A nacionalização da literatura canadense

Camille Roy
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Comentário: Marcelo Domingues (UFRGS)

CAMILLE ROY E AS BASES DA PROBLEMÁTICA IDENTITÁRIA

Durante muito tempo, a literatura canadense de língua francesa viu-se marcada de forma determinante pelo estigma da insegurança identitária. Os habitantes da província francófona do Quebec questionavam freqüentemente a existência de sua própria cultura e de sua capacidade de afirmação, dentro de um contexto bilíngüe que privilegiava a polarização da vida nacional. Nesse sentido, como uma forma de autodefesa, os escritores quebequenses do século XIX apressaram-se em transplantar as tradições francesas em solo americano e em forjar alguns mitos próprios que pudessem assegurar a base de uma cultura francófona autêntica, capaz de fazer frente à presença ameaçadora da língua inglesa na América do Norte. Dessa forma, o modelo literário clássico francês era considerado como sendo o mais adequado à expressão literária, que visava antes de tudo a uma continuidade da cultura francesa no Canadá. Toda expressão cultural nascida espontaneamente na província era então degradada ou corrigida de maneira arbitrária, negando-se assim o processo natural de hibridação dos mais diversos elementos culturais que se encontravam em livre intercâmbio nas terras americanas.

O texto de Camille Roy, A nacionalização da literatura canadense , situa-se em um momento de intensa efervescência no panorama cultural do Canadá na virada do século XX. Evidencia-se à época a necessidade de se definir o que é nacional em um país eternamente dividido entre suas d uas culturas fundadoras. Publicado em 1913, a partir de uma conferência realizada em 1904 por ocasião do encontro anual da Société du Parler français au Canada , o texto de Roy traduz toda uma visão de literatura nacional própria ao momento histórico e revela-se fundamental para a compreensão das origens da moderna literatura canadense de língua francesa. É claro que a importância do pensamento de Camille Roy deve ser contemplada como parte de um processo contínuo de reflexão sobre a questão identitária canadense, que se eterniza desde os primeiros confrontamentos entre ingleses e franceses ainda na época colonial.

Mesmo pretendendo abordar a nacionalização da literatura canadense em seu texto, Roy analisa apenas a expressão literária francófona no Canadá, desconsiderando todo e qualquer diálogo com a produção anglófona no país. Trata-se de um aspecto marcante da estratégia utilizada pelo autor durante todo o seu texto: a presença inglesa é simplesmente ignorada no panorama literário nacional. O paradoxo de tal atitude nasce justamente do fato de que uma definição do que é ou não nacional no âmbito literário canadense só se faz necessária devido à presença perturbadora do Outro (representado pela cultura inglesa) no quadro sociocultural do país.

O objetivo de Camille Roy é bem claro desde o início de seu texto: definir uma estética e uma temática próprias à literatura canadense (na verdade, quebequense), que lhe permita atingir o status de literatura nacional , ou seja, uma literatura reconhecida como sendo digna da representação legítima daquilo que o autor chama de "espírito" ou "alma" canadense.

Embora defenda inicialmente a liberdade de criação do escritor no que se refere aos assuntos a serem abordados na obra literária, chegando mesmo a afirmar que os grandes temas universais ultrapassam os valores nacionais, Roy estranhamente conclui seu texto delimitando, de maneira categórica, a temática ideal a ser seguida pelo autor nacional, repleta de valores-refúgio (1) que evidenciam a preocupação em preservar a pureza da cultura francesa. Ao lado de determinados elementos que conferem à obra uma certa cor local, Roy propõe a preservação, através da literatura, dos valores herdados da tradição francesa. Citamos, como exemplo, a importância atribuída pelo autor à religião na obra literária:

E então, (...) para manifestar realmente em suas nobres aspirações a alma popular, para permanecer nacional, nossa literatura deve ser antes de tudo francamente cristã.

Já no que se refere à estética genuinamente "nacional" proposta por Roy, destaca-se a intolerância para com o processo de hibridação lingüística sofrido pelo francês na América do Norte, que vai gradualmente se enriquecendo pelo contato com as línguas indígenas locais e mesmo com o inglês dominante. Tal processo, aliás muito natural à evolução de qualquer língua vernácula, é visto pelo autor como um artificialismo da expressão. Roy igualmente condena a criação de vocábulos novos pelo escritor, vistos como prejudiciais à integridade da língua francesa. Em seu texto, o autor chega mesmo a censurar os escritores que optam por

(...) utilizar sem razão neologismos e todas essas palavras novas, estranhas, que inventam aqueles que, não tendo nada a dizer, procuram substituir a idéia pelo inesperado da expressão (...).

Contraditoriamente, Camille Roy condena o isolamento da literatura canadense no contexto mundial, salientando a necessidade de um maior intercâmbio com a Europa, a fim de pedir aos escritores da França alguns conselhos sobre a arte de escrever e de compor um livro . Ao mesmo tempo em que busca uma especificidade própria à literatura canadense de língua francesa, o autor não consegue furtar-se a um certo servilismo aos cânones ditados pela Europa, esquecendo a contribuição valiosa dos outros povos que igualmente se encontram no contexto americano.

Todos esses aspectos salientados por Camille Roy devem ser compreendidos, no entanto, como uma forma de resguardar a língua e a cultura francesas no Canadá do intercâmbio com outras culturas, o que constituía à época uma verdadeira ameaça a valores tidos como herança dos primeiros colonos franceses no Quebec. Em uma época na qual o diálogo intercultural era praticamente inviável no país, o texto de Roy lança as bases da problematização identitária que caracteriza o debate nacional no Canadá até os dias atuais.


(1) O termo é originalmente utilizado por Betty Bednarsky em seu artigo Constantes de la littérature québécoise . In: DORION, G. & VOISIN, M. Littérature québécoise: voix d'un peuple, voies d'une autonomie . Bruxelas: Éditions de l'Université de Bruxelles, 1985.