Sobre o romance argentino

Ernesto Sábato
- Comentários -

Comentário: Ruben Daniel Castiglioni (UFRGS)

Tradução do comentário: Joise Anaí Corrent

ERNESTO SÁBATO, ESCRITOR INQUIETO

Ernesto Roque Sábato é, junto com Gabriel García Márquez, Mario Benedetti e Julio Cortázar, um dos maiores escritores latino-americanos da atualidade. Nasceu no dia 24 de junho de 1911 em Rojas, um povoado agrícola do pampa argentino, situado a trezentos quilômetros de Buenos Aires. Desde cedo buscou na matemática um refúgio de ordem e tranqüilidade. Aos dezoito anos, em 1929, ingressou na Universidade de Ciências Físico-Matemáticas de La Plata. Nos anos de estudante universitário aproximou-se de grupos militantes anarquistas e, posteriormente, filiou-se ao Partido Comunista (PC).

A experiência no PC argentino foi classificada pelo escritor como muito difícil, mas realizada com fé e esperança. Sábato participou ativamente das greves promovidas pelo Partido Comunista na universidade (1930), primeiro como simples filiado e logo como dirigente, sendo absorvido por esta atividade e tendo descuidado dos estudos para dedicar-se ao trabalho de penetração nas fábricas e nos maiores frigoríficos do país, localizados nos subúrbios de La Plata , onde os imigrantes eram explorados.

Alguns anos mais tarde, já secretário da Juventude Comunista, Sábato viajou a convite às Escolas Leninistas de Moscou. À caminho, fez escala em Bruxelas para participar do Congresso Internacional Contra o Fascismo e a Guerra. Como havia viajado "com profundas dúvidas acerca da ditadura de Stalin" (1999:59), Sábato decidiu desertar da militância e retornou a Buenos Aires para concluir seus estudos na universidade. Nessa época conhecera e casara-se com a estudante Matilde Kusminsky-Richter. Ao terminar o curso na universidade recebeu uma bolsa da Associação Argentina para o Progresso da Ciência e viajou, junto com sua esposa, à França como pesquisador dos Laboratórios Joliot-Curie, Meca científica da época.

Seu período de pesquisa foi marcado pela ruptura do átomo de urânio, obtida não no laboratório onde Sábato trabalhava, mas em um laboratório rival, o que originou, segundo o escritor, "o começo do fim". Irônico, declarou que esse momento - que abriu o caminho às explosões nucleares - foi de grande consternação entre todos aqueles cientistas amigos da humanidade, já que cada um lutava por ter a prioridade deste magnífico descobrimento.

Seu trabalho de pesquisador no Laboratório Curie era realizado durante o dia; à noite encontrava-se com o grupo surrealista, chegando a conhecer André Breton e a travar amizade com Oscar Domínguez e Wifredo Lam. Inspirado pelos surrealistas, Sábato começou a escrever seriamente mas evitando que seus colegas de laboratório soubessem disso, porque consideravam a arte como uma atividade inferior.

Em 1940, uma vez encerrado o período de bolsista, o escritor voltou a Buenos Aires e foi nomeado catedrático na Universidade de La Plata , onde dedicou-se a dar aulas sobre a teoria da relatividade e a trabalhar como professor no Instituto Nacional do Professorado Secundário de Buenos Aires. Neste período, Sábato sentiu-se atraído pelo círculo literário de Jorge Luis Borges, que se reunia na revista Sur , e escreveu um breve ensaio sobre La invención de Morel de Adolfo Bioy Casares, que foi publicado na revista Teseo. Em razão deste ensaio foi incentivado por seu antigo professor - e agora amigo - Pedro Henríquez Ureña a dedicar-se mais às letras.

A vida de Ernesto Sábato conjugando ciência e literatura não durou muito. Razões políticas e uma "crise de consciência", como ele mesmo diz, fizeram com que viajasse com sua família, em 1943, a Carlos Paz, província de Córdoba. Foi nesta cidade, praticamente isolado de tudo e de todos, que escreveu seu primeiro livro: Uno y el universo , trabalho que obteve o prêmio de prosa da Municipalidade de Buenos Aires, em 1945.

Em Uno y el universo , Sábato expõe sua decepção com a ciência, que ele está abandonando. Enfatiza que todo conhecimento realmente importante deve considerar o ser humano, e que toda sua indagação deve ser em favor deste. Sábato critica a ciência afirmando que esta é "alheia a tudo o que é mais valioso ao homem: suas emoções, seus sentimentos de arte ou de justiça, sua angústia diante da morte" (1973:31). Acredita que a literatura autêntica (que não é puramente engenhosa) tem a função de resgatar a civilização, condenada pela conduta amoral e arrogante de seus cientistas.

A decisão de abandonar a ciência foi definitiva, mas o processo se desenvolveu paulatinamente, pois os professores da Universidade convenceram-no a terminar um trabalho sobre energética, obrigando-o a viajar semanalmente a Bosque Alegre - serra de Córdoba - para expor suas conclusões.

Em Carlos Paz , o escritor era visitado constantemente por velhos amigos que lhe falavam de sua responsabilidade perante o país, do quanto havia custado para o Estado e quanto se necessitava de seus serviços, submetendo-o a uma pressão moral. Sábato, porém, manteve-se irredutível, mesmo quando isto significou ganhar inimigos ou passar necessidades econômicas. Durante esse período muitos acreditavam que Sábato se dedicaria a atuar no campo da filosofia ou a escrever ensaios. Não imaginavam que pensava em escrever romances, que desejava narrar contos. Disse o autor que se tivessem sabido disto, o teriam apedrejado em praça pública.

Os anos seguintes à decisão de abandonar a ciência foram economicamente difíceis para os Sábato. Sua família vivia do pouco que lhe proporcionavam seus artigos, algumas conferências, correções de provas e traduções. Devido a esta situação, decidiu aceitar, em 1947, o cargo de assistente do Comitê Executivo da Unesco em Paris e Roma. Entretanto, Sábato não adaptou-se a este trabalho burocrático e decidiu voltar à Argentina. Esperando o trem que o conduziria a Milão - de onde iria embarcar - começou a escrever El túnel , cujo protagonista, não por acaso, é um ser solitário e próximo da desesperança.

Em El túnel Sábato enfatiza que o homem vive em um túnel labiríntico, escuro e frio, sem comunicação com seus semelhantes. Porém, é justamente nesse labirinto que se encontra a verdadeira essência do ser humano. A esperança reside na busca do amor e da poesia.

Ao chegar à Argentina Sábato foi recebido com grande hostilidade por parte da maioria dos integrantes da sociedade literária. A obra que acabara de escrever foi rejeitada por todas as editoras com "energia e entusiasmo". Guillermo de Torre, assessor da Editorial Losada na época, disse: "como vão me convencer de que um físico possa escrever um romance?". Sábato comentou que esse mesmo senhor ainda viveu o tempo necessário para rejeitar a publicação de Cem anos de solidão , obra com a qual Gabriel García Márquez obteve o Prêmio Nobel de Literatura.

O romance foi publicado - graças a um amigo - em 1948 com o selo da revista Sur . El túnel obteve prestígio universal e foi traduzido para vários idiomas, inclusive para o francês, por indicação do escritor Albert Camus.

Foi somente seis anos após ter surgido El túnel que Sábato publicou o ensaio Hombres y engrenajes (1952), autobiografia espiritual, diário de uma crise pessoal e universal e reflexo da decadência da civilização ocidental em um homem de seu tempo. Nestas páginas reflete, entre outros temas, acerca do surrealismo, já que esta filosofia de vida, este estado de espírito foi para ele uma violenta experiência, uma forte liberação, uma ansiosa busca de si mesmo (Sábato, 1993 a : 81). Sábato não renega o que possa ter no seu íntimo de surrealista e de marxista, e se alguma vez lançou críticas ao movimento, estas foram dirigidas aos aproveitadores que se proclamaram surrealistas sem sê-lo, como Salvador Dalí. Segundo o escritor o surrealismo foi necessário para acabar com os pequenos deuses da sociedade burguesa, com a falsa moral, seu filisteísmo, sua acomodação, para abrir as portas ao ser humano. (Sábato, 1993 a : 82).

No ano seguinte publicou Heterodoxia , livro de ensaios estruturado de forma aforística, onde define a posição absolutamente independente, que o caracteriza até hoje. Sem pretender ser historiador ou crítico literário, deixa claro neste ensaio que debruçar-se sobre os problemas do homem é a tarefa que o escritor deve exercer.

Em 1955, com a Argentina já sem o ditador Perón no poder, o escritor foi convidado a dirigir o semanário Mundo Argentino . Entusiasmado com esta atividade, tentou converter o semanário em porta voz de idéias renovadoras, porém renunciou mais tarde por perceber que a liberdade de imprensa não era respeitada. No ano seguinte publicou El caso Sábato . Torturas y libertad de prensa . Carta abierta al general Aramburu , denunciando a falta de liberdade de expressão e começando uma longa luta de denúncias de tortura aos presos políticos, tema que jamais abandonaria.

Nos anos 60 e 70, o autor continuou escrevendo romances e ensaios. Destacam-se Sobre héroes y tumbas , de 1961, romance que alcançou notável repercussão e aumentou seu prestígio como escritor, e o ensaio El escritor y sus fantasmas , de 1963.

Sobre héroes y tumbas foi escrito, segundo o próprio autor, como a continuação da exploração "do secreto labirinto da vida", começada com El túnel (Sábato, 1994:7). Além de retomar a temática anterior, neste romance Sábato reflete acerca da história e do presente de seu país, analisando também, de uma maneira profunda, o caráter do argentino, com personagens que se caracterizam por uma mistura de orgulho, ressentimento e tristeza. Destaca-se o excepcional capítulo intitulado Informe sobre ciegos .

Em 1974 publicou o romance Abaddón , el exterminador , obra que obteve o prêmio de melhor livro estrangeiro na França, e que encerra a trilogia começada com El túnel . Sábato tem afirmado que pretendeu escrever um "romance do romance", uma ficção que questiona a si mesma, investigando as possibilidades do gênero, seus limites e os segredos das suas origens nas profundidades da alma humana. Pretendeu fazer algo novo onde o autor do romance enfrentasse suas personagens, que são suas hipóstases.

Em 1984, Sábato denunciou as torturas do regime militar argentino, como presidente da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (Conadep). Em conseqüência do trabalho coletivo que ele dirigiu, três generais foram processados.

Desde cedo Ernesto Sábato percebeu encontrar-se em meio a um caos. A existência apresentou-se-lhe como um labirinto, e talvez por isso procurou no universo das matemáticas a saída de sua crise pessoal. Sem sucesso. Foi o contato com o fogo purificador do surrealismo que o levou a uma literatura de catarse.

Suas últimas publicações são Antes del fin e La Resistencia , títulos que relatam suas memórias e que são, como ele diz, seu testamento. Sábato foi várias vezes indicado para o Prêmio Nobel sendo considerado em seu país como el último de los grandes escritores . Também, carinhosamente, como o velho sábio , modelo de autoridade moral, pois foi quem sempre assinalou de maneira incessante a necessidade de recompor a sociedade, através de manifestações que procuraram a verdade, a liberdade e a valorização do ser humano.

Referências bibliográficas

Do autor

SABATO, Ernesto. El túnel . Madrid: Cátedra Letras Hispánicas, 1992.

_____. Abaddón, el exterminador . Barcelona: Seix Barral, 1985.

_____. Sobre héroes y tumbas . Buenos Aires: Espasa Calpe Argentina, 1994.

_____. El escritor y sus fantasmas . Barcelona: Seix Barral, 1979.

_____. Hombres y engranajes. Madrid: Alianza Editorial: 1993 a .

_____. Heterodoxia . Madrid: Alianza Editorial: 1993 b.

_____. Tres aproximaciones a la literatura de nuestro tiempo . Buenos Aires: Alfa Argentina:1974.

_____. El otro rostro del peronismo . Buenos Aires: 1956.

_____. Anatomía del criticismo . Cuatro ensayos. Caracas: Monte Avila, 1972.

_____. Meus fantasmas . Rio de Janeiro: Fco. Alves, 1991.

_____. Apologías y rechazos . Barcelona: Seix Barral, 1981.

_____. Uno y el universo . Buenos Aires: Sudamericana, 1973.

_____. Itinerario . Buenos Aires: Sur, 1984 a .

_____. Sábato Oral . Madrid: Cultura Hispánica, 1984 b.

_____. (coord.) Informe da comissao nacional sobre o desaparecimento de pessoas na argentina, presidida por Ernesto Sábato . Porto Alegre: L & PM, 1984 c.

_____. Itinerario . Buenos Aires: Sur, 1969.

_____. La cultura en la encrucijada Nacional . Buenos Aires: Sudamericana, 1982.

_____. Confesiones de un escritor . Cuadernos Hispanoamericanos. Madrid, n. 432, p. 93-98, 1986.

_____. Discurso en la entrega del Premio Cervantes 1984 . In: Ernesto Sábato Premio Miguel de Cervantes 1984. Barcelona: Anthropos, 1988 p. 55-61.

_____. Antes del fin . Barcelona: Seix Barral, 1999.

Da crítica

BARRERA, Trinidad L. La estructura de Abaddón, el exterminador . Sevilla: Escuela de Estudios Hispano-Americanos de Sevilla, 1982.

CASTIGLIONI, Ruben Daniel. Historia y circunstancia: Ernesto Sábato el hombre y su Literatura . Dissertação de mestrado. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1995.

CATANIA, Carlos. El universo de Abaddón, el exterminador . Cuadernos Hispanoamericanos, Madrid, nos. 391-393, p.498-516, 1983.

CIARLO, Hector. El universo de Sábato . Cuadernos Hispanoamericanos, Madrid, nos.391-393, p.70-100, 1983.

CONSTENLA, Julia. Sábato, el hombre. Una biografía . Buenos Aires: Seix Barral, Espasa Calpe/Seix Barral, 1997.

CRISTALDO, Janer. Mensageiros das Fúrias . Florianópolis: UFSC: 1983.

_____. Ernesto Sábato ainda ri dos teóricos . Zero Hora. Porto Alegre: set. 1993.

DELLEPIANE, Angela. Los ensayos de Sábato: intelecto y pasión . Cuadernos Hispanoamericanos, Madrid, nos.391-393, p.570-584, 1983.

GALVEZ, Marina. Sábato y la libertad sociológica e histórica. Cuadernos Hispanoamericanos, Madrid, nos.391-393, p.455-475, 1983.

_____. Ernesto Sábato . In: ROY, Joaquin. Madrid: Castalia, 1978. p. 198-222.

HALPERIN, Jorge. Ernesto Sábato: palabra de honor . Clarín. Buenos Aires: agosto, 1994.

WAINERMAN, Luis. Sábato y el misterio de los ciegos . Paso del Rey, Provincia de Buenos Aires: Talleres Gráficos San Francisco, 1978.