Apesar de dependente, universal

Silviano Santiago
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Comentário: Maria Consuelo Cunha Campos (UERJ)

O COMPARATISTA E O ARÚSPICE

O pensamento crítico do ensaísta brasileiro Silviano Santiago vem pondo em relevo questões, como a do caráter dependente - universal da literatura brasileira, numa perspectiva comparatista, de tal maneira que, como os antigos auspícios a vaticinarem o futuro, seus textos, publicados décadas atrás, projetam lineamentos extremamente lúcidos e pertinentes para a leitura da contemporânea cena, literária e cultural finissecular.

Focalizando a relação entre intelectuais e poder, desconstruindo o imaginário sócio-cultural latino-americano, desde os anos 80 o autor veio se afirmando como um dos mais importantes e auspiciosos intelectuais brasileiros, no duplo sentido, da promessa qualitativa que efetivamente se cumpre e da visão de futuro, quanto aos temas que aborda. Além disso, suplementa seu trabalho ensaístico com um sofisticado projeto de criação literária, de tal forma que sua escrita se faz e refaz em diálogo entre produção crítica e criação literária, numa unidade complexa e compósita bastante singular na América Latina.

Além de poeta (Crescendo durante a guerra numa província ultramarina, Cheiro forte),é também ficcionista, autor de títulos como Em liberdade, Stella Manhattan - já traduzido ao inglês e ao francês- Viagem ao México, Uma história de família e Keith Jarrett no Blue Note , tendo sido ainda professor universitário, pesquisador, dos mais fecundos, e atuado, amplamente, nas áreas institucionais do fomento à pesquisa e em associações científicas.

Sua obra ensaística, tanto em livro (Uma literatura nos trópicos, Vale quanto pesa , Nas malhas da letra ), quanto nos textos publicados no caderno Idéias do Jornal do Brasil, vota-se também à questão da alteridade. Comparatista não etnocêntrico, o autor de "Eça, autor de Madame Bovary", de Uma literatura nos trópicos, revela-se, igualmente, imune a concepções evolucionistas.

Como poucos, o autor focaliza a questão contemporânea do produtor cultural latino-americano e sua relação com os centros hegemônicos de produção. Sua abordagem das literaturas chamadas reflexas ou periféricas dá-se, portanto, num trânsito de mão dupla de idéias, para além da mera inversão de seu direcionamento: remonta à formação das práticas discursivas na América Latina, palco colonial para o qual são deslocados, séculos atrás, os impasses europeus das guerras religiosas entre protestantes e católicos.

Escrito em 1980 e publicado em livro em 1982- durante o processo histórico de abertura política brasileira, seu texto "Apesar de dependente, universal" é seminal para a Literatura Comparada a partir de uma perspectiva latino-americana.

A assunção - no duplo sentido, do ato de ascender, de elevar-se, e do de assumir - de um conceito chave, o de dependência, por parte do ensaísta, funda, teoricamente, sua abordagem: não obstante, sim, a dependência histórica do texto latino-americano das culturas européias hegemônicas, malgrado isto, ele não está condenado às categorias periféricas, como exótico, por exemplo, ou emergente, a que tentam estas mesmas culturas hegemônicas etnocentricamente confiná-lo.

A ereção da diferença latino-americana em valor, revertendo, assim, a perspectiva hegemônica eurocêntrica que sobre ela fundou, ao contrário, a desvalorização da alteridade, é a estratégia do texto de Silviano.

Lido no contexto dito globalizado deste fim de século e milênio que se seguiu à chamada "década perdida" ( do ponto de vista econômico ) pela América Latina, "Apesar de dependente, universal" revela-se, luminosamente, não só tão atual como o foi ao tempo de sua escrita e publicação, mas, também, ainda mais pertinente, uma vez que o modelo neoliberal que vem plasmando o rosto contemporâneo capitalista vem também aprofundando, em proporção geométrica, o fosso das desigualdades, econômicas, políticas, culturais, e, em certos sentidos, mesmo ecológicas entre o Norte e o Sul.

 Assim, o assumir da inelidível dependência cultural, correlata ao próprio processo histórico de sua ocidentalização é, não menos, condição de vôo, para o intelectual latino-americano, segundo Silviano Santiago . Para que possam alçar-se para além da condição periférica face aos centros , à qual a tradicional abordagem comparatista das fontes e influências as confinou, para que possam, em suma, ascender à cena do theatrum mundi deixando as remotas coxias em que estavam, as literaturas latino-americanas, tais intelectuais devem assumir, positivamente, sua alteridade, a diferença, precisamente, negada pelo colonialismo e pelo neocolonialismo.

"Apesar de dependente, universal "retoma, assim, as perquirições de "O entre-lugar do discurso latino-americano". Publicado em livro que apresenta o ultra pertinente subtítulo de "ensaios sobre dependência cultural", como é Uma literatura nos trópicos ,dele emerge o delineamento de um neocolonialismo, chamado nova máscara aterrorizadora dos países periféricos do século XX, como estabelecimento paulatino, nestes países, de valores e de mercadorias já obsoletos nos centros hegemônicos.

Resistindo, a América Latina estaria produzindo, segundo Silviano, através da destruição dos conceitos de unidade e de pureza, sua maior contribuição à cultura ocidental.

Questionando o eurocentrismo de categorias comparatistas tradicionais como as de fonte e de influência, o autor desconstrói as matrizes de economias de débito impagável, das quais resulta (sejam elas literárias ou não) deficit implacável : relidos ao fim de uma década , como a de 90, de profundo redesenho, na América Latina, dos estados nacionais, a fim de responder, através de reformas , a demandas de um gigantesco endividamento, externo e interno, os textos de Santiago são de um comparatista híbrido de arúspice.