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Toninha

Você conhece a toninha?

A toninha, golfinho conhecido cientificamente como Pontoporia blainvillei (Fig. 1 A), é um pequeno cetáceo da família Pontoporiidae. Em todo mundo ocorre apenas entre Itaúnas, Estado do Espírito Santo, Brasil e Golfo San Matias, Província de Chubut, Argentina (Fig. 1 B). Habita regiões estuarinas e costeiras de até 50 m de profundidade, porém, a maioria dos registros está em regiões de até 30 m de profundidade. Estudos recentes apresentaram dados alarmantes, a quantidade de animais caiu quase pela metade em trecho entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Até então, a mais recente estimativa de abundância de toninhas nesta região tinha sido realizada há 10 anos. Para aquele período, a estimativa era de que 16.500 animais viviam na região. O número já era considerado preocupante pelos pesquisadores e o alerta já havia sido dado. As novas análises estimam em 9.500 o número de animais que vive atualmente nesta região, considerada a de maior abundância da espécie no Brasil.

Figura 1. A) Filhote de toninha encaminhado ao Setor de Reabilitação de Animais Silvestres e Marinhos (CERAM) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. B) Área de distribuição da toninha. Fonte: IUCN RedList, 2012.

Conheça a biologia da espécie

A maturidade sexual é atingida quando os animais possuem entre dois e cinco anos de idade, havendo pouca diferença na idade de maturação entre os sexos. As fêmeas dão a luz a um filhote a cada um ou dois anos (Fig.2.).

A alimentação da espécie é composta principalmente por peixes ósseos e lulas de regiões estuarinas e costeiras. A toninha alimenta-se de presas de pequeno porte, geralmente em torno de 10 cm.

A espécie tende a evitar aproximação de embarcações motorizadas, e a execução de comportamentos aéreos é incomum. Até o momento, não há evidência concreta de que a toninha apresente algum padrão migratório.

 

Figura 2. Detalhe do feto de toninha encontrado em uma fêmea capturada no Rio Grande do Sul. Foto: Ignacio Moreno (Arquivo GEMARS).

Ameaças à sobrevivência da toninha

A espécie encontra-se como Vulnerável (VU) na lista de espécies ameaçadas da International Union for Conservation of Nature (IUCN, 2014). Na lista da fauna silvestre ameaçada no Rio Grande do Sul (2014), a espécie está classificada como Criticamente em Perigo (CR). Esse alto grau de ameaça se deve a captura acidental desses animais em redes de pesca (Fig. 3 A e B).

Figura 3. (A e B) Parcela de Toninhas encontradas mortas nas praias do sul do Rio Grande o Sul (Foto: Acervo NEMA).

A captura acidental da espécie no Rio Grande do Sul é bastante elevada e preocupante, chegando a várias centenas de indivíduos por ano. Em Rio Grande, em apenas um monitoramento de praia, centenas de carcaças de toninhas podem ser coletadas no verão (Fig. 4).

Figura 4. Toninha capturada acidentalmente no litoral norte do Rio Grande do Sul. (Foto: Paulo Ott – UERGS/GEMARS).

Outra ameaça reportada é a ingestão de resíduos plásticos, porém, ainda não se sabe a gravidade da ingestão desses resíduos para a espécie. Também podemos citar a depleção dos estoques pesqueiros como um dos fatores que afetam a preservação da toninha. Registros históricos de captura comercial de peixes têm demonstrado um declínio no desembarque anual da corvina (Micropogonias furnieri), e da pescadinha real (Macrodon ancylodon) no sul do Rio Grande do Sul. Observou-se uma redução dessas espécies na dieta da toninha.

Por que preservar a espécie?

Os impactos que serão causados com a extinção da toninha se referem principalmente aos efeitos negativos que a remoção de um predador causa sobre a estrutura trófica (Fig. 4) de um ecossistema. A retirada de um predador de um ecossistema pode acarretar em várias consequências, tais como: substituição da espécie em determinada região por outras que ocupam a mesma posição trófica, o aumento populacional de espécies de níveis tróficos inferiores e alterações em longo prazo nos ecossistemas.

Saiba como a retirada de uma espécie pode alterar o equilíbrio do ecossistema em: https://www.youtube.com/watch?v=S1wR9HBC49M

Figura 4. Exemplo de níveis tróficos marinhos. Fonte: www.10emtudo.com.br.

Recomendações de ações para a preservação da toninha

PESQUISA E MONITORAMENTO

  • Estrutura populacional e variabilidade genética

 

  • Estimativa do tamanho populacional

 

  • Estudos sobre biologia e ecologia

 

  • Estudos sobre interação com a prática pesqueira

 

  • Estudos etnobiológicos

 

  • Estudos sobre biologia da conservação

 

POLÍTICAS PÚBLICAS NACIONAIS E INTERNACIONAIS E LEGISLAÇÃO

A mitigação da captura acidental das toninhas pode ser realizada através de:

- subsídios à implementação de tecnologias pesqueiras não predatórias para a espécie;

- valorização do preço de comercialização do pescado capturado a partir dessas tecnologias;

- incentivo à exploração de campos de pesca oceânicos a partir da modernização da frota pesqueira;

- capacitação profissional dos pescadores para o desenvolvimento de outras atividades geradoras de renda (eco-turismo);

- aproveitamento de subprodutos da pesca e cultivos.

 

Atualmente, a toninha está amparada pelos seguintes instrumentos legais, que envolvem também outras espécies da fauna:

  • Lei de Proteção à Fauna (Lei no. 5.197, de 3/01/1967);
  • Proibição de perseguição, caça, pesca ou captura de pequenos cetáceos, pinípedes e sirênios (Portaria SUDEPE no. 11, de 21/02/1986);
  • Proibição da Pesca de Cetáceos nas Águas Jurisdicionais Brasileiras (Lei no. 7.643, de 18/12/1987);
  • Regulamentação da proibição de molestamento de cetáceos em águas jurisdicionais brasileiras (Portaria IBAMA no. 117, de 26/12/1996);
  • Lei de Crimes Ambientais (Lei no. 9.605, de 12/02/1998);
  • Regulamentação da Lei de Crimes Ambientais (Decreto no. 3.179, de 21/10/1999);
  • Regulamentação da pesca de emalhe (Instrução Normativa IBAMA no. 166, de 18/07/2007);
  • Declaração das águas jurisdicionais brasileiras como Santuário de Baleias e Golfinhos (Decreto no. 6.698, de 17/12/2008).

 

PROTEÇÃO DE HÁBITATS

As áreas marinhas e costeiras protegidas são essenciais para a conservação da biodiversidade, manutenção da produtividade e recuperação dos estoques pesqueiros colapsados ou ameaçados. Porém, calcula-se que menos de 0,4% da zona costeira do Brasil se enquadra em alguma categoria de Unidade de Conservação, levando-se em conta a extensão do mar territorial e da zona econômica exclusiva.

O estabelecimento de um sistema representativo e efetivo de áreas protegidas faz parte da estratégia global de conservação de biodiversidade, sendo inclusive pactuado como meta a ser cumprida pelos países signatários da Convenção de Diversidade Biológica - CDB. Durante a COP 10 da Convenção de Diversidade Biológica - CDB, um novo Plano Estratégico de Biodiversidade foi elaborado para o período de 2011 a 2020. A meta relevante para  melhorar a situação da biodiversidade protegendo os ecossistemas, as espécies e a diversidade genética no que se refere às áreas protegidas é a meta 11: em que até 2020, pelo menos 17% das áreas terrestres e das águas continentais e 10% das áreas costeiras e marinhas, especialmente as de vital importância para a biodiversidade e serviços ecossistêmicos terão sido conservados por meio de sistemas de áreas protegidas geridas de maneira eficaz e equitativa.

EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO

Verificou-se a necessidade de implementar programas de educação ambiental junto às comunidades pesqueiras, visando ao maior entendimento e participação dessas comunidades na conservação da espécie. Aliado a isso, deve-se buscar a capacitação de recursos humanos dentro das próprias comunidades, incentivando e formando pessoal qualificado para informar sobre as questões ambientais locais e colaborar em ações de pesquisa e proteção direcionadas à Toninha. Outra proposta é a elaboração de estratégias de comunicação e programas de educação ambiental de abrangência nacional, visando transformar a toninha em um ícone (espécie-bandeira), a fim de alavancar a conservação da espécie e do ambiente marinho. Estas estratégias e programas contemplariam campanhas de marketing, utilizando a veiculação da toninha na mídia, valorizando sua imagem como espécie ameaçada e criando uma empatia do público em relação às questões conservacionistas.

 

ÁREAS DE INTERESSE ESPECIAL PARA A CONSERVAÇÃO DA TONINHA NO BRASIL

Baía da Babitonga, SC

A Baía da Babitonga está localizada no norte do Estado de Santa Catarina, compreendendo uma área de 130 km², e tendo em seu entorno as cidades de Joinville, Araquari, Guaruva, Itapoá e São Francisco do Sul. Por ser a única região do Brasil onde a Toninha ocorre em um ambiente estuarino protegido (Fig. 5), e um dos poucos locais do País onde é avistada com frequência em seu ambiente natural, a Baía da Babitonga apresenta uma excelente oportunidade para a realização de estudos com a espécie e para a obtenção de dados primordiais sobre a sua história natural, contribuindo para o preenchimento de diversas lacunas e para a proposição de ações de conservação.

Figura 5. Toninha na Baía da Babitonga, SC. (Foto: Marta J. Cremer – UNIVILLE/Projeto Toninhas)

Devido a sua importância para diversas espécies da fauna, especialmente para os cetáceos, a Baía da Babitonga foi indicada no levantamento das Áreas Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade da Zona Costeira e Marinha, e classificada com importância biológica “Extremamente Alta” e para as quais se recomenda o manejo e a criação de Unidades de Conservação.

Parcéis do Albardão, RS

A região dos Parcéis do Albardão, RS foi classificada na Avaliação das Áreas Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade, do MMA, como área de importância biológica e prioridade de ação “muito alta”. O local necessita de especial atenção por ser uma área de concentração reprodutiva e de alimentação de espécies, como a toninha e diversos elasmobrânquios ameaçados ou sobrexplotados. As dunas do Albardão e a região dos Concheiros também possuem grande importância paleontológica, coma ocorrência, tanto nos parcéis como na praia, de fósseis do Pleistoceno.

Para saber mais, acesse:

http://www.projetotoninhas.org.br/

http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/fauna-brasileira/plano-de-acao/147-plano-de-acao-nacional-para-conservacao-da-toninha.html