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Tartarugas-marinhas

Você conhece as tartarugas-marinhas do nosso litoral?

Mundialmente, existem sete espécies de tartarugas marinhas agrupadas em duas famílias: Dermochelyidae e Cheloniidae. Dessas, cinco são encontradas no Brasil, bem como no Rio Grande do Sul: tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta Linnaeus, 1758), tartaruga-verde (Chelonia mydas Linnaeus, 1758), tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea Vandelli, 1761), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata Linnaeus, 1766) e tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea Eschscholtz, 1829). Como demonstrado na Figura 1, a identificação de cada espécie pode ser realizada seguindo alguns aspectos dos cascos das mesmas. A tartaruga-cabeçuda possui cinco placas laterais, a tartaruga-verde possui quatro placas laterais, a tartaruga-de-couro se caracteriza pela carapaça coberta por pele coriácea elástica, sem placas diferenciadas e com quilhas longitudinais, já na tartaruga-de-pente as placas de todo o casco são sobrepostas umas as outras, e, por fim, a tartaruga-oliva possui seis ou mais placas laterais de cada lado do casco.

 

Figura 1. A) tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta); B) tartaruga-verde (Chelonia mydas); C) tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea); D) tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata); E) tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea).

Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta)

Essa tartaruga ocorre nos mares tropicais e subtropicais de todo mundo e também em águas temperadas. Seu hábitat é variável ao longo do ciclo de vida. Os filhotes e jovens vivem em alto-mar; os adultos em áreas de alimentação situadas entre 25 e 50m de profundidade. Possui carapaça óssea, com cinco pares de placas laterais (o que a diferencia das demais espécies), e coloração marrom-amarelada (Figura 2). Podem atingir até 136 cm de comprimento curvilíneo de carapaça no Brasil. Suas nadadeiras anteriores são curtas e grossas e tem duas unhas, as posteriores possuem duas a três unhas. Essa espécie é carnívora, alimentando-se de caranguejos, moluscos, mexilhões e outros invertebrados triturados com ajuda dos músculos da mandíbula. No Brasil, as áreas prioritárias de desova estão localizadas no norte da Bahia, Espírito Santo, norte do Rio de Janeiro e Sergipe e áreas secundárias ocorrem em alguns pontos dos litorais do Espírito Santo e sul da Bahia. A tartaruga-cabeçuda está classificada como em perigo (EN) tanto mundialmente quanto no estado do RS, segundo critérios da IUCN.

A captura acidental dessa espécie é estudada nos oceanos de ambos os hemisférios. Foram realizados levantamentos de capturas acidentais de tartarugas-cabeçudas na frota espinheleira da região Sudeste/Sul do Brasil, no total foram capturadas 1153 tartarugas em 110 cruzeiros realizados entre os anos de 2003 a 2010 (MARCON, M. C. C., 2013).

Figura 2. Soltura de tartaruga-cabeçuda reabilitada pelo Centro de Reabilitação de Animais Silvestres e Marinhos (CERAM) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foto: Arquivo CERAM.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas)

Essa espécie ocorre nos mares tropicais e subtropicais, em águas costeiras e ao redor das ilhas, sendo frequente a ocorrência de jovens em águas temperadas. Podem ser encontradas habitualmente em águas costeiras com muita vegetação aquática (áreas de forrageio), ilhas ou baías onde estão protegidas, sendo raramente avistadas em alto-mar. No Brasil, as desovas ocorrem principalmente nas ilhas oceânicas: Ilha da Trindade (ES), Atol das Rocas (RN) e Fernando de Noronha (PE). Porém, existem áreas de desova secundárias no litoral norte do estado da Bahia. Esporadicamente ocorrem também ninhos nos estados do Espírito Santo, Sergipe e Rio Grande do Norte. Sua alimentação varia consideravelmente durante o ciclo de vida: enquanto filhote é uma espécie onívora (espécies que consomem ao mesmo tempo alimentos de origem animal e vegetal) com tendências à carnivoria, tornando-se basicamente herbívora a partir dos 25/35cm de casco (Figura 3 A). Segundo a Lista de Fauna Ameaçado do RS de 2014, a tartaruga-verde se encontra como vulnerável (VU), já na lista mundial está classificada como em perigo (EN).

A tartaruga-verde sofre constantemente com a ingestão de lixo (Figura 3 B) no ambiente marinho . Essa ingestão pode ocorrer de forma ativa, quando o animal confunde os resíduos com seu alimento ou passivamente, quando o animal os ingere juntamente com o alimento. Quando o plástico é ingerido podem ocorrer casos de obstrução do TGI, o que pode levar o animal a óbito. Outro problema decorrente dessa ingestão é a falsa sensação de saciedade, o que causa a redução da frequência alimentar.

No Litoral Norte do RS foi realizado um estudo com tartarugas-verde onde 90% dos indivíduos amostrados ingeriram resíduos. No total foram encontrados 4611 itens, dos quais 87,3% foram representados por itens da categoria plásticos (RIGON, C. T. 2013). No extremo sul do Brasil, Barros J. A. et al (2007) encontrou resíduos antropogênicos em 100% dos tratos gastrointestinais analisados.

 

Figura 3.  Tartaruga-verde em tratamento no CERAM. Foto: Arquivo CERAM.

Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea)

A tartaruga-de-couro está distribuída em todos os oceanos tropicais e temperados do mundo. Vive usualmente na zona oceânica durante a maior parte da vida. A única área regular de desova conhecida no Brasil situa-se no litoral norte do Espírito Santo. No Brasil já foram registrados indivíduos com até 182cm de comprimento curvilíneo de carapaça, sendo que a maior tartaruga de couro encontrada no mundo tinha 2,56m de comprimento de carapaça. Seu casco é composto por uma camada de pele fina e resistente e milhares de pequenas placas ósseas, formando sete quilhas longitudinais (Figura 4A). Seu status mundial de ameaça é vulnerável (VU), já na Lista de Fauna Ameaçada do RS, a espécie está categorizada como criticamente ameaçada (CR).

Assim como a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-de-couro também é capturada acidentalmente pelo espinhel pelágico. Entre os anos de 2003 a 2010, foram realizados levantamentos de capturas acidentais em barcos pesqueiros. Um total de 255 tartarugas-de-couro foram capturadas nesse período, sendo que a amostragem foi realizada em 5,47% dos cruzeiros espinheleiros dos portos de Itajaí (SP), Santos (SP) e Rio Grande (RS) (MARCON, M. C. C., 2013).

 

 

Figura 4. A) Tartatuga-de-couro levada ao CERAM. B) Tartaruga-de-couro presa em uma rede de pesca.

Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata)

Essa é considerada a mais tropical de todas as tartarugas marinhas e está distribuída entre mares tropicais e por vezes sub-tropicais dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.  Prefere recifes de corais e águas costeiras rasas, podendo ser ocasionalmente encontrada em águas profundas. Podem atingir até 114 cm de comprimento curvilíneo de carapaça no Brasil e 150kg de massa corporal. Seu casco possui quatro placas laterais de cor marrom-amarelada, que se imbricam como telhas e dois pares de escamas pré-frontais. Sua cabeça é relativamente pequena e alongada. A boca se assemelha ao bico de um falcão e não é serrilhada (Figura 5). Suas nadadeiras anteriores (dianteiras) e posteriores (traseiras) tem duas garras. A espécie se alimenta de esponjas, anêmonas, lulas e camarões; a cabeça e o bico estreitos permitem buscar o alimento nas fendas dos recifes de corais. Estima-se uma população mundial de 34 mil fêmeas em idade reprodutiva. A tartaruga-de-pente desova no litoral norte da Bahia e do Sergipe; e no litoral sul do Rio Grande do Norte. Há ainda outras áreas com menor concentração de desovas, mas que devem ser ressaltadas: Paraíba, Ceará e Espírito Santo. Há evidências de desovas regulares, mas também em menor número, no estado de Pernambuco e no norte do Rio Grande do Norte.

Tanto estudos recentes quanto históricos demonstram uma diminuição das populações da tartaruga-de-pente em todos os oceanos. Esse declínio é resultante da degradação dos hábitats de nidificação, captura acidental em redes de pesca e deterioração do ambiente marinho. Somente nas últimas três gerações, houve um declínio de 84 a 87% no número de fêmeas adultas que aninham anualmente, mesmo com a ação de programas conservacionistas que estabilizaram o tamanho de algumas populações.

Figura 5. A) Tartaruga-de-pente em reabilitação no CERAM. B) Placas do casco imbricadas, característico da espécie.

Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea)

A tartaruga-oliva está distribuída em mares tropicais e sub-tropicais, oceanos Pacífico (leste central, noroeste, sudoeste, e centro-oeste) e Índico (leste e oeste); no Atlântico (leste central, nordeste, noroeste, sudeste, sudoeste). Habita principalmente águas rasas, mas também pode ser encontrada em mar aberto. Podem atingir até 82cm de comprimento curvilíneo de carapaça e pesam até 40kg. Seu casco possui seis ou mais pares de placas laterais, com coloração cinzenta (jovens) e verde-cinzenta-escura (adultos). Sua cabeça é pequena, com mandíbulas fortes que a ajudam na alimentação. As nadadeiras dianteiras e traseiras possuem uma ou duas unhas visíveis, podendo ocorrer uma garra extra nas nadadeiras anteriores (Figura 6). É uma espécie carnívora, que se alimenta de salpas, peixes, moluscos, crustáceos, briozoários, tunicados, águas-vivas, ovos de peixes e eventualmente algas. A área prioritária de desova desta espécie no Brasil está localizada entre o litoral sul do estado de Alagoas e o litoral norte da Bahia com maior densidade de desovas no estado de Sergipe. Ocorrências reprodutivas, em muito menor densidade, também são registradas no estado do Espírito Santo. Desovas ocasionais já foram registradas nos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Ceará.

Essa espécie está classificada como vulnerável (VU) na lista mundial de espécies ameaçadas. Na lista do RS se encontra categorizada como em perigo (EN) seguindo os mesmos critérios da IUCN. Como outras espécies de vida longa, as tartarugas-olivas são propensas a diminuição populacional por causa do crescimento intrínseco lento somado as ações antrópicas, tais como: coleta ilegal de ovos, áreas de nidificação desprotegidas, degradação do ambiente marinho e interação com a pesca

Figura 6. Tartaruga-oliva encontrada em Balneário Pinhal em 2012. Foto: Arquivo CERAM.

Principais ameaças às Tartarugas Marinhas

Todas as sete espécies de tartarugas-marinhas existentes estão em alguma categoria de ameaça. A interferência humana em escala global é a causa do colapso das populações dessas espécies.

 

Ocupação do Ambiente Costeiro

A ocupação humana no Brasil historicamente concentrou-se ao longo dos mais de 7 mil quilômetros de costa. A faixa litorânea concentra mais da metade da população brasileira e grande parte da produção econômica do País. Os principais fatores ligados a ocupação do ambiente costeiro e que causam um impacto negativo nas populações de tartarugas marinhas são:

 

- Extração de areia e aterros: Essa prática pode causar problemas na escavação dos ninhos, afetando a arquitetura das câmaras de ovos, alterando a temperatura de incubação e as taxas de trocas gasosas e de absorção de água, interferindo na proporção sexual e comprometendo a sobrevivência dos ovos e filhotes.

 

- Fotopoluição: a iluminação artificial nas orlas das cidades pode resultar na seleção negativa do trecho do litoral pelas fêmeas no momento da desova, bem como desorientar os filhotes que emergirem dos ninhos, os quais terão dificuldade de localizar o mar e realizar a migração para áreas oceânicas abertas.

- Trânsito de veículos: além do risco de atropelamento de fêmeas e filhotes, pode compactar os ninhos em incubação, dificultando o nascimento dos filhotes pré-emergentes. As marcas de pneus dificultam o acesso dos filhotes ao mar (Figura 5), exigindo maior esforço dos mesmos, o que aumenta a suscetibilidade à predação.

Figura 5. Filhotes de tartaruga-marinha tentando chegar ao mar. Foto: desconhecido.

Presença humana nas praias

Tráfego intenso de pessoas também pode compactar os ninhos em incubação dificultando o nascimento dos filhotes pré-emergentes. A presença humana durante a noite pode causar o abandono do processo de nidificação pela fêmea.

 

Portos, ancoradouros e molhes

A indústria naval, pesqueira, de operação militar, de exploração de óleo e gás, usinas siderúrgicas e de geração de energia nuclear exigem uma série de cuidados e mecanismos de proteção e de mitigação nas áreas da costa para sua implantação. Entre os impactos causados destaca-se a degradação/alteração de hábitats bentônicos usados para forrageio pelas tartarugas através de dragagem, descarte do material dragado, assoreamento, construção de enrocamentos/molhes e alteração das correntes marinhas. Além disto, outros problemas aumentam durante as atividades portuárias como a iluminação artificial, poluição química (derramamentos), física (detritos) e térmica (aumento da temperatura de efluentes), impactando direta ou indiretamente as tartarugas marinhas, em geral juvenis, que se abrigam e se alimentam nestas regiões.

 

Interação com a atividade pesqueira

As redes de emalhe, os espinhéis pelágicos (“long-line”) e as redes de arrasto para peixe e camarão são as principais artes de pesca que capturam tartarugas marinhas no Brasil. Sem poderem ir para a superfície para respirar, esses animais acabam desmaiando e morrendo afogados (Figura 7 A, B). No Brasil a interação entre as tartarugas marinhas e as pescarias costeiras tem sido o foco do Projeto TAMAR-ICMBio desde 1990.

Figura 7. A) Tartarugas capturadas em rede. Foto: Banco de imagens TAMAR. B) Tartaruga-cabeçuda capturada por espinhel.

Alterações climáticas

O aumento da temperatura na ordem de 2°C pode causar a feminização de toda uma população. Além disto, por se tratar de espécies de natureza altamente migratórias, mudanças de disponibilidade de recursos alimentares, de circulação de correntes marinhas e ventos podem comprometer seu ciclo de vida longo e complexo.

 

Estratégias para conservação das tartarugas marinhas no Brasil

- Proteção e manejo das tartarugas marinhas nas áreas de desova que são prioritárias para a conservação;

- Proteção e manejo das tartarugas marinhas nas áreas de alimentação, migração e descanso que são prioritárias para a conservação;

- As atividades visando a redução da captura incidental e da mortalidade de tartarugas marinhas pela atividade pesqueira;

- Monitoramentos de encalhes;

- Estudos que objetivam a coleta de dados biológicos, e também o estudo do comportamento das tartarugas em ambiente natural;

- Atividades de inclusão social e envolvimento comunitário das comunidades costeiras;

- Sensibilização popular.

 

O que você pode fazer?

Nós somos responsáveis pela degradação do habitat de várias espécies. O ambiente marinho vem sofrendo grandes mudanças graças a poluição resultante de atividades antrópicas. Uma das principais ameaças às tartarugas marinhas é a ingestão de resíduos sólidos, por isso devemos reduzir, reutilizar e reciclar o lixo. Além disso, devemos evitar andar de carro na praia, não se aproximar desses animais, não sujar a praia e agir como disseminador dessas informações.

 

Fontes:

BARROS, J. A. et al. Análise da dieta de juvenis de tartaruga verde (Chelonia mydas) no extremo sul do Brasil. In: Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil. SEB. 2007.
MARCON M. C. C. Padrões espaço-temporais da captura acidental das tartarugas marinhas Dermochelys coriacea e Caretta caretta pela pesca com espinhel pelágico na região Sudeste/Sul do Brasil.  Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, 2013.
MARCOVALDI, Maria Ângela; SANTOS, A. S.; SALES, G. Plano de Ação Nacional para Conservação das Tartarugas Marinhas. Brasília: ICMBio, 2011.

RIGON, Camila Thiesen. Análise da ingestão de resíduos sólidos e impactos no trato gastrointestinal em juvenis de Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) no Litoral Norte e Médio Leste do Rio Grande do Sul, Brasil. 2012.

TAMAR, Tartarugas Marinhas Disponível em : http://www.tamar.org.br/ Acessado em: 27 de agosto de 2015.