O sonho de Georges Sylvain

Normil Sylvain
- Comentários -

Exatamente no mesmo ano - 1927 - em que Normil Sylvain concebia sua Revue Indigène , no Brasil, Oswald de Andrade articulava o Manifesto Antropófago. As convergências entre ambas as publicações são muitas e nosso objetivo será o de tentar apontar algumas delas.

A Revue Indigène surge como tentativa de tornar conscientes os haitianos em relação à sua própria Pátria, procurando, através desta publicação, buscar a "coesão" que faltava aos haitianos, voltados que estavam naquela altura para a supervalorização da cultura francesa, negligenciando, por consequência, o patrimônio cultural autóctone.

Por que a revista de chamou "indigenista" se os indígenas que habitavam o país antes da chegada de Cristóvão Colombo foram dizimados antes mesmo da chegada dos africanos como escravos? Justamente para chamar a atenção para o que havia de mais recuado, ou seja, de mais propriamente americano, antes da chegada dos conquistadores e das consequências devastadores da conquista para a cultura autóctone. A intenção de Oswald no manifesto Antropófago não foi outra, conclamando à volta ao matriarcado de Pindorama, fasendo o elogio da Antropofagia ritual dos tupinambás.

Normil Sylvain fala de cultura nacional e da necessidade urgente de "reatar com a tradição interrompida". Outras não são as preocupações de Oswald de Andrade tanto no manifesto Antropófago quanto no manifesto da Poesia Pau-Brasil: fazer de nossa poesia um produto de exportaçào como o foi em 1500 o pau brasil.

O que querem os poetas reunidos em torno da Revue Indigène ? Dar o testemunho de sua época, de sua geraçào: "os reflexos de nossa sensibilidade em contato com as coisas". Querem, portanto, fazer uma literatura a partir de um lugar cultural preciso que é o Haiti, para o qual pretendem lançar um olhar endógeno, a partir de uma realidade que lhes é própria. Esta é também a lição de Raul Bopp, um precursor da Antropofagia cultural. Em Cobra Norato , o personagem-narrador enfia-se na pele de seda elástica da Cobra para sair a correr mundo, numa proposta clara de que os mitos amazônicos têm que ser compreendidos a partir de seu interior.

Embora o tom da revista seja utópico, ufanista e até mesmo ingênuo porque calcado em um idealismo moralizante que os Antropófagos não tinham, é válido traçar paralelos entre a Revista indigenista e os manifestos do Movimento Modernista.