May 18

As mudanças climáticas e o acordo de Paris em debate

CicloPalestras-ILEAO Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA) convida para a conferência “As mudanças climáticas e o acordo de Paris”. Este evento faz parte da 7ª edição do Ciclo de Conferências ‘Estudos Avançados em Ciências e Humanidades’ promovido pelo Instituto e contará com a participação dos professores da UFRGS Carlos André Bulhões Mendes (Instituto de Pesquisas Hidráulicas), Jefferson Cardia Simões (Centro Polar e Climático), Valerio De Patta Pillar (Centro de Ecologia), no dia 19 de maio, às 14h, no Auditório do ILEA (UFRGS – Campus do Vale, prédio 43322).

O evento será transmitido ao vivo e online no seguinte link: www.youtube.com/ILEAUFRGS

A entrada é gratuita e não é necessária inscrição prévia!

Jan 11

Grupo de pesquisadores da UFRGS e UFF se prepara para nova expedição à Antártica

Já se preparam para nova expedição à Antártica pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT Crio) que realizaram trabalhos de campo na Ilha Rei George, em fevereiro de 2015. Naquela campanha a equipe liderada pela Profª Rosemary Vieira (Laboratório de Processos Sedimentares e Ambientais da Universidade Federal Fluminense – LAPSA/UFF), contou com a geógrafa Carina Petsch (Centro Polar e Climático – CPC/UFRGS), além dos pesquisadores Humberto M. Ribeiro (LAPSA), Roberto M. dos Anjos (LAPSA-LARA/UFF) e João P. Felizardo (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e apoio do Clube Alpino Paulista, pelo alpinista José N. Barretta Filho.

No próximo mês de fevereiro, a equipe ficará na Base Escudero, do Instituto Antártico Chileno (INACH) que já apoiou os trabalhos em 2015, quando os pesquisadores brasileiros se alojaram na estação antártica chilena Presidente Eduardo Frei Montalva, contando com seu apoio logístico e também com o apoio da Base Artigas, do Instituto Antártico Uruguaio. Como no ano passado, o grupo desenvolverá as atividades de campo referentes a três projetos sobre mudanças ambientais locais e climáticas mediante registros sedimentares, biogeoquímicos e de dinâmica glacial nas ilhas Shetland do Sul, Antártica, financiados pelo CNPq e com apoio do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e INCT Crio.

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Local de descrição e registro de ponto com GPS para validação dos dados da imagem TERRASAR X. [Foto: Carina Petsch]

 

Esta nova expedição continuará as amostragens necessárias para a continuação de pesquisas já em andamento no CPC/UFRGS e LAPSA/UFF com as amostras de sedimentos, coletadas em 2015, de feições geomorfológicas da área proglacial do Domo Bellingshausen para caracterização e mapeamento, e de coletas de testemunhos de gelo no setor frontal daquele domo para datação das camadas por método de Carbono 14.

 

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Coleta de testemunho de gelo para datação das camadas do Domo Bellinghausen. [Foto: Rosemary Vieira]

 

Os dados coletados pela doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia-UFRGS, Carina Petsch, são destinados a seu trabalho de tese para a calibração e validação de dados de imagens de satélite Landsat 8 e TERRASAR X, com fotografias, observações, pontos descritos em campo e valores de turbidez de lagos antárticos na data de passagem destes satélites. Visando compreender o sistema glacial e aporte de água de degelo para os lagos e canais de drenagem foram realizadas medidas de fluxo em canal proglacial.

Dec 16

Defesa de trabalho de conclusão de curso de bolsista do CPC-UFRGS

Foi apresentado pelo estudante José Celso Griebler Jr., em 18 de dezembro, o trabalho de conclusão de curso de Bacharelado em Geografia, bolsista do Centro Polar e Climático. Sua pesquisa sobre Composição e análise isotópica da precipitação em Porto Velho-RO em medidas mensais entre outubro de 2013 e maio de 2014, foi orientada pelo Prof. Rafael Ribeiro (Departamento de Geodésia–UFRGS).

A banca examinadora, composta pelos professores Jefferson Simões (UFRGS) e Elias Assayag (UFAM) avaliou o trabalho de conclusão de curso, em sessão pública, no Auditório do Centro de Estudos em Petrologia e Geoquímica, localizado no Departamento de Geologia do Instituto de Geociências, da UFRGS.

Dec 16

Arsênio das minas de cobre chilenas encontrado na Antártica em pesquisa do CPC-UFRGS

Pesquisadores do Centro Polar e Climático (CPC/UFRGS) encontraram vestígios de arsênio, um elemento tóxico descartado como rejeito da fundição de cobre, em amostras de gelo da Antártica. O trabalho mostrou que o arsênio encontrado na Antártica está associado a mineração de cobre no norte do Chile.

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Milhões de pessoas no mundo estão expostas à água contaminada com arsênio, que se consumida durante um longo período de tempo pode causar doenças crônicas e vários tipos de câncer. O estudo menciona que as concentrações encontradas dessa substância não são suficientes para afetar o ecossistema antártico. No entanto, como parte do contaminante se deposita ao longo do caminho, isso pode revelar-se problemático para o Chile, que já tem um grande número de pessoas expostas aos efeitos do arsênio.

“A exposição prolongada ao arsênio pode causar vários tipos de câncer e doenças crônicas e a descoberta de baixas concentrações na Antártica provavelmente significa altas concentrações no Chile”, disse a principal autora do estudo, a geóloga Franciele Schwanck (doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geociências da UFRGS, orientada pelo Prof. Jefferson Simões) ao diário chileno, La Tercera. O estudo será publicado na revista Atmospheric Environment em janeiro de 2016.

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As atividades de mineração de cobre no Chile tem deixado a população suscetível à contaminação por arsênio. O país é o maior produtor mundial de cobre, respondendo por quase um terço do fornecimento global. A população está exposta ao arsênio através da água potável, do solo e pela poluição do ar.

Em abril de 2014, uma região árida do Chile, na costa do Pacífico Sul, foi declarada uma catástrofe ambiental após testes revelaram a presença de metais pesados tóxicos, principalmente arsênio, em rios, lagos, mares e outras massas de água. O arsênio detectado na água atingiu níveis até 360 vezes maiores do que os aceitos.

No passado, pesquisadores também descobriram altos níveis de poluição por chumbo na Antártica. Um relatório diz que a atividade industrial tem facilitado a circulação de cerca de 750 toneladas de chumbo para a Antártica nos últimos 130 anos.

Dec 09

Grupo de criopedologia do Centro Polar encerra participação na XXXIII Operação Antártica brasileira

Os mêses de janeiro e fevereiro de 2015 foram de muito trabalho em campo para três pesquisadores do Centro Polar e Climático (CPC) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A professora do Departamento de Geografia da UFRGS, engenheira agrônoma Eliana Lima da Fonseca, e os geógrafos André Medeiros de Andrade e Anderson Ribeiro de Figueiredo desenvolveram atividades do projeto “Balanço de energia superficial e seu controle no permafrost e camada ativa da península Fildes e Antártica Marítima, coordenado pelo Prof. Ulisses Bremer.

O doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto, André de Andrade, foi gentilmente acolhido pela Base Artigas, do Instituto Antártico Uruguaio, juntamente com o agrônomo Roberto Michel, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia) e o alpinista do grupo, fotógrafo Ricardo Leizer, do Clube Alpino Paulista, no mês de janeiro. Na ilha Rei George, este grupo coletou os dados obtidos pelos sensores de monitoramento da camada ativa e nível do permafrost, umidade do solo e balanço de energia no experimento instalado em 2014. Os pesquisadores também executaram a manutenção de dois conjuntos de sensores na meseta Norte da península Fildes. Esses dados serão fundamentais para se compreender a dinâmica da camada ativa e do permafrost, bem como a influência exercida pelo balanço de energia no derretimento da neve e do solo congelado.

Topo da Meseta Norte, da península Fildes, com o experimento de balanço de energia instalado na ilha Rei George, Antártica.

Topo da Meseta Norte, da península Fildes, com o experimento de balanço de energia instalado na ilha Rei George, Antártica. (foto: André Andrade, 2015)

Mapa de localização e esquema do experimento instalado na ilha Rei George pelo grupo de criopedologia do CPC-UFRGS.

Mapa de localização e esquema do experimento instalado na ilha Rei George pelo grupo de criopedologia do CPC-UFRGS. (elaborado por André Andrade, 2015)

 

A Profª Eliana da Fonseca e o recém-bacharel Anderson Figueiredo acamparam na ponta Harmony, da ilha Nelson, com o grupo liderado pelo Prof. Carlos Schaefer, coordenador do Núcleo Terrantar, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Nesta ilha, foram coletadas amostras de solos em 23 pontos, que serão analisadas em laboratórios da UFRGS para determinação de teores de carbono.

Acampamento dos grupos Terrantar-UFV e CPC-UFRGS na ponta Harmony, ilha Nelson, Antártica (foto: Eliana Fonseca, 2015).

Acampamento dos grupos Terrantar-UFV e CPC-UFRGS na ponta Harmony, ilha Nelson, Antártica (foto: Eliana Fonseca, 2015).

Profª Eliana da Fonseca coletando amostras de solo na ponta Harmony, ilha Nelson, Antártica.

Profª Eliana da Fonseca coletando amostras de solo na ponta Harmony, ilha Nelson, Antártica.

Jan 28

Travessia Antártica 2015: final da missão e chegada ao Brasil

Cientistas retornam ao Brasil e comemoram o sucesso da Travessia Antártica 2015.

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Na foto, da esquerda para a direita: Jefferson Simões (líder da travessia), Luciano Marquetto, Ronaldo Bernardo e Filipe Lindau.

Relato de Jefferson Simões, líder do grupo, na chegada:

“Missão com sucesso total, 1400 km percorridos em 12 dias, 107 m de testemunhos de gelo e quase uma centena de amostras superficiais.
Reconhecemos o trajeto para transportar o módulo Criosfera 2, no próximo ano.

E agora o trabalho moroso e muitas vezes enfadonho….

Final de missão de campo e agora começa o trabalho de investigação laboratorial das amostras coletadas.
Serão 2 anos de trabalhos em câmaras frias, muitas vezes em dois turnos diários, onde os testemunhos de gelo serão descontaminados, subamostrados e finalmente derretidos. Só então faremos as análises químicas. Mas, evidentemente, as investigações não acabam aqui, com os resultados das análises químicas em mão, finalmente começaremos a interpretar,ambientalmente o que ficou no testemunho de gelo.
Existe algum indício de poluição da América do Sul chegando ao interior da Antártica?

Quais as diferenças em concentrações químicas entre as diferenças áreas atravessadas?
Como as variações do clima afetam essas concentrações?

Existe alguma evidência clara de ligação entre as condições ambientais dos sítios amostrados e o sul da América do Sul?

No próximo verão (2015/2016) instalaremos, a aproximadamente 80°S, o módulo Criosfera 2, mais um avanço das atividades do Brasil na Antártica.

Restará ainda um grande desafio ao Programa Antártico Brasileiro: – Uma missão ao manto de gelo da Antártica Oriental, mais fria, mais alta, mais seca do que a Antártica Ocidental. Mas isso fica para outra vez….”

Jan 22

Travessia Antártica 2015: final da missão, com sucesso!

Equipe brasileira finaliza travessia antártica e chega em Punta Arenas antes do previsto. Sucesso total na missão!

Por Jefferson Simões

Dia 19 de janeiro
Geleira Union, montanhas Ellsworth.

Última dia de trabalho, apesar de um vento muito forte (com rajadas de mais de 40 nós) aproveitamos para coletar uma amostra de gelo azul da geleira Union onde estamos acampandos esperando o avião de transporte para Punta Arenas.

O aparecimento de gelo glacial no interior da Antártica só ocorre em condições especiais e em regiões com intensa sublimação da neve superficial. Basicamente, ventos secos perto de montanhas fazem que a neve que acumule passe para vapor, fazendo que o gelo antigo, que sofreu grande pressão e que devido a absorção da luz tenha tonalidade azul, venha a superfície. Geralmente trata-se de gelo de milhares de anos (ou mesmo de dezenas de milhares de anos) e que portanto não apresenta nenhum sinal de poluição humana. Assim coletamos um testemunho de um metro para termos como refreência.

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Ronaldo Bernardo segurando o testemunho de gelo azul.Se colocado na água, este gelo começará a estalar, devido à presença de bolhas que estão sobre alta pressão. Note a roupa usada para um dia muito ventoso (corta-ventos são essenciais para evitar a hipotermia).

Agora só resta esperar a chegada do avião Ilyushin que nos buscará a partir de amanhã, mas somente quando o vento diminuir sua força (estamos com rajadas de até 45 nós).

Em Punta Arenas ainda teremos que despachar nossos equipamentos nos navios da Marinha do Brasil, encerrar relatórios e enviar para os EUA nossos testemunhos de gelo. Depois, casa!

Dia 20 de janeiro
Vento e neblina! Dia de descanso.

Dia 21 de janeiro
Finalmente nosso voo foi confirmado, às 12:15 nosso avião aterrisou na pista de gelo azul e às 15:00 decolamos
rumo à Punta Arenas. Às 19:30 (horário do Chile) aterrisamos em Punta Arenas e encerramos nossa missão!
Cem por cento das atividades planejadas em tempo recorde!

Jan 18

Travessia Antártica 2015: final do trecho, mas trabalho segue no continente gelado.

Por Jefferson Simões

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Equipe brasileira encerra a travessia antártica e retorna ao acampamento, na geleira Union, onde prepara as amostras coletadas para a viagem.

Dias 15 e 16  de janeiro

18:30 horas

Condições meteorológicos excelentes, então decidimos partir imediatamente para o acampamento base na geleira Union. Em linha reta, estamos a menos de 300 km de distância, mas teremos que atravessar as montanhas Ellsworth no caminho, e atravessar um campo de fendas. Além disso, desceremos de 2120 metros para 720 metros. E é claro, encerramos nossas amostragens de neve superficial.

As condições meteorológicas e da neve perfeitas permitem avançarmos rapidamente, às vezes a mais de 50 km por hora, em algumas partes em até 70 km por hora. Sem dúvida, o transporte com estes veículos está revolucionando a logística polar!

Navegamos toda a madrugada, geralmente acima dos 2000 m, continuando nossa amostragem a cada 10 km. As 6:00 da manhã do dia 16 chegamos ao início do passagem Hewett, que dá acesso a cadeia Heritage das montanhas Ellsworth. Montamos nossas barracas e alguns dormiram nos veículos, tínhamos que esperar a chegada de dois guias da Antarctica Logistics Expeditions (ALE) que já conheciam o passo, os primeiros 2 km atravessam uma área com muitas fendas e só é possível passar pela área seguindo um corredor de cerca de 8 m de largura e que já está demarcado.

Às 11 horas, os dois guias chegaram de motos de neve e atravessamos o passo, seguindo 80 km entre as montanhas, descendo de 1700 para 720 metros no trajeto.

A travessia estava completas às 15:30, quando chegamos ao acampamento base da geleira Union.

A missão foi de total sucesso! Atravessamos 1400 km do manto de gelo da Antártica Ocidental coletando 110 m de testemunhos de gelo e dezenas de amostras superficiais para análise ambiental, levantamos o provável local onde instalaremos o módulo Criosfera 2 (onde acampamos nos últimos 4 dias) e ainda no último dia marcamos a rota para o transporte desse módulo, desde a pista de aterrissagem no gelo azul na geleira Union, até o monte Johns (para o próximo verão austral). Isso tudo rapidamente e sem enfrentarmos muitos riscos (graças à boa navegação, usando imagens visuais e de radares satelitais).

O trabalho não encerra aqui. Nos próximos 3 dias temos que preparar o transporte dos testemunhos de gelo que seguirá para Universidade do Maine (EUA) em câmara frigorífica e o material científico e de acampamento que embarcarão em um dos navios da Marinha do Brasil na cidade de Punta Arenas.

Jan 17

Travessia Antártica 2015: relatos de viagem (4)

Por Jefferson Simões

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O geólogo e doutorando Luciano Marquetto (UFRGS) observa a estratigrafia (sequência anual das camadas de neve) em uma trincheira escavada no monte Johns, manto de gelo da Antártica Ocidental.


Dia 15 de janeiro 

Posição; 79 graus 55,5 minutos Sul: 94 graus 21 minutos Oeste
Altitude: 2123 m
Temperatura 22 graus negativos (Celsius), vento quase nulo.

Hoje completamos a última parte da investigação a partir de nosso acampamento no monte Johns.
Nossa missão do dia: adentrar 100 km na bacia de drenagem da geleira da ilha Pine, amostrando superficialmente a neve e recuperar um testemunho de gelo curto (5 m) para determinar a variação da acumulação de neve nos últimos anos. Mas qual o nosso interesse científico nesta enorme massa de gelo isolada, que corre para o oceano Austral, mais corretamente para o mar de Amundsen?

Vou explicar o caso da geleira da ilha Pine…

Estamos sobre o manto de gelo da Antártica Ocidental, em média 2000 metros acima do nível do mar. Conforme avançamos sobre a geleira da ilha Pine, a espessura do gelo aumenta, atingido 3500 m a 100 km de nosso acampamento. Evidentemente, nessa região o gelo está assentado sobre o continente bem abaixo do nível do mar, no caso até 1600 m abaixo. Se retirássemos todo o gelo da Antártica Ocidental, restaria um arquipélago, e aqui reside o interesse científico da comunidade científica.

Em 1968, o glaciólogo Mercer propôs em artigo marcante a seguinte hipótese: as geleiras que estão assentadas sobre a rocha em uma superfície abaixo do nível do mar são mais sensíveis às variações ambientais, principalmente ao aumento da temperatura das águas oceânicas. Basicamente água mais quente, mesmo em alguns graus, poderia causar o recuo das frente dessas geleiras de maneira rápida, desestabilizando os pontos nos quais ela está assentada sobre a rocha, fazendo com que o gelo deslisasse mais rapidamente para dentro do mar e contribuindo para o aumento do nível dos oceanos (em alguns metros) em pouco mais de um século. Ele inclusive identificou a geleira da ilha Pine como uma das regiões críticas a serem monitoradas para detecção adiantada de tal comportamento!

A partir do início deste milênio, os estudos por imagem satelitais começaram a detectar exatamente um rápido recuo da frente da geleira da ilha Pine. Assim, não causa surpresa o investimento de milhões de dólares por parte da comunidade internacional (principalmente pelos EUA, Reino Unido e Chile) nas investigações dessa e outras geleiras nesta parte do manto de gelo antártico. Nosso missão é uma pequena contribuição, tanto financeira como científica, a esses estudos. Com a instalação do Criosfera 2, no próximo ano, pretendemos avançar os estudos sobre a atmosfera regional e monitorar as mudanças nas condições ambientais.

Voltando ao dia 15 de janeiro – 15:30

As condições da neve estavam tão boas (sem sastrugis, e não afundando) que permitiu que nossos veículos chegassem a 50 km por hora.
Como o tempo estava excelente, chegamos às 15:30 de volta ao acampamento do monte Johns e decidimos “correr” durante as próximos 24 horas em direção ao acampamento base na geleira Union, amostrando a neve ao longo do caminho.

Condições meteorológicos como tivemos nos últimos 10 dias são raríssimas na Antártica, não tivemos nenhum tempestade até agora, e não queremos correr o risco de ficar presos dois ou mais dias em caso de nevasca e visibilidade reduzida. Na parte final do trajeto teremos que atravessar uma região montanhosa cheia de fendas (algumas poderiam engolir nossos veículos) e temos que ter visibilidade perfeita para navegação.

Partimos às 18:50, a “noite” será longa.

Jan 15

Travessia Antártica Brasileira 2015: relatos de viagem (3)

Jefferson no monte johns

Jefferson C. Simões, líder da expedição, em fotografia na frente do acampamento na região do monte Johns
(Posição; 79 graus 55,5 minutos Sul: 94 graus 21 minutos Oeste, Altitude: 2123 m) em 14 de janeiro de 2014.


Dias 13 e 14 de janeiro

Programamos passar quatro noites aqui no “monte Johns”, pois temos muito a fazer: amostrar um trincheira da neve em condições ultra limpas e perfurar dois testemunhos de 20 m.

Dia 13 de janeiro

Posição; 79 graus 55,5 minutos Sul: 94 graus 21 minutos Oeste
Altitude: 2123 m
Temperatura 19 graus negativos (Celsius), vento quase nulo.

Começamos o dia 13 cavando uma trincheira de 3 por 3 metros, por 2 metros de profundidade. Lento e suado trabalho que usou todas as mãos do grupo. Essas trincheiras são essenciais, tanto para amostragem da neve superficial, como também para proteção contra o vento.

Estamos trabalhando dentro da trincheira com temperaturas entre 19 e 20 graus negativos, mas a sensação térmica cai facilmente a menos 30 na superfície desprotegida, o que é evidentemente muito mais doloroso e perigoso. Aliás, falando em frio, sempre estamos com as mãos geladas, pois para manejar as amostras de gelo temos que usar luvas finas cobertas por luvas plásticas (evitando-se assim qualquer contaminação das amostras).

Um de nossos estudos inclui a medição de poluentes transportados de outras partes do hemisfério sul para a Antártica. As concentrações desses poluentes ainda são muito baixas aqui e para medições corretas devemos tomar o máximo cuidado para evitarmos contaminação das amostras (por exemplo, por uma aliança). Assim, muitas de nossas amostragens são feitas nas mesmas condições de laboratórios de chips eletrônicos (ou seja, com roupas ultra limpas, inclusive polainas), o que não é fácil, considerando que temos que tirar parte de nossas vestimentas polares.

amostragem ultra limpa

Ronaldo Bernardo (UFRGS) em roupas de laboratório ultra limpo amostrando neve em uma trincheira na neve antártica. Os pesquisadores brasileiros tentam identificar o transporte de poluentes para o interior da Antártica, por exemplo, o carbono negro (black carbon), um subproduto da queima de óleo e carvão, e também da queima de biomassa.

No dia 14 ainda finalizamos duas perfurações de 20 metros.

Refeições: Ainda persiste o mito no Brasil que missões polares requerem algum tipo de alimentação especial, tal como comida desidratada, ou concentrada. Ora, isso foge da realidade. Nossas missões são, em geral, de longa duração, requerem sim uma alimentação hipercalórica e em alguns casos, devido a limitações logísticas, como nossa travessia com somente dois veículos, temos limitação no peso. Assim, desta vez, alternamos alguns pratos prontos (rações) com congelados, certamente com uma proporção maior de carboidratos, mas com algum tipo de carne todos os dias também.

Nossa principal preocupação é a hidratação, assim mantemos sempre uma panela descongelando neve. Desidratação é um problema frequente na exploração polar.

Amanhã, avançaremos 100 km para dentro da bacia de drenagem da geleira da ilha Paine. Na volta, conto mais sobre esta geleira, seu comportamento recente e por que os glaciologistas prestam tanta atenção à sua dinâmica.

perfuração no gelo

Luciano Marquetto e Filipe Lindau (doutorandos em Geociências da UFRGS) perfuram o gelo dentro de um trincheira no manto de gelo antártico. As amostras coletadas serão usadas para estudar transporte de poluentes pela atmosfera para o interior da Antártica.

 

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