Jacira Cabral da Silveira | Ao lado do prédio da Faculdade de Educação da UFRGS, no Campus Centro, será inaugurado neste semestre o Contraponto: entreposto de saúde, cultura e saber, uma conquista do Núcleo de Economia Alternativa (NEA). Coordenado pelo professor e economista Carlos Schmidt, e assessorado pelos técnicos Gilmar Godoy Ramos e Sebastião Pinheiro, o entreposto comercializará produtos dos empreendedores que já trabalhavam com o Núcleo. Serão ao todo 12 grupos da área de artesanato e confecção e quatro da alimentação de produtores de diferentes localidades do estado.
“É uma iniciativa inovadora dentro de uma universidade, mas vamos enfrentar dificuldades na mudança de atitude de consumo.” A observação é do tesoureiro da Cooperativa Mista de Produção e Serviços Arquipélago (Copal), Amilton Antônio da Silva, órgão responsável pelo gerenciamento do rodízio dos grupos na utilização do ponto de venda. Por outro lado, ele acredita que outras instituições de ensino superior “vão se inspirar na idéia”.
Kátia Barfknecht, terapeuta ocupacional e uma das fundadoras do GerAção POA, que trabalha com material reciclável na produção de papelaria e produtos serigrafados, também comemora a criação do Contraponto. Ela destaca a relevância da inserção da economia solidária no espaço acadêmico, tanto por ser um local de cultura e educação quanto pela grande circulação de pessoas em formação. “É importante poder pensar de outro jeito sobre mercado e capital”, comenta a terapeuta, para quem a solidariedade é um dos vértices de projetos como esse.
Alguns entraves — O projeto tem o apoio da Secretaria Nacional de Economia Solidária, geradora da política pública junto ao governo federal, através do secretário Paul Singer, em conjunto com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), operadora do financiamento. De acordo com o professor Schmidt, a tramitação para viabilizar a construção do posto de venda iniciou em 2005 e a liberação da verba ocorreu no ano seguinte. Entretanto, alguns empecilhos retardaram o início da obra, orçada em R$ 36 mil.
Um deles foi a dúvida levantada pela Secretaria de Patrimônio Histórico da UFRGS, que procurou garantir a legalidade da edificação de um prédio novo na área de preservação histórica. Solucionada esta e outras questões de ordem administrativa, começou o processo de compra do material de construção. O que deu início a outra caminhada lenta, pois, devido às exigências previstas no projeto, as empresas contatadas deveriam trabalhar com material ecologicamente correto. Pesquisa de mercado e licitações tornaram o processo ainda mais demorado.
Conforme Schmidt, o cálculo para o orçamento da obra partiu do valor do metro quadrado do custo unitário básico (CUB), mas, como o projeto foi realizado dentro do conceito de bioconstrução, esse custo aumentou, acarretando a redução do tamanho original da obra, que ficou em 27m2 . “Tudo foi feito no sentido de aproximar, tanto a obra em si quanto o trabalho a ser realizado neste espaço da idéia de sustentabilidade ambiental”, explica o professor. Segundo ele, os móveis sob medida também foram construídos com madeira de reflorestamento ou de demolição.
Enfoque pedagógico — Vários conceitos estão em jogo quando se fala em economia solidária: inclusão, sustentabilidade, solidariedade. Preceitos holísticos e uma prática pedagógica multidisciplinar caracterizam o Contraponto do NEA. Convergência de saberes é a definição de Schmidt para o espaço, que não só comercializará produtos, como também servirá de fonte de estudo e pesquisa para diferentes áreas de conhecimento da Universidade. No campo da economia, por exemplo, ele afirma que será possível aprofundar questões referentes à teoria do consumidor e novas formas de troca de material. Em Arquitetura, serão organizadas oficinas a partir dos conceitos de bioconstrução e sustentabilidade. A primeira delas, intitulada “Cobertura verde” ocorreu no dia 4 deste mês.
E como os produtos comercializados têm por princípio, tanto aspectos preventivos para a saúde quanto as formas sustentáveis de produção, “espera-se que o consumo não seja um consumo alienado”, reforça o economista. “Por isso a idéia de contraponto”, diz ele, “para mostrar que o ato de consumir não é apenas o de comprar alguma coisa, baseado no preço ou na imagem produzida pela publicidade. Implica consciência política e social, porque tudo no Contraponto é produzido numa relação social que não envolve exploração: é uma relação associativa, pautada pela igualdade”.
Arquitetura sustentável — Cristian Illanes e Gustavo Jaguet são os responsáveis pelo projeto arquitetônico do Contraponto. Illanes, graduado em Arquitetura pela UFRGS e professor na Ulbra, explica que o prédio é uma obra efêmera, pois pode ser desmontada e remontada em outro lugar, conforme a necessidade do NEA.
O segundo aspecto que ele salienta é que o material utilizado é de baixíssimo impacto ambiental, usando basicamente a madeira. “Só utilizamos madeira certificada, originada de reflorestamento ou de demolição.” As vigas empregadas na estrutura principal são provenientes de material de demolição, “possivelmente de araucária, resistentes aos cupins”. As esquadrias e chapas são de madeira de reflorestamento, principalmente eucalipto.
A água da única pia não é destinada à rede de esgotos e sim para uma vala de infiltração, mecanismo que absorve a água para ser reutilizada no jardim localizado ao lado do espaço, devolvendo-a ao ambiente. O telhado é feito com a chamada cobertura verde, composta por uma lâmina de matéria orgânica que dá várias características de sustentabilidade à obra. Já está sendo planejada também a implantação de placas solares, senão para o aquecimento, pelo menos para a geração de energia elétrica. O espaço interno da loja será dividido em três ambientes: comercialização de alimentos, de artesanato e espaço de convívio com duas ou três mesinhas. “Mais do que uma construção, é uma luta ética, de educação e de ideal,” lembra o professor-arquiteto.
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De acordo com o coordenador do Núcleo de Economia Alternativa da UFRGS, professor Carlos Schmidt, todas as mercadorias do Contraponto resultam de uma rede de ações que preservam o meio ambiente e as relações de produção associativa. Gilmar Godoy Ramos, um dos assessores do Núcleo, diz ainda que pelo menos dois produtos à venda no espaço destacam-se pelo apelo étnico e ecológico: “O arroz Quilombola produzido pelas comunidades de Mostardas, Casca e Tavares e os produtos feitos pela grife Justa Trama, fabricados com algodão ecológico. Toda a cadeia produtiva é realizada por cooperativas e associações de economia solidária. O arroz é cultivado sem nenhum tipo de agrotóxico e adubado por compostos biorgânicos e farelo de rocha (bio-mineralização)”.
Duas grandes áreas concentram as atividades dos grupos: alimentação, composta pelo Grupo de Mulheres Sagrada Família, Cooperbom, Beijo Frio, Eco Citrus e Fazenda São Pedro; e confecção e/ou artesanato, formada pelo grupo de mulheres Grife Morro da Cruz, Victoryes, Cooperativa Unidas Venceremos, Refazenda, Educando e Produzindo a Vida, Construsol, Coopermodas, Reciclando pela Vida, Novos Horizontes, Beabá, Grupo de Mulheres Zona Sul e GerAção POA. |
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