Um modelo hermenêutico para uma história literária comparativa

Mário J. Valdes

 Tradução:

Laura Bocco (UFRGS)

VALDES, Mario J. A hermeneutic model for comparative literary history. Poligrafias : Revista de literatura comparada. México, n.1 p.9-21, 1996.

Comentário: Luís Roberto Cairo (UNESP-CNPQ)

UM MODELO HERMENÊUTICO PARA UMA HISTÓRIA LITERÁRIA COMPARATIVA

Em 1958, Fernand Braudel escreveu que as ciências humanas estavam em estado de crise; que a história e a geografía tinham chegado a tal impasse que um divórcio era iminente (1). Nesse meio tempo, a historiografia francesa havia mostrado o caminho a ser seguido ao inserir as ciências sociais na história social. Esse enriquecimento na investigação fica evidente em realizações tais como o próprio Mediterranean in the Age of Philip II , de Braudel, e, mais recentemente, no trabalho de Claude Bataillon e seus colaboradores na geografia da América Latina (2).

Lamentavelmente, com algumas poucas exceções dignas de nota, o domínio da história literária e da história da arte tem ficado à margem desta expansão interdisciplinária da história social. Os motivos deste isolamento têm sido inúmeros, dentre os quais não fica excluído o desinteresse da parte dos historiadores literários pela contextua- lização social da literatura (3).

Contudo, a cortesia tem sido retribuída pelo historiador social, que raramente considerou o papel da literatura na construção da identidade cultural. Braudel, como de costume, encontra-se acima de tais limitações. Na sua descrição da batalha de Lepanto, em Mediterranean (1972,1126) ele cita Don Quijote , para introduzir a sensação do caos da batalha e, em relação à auto-imagem de Portugal, ele ressalta o significado das cartas: "em Lisboa ' em casa de Antônio Goça Luez ', um escritor desconhecido, chamado Camões, produzia Os Lusíadas , um livro de aventuras marítimas que abraçou o grande e longínquo Mediterrâneo, o Oceano Índico da empresa portuguesa" (1124).

Este ensaio pretende tratar das questões e problemas que correspondem à reescrita da história literária de forma comparativa, como realidade social. A tese que estou propondo será apresentada em cinco partes: 1) uma investigação do conceito de contexto histórico, 2) definição de termos para uma história literária comparativa, 3) estrutura metodológica para uma historiografia literária comparativa, 4) colocando a teoria em prática e 5) conclusões inconclusas.

1. Uma investigação do conceito de contexto histórico

Quando lemos uma mensagem, a extensão do nosso entendimento pode ser medida pela totalidade da nossa apreciação do contexto no qual a declaração foi produzida e o acesso relativo que temos a ela. O contexto da literatura pode ser caracterizado como uma complexa dialética de sistemas expressivos. A característica fundamental desse contexto, no entanto, é que a troca é dinâmica, uma in- tersecção temporalmente marcada de sistemas referenciais e, como tal, não pode ser fixado ou reduzido a uma configuração determinada. Tanto é assim que podemos dizer que a leitura e a escrita da literatura são ações comunicativas reguladas normativamente por um tratamento argumentativo de "reivindicações de verdades" (4). É precisamente o tratamento argumentativo das revindicações de verdades que serve à comunidade no contínuo processo de identidade cultural. Essa ação comunicativa ocorre na comuni- dade e em um contexto sócio-lingüístico específico, mas está sempre trazendo para dentro daquela tantas reivindicações de verdades de outras comunidades quanto aquelas próprias que está redescrevendo. Tal é assim que o intertexto cultural tornou-se uma parte essencial na interpretação do aspecto literário da identidade cultural.

O significado, no contexto social e histórico dos textos, é um encontro dinâmico, um cruzar e entrecruzar-se de operações referenciais. Uma interpretação que escapa do evento dinâmico é nada menos do que uma redução arbitrária do significado a uma posição de entendimento na qual o intérprete por acaso se encontrava quando decidiu deter-se. A questão é, portanto, como podemos discutir um evento dinâmico e imprevisível de significado contextual sem impor um fechamento. Minha resposta preliminar é que a explicação e a interpretação históricas por mim propostas são mais um estudo fenomenológico da produção e recepção de textos do que o estímulo historicista de uma constru- ção abstrata arbitrariamente designada como uma determinação precisa do trabalho em si em seu contexto origi- nal. Interpretações reducionistas são o resultado de uma ou duas operações referenciais tiradas de contexto por historiadores e apresentadas como sendo exposições imutáveis e definitivamente precisas do significado da obra e de sua posição em um inventário cronológico de obras literárias. Em vez da narrativa global de um compêndio de grandes narrativas na- cionais, o que proponho como história literária comparativa é uma rede aberta, repleta de referências cruzadas, de narrativas interseccionadas que o leitor explorará como um hipertexto histórico.

A identidade cultural não pode mais continuar sendo uma construção de preceitos limitadamente concebidosde nacionalismo político. Quanto mais uma comunidade reflexiva se envolve na era eletrônica atual de comunicação global instantânea, mais ela se abrirá para outros horizontes de compreen- são e rejeitará a violenta separação entre povos em termos étnicos, reli- giosos e lingüísticos. A literatura constitui uma parte importante da identida- de cultural, diretamente, através de instituições de difusão cultural e, indiretamente, pela reinserção de reivindicações de verdades literárias no tecido sócio-ligüístico da comunidade. No entanto, nada pode ser mais contraditório do que a noção tradicio- nal de identidade política versus a rea- lidade da identidade cultural em uma comunidade específica. As pessoas que constituem uma comunidade parti- cipam de múltiplas relações dentro e fora dessa comunidade, mas a característica fundamental da identidade cultural é que essas pessoas coabitam o mesmo espaço, seja uma moderna megalópolis como a cidade do México ou um povoado como San Juan Chamula.

Existem forças xenofóbicas poderosas que inibem a coabitação pacífica e, como bem sabemos, podem transformar alienação em hostilidade explícita. Apesar disso ser verdade ao referir-nos a centros urbanos em todas as partes do mundo, tanto grandes quanto pequenos, seria um equívoco pensar que não existe nenhum sentido de identidade nesses locais. Essas áreas podem ser vistas como um verdadeiro desafio na construção da identidade do espaço cultural.

Meu conceito de identidade cultural é o de uma identidade dinâmica, uma identidade que possui um centro, mas um centro em movimento. A identidade cultural dinâmica é um horizonte mutante porque é, acima de tudo, um conjunto vivo de idéias sobre o "eu" e a "co- munidade do eu". Sem dúvida alguma, a identidade cultural dinâmica dos Es- tados Unidos, por exemplo, surge tan- to da identidade lógica quanto da pla- tônica, mas seus parâmetros estão mudando constantemente, como um observador imparcial poderia rapida- mente perceber. Segue-se que a pró- pria força da vida, em um conceito dinâmico de identidade cultural, pro- vém de idéias sobre a relação do eu com a comunidade que são propostas, contestadas, aceitas ou negadas. O conflito de interpretações literárias abrange questões particulares, signifi- cativas para a comunidade específica, mas devido ao fato das bases funda- mentais serem comuns a todas as comunidades, a intertextualidade cul- tural atravessa o mundo tão facilmente que a aldeia global ( global village ) de McLuhan se torna um apropriado indicador histórico dos nossos tempos.

Devemos agora perguntar-nos até que ponto é possível responder a essas idéias de identidades culturais dinâmicas na história literária e, se isso já não for desafio suficiente, devemos perguntar-nos também se essas idéias têm um lugar na história literária de um local carcterizado pela heterogeneidade de línguas, tradições e composição étnica tal como, por exemplo, a América Latina.

Na história literária comparativa, examinamos o texto literário no contexto da comunidade lingüística em que foi originado, mas este estudo é apenas uma das contínuas trocas culturais. O movimento de textos e idéias entre comunidades lingüísticas é tão vasto e tão complexo que a própria idéia de isolamento lingüístico hoje em dia, mesmo para as tribos da longínqua Bacia Amazônica, é evidentemente absurda. Minha tese é que a história literária que pode começar a abordar intertextualidade cultural é uma his- tória literária comparativa demografi- camente caracterizada que examina as várias correntes referenciais consti- tuindo a realidade da comunicação cul- tural.

Na história literária comparativa, da forma que a estamos descrevendo, obras literárias são reformuladas como eventos históricos dentro de um contexto cultural dinâmico. Esta tarefa inevitavelmente reexamina e redefine alguns "pontos obscuros" historiográficos fundamentais tais como espaço cultural, incentivo institucional ou supressão da literatura, além das políticas de participação no evento literário/histórico, questionando também as conjecturas básicas da narrativa histórica: o quadro temporal da narrativa e a autoridade narrativa.

Nosso paradigma chama a uma elaboração do contexto estruturador separadamente da narração dos eventos. Essa é a essência do modelo Braudel tal como o adaptamos à história literária. Desta forma, o contexto histórico repara algumas das omissões do passado e nos permite introduzir esquemas conceituais específicos tais como os centros culturais de uma sociedade, as instituições sociais que foram centrais à produção de literatura, assim como as políticas de leitura na comunidade.

Ao invés de periodizações baseadas em evidências empíricas - datas de nascimento e morte de escritores, datas de publicações, etc. - ou em aspectos interpretativos das obras - prosa no final do romantismo ou teatro neo-clássico, etc. -, propomos quadros temporais de recepção nos quais as obras literárias específicas sejam examinadas como aqueles atratores móveis de forças culturais - ex.: The Tempest como um novo texto histórico, Don Quijote como uma definição do século vinte da identidade espanhola em Unamuno, Ortega y Gasset e Azorín. Denis Hollier apresentou isto sucintamente em sua "Introdução" para A New History of French Literature : "Hoje em dia é cada vez mais difícil desenhar uma sólida linha de demarcação entre o interior e o exterior de uma obra de arte; por vezes é impossível até mesmo distinguir entre forma e fundo " (1989, xxv).

No entanto, não há como escapar do fato básico de que a narrativização impõe um senso de ordem e isto, por sua vez, implica um propósito que, sem dúvida, impõe um fechamento nos eventos históricos que estão sendo examinados. A questão da autoridade narrativa não está ligada apenas à verdade múltipla - afirmações que a narrativa histórica propõe ao leitor - mas também, e principalmente, à explicação de causalidade do historiador. Apesar do exercício de autoridade narrativa ser mais explícito na história do século XIX, como por exemplo, nos primeiros volumes da Histoire de la Révolution Française , de Michelet (1847-1862), ele está presente em toda narração histórica. Chantal Thomas, por exemplo, toma a publicação de Sade, Justine, no verão de 1791 como um evento histórico no sentido em que estivemos usando o termo. Em seu comentário, ela propõe conclusões contextuais específicas: "Sade apoia a ideologia do Iluminismo mas, ao contrário de Denis, Diderot e Paul Henri Thiry d'Holbach, para os quais materialismo significa o melhoramento da natureza humana, o pensamento de Sade resulta em uma convicção absoluta da permanente existência do mal" (1989, p.580).

Existem, evidentemente, inúmeras maneiras de narrar o mesmo grupo de indicadores históricos, tomados como um evento pelo fato de que cada historiador deve selecionar e separar a evidência, organizá-la em uma seqüência narrativa e dar-lhe um sentido de propósito. Quanto mais as séries de eventos adquirirem importância, mais suas narrativas históricas se multiplicarão e diferirão umas das outras. Em todas essas versões, cada historiador terá alegado, implicitamente, estar apresentando "o que realmente aconteceu no passado". Cada narrativa histórica, na verdade, deu forma e coerência a uma montagem de dados. A exigência de fechamento na narrativa histórica é uma exigência de uma afirmação interpretativa do propósito por trás do evento. Nossa tarefa torna-se mais complexa porque estamos lidando com múltiplos fatores sociais e demográficos, por vezes de longa duração.

A narrativização na história literária comparativa expressa direção e propósito e, conseqüentemente, planeja um "pseudo-enredo" para os eventos; entretanto, por causa da nossa estrutura paradigmática contextual, essas propostas avançam dentro de unidades esquemáticas específicas, obtidas da riqueza de dados oferecidos no contexto social estruturador, e são apresentadas como variações interpretativas. Assemelha-se, de alguma forma, à leitura de um hipertexto. O texto é lido em conjunção com uma quantidade de outros textos interrelacionados, em uma variedade quase infinita de possíveis configurações históricas. A única limitação encontra-se na historicidade do leitor e nas capacidades, na imaginação e no repertório representacional da época.

A obra de arte literária como evento histórico é uma tarefa complexa, pois podemos perceber claramente que a composição e a recepção podem ser vistas como cinco eventos distintos: 1) a obra literária no período da composição, vista somente nos documentos contemporâneos à obra; 2) a obra no período de composição reconstruído pelo historiador; 3) a obra revelada através de meios analíticos desenvolvidos posteriormente à obra (ex.: uma análise semiótica de La Celestina ); 4) a obra literária recebida através das perspectivas estéticas de períodos posteriores (ex.: nossa leitura da reavaliação romântica alemã do teatro espanhol setecentista, especialmente a obra de Calderón de la Barca ); e 5) a obra literária interpretada por meio de ideologias críticas posteriores (ex.: interpretações marxistas e feministas do Lazarillo de Tormes , Don Quijote , e outras obras do passado).

Estes aspectos distintivos da obra literária surgem porque queremos observá-la como um evento histórico. Neste plano de estudo, a obra como composição original faz parte do esquema de desenvolvimento de centros culturais. Provindo de um cenário algo mais limitado nesse esquema, encontram-se as reavaliações estéticas do passado. A narrativa histórica reconstrói, dessa forma, tanto a composição quanto a recepção. A análise da obra é um acréscimo recente a este esquema de narração histórica, mas é o aspecto ideológico da sua reinterpretação que é de primordial importância para o esquema que examina a participação social na construção da cultura.

Em suma, o espaço cultural da América Latina, por exemplo, consiste em vários centros culturais que foram as fontes da produção cultural. Ao longo dos séculos, estas cidades não só produziram a identidade local como participaram em formações de identidades nacionais e transnacionais muito maiores. A história literária comparativa penetra na diversidade dos centros e proporciona uma continuidade histórica continental que funciona a despeito de limitações lógicas, políticas e étnicas. O propósito culminante desta história literária é uma grade de narrações das obras literárias vistas como eventos históricos, concentrando-se nas funções culturais múltiplas dos textos dentro do hipertexto histórico.

Se examinarmos, por exemplo, os termos de unidade histórica para a literatura latino-americana, devemos reconhecer que é inteiramente uma construção de historiadores literários, e no entanto existe um referente incontestável na realidade social do continente. As razões do aparente paradoxo estão inteiramente conectadas a problemáticas de identidade. Na área vagamente definida que o termo América Latina engloba, os aspectos mantidos em comum são as línguas e um passado colonial. Dentro do terri- tório, o termo América Latina é um fator de identidade importante, mas secundário. Fora dele, tornou-se um fator primordial mais do que secundá- rio. Entretanto, fica bastante claro que o principal fator de identidade nessa área é uma combinação de lugar de origem e linguagem. Tanto é assim que, independentemente do nome utili- zado, a maioria, falante de espanhol, exclui os falantes de inglês e francês do Caribe e inclui apenas parcialmente os falantes de português do Brasil. Nem a língua por si só nem o local de origem são suficientes, pois a Espanha e Portugal não são aceitos como parte de qualquer paradigma de identidade do território.

Conseqüentemente, deveria estar claro que o referente América Latina, fraco e difuso, não pode, por si só, constituir a base para um estudo compreensivo da produção literária desse território como uma categoria mundial distinta. Além disso, a sua constituição étnica cobre todo o espec- tro da homogeneidade étnica em po- voados, centros urbanos de mestiçagem extensivos no México, Bolívia, Para- guai e Peru, assim como Cuba e a Re- pública Dominicana, e outros, como a maior parte da Argentina e do Uruguai, que são quase totalmente constituídos por uma população de origem euro- péia. Devemos também lembrar que o passado colonial da Espanha e de Por- tugal divergem de forma marcante após os primeiros povoamentos. A Es- panha concentrou-se em fundar um império com todo o controle centraliza- do em Madrid; já Portugal não tinha nem os recursos nem a ambição de um império.

Assim, deveria ficar evidente que uma história literária comparativa da América Latina não pode ser uma composição de histórias literárias nacionais nem um catálogo de escritores nascidos na América Latina, mas um instrumento comparativo que estabeleça a contextualização para interpretações, que mantenha este contexto aberto e que ofereça algumas, dentre muitas, interpretações das obras mais significantes deste continente.

Na história literária comparativa da América Latina, conceitos de "período" têm sido geralmente extraídos da história política, em uma continuação extremamente irreflexiva de histórias nacionais. Assim, iniciamos com um período de pré-conquista de várias dimensões, dependendo da extensão e da riqueza que esses anos tiveram no país em questão. Seguimos por um período um pouco mais curto de conquista e primeiras colonizações, normalmente abordando o séc. XVI. O assim chama- do período colonial é, por omissão, tudo aquilo que houve nos séc. XVII e XVIII limitado, de um lado, pela con- quista e, do outro, pela independência. O séc. XIX é o período de indepen- dência e nacionalismo e o séc. XX é tratado como uma das expansões pós- coloniais da América Latina. Esses períodos, assim como o conceito de período, apesar das profundas raízes do seu estabelecimento, são irrelevan- tes para o nosso projeto. É claro que os eventos históricos da conquista, fundações, independência, etc., per- manecem, mas não são mais as placas sinalizadoras que designam um perío- do histórico. O ritmo de desenvolvimento dos centros culturais são dita- dos mais por fatores sócio-econômicos que por decisões políticas sobre paz e guerra e concessões arbitrárias de terras de um poder europeu para outro. As instituições latino-americanas que controlavam o acesso e a partici- pação nos centros culturais também respondiam a outros interesses que eram extremamente ideológicos, tais como a contra-reforma, e ainda outros que eram econômicos e demográficos, como a inserção massiva de escravos africanos nas comunidades, ainda pequenas, dos séculos XVII e XVIII. Além disso, para finalizar, a narração das obras significativas da América Latina carrega pouca semelhança com os assim chamados períodos nacionais da história.

Ao invés da periodização baseada em evidências empíricas e em aspectos interpretativos internos das obras, nós propomos uma contextualização extensiva formada pelo desenvolvimento das instituições sociais que controlam o acesso, nas quais as obras literárias específicas sejam examinadas como as atratoras de forças culturais que, por sua vez, criam idéias, imagens e, finalmente, diálogo sobre o mundo em que vivemos.

2. Definição de termos para uma história literária comparativa

Um dos aspectos da história literária que tem sido persistentemente posto em questão ao longo dos séculos é o conceito do literário como sendo uma espécie diferente de composição. Ao longo dos anos, os limites do literário têm sido expandidos ou contraídos. A expansão significou ir além dos limites da escrita imaginativa para incluir muitas outras categorias do discurso, tanto factuais quanto ficcionais, tanto orais quanto escritas, tanto populares quanto elitizadas. Este conceito de literatura, mais amplo e não normativo, não é exclusivo do tempo presente, mas tem sido teoricamente examinado em nossa época como nunca o havia sido antes.

Essa expansão do corpus a ser considerado não apenas muda radicalmente nossa noção dos tipos de literatura que fazem parte da história literária, mas também insere uma enorme pressão para uma construção mais completa do contexto histórico. Atingimos agora um momento extremamente crucial na historiografia da literatura. A história tornou-se uma configuração de histórias tanto de produção quanto de recepção. Sem abandonar a historiografia da produção literária, devemos atualmente acrescentar, com idêntico rigor, uma consideração sobre a natureza da recepção literária. O campo em que a experiência literária ocorre é parte da história literária tanto quanto o estudo tradicional do desenvolvimento de gêneros ou temas. Por esta razão, perspectivas econômicas, políticas e sociais de questões como raça ou gênero devem ser levadas em consideração na construção da história literária de uma forma diferente das que podem ter sido utilizadas no passado.

O que está em jogo nessa movimentação, partindo do modelo tradicional de uma história literária para essa proposta comparativa, pode ser melhor descrito por analogias. Na introdução da tradução do primeiro volume do seu Civilization and Capitalism 15th-18th Century , Fernand Braudel descreveu seu projeto como sendo comparativo, movendo-se dialeticamente entre passado e presente, entre a observação concreta e uma consciência da hererogeneidade e complexidade da vida (1981, p.25). Uma história literária comparativa contextualizada não apenas trabalha dentro desse movimento hermenêutico e dialético entre passado e presente como procura também fazer algo análogo àquilo que a escola de Braudel e Annales fez ao mudar o foco histórico dos eventos políticos para as consi- derações de circunstâncias demográ- ficas e geográficas que condicionavam tais elementos e, mais adiante, incluiu um estudo detalhado dos dados mate- riais concretos sobre a vida no passa- do. Uma história literária comparativa, da forma como a imaginamos, lida com a vida da maneira em que é con- tada, ao invés do projeto de Braudel, estudar a vida da maneira que é vivi- da. Assim como o Mediterranean de Braudel juntou elementos tão diversos como religião, história, geografía, tec- nologia, agricultura e as tendências in- telectuais de um local particular em um determinado momento, a história literária comparativa que propomos estudará a literatura em contextos além do estético e do formal, levando em consideração as pesquisas políti- cas, antropológicas, econômicas, geo- gráficas, demográficas e sociológicas relevantes para a construção dos con- textos da literatura de uma comunidade.

Em seu Imagined Communities : Rflections on the Origin and Spread of Nationalism , Benedict Anderson coloca que a nacionalidade é uma questão de "comunidade imaginada". Na Europa, o sentido de identidade coletiva foi concebido no século XIX e surgiu principalmente da palavra impressa e do romance. Este entrelaçamento entre revindicações de verdades literários e nacionalismo também faz parte de uma história literária comparativa, mas com uma abertura em relação às controvérsias entre comunidades imaginadas, baseadas na língua ou na geografia mais que nos limites políticos de uma nação. Qualquer um destes fatores assinala a artificialidade dos limites nacionais vistos como limites válidos de cultura e identidade. Até mesmo uma olhada superficial em um atlas histórico pode evidenciar como tais limites têm mudado com freqüência dentro de uma geração.

Devemos enfatizar, mais adiante, que uma construção limitada da história literária nacional não exclui somente a literatura daqueles que trabalham nas fronteiras e com outras línguas mas também daqueles de outras tradições culturais, perpetuando assim uma cultura da alienação. Além disso, temos o fato óbvio de que as pessoas podem participar - e com freqüência assim o fazem - em várias comunidades lingüísticas ao mesmo tempo; textos, assim como idéias e imagens, passam de uma língua a outra por meio da tradução. Os filmes são lançados em várias línguas ao mesmo tempo, romances são publicados em tradução simultaneamente em todo o mundo, peças de teatro são apresentadas em vários continentes em distintas línguas. Sugerimos que a história literária com parativa é a história não só tornada possível como também exigida por nossa era de acesso a informações in- ternacionais e à tecnologia eletrônica.

3. Estrutura metodológica para uma historiografia literária comparativa

Fernand Braudel chamou seu próprio trabalho histórico de comparativo não somente porque transpunha limites disciplinários tradicionais, mas porque compreendia, em suas próprias palavras, "a dialética do passado e do presente". Da mesma forma, a história literária que estamos apresentando é a história do passado lida através do presente. Não pode ser simplesmente um registro cumulativo de tudo que foi escrito ou apresentado, ou mesmo uma compilação de temas e formas. O passado literário, isto é, o passado tanto da produção quanto da recepção literária, é inevitavelmente interpretado à luz do presente, e o seu conhecimento presente será, portanto, parcial e provisório - mas não insignifi- cante. Uma história literária compara- tiva deve reconhecer as limitações epistemológicas que suas situações hermenêuticas criam: cada historiador será entendido como uma pessoa real vivendo em uma comunidade lingüís- tica e cultural, e é a partir dessa posi- ção específica que ele(a) pode formar aquilo que os fenomenologistas cha- mam de horizonte do passado. Os tex- tos desse passado foram criados por pessoas em uma língua específica, em um momento específico, em um local específico; mas o historiador literário também é um ser histórico, situado com igual particularidade. A comunida- de de leitores de um texto, como argu- mentou Hans-Georg Gadamer, é cons- tituído historicamente, mas não fica nunca limitado a seus criadores con- temporâneos.

Este fundamento hermenêutico de uma história literária situada é ape- nas uma das formas nas quais existe uma dialética do passado e do presen- te. Como mostrou o trabalho de Hayden White, é no presente que o historiador molda e ordena os eventos do passado, criando significados mais do que registrando-os. Os enredos ex- plicativos ou narrativos - ou emplotments , para usar o termo de Hayden White - nunca são inocentes ou inconseqüentes. Admitir isto, mes- mo parcialmente, é desafiar o status cognitivo do conhecimento histórico como veio a ser conhecido em termos empiristas e positivistas no século pas- sado. A maior descoberta filosófica pa- ra a hermenêutica histórica surgiu na obra de três volumes de Paul Ricoeur, Time and Narrative , com seu estudo cuidadosamente embasado sobre a temporalidade humana através do en- redo narrativo, tanto histórico quanto fictício. O trabalho de Ricoeur propor- cionou a ponte necessária entre os desafios cognitivos enfrentados pelos his- toriadores e aqueles confrontados pe- los estudiosos literários que trabalham como historiadores. A história literária também é uma narrativização de eventos literários, e seu registro é um evento textualizado - apenas de uma maneira imediata mais evidente que os arquivos de toda a historiografia.

O registro histórico visto como uma interpretação constituída do passado, em nosso caso, o passado literário, submeteu-se a um exame minucioso como resultado das críticas pós-estruturais e pós-coloniais que apontam a descontinuidades, lacunas, rupturas e, acima de tudo, exclusões mais do que desenvolvimento linear, evolução ou continuidade. Em suma, atualmente, a própria tarefa dos historiadores deve ser repensada. Nas palavras de White: "uma investigação especificamente histórica surge menos da necessidade de reconhecer que certos eventos ocorreram do que do desejo de determinar o que certos eventos podem significar para um de- terminado grupo, sociedade ou concei- to cultural sobre suas tarefas no pre- sente e prospectos futuros" (1986, p.487). Essa mudança da validação para a significação também criou um ímpeto de reconceitualizar o processo histórico literário para incluir as rela- ções entre os textos e os contextos de produção e recepção. A questão princi- pal da historiografia é também a ques- tão da história literária: como foi que dado fenômeno entrou no sistema in- titulado história? O historiador, eviden- temente, nomeia e estabelece uma montagem de dados na forma de um evento através da seleção e do posi- cionamento narrativo. E esta constitui- ção do passado é realizada por histo- riadores que estão tão situados nas particularidades de tempo, local, língua e gênero quanto estavam as pessoas que produziram, num primeiro momento, as obras em consideração. É nesse sentido que evocamos as palavras de Nietzche: pode-se explicar o passado apenas através do que é mais poderoso no presente. Essa observação não deve ser interpretada como anti-histórica, pois é o propósito contrário que emerge: a escrita da história hermenêutica.

Na história literária, teóricos tão distintos quanto Robert Weimann, Ralph Cohen e Claudio Guillén mostraram as maneiras pelas quais os eventos do passado foram organizados e como receberam um significado no presente. Ao confrontar abertamente a dialética do passado e do presente, uma história literária comparativa como a que estamos propondo colocaria em primeiro plano esses esquemas metodológicos e abordaria diretamente as hipóteses abordando textos e contextos. A maneira pela qual isso funcionaria na prática pode ficar mais clara se nos voltarmos ao mais articulado dos projetos (5). Com coaboradores vivendo em muitos paí- ses e fazendo sua pesquisa sob condi- ções de trabalho radicalmente diferen- tes, também ficará claro por que esse é o tipo de grande empreendimento que só pode se tornar possível na era da comunicação eletrônica à disposi- ção dos estudiosos e do acesso através de computadores a fontes biblio- gráficas que, anteriormente, não esta- vam disponíveis à maioria.

4. Colocando a teoria em prática

O primeiro dos projetos de história literária comparativa em andamento é o latinoamericano. Começamos pelo reconhecimento de que, em termos históricos, a América Latina, como nome, é uma construção completamente artificial. No entanto, reconhecemos também que existe uma dinâmica social e cultural em todo o continente que responde a essa construção. Ao assumir as considera- ções históricas tanto da produção quanto da recepção da literatura da América Latina, estamos, portanto, ex- plorando um aspecto essencial de problemáticas históricas que surgiram através de fronteiras nacionais, perío- dos de tempo, sistemas lingüísticos, tradições culturais. O problema a ser abordado é o fato de que a América que chamamos de Latina na verdade são muitas, como por exemplo a re- gião do Rio da Prata, a região Andina, Brasil, o Caribe, México e a América Central. As diversas descobertas, por distintos poderes imperiais europeus, de povos que nunca estiveram perdi- dos apresenta uma outra série de pro- blemas a ser atentamente analisados através do estudo de textos tanto em línguas européias quanto indo-ameri- canas. As culturas híbridas sincréticas que chegaram com o sistema colonial refletiram a superimposição tanto quanto a destruição generalizada. Os movimentos demográficos massivos da África e dentro das Américas tam- bém deixou uma corrente de traços textuais. O contexto maior, político, religioso e social, dentro do qual a lite- ratura está sendo considerada neste projeto é o principal desafio aos histo- riadores literários comparativos.

É claro que não haverá nenhuma tentativa de alcançar um estudo histórico compreensivo de um conti- nente com mais de quinhentos anos de história conflitiva. A América Latina é diversa e multifacetada demais para permitir tal síntese. Contudo, essa história literária informará todas as discussões das problemáticas históricas principais e insistirá em colocar em primeiro plano o papel do gênero em todos os aspectos de inclusão e exclusão para a sua legitimação, assim como um autoquestionamento reflexivo que é central para nossa abordagem hermenêutica sobre os próprios termos e métodos de análise e explanação usados. Um estudo trans- cultural dos centros culturais de pro- dução literária e das instituições que controlam esta produção serão segui- dos das narrativas dos eventos literá- rios.

5. Conclusões inconclusas

Tendo total conhecimento dos debates atuais da historiografia, e pro- curando inovar a história literária através da criação de um modelo não- linear, devemos utilizar-nos dos peri- tos de outras áreas, tanto de história quanto de antropologia, sociologia, geografia, artes, música, comunicação, economia e ciências políticas, e listá- los em nosso empreendimento.

A história literária comparativa da América Latina aqui descrita não procura somente abordar casos específicos de exclusões e inclusões históricas, mas repensar as próprias categorias de seleção e ordenamento utilizados na elaboração da história literária. A literatura não existe isolada da cultura na qual é experienciada, isto é, as culturas em que foi produzida assim como aquelas em que foi recebida.

Obras Citadas

* ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origins and Spread of Nationalism . Londres: Verso, 1983.

* BATAILLON, Claude; DELER, Jean-Paul; THERY, Hervé. Géographie Universelle. Amérique Latine . Paris : Hachette.Reclus, 1991.

* BRAUDEL, Fernand. Civilization and Capitalism 15th-18th Century . Vol. I. The Structures of Everyday Life . Tr. Siân Reynolds. London : Collins, 1981.

____. Histoire et sciences sociales, la longue durée . In: Annales E.S.C. Oct-Dez.> 725-53., 1958.

____. The Mediterranean and the Mediterranean World in the Age of Philip II . (1949) 2 vols. Tr. Siân Reynolds. New York : Harper and Row, 1972.

* GREENBLATT, Stephen. Marvelous

Possessions: The Wonder of the New World . Chicago : University of Chicago Press, 1991.

* HOLLIER, Denis. A New History of French Literature . Cambridge : Harvard UP, ed. 1989.

* RICOEUR, Paul. Time and Narrative . 3 vols. Tr. Kathleen Blaney and David Pellauer. Chicago : University of Chicago Press, 1986-88.

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* WEIMANN, Robert. Structure and Society in Literary History . CHarlottesville : UP of Virginia , 1976.

* WHITE, Hayden. Historical Pluralism . In: Critical Inquiry . 12.3:484-92, 1986.


(1)É importante levar em conta a noção que Braudel tinha da disciplina em 1963, quando ele escreveu o prefácio à segunda edição revisada do Mediterraneam , o qual, em parte, responde às problemáticas que ele cita em "Histoire et sciences sociales, la longue durée." Na segunda edição ele escreve: "a abordagem básica em torno da qual todo o trabalho se estrutura, a dialética do espaço e do tempo (geografía e história) ... eu me senti na obrigação de dar mais espaço às ciências econômicas, políticas, uma certa idéia de civilização e um estudo demográfico mais detalhado... O problema básico, no entanto, permanece o mesmo. É o problema que confronta todo empreendimento histórico. Será que é possível, de alguma maneira, transmitir simultaneamente tanto aquela história conspícua que prende nossa atenção por suas mudanças contínuas e dramáticas, e aquela outra história, submersa, quase silenciosa e sempre discreta, praticamente insuspeitada tanto por seus observadores quanto por seus participantes, pouco alterada pela obstinada erosão do tempo? Esta contradição fundamental, que deve sempre estar no centro do nosso raciocínio, pode ser um instrumento vital de conhecimento e pesquisa." Esta noção de história é o ponto inicial de nosso empenho.

(2)Em Géographie Universelle . Amérique Latine , Bataillon et al. oferecem o contraponto perfeito à dialética histórica do espaço e do tempo de Braudel a partir da perspectiva do geógrafo.

(3)As grandes exceções são, indubitavel- mente, Stephen Greenblatt e Robert Weimann. Em seu inovador Structure and Society in Literary History , Weimann apre- senta um esquema da dialética histórica à sua maneira como significação passada e significado presente. Dentre as numerosas contribuições de Greenblatt ao debate e ao repensar da história literária, a obra Marvelous Possessions: The Wonder of the New World é um exemplo da refiguração do contexto histórico que estamos realizando.

(4)N.T: truth-claims , no original.

(5)Este trabalho é baseado em parte em um manifesto organizado em julho de 1993 em uma conferêrncia sobre história literária comparativa ocorrida na Rockefekker Foundation's Bellagio Study and Conference Center . Os participantes de vinte e três ins- tituições em dez países ajudaram a desen- volver um paradigma historiográfico geral que pretendemos ampliar para outras áreas, tais como Europa Central. Também fico agradecido à minha colega Linda Hutcheon por sua colaboração na história literária comparativa que empreendemos; suas muitas observações e questionamentos foram incorporados ao meu texto.