitual com o povo inglês, e esta vizinhança seguramente não restitui à alma canadense toda sua vivacidade primitiva. Nós nos tornamos muito mais calmos, mais tranqüilos que os franceses da França. Se mais de uma vez se manifestam ainda em nossa vida pessoal e em nossa vida nacional as ruidosas explosões e os sobressaltos da alma francesa, nós nos acomodamos igualmente bem a estas agradáveis emoções, a estas alegrias serenas, a estas felicidades silenciosas que se harmonizam com os gostos, os hábitos, os costumes das nações setentrionais. Nossa alegria parece-se um pouco com a dança muito viva, mas intermitente, de nossas auroras boreais. A natureza canadense também, com suas paisagens um pouco monótonas, com seus horizontes tão largamente abertos, suas perspectivas sempre fugidias e inalcançáveis, nos fez um pouco sonhadores e melancólicos; gostamos de deixar nosso olhar errar sobre as coisas longínquas, e nossa imaginação se perder em pensamentos indecisos; transformados em pessoas do Norte, nós irradiamos com prazer, em um vago sentimentalismo, nossas melhores energias; e alternadamente práticos e utilitários como americanos, ou teóricos e idealistas como franceses, nos preocupamos muito pouco em sermos artistas, e contudo amamos as artes, os discursos e os livros; queremos ainda pôr em nossas vidas muito da poesia que consola e do ideal que encanta.

Se então nós continuamos aqui algumas das melhores virtudes de nossa raça, não é menos certo que a alma canadense está bastante distante da alma francesa do século XX. E se nós acreditamos dever insistir tanto nesse ponto, é para fazer entender que seria extremamente inábil calcar nossa literatura nacional sobre a literatura francesa contemporânea. Não é, para dar apenas um exemplo, à alma de nossa sociedade burguesa ou operária que pode corresponder em toda verdade o romance psicológico, tal qual o concebem em Paris, Paul Bourget ou Anatole France.

A distância que separa hoje a alma canadense da alma francesa deve então definir ela própria a distância que é preciso estabelecer entre nossa literatura e a que se faz na França. Como dizia, há quarenta anos, e com muita nitidez e precisão, nosso muito distinto representante em Paris, M. Hector Fabre, "seria imprimir à nossa literatura um movimento artificial se a impelíssemos bruscamente para as vias onde a literatura francesa só entrou após ter percorrido tantas etapas diversas; ou procurar iniciá-la de repente no ceticismo humano mais aguçado, no diletantismo literário mais refinado. Ela se encontraria em desacordo completo, em discórdia perpétua com nossa sociedade da qual ela deve ser a imagem fiel, a representação exata, se ela quiser interessar, se ela quiser ter leitores (5)".

É então de acordo com todas as condições e todas as circunstâncias de nossa vida nacional que é preciso tentar fixar aqui o gosto literário, e é a isso que deve visar particularmente a crítica. No lugar de fazer como certos escritores belgas que imitam os parisienses, sigamos antes o exemplo que nos deu a Alemanha do século XVIII, quando começou a criar enfim uma literatura nacional. Em plena civilização, em plena história moderna, os escritores desse país fabricaram de todo elemento uma arte nova: com iniciadores como Bodmer e espíritos sensatos como Lessing e Klopstock, eles atraíram novamente a atenção dos leitores para as coisas do país, e principalmente constituíram uma crítica que se empenhou em reinserir o espírito alemão nas próprias fontes da vida nacional. Assim, devemos voltar continuamente ao estudo de nossa história e nossas tradições, e fundar nossa estética sobre o conjunto das qualidades, das virtudes, das aspirações que distinguem nossa raça. Consideremos a literatura não como uma coisa superficial, frívola e puramente formal, mas como a expressão da vida naquilo que ela tem de mais íntimo, de mais sério e de mais profundo; entremos nela com todos os pensamentos, com todos os sentimentos, com todas as emoções que melhor manifestam a consciência canadense; preenchamo-la, até transbordar, com todas as coisas que são como o próprio tecido da história e da vida nacionais.

Façamos aqui uma literatura que seja nossa e para nós. Não escrevamos para satisfazer em primeiro lugar o gosto dos leitores estrangeiros, nem para buscar acima de tudo os seus aplausos, mas escrevamos antes para sermos úteis ou agradáveis a nossos compatriotas, para despertar aqui os espíritos, orientar sua atividade, e para aumentar o tesouro de nossa própria literatura. Não nos olhemos, assim como fazia Crémazie, e depois dele, há alguns anos, Madame Th. Bentzon (6), como colonos literários que só podem trabalhar em definitivo para o proveito da metrópole, sem nunca chegar a criar uma autonomia real. Tenhamos bem mais fé em nosso futuro literário, e para melhor acentuar desde já o livre e original desenvolvimento de nossas Letras, façamos livros que sejam, pelo seu próprio conteúdo e pela substância que eles contêm, bem canadenses.

Sem dúvida, e nos já explicamos o bastante, não devemos proibir nossos escritores de se ocuparem com assuntos estrangeiros às coisas de nosso país; mas ninguém duvida também de que, o que importa, e o que recomendamos com insistência, é que eles escolham assuntos nos quais o espírito canadense possa afirmar-se com mais personalidade; que eles evitem de se aventurar em matérias nas quais não poderiam rivalizar com escritores que em outros países são mais preparados e, mais do que eles, providos de tudo o que é necessário para aprofundá-las; que eles se empenhem em questões que deixem de comover e abalar todas as potências de nossas almas canadenses, que não deixem de salientar nossa literatura nacional: é importante, em outras palavras, que eles tratem primeiramente dos assuntos canadenses. "Sejamos de nosso país", e teremos grande chance de sermos do Canadá!

Até aqui, aliás, os escritores canadenses, nossos maiores escritores pelo menos, seguiram bastante fiel mente esse programa. Desde Crémazie até LeMay, e entre os prosadores, para citar aqui apenas aqueles que já morreram, desde Garneau e Ferland até Casgrain, desde de Gaspé até Marmette, desde Gérin-Lajoie até Buies. De Chauveau a Honoré Mercier e Chapleau, nossos livros e nossas mais belas obras, poesias, histórias, romances, discursos são, em geral, impregnados do melhor espírito canadense, e muitas vezes este perfume do terreno que nessas páginas gostamos tanto ainda de respirar se libera, como de flores que brotaram em pleno solo natal.

Nossas grandes obras são canadenses, nossa literatura já é, em uma grande medida, nacional. Mas podemos observar, e é justamente porque era permitido falar esta noite de literatura canadense, que não há, em muitos de nossos livros, principalmente romances e poemas, uma imagem suficiente de nossas almas e de nosso país, no momento em que queremos pintar essas almas e descrever esse país. O poeta e o romancista ficam muitas vezes apenas na superfície das coisas; eles talvez não saibam ver o suficiente com seus próprios olhos; não tocam e não sentem o bastante os seres e a natureza que os cercam; eles não descem profundamente até a alma de nossos compatriotas, que contudo seria necessário observar com atenção pelo menos uma vez. Disso decorrem, em seus livros, estes desenhos um pouco pálidos, estas tintas um tanto secas, estes relevos pouco acentuados, esta psicologia superficial, estes caracteres muito flutuantes, estes costumes muito pouco vividos, estes capítulos extremamente vazios.

De onde vem isso então? E se nem sempre é o talento que falta a nossos escritores, por que não sabe mos ver suficientemente aquilo que está ao nosso lado e sob nossos olhos? Por que não compreendemos rápido o bastante e de forma completa a vida canadense e todas suas numerosas e infinitas manifestações, através de nós mesmos, através da natureza e da história? E então, que meios nos conviria empregar para nacionalizar nossos espíritos?

Pode haver para essas questões respostas bem diferentes. Vocês me permitirão, pelo menos, indicar uma esta noite, mas é necessário ter a coragem de dizê-la sem procurar esconder-se atrás de nosso amor próprio de educador e professor. Se quisermos perceber melhor as coisas de nosso país, e reprimir em uma medida suficiente esta tendência que nós temos a submeter nossas idéias, nossos julgamentos e nossos gostos literários a influências exteriores, européias e principalmente francesas; se nós quisermos também combater a indiferença às vezes desdenhosa que aqui se professa, para a literatura canadense, será preciso, em nossas instituições de ensino, dar às crianças e aos jovens uma instrução que seja, na verdade, mais nacional; deveremos tratar de melhor introduzir em nosso ensino, no nível primário e no secundário, coisas do país, de preenchê-lo mais com todas as lembranças, com todas as esperanças, com todas as ambições, com todas as realidades de nossa história.

No que diz respeito ao nosso ensino secundário, algumas de suas estruturas encontram-se muito calcadas no ensino secundário francês. Não é o caso, certamente, de censurá-lo por conceder um amplo espaço ao estudo dos clássicos antigos e modernos; mas ele poderia nos instruir de uma forma mais precisa sobre múltiplos aspectos da vida canadense, e, para dizer de outro modo, ele poderia conceder um espaço maior ainda ao estudo da história de nosso país, de sua fisionomia e de suas riquezas, à inteligência de seus desenvolvimentos políticos, sociais e literários. Não é preciso que nossos estudantes aprendam História e Geografia como se fossem pequenos europeus e, na Europa, pequenos franceses; eles deveriam antes estudá-las como se fossem pequenos americanos e, na América, pequenos canadenses! Por que eles deveriam ser capazes de dar lições a um estudante de segundo grau de Paris sobre não sei que rei indolente, ou sobre o sistema orográfico da Floresta Negra? Por que eles deveriam nos demonstrar conhecimento sobre algum faraó do qual não resta nem mesmo uma múmia, se eles realmente possuem apenas noções muito confusas sobre o caráter e sobre as transformações de nossa vida colonial, sobre Lafontaine e Baldwin, sobre a história de nossos últimos cinqüenta anos, sobre a natureza e o progresso de nossa civilização e de nossas instituições, sobre a geografia física e os recursos econômicos de nosso país? Se na França, na Alemanha, na Inglaterra, o aluno que fez seu curso clássico conhece com alguns detalhes o aspecto e a vida de cada província ou de cada departamento, por que nossos alunos não poderiam ter noções mais exatas e mais completas sobre as diferentes províncias do Canadá e sobre as diferentes regiões de nossa província do Quebec? E por que insistimos tanto em censurar os europeus por ignorar tanto o Canadá, se pelo menos eles possuem esta sabedoria, a qual poderíamos aprender com eles, de sempre começar pelo estudo aprofundado de nosso próprio país? O mal não está no fato de que, sendo canadenses, saibamos tantas coisas sobre a Europa, a Ásia, a África e a Oceania, mas sim no fato de que, aprendendo tantas coisas sobre tantos povos e tantos países, talvez não possamos nos empenhar o suficiente em conhecer bem nosso povo e nosso país.

Aliás, a educação literária de nossas crianças e de nossos jovens poderia inspirar-se mais nas coisas e na natureza canadenses. No lugar de atrair as atenções do aluno para assuntos que lhe concernem, para lembranças ou lendas do país, vamos seguidamente buscar em antologias de composição francesa (7) o tema ou o modelo de suas narrações e de seus discursos. Não seria realmente preferível ensinar às crianças a olhar, a ver, depois a descrever as paisagens que se estendem sob seus olhos, a contar estas velhas narrativas de nosso país nas quais o maravilhoso se mistura à realidade e instiga tão vivamente as jovens imaginações a fazer reviverem algumas cenas históricas, a celebrar algum herói do qual a pátria se orgulha? Ao invés de transportá-las em um castelo que elas jamais viram, por que não fazê-las descrever a cabana onde moraram? No lugar dos jardins onde floresce a laranjeira, por que não as convidamos a representar as campanhas onde cresce o bordo? No lugar de cachoeiras das quais elas nunca ouviram o estrépito, por que não descrevem às vezes o rio tão largo e tão potente sobre o qual talvez se lançaram seus primeiros olhares, o riacho que atravessa murmurante o campo paterno, à beira do qual elas colheram, ainda pequenas, as primeiras flores ou ouviram pela primeira vez a canção dos pássaros?

Acreditamos saber, e é muito justo lembrá-lo aqui, que nossas instituições de ensino preocupam-se há alguns anos em orientar a formação de nossos estudantes no sentido de que falamos. Não somente nosso ensino primário se canadianiza (8), mas também o ensino secundário, ainda que reste muito a fazer. Se julgarmos pelos assuntos que são propostos a cada ano a nossos candidatos ao bacharelado, a reforma que nós desejamos no que diz respeito aos exercícios de composição francesa já está quase concluída nas aulas de Retórica. Por que não nos preocuparíamos em estendê-la a todas as aulas de Letras, àquelas pelo menos onde não a introduzimos o suficiente? E por que, ao mesmo tempo, não colocaríamos no programa em uma ou outra dessas aulas, algumas lições de história da literatura canadense? Não seria um meio eficaz de lembrar a nossos jovens que outros antes de nós tentaram criar aqui uma arte literária, e que eles próprios deverão empenhar-se em desenvolvê-la e aperfeiçoá-la?

Sei muito bem que para realizar tudo isso, para criar aqui um ensino que seja, no ponto de vista da História, da Geografia e das Letras, mais nacional, precisaríamos ter ao alcance da mão manuais que não temos, e que nossa literatura pedagógica - apenas me refiro, no momento, àquela de nosso ensino secundário - é muito pobre. Holmes e Laverdière, que tiveram seu mérito, mesmo que tenham trabalhado seguindo métodos defeituosos, ainda não tiveram imitadores que pudessem ultrapassá-los. Não é meu objetivo essa noite examinar as causas dessa indigência, dessa penúria, dessa incapacidade na qual tivemos de fazer até aqui alguns dos livros clássicos de que necessitamos. Que me seja somente permitido dizer que, quanto mais rápido pudermos oferecer a nossos professores de colégio e de pequenos seminários, em particular aos professores das aulas de Letras, condições de existência que lhes deixem algum lazer para o trabalho pessoal, mais rápido entenderemos que uma iniciação a esse trabalho pessoal é indispensável, e que estudos preparatórios especiais, longe de serem um negócio de luxo, são absolutamente necessários; quanto mais rápido decidirmos beneficiá-los, na França ou em outros lugares, com vantagens do ensino superior de Letras; quanto mais rápido, em poucas palavras, preocuparmo-nos em construir homens , mais rápido também aumentaremos, com o valor e o prestígio de nosso corpo docente, as chances de ver multiplicarem-se entre nós autores que escrevam ao menos manuais. E talvez também, e por acréscimo, poremos fim a este espetáculo anormal de uma literatura canadense que se desenvolve, quero dizer que recruta seus operários ativos, principalmente ao lado e fora de nossas instituições de ensino.

Conseqüentemente, nenhuma dúvida de que a criação, nesta província, e por que não em Quebec, de um ensino superior e pedagógico contribuiria em grande parte não somente para melhorar nosso ensino secundário, mas também para imprimir um novo impulso a nossa literatura canadense.

Esperando que esses votos se realizem, nossos pequenos seminários e nossos colégios não devem esquecer que já têm a bela missão de ensinar os jovens alunos a conhecer e amar seu país. O canadense é, sem dúvida, um grande patriota; mesmo quando emigra, pode-se dizer dele, como do alemão, que leva sua pátria na sola de seus sapatos. Mas é no colégio, e desde essa época, que é necessário iluminar esse patriotismo. Ensinemos então nossos alunos a compreender a natureza, a história, a vida canadenses; lembremos a eles que, se é preciso trabalhar para aumentar a fortuna econômica deste país, é igualmente importante desenvolver hoje sua literatura e suas artes, e que não pode bastar a nossos governos basear nossa potência nacional sobre a riqueza material e sobre a prosperidade do comércio. Cabe a nós, que somos aqui os herdeiros do gênio latino, e que representamos nesta América do Norte as civilizações mais brilhantes que já honraram a humanidade, ambicionar uma outra grandeza e uma outra glória!

Os esforços que empreendemos para conservar aqui no Quebec nossa língua e nossas tradições seriam, aliás, completos o bastante, se nós procurássemos apenas desenvolver uma literatura que contribuísse de sua parte para perpetuar essa língua, e preservá-la de corrupção perigosa? A literatura é, ao mesmo tempo que a expressão da vida individual e da vida social, a guardiã sempre fiel dos interesses superiores da raça e da nacionalidade. E nós só poderíamos então fazer irradiar neste país, quanto mais longe e com força nosso zelo deseje, a influência do falar francês, se traduzíssemos, ao mesmo tempo, em livros que sejam repletos de nós mesmos, de todos os aspectos, de todas as energias, de todas as virtudes da alma canadense.

É dessa forma, pelo menos, que a Société du Parler français au Canada entendeu sua missão e a de nossa literatura, e é por isso que ela acreditou dever lembrar-lhes esta noite alguns dos meios de fazer essa literatura cada vez mais original e distinta de todas as outras.

Para resumir seu pensamento, e para pôr fim a este discurso, permitam-me dizer novamente esta noite à musa do Quebec a mais delicada exortação que lhe dirigia outrora um crítico francês, amigo do Canadá (9):

"Igual à andorinha das Milles-Isles, não procures os países longínquos. Não nos leves à Espanha, à Itália, ao Egito. Ao Ganges, prefere o São Lourenço... Fala-nos das esplêndidas paisagens do país natal, faze cantar a alma de teus compatriotas. Tu poderás extrair disso os eternos acentos da alma humana... Mas deixa os trapos que saem de nossas lojas de novidades, os ouropéis amarrotados que nossas vendedoras de toalete não querem mais, e vai, canadense dos lindos olhos doces, vai beber na clara fonte"!


(1) Conferência realizada na Universidade Laval, no dia 5 de dezembro de l904, por ocasião da sessão pública anual da Société du Parler français au Canada .

(2) Título muito mal atribuído a um sólido estudo apresentado sob forma de discurso no auditório do Instituto Canadense de Quebec, em janeiro e fevereiro de 1852.

(3) M. Ferdinand Paradis notou e assinalou muito bem esse perigo em um artigo, L'Émancipation de notre littérature , publicada na Nouvelle-France do mês de junho de l904.

(4) Consultar a respeito desse assunto Feuilles volantes , CH. SAVARY, p. 100.

(5) Cf. Transactions of the Literary and Historical Society of Québec , 1866, artigo sobre a literatura canadense, p. 88.

(6) Cf. Revue des Deux-Mondes, 25 de julho de l898, l'Éducation et la Société au Canada .

(7) Queremos dizer preparadas na França para o uso dos pequenos franceses .

(8) Parece-nos interessante assinalar a esse propósito a obra muito louvável de M. Magnan, o zeloso diretor da revista l'Enseignement primaire.

(9) Cf. Études de Littérature canadienne-française de CHARLES AB DER HALDEN, p. 124.