Sobre o romance argentino

Ernesto Sábato

SÁBATO, Ernesto. Heterodoxia . Tradução de Janer Cristaldo. Campinas: Papirus, 1993. p. 140-144: Sobre o romance argentino (Texto original de 1953) .

Comentário: Ruben Daniel Castiglioni (UFRGS)

Tradução do comentário: Joise Anaí Corrent

É quase um lugar comum reprovar os argentinos de ainda não terem escrito o romance representativo. Mas, se é fácil entender o que é o representativo no Equador, é infinitamente difícil defini-lo em nosso país. Torna-se uma tarefa simples escrever o romance do índio equatoriano, figura bem delineada em uma realidade de estratos seculares: enquanto que o homem argentino é de contornos indecisos, complexos, variáveis e caóticos. O mundo é hoje um caos, mas nosso país o é duplamente, pois ao caos universal se soma o que resulta de sua condição de país imigratório. Nossa tragédia consiste em boa parte em não termos acabado de fazer um país quando o mundo começou a desmoronar; isto é, somos como um acampamento em meio a um terremoto. Embora a única possibilidade de descrever esse duplo caos resida na literatura - já que a pintura e as artes em geral requerem uma ordem mais definida -, essa possibilidade certamente não há de realizar-se em um único romance, nem em uma única obra de teatro, nem em um único poema, mas ao longo de toda uma literatura. Será preciso interpretar muitos matizes, muitos personagens e aspectos de nossa realidade: a oligarquia em decadência. o gaúcho pretérito, o gringo enriquecido, o gringo que sente nostalgia de sua pátria distante, o habitante cosmopolita de Buenos Aires - indiferente e apátrida -, o filho e neto de imigrantes.

Para os leitores forâneos, sobretudo para os norte-americanos, é muito simples: temos de escrever sobre o gaúcho. Quando o homem médio dos Estados Unidos ouve falar de nosso país, com efeito, cruzam pela sua cabeça vagas imagens de gaúchos com chapéus mexicanos. Ao chegar ao Rio da Prata, decepciona-se com esta mescla monstruosa de Paris e Chicago, Nápoles e Nova Iorque, Londres e Madri que é Buenos Aires, com seus cinco milhões de agitados e convulsivos cidadãos. Depois de defraudá-lo com a realidade, vemo-nos obrigados, grosseiramente, a defraudá-lo com a literatura. Por cortesia, gostaríamos de oferecer-lhe, pelo menos, gaúchos literários. Mas isso é tão difícil como mostrar-lhe algum de carne e osso. A primeira coisa que nos ocorre é exibir-lhe Martín Fierro: logo, fatalmente, recorremos a Don Segundo Sombra, escrito por um estancieiro educado em Paris: em seguida, já não sabemos o que lhe oferecer. De repente nos sentimos envergonhados, vagamente culpados porque o norte-americano nos surpreende (sic.) em um metrô, em vez de nos encontrar ordenhando vacas. Começamos a achar que não temos direito a sofrer problemas psicológicos ou metafísicos como um: Sou um urbano e já nada sei dessas coisas, sou homem de cidade, de bairro, de rua.

Essa superposição de uma nova Argentina, imigratória e industrial, à velha Argentina semi-feudal, manifesta-se literalmente em três tipos de escritores: o aristocrático, o plebeu e a síntese de ambos. Estancieiros como Güiraldes viviam boa parte de sua vida na Europa e sua cultura era a de um acadêmico parisiense. Não deve causar espanto que Victoria Ocampo escrevesse originalmente em francês e que tenha sido preciso traduzi-la ao castelhano, já que se educou com governantas francesas, tal como ocorria na classe alta da velha Rússia.

No outro extremo, surgiram os escritores plebeus, como Roberto Arlt, influenciados pelos grandes escritores russos do século passado e pela literatura revolucionária; o que é natural, porque nossa imigração foi pobre e proveniente de países que, como Espanha e Itália, tinham uma forte tradição anarquista e socialista. Muitos filhos de operários ou artesãos da imigração se criaram nessa atmosfera e sentiram a influência da literatura é das doutrinas de Bakunin, de Marx e de Kropotkin, em vez de educar-se nas aulas de Marcel Proust ou de Henry James, como paralelamente ocorria entre os jovens de classe superior. Essa divisão se manifestou em dois grandes grupos literários até 1920: o de Boedo, rua popular por excelência, e o de Florida, rua refinada e expressão de requinte - naquele tempo - do bom gosto patrício.

Ao produzir-se a crise universal de 1930, em nosso país terminou a era do liberalismo com a queda do partido radical. Essa visão literária tornou-se então mais aguda porque muitos liberalismo com a queda do partido radical. Essa visão literária tornou-se então mais aguda porque muitos escritores da nova geração se formaram espiritualmente nessa época de derrocada de instituições e idéias. E assim, enquanto em Borges e outros representantes da literatura "pura" se acentuava o confinamento na torre de marfim, em outros se precipitava sua inclinação ao revolucionário e social. Cometeram-se e cometem-se ainda, em conseqüência, erros opostos, mas igualmente nefastos para a obtenção de uma boa literatura.

Frente a essa mútua incompreensão dos partidários do "puro" e do "social", um grupo de novos escritores iniciou uma síntese. São escritores que, sem desdenhar os ensinamentos da classe literariamente melhor educada, tiveram a sorte ou a desgraça de passar por duras experiências sociais e políticas. Em tais condições, sua literatura adquiriu um acento metafísico que se opunha ao afã geralmente esteticista da geração borgiana. A repugnância radical pelos problemas meramente literários levou-os a uma forma mais desnuda e severa, contra a velha pompa estilística da estirpe espanhola sem desdenhar a beleza pura. Esses novos escritores colocam-se ao lado de homens como Malraux, Sartre, Kafka, Grahain, Greene, Bernanos e Camus.