O sonho de Georges Sylvain

Normil Sylvain

Tradução:

Vera Lúcia Reis

SYLVAIN, Normil. Programme de la Revue Indigène. La Revue Indigène . Port-au-Prince, n.1, julho, 1927.

O SONHO DE GEORGES SYLVAIN

Por ocasião de uma série de conferências realizadas há algum tempo no sul da Ilha, Georges Sylvain relatou aos colaboradores de La Ronde suas impressões a respeito das cidades por onde passara, concluindo com a apresentação do que considerava ser o ideal de revista haitiana: traço de união e lugar de encontro de todas as almas fraternas habitadas por um único sonho de arte e beleza. [Diz ele:]

"Descobrir para além da Política, um espaço de entendimento e união para os haitianos de boa vontade; fazer convergir todas as forças intelectuais da Nação para a civilização da Pátria comum, torná-las conscientes de si, ensinando-lhes a se conhecerem melhor; indicar às novas gerações, nascidas numa época de transição, sua missão especial, que é a de preparar o futuro , moralizar o povo através da revelação do ideal artístico de instruir por meio da iniciação gradual ao conhecimento da língua e da civilização francesas, obtida com o auxílio de nosso dialeto crioulo , enfim, salvar-nos de nós mesmos, fazendo tender para o Bem todas essas energias latentes que se estiolam e se rebaixam na ociosidade.

Surpreende-nos a falta de coesão de nossa sociedade. Falta-nos a noção de conjunto por não nos conhecermos uns aos outros, tanto quanto nos falta persistência. O presente desconhece o que foi o passado, e, o que é mais curioso, desconhecemo-nos de uma cidade para outra. Daí a necessidade de se difundir no país o gosto por uma cultura nacional , reatar a tradição interrompida, unir o passado ao presente e preparar o futuro.

O amor pelas letras funcionará, então, como um laço que unirá os corações, como forma de religião que apressará o surgimento dessa Fraternidade que até este momento só se encontra nos atos oficiais e nas colunas de jornais. Devemos divulgar a obra de nossos bons escritores, ajudar os jovens que merecem atenção a se fazerem conhecidos do público. Quem não vê as esperanças que tal empreen- dimento pode suscitar! ...

Só isto bastaria como programa e me pouparia o trabalho de continuar esta conversa, mas é necessário detalhar nossas tendências e acrescentar ao antigo ideal novas idéias.

Por que privilegiamos a poesia

Disseram-me: "Imagina! É possível se pensar numa revista de arte e de literatura neste momento?

São jogos e divertimentos adequados aos tempos felizes, práticas de épocas afortunadas. Não estamos predispos- tos à alegria. Você não despertará nenhum interesse. Quem lê versos em nossa época apressada? Jovens mulheres românticas e adolescentes apaixonados. Você não fala a sério. Não o aconselho a embarcar nessa aventura".

É verdade que o momento não é para risos. Mas, no turbilhão de nossas vidas, não acham que seria agradável permitirmo-nos uma pausa, uma recreação à sombra, para ouvirmos os poetas antes de retomarmos a canga das dificuldades cotidianas? Não acham que assim o fardo se tornaria mais leve, a estrada menos longa, e o sol menos ardente? A canção não é apenas uma bela área que fala das alegrias e orquestra o sofrimento. Ela nos ajuda a descobrir a paisagem contemplada distraídamente com o olhar que desliza por sobre a superfície das coisas, sem tentar possuí-las. Ela nos permite ver melhor dentro de nós, gozar a paisagem interior, penetrar no domínio misterioso das almas... Mas o problema não se resume nisso. A poesia é meio de conhecimento.

Não é apenas de pão, a nossa fome! O círculo se alarga quando nos tornamos mais humanos, mais fraternos.

Nossos corações partiram

como apóstolos

Ao encontro de outros

Tímidos e trêmulos corações

De mãos dadas para a ciranda, a ciranda em volta do mundo!...

Queremos que outras vozes, vindas de todas as partes do país, respondam. Os cantores do Norte ou do Sul cantam o país haitiano. Ajudam a conhecer, a amar conhecendo.

Revelam-nos a nós mesmos, dão-nos motivos de orgulho nacional.

As idéias, verdadeiras ou falsas que temos de um país, são aquelas que os poetas, romancistas, pintores, escultores nos oferecem: imagem fiel ou quadro enganoso. As invenções japonesas de Loti, as miniaturas de Hokusaï revelaram um Japão heróico e galante... Kikou Yamalo, enquanto mulher e poeta sensível, nos faz penetrar na alma japonesa fazendo com que o país das cerejeiras e macieiras em flor viva na imaginação de milhares de leitores. Os povos precisam de propaganda. "Bom renome vale mais que boa roupa", diz o velho ditado.

Durante a guerra, o serviço de propaganda era dirigido por escritores de valor e essa ofensiva moral constituída pelos comunicados era presidida pelos melhores talentos dos países beligerantes.

Creio que foi Giraudoux um dos melhores e mais flexíveis talentos dentre os escritores franceses à frente da propaganda em assuntos estrangeiros.

A literatura oferece a expressão infalível da alma de um povo.

O que desejamos.

Nossa reação, como se diz em medicina ou em química, constituem-se dos testemunhos de nossa época, de nossa geração, os reflexos de nossa sensibilidade em contato com as coisas.

Pouco importa se a mensagem que trazemos seja ouvida. Outra época virá e a recolherá, disso estamos certos. Antes de entrarmos na noite do esquecimento, queremos lançar nosso grito sincero. Numa noite de tempestades, as vagas se encapelam, o vento sopra borrascas, o barco, desmastreado, deriva; na cabina, o telegrafista lança apelos em código. Calma em meio ao tumulto e à confusão.

O capitão no posto de comando toma o diário de bordo, nele inscreve as últimas observações e lança, na direção da costa, uma garrafa ao mar...

Nas razões para crer, desejamos tentar encontrar, em conjunto, razões para amar. Desejamos congraçar, numa aceitação unânime, as almas de boa vontade que procuram o caminho e erram, vacilantes, nas trevas. Queremos reuni-las pela arte, na Beleza.

Desejamos recuperar o tempo em que os haitianos se amavam, ou quando viver era para nós uma doçura, doçura encerrada em nossas paisagens tranqüilas, entre os morros azuis e o mar canoro.

Nosso público...

O leitor que escolhemos, aquele que nos é mais caro, é o jovem de vinte anos, transportado por um nobre e generoso entusiasmo, que ainda possui uma alma heróica e louca, que tem a obsessão dos píncaros, que é torturado pelo desejo da excelência, que sonha com o absoluto... Ó belo fermento das futuras colheitas, jovem em que nossas esperanças se encerram, tende confiança em vós. E vós, mães aflitas, vós pais preocupados, emocionados com o olhar inquieto do filho cuja febre e exaltação assustam, tranqüilizai-vos: ele nasceu para realizar grandes coisas.

... Queremos que as jovens a quem os problemas de nossas existências oprimidas ainda não preocupam, as mães de amanhã que deverão modelar a argila dúctil, a massa frágil das almas das crianças por nascer nos escutem. Tentaremos reter-lhes a atenção, emocioná-las, fazê-las refletir conosco sobre os deveres coletivos.

Nossas idéias : uma doutrina.

Nosso país está doente não apenas do coração, mas também do cérebro. O problema é antes de tudo da Inteligência e, em seguida, da sensibilidade. Precisamos tentar um processo de renascimento nacional, apoiados no belo esforço desenvolvido com rara felicidade na França. No mercado circulam muitas idéias falsas.

Será preciso restabelecer a noção de ordem, de hierarquia necessária das bases, uma lógica saudável, critérios mais justos. Inicialmente, recuperar a biblioteca do homem de boa sociedade, expulsar os vendedores de pacotilha, os falsos profetas, os saltimbancos e os prestidigitadores. Será necessário reconhecer os escritores probos, os pensadores sérios que preparam uma juventude sadia e vigorosa para a França, Tomamos como exemplo a obra de um Augusto Comte, comentada por Maurras, Valois, Galéot, Daudet. A Reforma intelectual e moral de Renan, Taine, Fustel, Barrès, Le Play e tantos outros.

Tomaremos a esses pensadores métodos de reflexão e modos de ação; eles nos servirão de modelo e nos permitirão construir uma doutrina original.

A América Latina e nós.

Nessa América Espanhola e Inglesa temos o glorioso destino de conservar, com o Canadá e as Antilhas Francesas , as tradições e a Língua Francesa. É uma honra funesta e perigosa, pois nos custou um século de isolamento... A República Dominicana que partilha nosso território não participa desta falta de sorte, pois pertence a uma América Latina composta de dezoito repúblicas. Os escritores falam a um público de noventa milhões de homens. Suas alegrias e suas dores são reconhecidas.

Devemos conhecer a literatura e a alma da América Latina.

Seus povos tiveram uma vida tão difícil quanto a nossa, conheceram hesitações e vicissitudes semelhantes, tais que a era dos caudilhos e dos pronunciamientos, o período durante o qual se afrontavam as forças da anarquia e as forças da coesão e da ordem, e que constituem os tempos difíceis de formação das jovens nacionalidades.

Os historiadores das causas de seus infortúnios tentam, como nós, explicar a raça, este simples fenômeno de física social, este jogo de forças antagônicas que se chocam antes de se equilibrarem numa perfeita estática. Costumam dizer: "Agimos assim porque somos índios ."

Nós dizemos facilmente: "Porque somos negros ."

Nada disso. Se sofremos, se conhecemos as mesmas angústias sob céus semelhantes, em circunstâncias quase que idênticas, não é porque somos índios, ou porque somos negros, mas porque somos homens.

Todos os homens, quaisquer que sejam, postos sob o mesmo clima, às voltas com as mesmas dificuldades, teriam, sem dúvida, agido ou reagido da mesma forma... como homens. Paul Morand, ao retornar de longa viagem, exclamava: "Nada além da terra." E outro viajante, a quem perguntaram sobre o que havia visto, respondeu: "Encontrei homens e mulheres."

Somos culpados de ignorar a América Latina porque nossas origens são semelhantes e porque um grande perigo nos ameaça.

A luta entre os crioulos espanhóis dos antigos vice-reinos e províncias da América do Sul, desejosos de uma vida civil menos sufocante, contra uma metrópole cujos métodos de governo eram excessivamente reacionários, somada à presença de uma juventude inflamada pelas declarações apaixonadas dos pensadores franceses humanitários do século XVIII, servidos por massas indígenas naturalmente belicosas, constitui, em resumo, a história que se repetiu por toda a América. No início, simples revolta, depois, guerra de emancipação. O gesto haitiano certamente serviu de lição e seu sentido é mais abrangente, pois não foi apenas o de uma classe que reclamava sua parte nos lucros, mas a força irresistível de uma raça oprimida, reclamando e obtendo seu direito à vida livre. Como um fluxo rompendo os diques. Um episódio no combate que a Humanidade enfrenta por mais Justiça... O significado desse gesto foi, para a América Latina, o de uma verdadeira lição, uma forma de transformar em ação os devaneios dos filósofos... Os relatórios de Miranda e Pétion, assim como os do grande Bolívar, atestam com detalhes o que afirmo.

"Os irmãos da outra raça", dizem, às vezes, ao falar de nós, os escritores latinos da América. E os preconceitos hereditários erguem suas barreiras.

A diferença de língua nos isola mais que um Oceano. Vejamos, a obra patética e emocionante, mística e amorosa de Santa Joana Inês da Cruz, religiosa mexicana, cujas estrofes a aproximam de Santa Teresa.

Sarmiento, o grande argentino poeta, polemista, homem de ação que viveu algumas de suas obras, dentre as quais Facundo o Civilización y barbarie , explica as origens da Grande República do Prata.

Lugones. Enrique Larreta nos apresenta aspectos diversos da alma de múltiplos rostos da argentina.

O equatoriano Montalvo, adversário de García Moreno, mestre na prosa castelhana, polemista vigoroso.

Amado Nervo e Alfonso Reyes dão ao México testemunhos inesquecíveis.

José Asunción Silva, Santos Chocano, nomes evocadores de lirismo apaixonado e de cadências harmoniosas.

Pessoalmente, conheço-os muito pouco. Penitencio-me. Os encontros foram breves, ao acaso de leituras, graças a esta cativante Revista da América Latina que todos os intelectuais haitianos deveriam ler, graças também à Revista de Genebra e a algumas revistas de lá, como El Hogar, Cara y Caretas, Nosotros , que amigos benevolentes me enviam. Assim é que pude apreciar a maravilhosa fecundidade de uma obra e de uma vida espiritual que desconhecemos.

Restam-me três nomes da história literária do Brasil . Gonçalves Dias , cujo refinado sentido da natureza e certo panteísmo tropical fizeram com que o comparassem a "uma dessas árvores da floresta tropical cuja beleza das flores se mistura ao perfume dos frutos, ao colorido das folhas, ao canto dos pássaros e à surdina musical dos ventos no equilíbrio concentrado de correspondências imprevistas". Castro Alves , gênio precoce ceifado no esplendor da juventude, defensor ardente da libertação dos escravos negros. Magalhães, poeta religioso. Machado de Assis , Nabuco, Ruy Barbosa, atuantes em várias atividades, filósofos e estadistas, tornaram-se conhecidos por suas numerosas atividades.

As Prosas profanas de Rubén Dario, o nicaragüense genial, não obtiveram repercussão entre nós.

Lembramos a revelação que José Enrique Rodo, o cantor de "Ariel", foi para o mundo latino. Semelhante a um ideal realizado, "a mais nobre consciência do continente", como o saudava recentemente Francis de Miomondre, foi o primeiro representante desse espírito continental que, ultrapassando os limites das pequenas pátrias, criou e desejou a pátria latina. Ao utilitarismo anglo-saxão opôs o culto da compreensão do belo para melhor permitir a prática do bem, segundo uma ética e uma estética herdadas da Grécia antiga, regeneradas pela virtude cristã. Suas obras "Motivos de Proteu" e "El Mirador de Prospero" constituem desenvolvimentos sucessivos de uma mesma doutrina literária e social que exalta as qualidades da raça e sublinha a importância de uma literatura autóctone. Personalidade de considerável brilho, saudado como um "mestre" por toda a América Latina, é um "continental" sonhando com um "espírito" e uma literatura acessível a toda a América Latina e, no domínio político, com fraternidades reencontradas, aquela que sonhou o "tempestuoso heroísmo "de Bolívar.

Ventura Garcia Calderon, que por vezes o combate, representa outro aspecto deste espírito. O modo como estabelece as divisões das "Democracias da América Latina" demonstra suficientemente como compreende o problema: Grande Colômbia (Colôm- bia, Equador, Venezuela), Confedera- ção Peruana (Peru, Bolívia), Confede- ração do Prata (Argentina Uruguai, Paraguai, Chile, Brasil), América Central, México, Antilhas . Agrupamen- tos internacionais com interesses comuns, comunidades vastas como quer nossa época que tende às sínteses, às confederações de pequenas nações que possam resistir aos apetites das potências de rapina.

Sonhos de historiador e pensador, realidade de amanhã!

Todos os haitianos deveriam conhecer e meditar sobre o belo e terrível livro de Manuel Ugarte, O destino do continente .

A série de estudos de José Vasconcellos, nos qual se denunciam o tartufismo yankee e seu imperialismo crescente.

Gabriela Mistral, a chilena magnânima cujo "Grito" da raça latina, justamente apavorada com a invasão anglo - saxônica, ecoa por toda a imprensa da América do Sul.

Juana Barburon, sensível e trêmula, "que escreve sobre as flores com a tinta do orvalho".

Mais próximos de nós, Amerigo Lugo, Fabio Fiallo, Les Henriquez, e tantos outros que ignoro, cujas mensagens fraternas ainda desconhecemos.

Temos de lhes apresentar nossa contribuição, ainda que bem pequena, sem dúvida, para a obra da civilização latina, mas que não devemos nem minimizar, nem ignorar. Cabe-nos produzir nossos títulos e submetê-los à prova.

Mais humano - Enfim, devemos trabalhar para criar um homem por vir, o cidadão do futuro, o cidadão da humanidade, de uma humanidade renovada. Ouço os gritos e o tumulto dos fariseus, para quem as fronteiras, as diferenças de raças, as posições geográficas não são mais que acidentes necessários, limitando o campo que cultivamos, mas não afetando em nada a identidade dolorosa das consciências. Eis o que procuramos: o homem por vir, aquele por quem Massillon Coicou chamava e esperava, o amigo, o irmão por quem nossa ternura espera. Tentaremos criá-lo em nós, ao nosso redor. No entanto, não se enganem com nossas intenções e pensamentos, e não nos traiam ao nos interpretar. A diversidade das pátrias é necessária. "Felizes aqueles que morreram pelas cidades carnais, pois elas são o corpo da Cidade de Deus", dizia Péguy. São torrões de eleição, ordens predestinadas à eclosão maravilhosa de plantas dessemelhantes e, no entanto, parentes próximos.

O que tentaremos realizar com nossa revista.

Um quadro fiel e vivo das diferentes manifestações da vida e do pensamento haitiano contemporâneo.

Vida intelectual e artística, vida econômica e comercial. A perspectiva haitiana dos problemas, o modo como encaramos as coisas. E como a palavra indígena é usada como um insulto, nós a reivindicamos como um título. O ponto de vista do indígena. Um retorno à sinceridade e ao natural, ao modelo vivo, à descrição direta, um perfume mais acentuado de haitianidade, o que parece caracterizar nossa jovem poesia. Os senhores Thoby-Marcelin e Roumer cuja obra nos parece significativa, segundo meios diferentes e temperamentos.