Contra o senso comum
Aula magna Professor Nélio Bizzo, da USP, explorou pontos não difundidos da
trajetória de Darwin
   
     British Library / Divulgação
     
Caroline da Silva | Quando um professor se preocupa com o ensino, ele dá atenção a todos os ângulos de determinado tema. Muito se fala de Charles Darwin em Galápagos, da viagem do Beagle a locais exóticos, mas não se discute o real motivo daquela expedição para um navio da marinha britânica. Definindo-se como um “opositor do galapagocentrismo”, o docente da Universidade de São Paulo Nelio Bizzo ministrou aula magna na UFRGS por conta do Ano de Darwin, que demarca o bicentenário de seu nascimento e os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, obra que revolucionou a Ciência.

Darwin: O Postilhão dos Andes foi o título escolhido para a palestra realizada no dia 16 de setembro, que também comemorou os 75 anos da Universidade. Na abertura, o reitor Carlos Alexandre Netto destacou que o evento assinalava um momento significativo para a Instituição, já que a aula magna marcou a retomada do semestre letivo e a efervescência dos debates na academia. Ao final, Bizzo autografou a nova edição de seu livro Charles Darwin – no telhado das Américas.

Aula de história – Com uma trajetória substancialmente relacionada à educação, a formação do paulista Nelio Bizzo começou com a graduação em Biologia, seguida do mestrado em Genética e do doutorado em Educação, sempre pela USP. Essa capacitação multidisciplinar talvez o tenha transformado em crítico das abordagens que desprezam as motivações na Ciência – contudo, ele não chega a chamá-las de alienadas.

Ao falar da expedição de Charles Robert Darwin no navio Beagle, considera o contexto em que aquela viagem ocorreu: “Havia vários interesses confluindo nessa época. As Ilhas Malvinas tinham acabado de virar Ilhas Falklands, certo? Por que essa obsessão em conquistar um território longe do continente, onde seria mais fácil defender uma possessão?”. Ele também menciona o armamento fornecido ao Uruguai pela Inglaterra, “fomentando a criação de uma República independente tanto da Argentina quanto do Brasil”.

O professor explicou que, em 1832, a história brasileira vivia um período conturbado, com uma revolta armada pela regência no Rio de Janeiro. “Dom Pedro estava nos Açores, organizando a guerra civil nas ilhas – aliás, o Beagle quase cruzou com ele. Não estamos falando de uma sucessão de coincidências. A Inglaterra estava fazendo pesados investimentos e tinha muito interesse na independência das colônias espanholas.”

Bizzo defende que para os britânicos era vantajoso um Brasil estável, pois tinham imposto um tratado comercial em 1827 em troca do reconhecimento à nossa Independência. “Esse acordo, sobre o qual se fala pouco, precisa ser resgatado, porque a Inglaterra impôs taxas pesadíssimas ao Brasil, conseguindo isenções fiscais maravilhosas para seus produtos. Muito da devastação da Mata Atlântica se deve a esse tipo de tratado feito naquele período.” Na interpretação inglesa, após o “brado do Ipiranga”, Dom Pedro adotou o título de Império porque queria ter possessões na África. “Essa é uma coisa que sempre perguntei a professores de História e nunca me explicaram: por que uma nação fica independente do Reino e, em vez de ter um rei, tem um imperador?” Em um cenário de produção açucareira e comércio de escravos, o imperador assumiu, diante de uma série de cláusulas do acordo com os britânicos, o compromisso de não estabelecer colônias no outro lado do Atlântico.

Na opinião do pesquisador, é evidente que a temática Darwin está nessa teia de relações, por isso gosta de mostrar como não se pode dissociá-la da geopolítica e da economia da época.

Interesses geopolíticos – Nelio Bizzo conta que a antiga ‘matriz’ queria ter posse do único caminho possível ao outro oceano: o extremo sul da América do Sul. O Cabo Horn, a passagem mais óbvia, era muito perigoso: “O ouro daquela região não podia passar por ali, correndo o risco de afundar”. O Canal de Beagle, descoberto pelo navio inglês na viagem anterior, era a passagem segura: “Por isso tinham que voltar lá para terminar o mapeamento e ver se de fato as águas que permitiam acessar o Pacífico eram mansas”. Não existia o Canal do Panamá, e a Inglaterra havia tentado por muito tempo um caminho pelo Norte.

Da expedição, ficou a fama das Ilhas Galápagos (onde permaneceram por somente três semanas), mas o grande alvo era a Terra do Fogo, que concentraria o objetivo geopolítico da Inglaterra. A ideia era fundar ali uma colônia, o que explica a ocupação das Malvinas para a criação de um enclave britânico. “O Beagle passou muito tempo no Uruguai, recém-separado da província Cisplatina, porque os ingleses tinham interesse em manter uma República independente capaz de garantir estabilidade e apoio logístico para essa rota”, analisa Bizzo.

Sendo Darwin membro de uma família de parlamentares, tinha a dimensão real do propósito do Império Britânico com aquela navegação. O Beagle tinha instruções de guerra, estava armado com canhões e marinheiros com treinamento militar. “Não era um barco oceanográfico, mas um navio de guerra.” Ele ressalta que, para fazer o levantamento cartográfico, a questão crucial eram os cronômetros, que tinham grande importância, equivalendo a um segredo militar. “A tripulação estava armada até os dentes para proteger os cronômetros, porque, se eles fossem roubados, o inimigo teria acesso a instrumentos que permitiriam fazer mapas precisos, cujo aperfeiçoamento havia levado quase 200 anos. Fora uma coisa épica construir esses cronômetros, que podiam ficar no mar balançando sem perder a precisão, ir do Ártico ao Equador sem que a dilatação afetasse a sua precisão. Era um equipamento de alta tecnologia.”

Fábricas de espécies – Outro ponto abordado por Bizzo é o fato de que o surgimento de espécies em ilhas não foi uma descoberta de Darwin. “Era quase um lugar comum, até mesmo dentro do Beagle. Na viagem, o naturalista tinha um livro de Bory de Saint-Vincent chamando as ilhas de fábricas de espécies, que transbordavam delas para os continentes. Portanto, haver bichos exóticos em ilhas era o que mais se sabia, não havia novidade alguma nisso.”

O professor da USP cita Pasteur – “o acaso só favorece a mente preparada” – para destacar a contribuição do britânico para a Ciência. Ele diz que muitas pessoas já tinham feito viagens, inclusive naturalistas: “Mas o fato é que Darwin teve a oportunidade de utilizar a Geologia mais avançada da época e estava em contato com grandes especialistas e diversas áreas, como Zoologia e Botânica”. Bizzo cita a vantagem de coletar um material muito rico ao visitar locais endêmicos, chamados de hot spot de diversidade, com espécies únicas. Segundo o pesquisador, a ideia de evolução nem era tão inédita assim, mas ele se valeu de especialistas, muitos deles absolutamente avessos ao conceito, para dar um novo sentido à viagem: o de entender como a biodiversificação é um processo inerente à própria vida.

 

Os Andes e o tempo geológico

   
     Para o pesquisador, a temática da evolução se  situa no meio de uma rede de relações a ser  contemplada | Foto: Cadinho Andrade / JU
     

“A cultura universal só conseguiu ompreender os processos evolutivos depois de ter entendido a extensão do tempo geológico.” Essa é a mensagem que o postilhão Darwin trouxe dos Andes – apelido dado pela sua namorada à época, postilhão era o mensageiro encarregado de grandes missões.

O professor Nelio Bizzo pesquisa questões de ensino de evolução e conclui que o elemento determinante para o naturalista compreender um processo tão complexo como o evolutivo é na verdade o grande empecilho para que os estudantes de hoje possam entender a evolução biológica em termos corretos: “Porque o tempo geológico não é intuitivo, ele é contraintuitivo”. Didático, ele toma como exemplo o vidro da mesa de centro do Salão Nobre da reitoria e diz que é difícil conceber que os átomos de silício e oxigênio daquele material estão juntos há bilhões de anos.

Fato pouco conhecido da história de Darwin, ao observar a formação geológica da Cordilheira dos Andes (que o professor compara a um pavê), o cientista encontrou fósseis marinhos a quatro mil metros de altitude e teve a certeza da extensão do tempo geológico. “Seguramente, se Darwin não tivesse conhecido os Andes, não teria escrito a teoria da evolução”, afirma categoricamente Nelio Bizzo.