Intertextualidade

Donaldo Schüler

Schüler, Donaldo. Teoria do Romance . São Paulo: Ática, 1989. p.20-25: Intertextua-lidade.

Hipertextos: Cícero Galeno Lopes ( LA SALLE )

Intertextualidade

TEXTOS DIALOGAM

Um texto literário remete a outros textos, chama-se isso de intertextualidade . Esse fenômeno, mal compreendido pela "crítica das fontes", está sendo amplamente reexaminado. Para avaliar corretamente a intertextualidade, cumpre notar, além das semelhanças entre o texto de base e o texto evocado, também as diferenças resultantes da reelaboração. Vejamos como se comporta a intertextualidade em Macunaíma ao dialogar com Iracema.

Macunaíma começa assim:

"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma."

Não errou quem percebeu ressonância alencarina na abertura de Macunaíma . Não se omitam, entretanto, as diferenças. A pele do índio é de "preto retinto", é filho do "medo da noite" e feio é seu aspecto. Os sinais negativos se acumulam. Embora se tenha visto uma tribo indígena de pele escura na confluência dos rios Tapajós e Arinos, não é dela que se há de derivar o "preto retinto" de Macunaíma. O "preto retinto" veio da África, trazido nos porões infectos dos navios pelos mercadores de escravos. Os negros, submetidos a trabalhos forçados nas plantações litorâneas, buscaram, em repetidas revoltas, abrigo na floresta contra o açoite dos feitores. Protegidos pela fortaleza natural da selva, negros e índios, a espaços, se encontraram, se acoplaram e marginalizados se reproduziram. Que outra origem poderia ter o "preto retinto"? Conhecida é a mãe de Macunaíma. E quem é o pai? Diz-se do herói que é "filho do medo da noite" e só. O medo nos leva a supor incursões de negros anônimos, vítimas de violência e violentadores, propagando no interior a sucessão da violência. Macunaíma é um desprezível filho da mãe como milhares de outros disseminados a esmo pelos conquistadores. Não podendo orgulhar-se da mãe, Macunaíma a agride sempre. Ainda pequenino, urina sobre ela, misto de agressão, desprezo e posse erótica. Sendo filho da mãe, comporta-se como tal. A agressão se estende a todas as mulheres que se aproximam dele sem lhe importar o parentesco. Vê em todas elas a imagem da mãe ultrajada. Contaminado da sede de ouro, herdada dos agressores, no desejo de se identificar com eles, corre atrás das moedas, que os caracterizam. Não admira que o narrador o qualifique de feio, adjetivo que acolhe conotações físicas e morais na linguagem popular. Macunaíma não lembra em nada a paradisíaca aparição de Iracema. Resta-nos a deplorável imagem do eldorado profanado pela conquista. Devemos associar o grande silêncio do Uraricoera à calma que precede a ação épica ou será antecipação do silêncio final, posterior à extinção completa da tribo, em que Macunaíma , co-responsável da desgraça, se arrasta abandonado, defunto sem choro? A segunda hipótese conta com forte apoio textual. Se o silêncio inicial for, não obstante, tomado como antecipador da vida, será sempre, desde o princípio, vida contaminada pela morte.

TEXTO SEQÜESTRADO

Carlos Fuentes pensa que a América Latina é um continente de textos sagrados exige uma profanação que dê voz a quatro séculos de linguagem seqüestrada , marginal e desconhecida. A relação entre textos, como se vê, pode também ser violenta.

Com a falta de uma linguagem livre e reveladora se debate Mário de Andrade. Em Macunaíma , o herói que sai da floresta para atacar no litoral civilizado o gigante, dono da muiraquitã, o amuleto de Macunaíma, acaba seqüestrado pela cultura, pela língua civilizadas - o texto seqüestrador. Entre as muitas derrotas do herói sobressai esta em que sucumbe ao fascínio da civilização. Nenhuma descaracterização foi mais completa. A assimilação ao mundo civilizado leva-o a abrandar até a ferocidade do antagonista. Afirma na Carta pras icamiabas que as suas relações com Pietro Pietra (o adversário) são as "melhores possíveis". Adquire apressuradamente a linguagem dos civilizados sem a assimilar de todo e sem exercer sobre ela nenhuma ação crítica. Olha para a civilização com o mesmo encanto que anuviou os olhos dos descobridores. E os papéis se invertem. Já não é o civilizado que relata o que viu em regiões periféricas, é o homem rústico que informa sobre os civilizados. Se, na época dos descobrimentos, os súditos transmitiam notícias ao soberano, vemos, na inversão, o imperador (descobridor) dar notícia às súditas.

O imperador seqüestrado seqüestra a língua indígena. Roga às súditas não estranharem o apelativo "amazonas" em vez do autóctone "icamiabas". Considera "amazonas", por ser termo de origem clássica, mais heróico, mais erudito, mais respeitável, mais puro. Incrusta no texto citações latinas, sintaxe camoniana, torneios da prosa quinhentista. Na escrita, Macunaíma emudece o autóctone.

Seqüestrada mostra-se também a linguagem falada . Macunaíma a declara bárbara e desprezível, indigna de quem escreve. Compromete-se com a linguagem clássica, próxima de Camões e de Virgílio. Entende que o vernáculo faz surgir o Homem Latino. Procura com a adoção da linguagem castiça operar a transformação do bárbaro em civilizado. Como civilizado, produto da linguagem, sufoca o bárbaro.

O texto seqüestrador seqüestra também a realidade . São Paulo aparece a Macunaíma como "a mais bela cidade terráquea", edificada como a sagrada Roma sobre sete colinas, o palácio do governo todo de ouro, as águas sujas do Tietê fluindo como inquieta linfa, a atmosfera poluída purificada em ares amenos, a ociosidade e os vícios mascarados de róseas e modelares visões.

A civilização idealizada, proposta como modelo, seqüestra o que resta da cultura autóctone. Macunaíma apresenta-se às súditas como reformador, esclarecido no tirocínio do mundo da máquina.

Mário de Andrade caricaturiza na Carta pras icamiabas o texto seqüestrador. Acentua-lhe os defeitos. Denuncia, nas incorreções abundantes, a ignorância de quem o usa. Confrontando-o com o referente, aponta-lhe a incapacidade de revelá-lo.

A linguagem dos descobridores mantém sobre o Brasil um domínio mais permanente do que político. Mário de Andrade empenha-se na libertação do mundo seqüestrado. O texto que aprisiona deve ser desarticulado para que o outro se possa manifestar. Enfatizou-se a síntese dos falares brasileiros operada por Mário de Andrade. Igualmente importante é a destruição do texto que obsta o desenvolvimento das vozes subjugadas. Mário de Andrade não foi o primeiro a empreender a desarticulação do texto seqüestrador. Já descobrimos corajosos demolidores no período colonial. Desgraçadamente o tecido inerte se refaz. A luta contra a inércia paradisíaca e letal requer-se permanente.

Falta a Mário de Andrade uma linguagem, falta que sentem quantos escrevem. Escrever responsavelmente é um ato de libertação. Essa observação, de validez universal, impõe-se com ênfase maior na América, aprisionada em douradas cadeias verbais.

O seqüestro não se realiza apenas de fora para dentro. Há também um processo interno de seqüestro da linguagem de que é vítima notória Fabiano de Vidas Secas . O chefe da família de retirantes situa-se num estágio anterior ao discurso lógico. Por não ter chegado à fala articulada, o que diz se resume a ordens breves, impropérios e exclamações. Supre a carência com o gesto. Comunica-se mais com o corpo do que com a palavra: ameaça o filho com a bainha, indica a direção com o queixo, anda encurvado.

Sem o domínio satisfatório da linguagem, Fabiano situa-se numa posição intermediária entre o homem e o animal. Tem respeito sagrado pelos que falam, embora lhe falte certeza da utilidade do falar na luta contra a natureza inclemente. Atribui a preservação da vida à sua resistência animalesca. Percebe-se próximo das plantas e dos animais, proximidade que, por vezes, o assusta. Sem o domínio da palavra, Fabiano sobrevive, mas sobrevive como dominado pelas forças cósmicas, pela ordem social, pelo mistério, pelo narrador. O narrador invade-o, procura adivinhar-lhe os sentimentos, raciocina em lugar dele, verbaliza o que ainda não está verbalizado, faz aparecer na linguagem o que ainda não é linguagem. Percebe-se outro texto anterior ao texto oferecido na leitura. Fabiano é o homem que não sabe falar, e essa carência decreta a sua marginalidade. Foi desalojado. Quem o desalojou roubou-lhe também a linguagem. Nenhum seqüestro supera esse, porque esse o priva da condição humana . O narrador seqüestra porque esse é o único meio para não perder a riqueza daquilo que Fabiano não sabe exprimir. A intervenção do narrador procura libertar a personagem de outro seqüestro. Empresta a linguagem que a personagem perdeu. O romance situa-se entre o silêncio e discurso. Não está aí uma característica muito nossa? Buscamos exprimir-nos e só o conseguimos através de uma linguagem que não é nossa. O que sentimos vem entretecido com o que recebemos de outrem. O conflito se trava entre o próprio e o alheio. Narramos o narrado numa linguagem que não lhe é própria.

TEXTO LIBERTO

O discurso de Riobaldo em Grande sertão: veredas está orientado em duas direções: o receptor e o referente. Em ambas, o narrador luta pela autonomia. Quem vem de Vidas Secas vê os papéis trocados. A oposição civilização-rusticidade, que nos acompanha desde o arcadismo, persiste. A voz, entretanto, está agora com o homem rústico, e o silêncio, com o civilizado. O arcadismo permitia que o homem rústico falasse com disfarce clássico e com linguagem culta. Via-o através de uma máscara civilizada, isto é, trazia-o agrilhoado. O indianismo - ressalvadas as pinceladas de cor local - impunha ao silvícola virtudes, pensamentos e língua civilizados. Apareceu a literatura regional com documentação rústica maciça, mas não foi admitida na grande literatura , mesmo que tivesse o porte dos contos de Simões Lopes Neto.

O sertanejo Riobaldo fala, enfim, demoradamente de suas próprias coisas com a sua própria linguagem e não permite que seu discurso seja interrompido por voz civilizada. O texto seqüestrado, depois de uma luta de séculos, estende-se amplo e livre. Riobaldo liberta uma das linguagens proibidas. Não o intimidam sanções da gramática ou do dicionário. O respeito que declara ao receptor não vai ao ponto de submeter-se aos códigos dele. Riobaldo troca a passividade ante a cultura estranha por investidas agressivas. Interroga o interlocutor, adivinha-lhe as dúvidas e as contesta. O rústico já não se retrai ao mutismo humilhado e constrangido. Fala soberanamente. Através do ouvinte culto, estabelece diálogo com a cultura ocidental. Coloca-se no nível dos mais altos problemas que preocupam o ocidente sem abandonar o que é seu.

Riobaldo fala de suas coisas e de seu mundo, mas não como seqüestrado. Seqüestrado curva-se Fabiano, sujeito a poderes mágicos, cósmicos e sociais. Riobaldo, ao contrário, afasta-se criticamente do referente. Confrontado com o mito , conserva distância suficiente para in terrogá-lo. Fala do seu mundo como liberto dele ou em vias de libertação.

O diálogo mantido por Riobaldo é adultamente inaugurado pela ficção machadiana, ainda exemplar. As personagens de Machado dialogam abundantemente com textos do presente e do passado. O diálogo encenado por Machado busca situação responsável, recusadas a altivez xenófoba e a emulação subserviente. O seqüestro estará extirpado quando soubermos ouvir sem temer influências nocivas e conseguirmos dizer sem receio de que o dito não atinja a elevação do ouvido. A intertextualidade promove o diálogo universal de textos.