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| Sobrevida Especialistas discutem as dimensões do caos social sofrido pela população chilena após o abalo sísmico |
Jacira Cabral da Silveira Proporcional à magnitude de 8,8 graus na escala Richter do terremoto que colapsou o Chile no dia 27 de fevereiro e à intensidade das consequências na superfície, o geógrafo e professor do Departamento de Geografia da Universidade do Chile, Hugo Romero, diz serem os efeitos na população, que mergulhou num caos social. Além do sentimento de dor pelas perdas humanas e materiais, Romero atesta que o povo chileno foi vítima e algoz em situações de saque e vandalismo: “Essas atitudes parecem estar diretamente relacionadas à magnitude das perturbações (desastres naturais, sociais e políticos) e, inversamente, à força das redes e instituições sociais, por que sua ocorrência e gravidade dependem dos níveis de organização, equidade, justiça e transparência das organizações”. De acordo com o relato do professor, três dias após o abalo sísmico, moradores tanto de bairros periféricos como de regiões de classe alta e média saquearam estabelecimentos comerciais, assaltaram edifícios públicos e residenciais. Alguns chegaram a praticar atos de vandalismo, incendiando e destruindo construções e instalações de infraestrutura. Atitudes que provocaram espanto e temor geral no país. Segundo o professor, em toda parte, vizinhos de bairros e moradias organizaram-se e chegaram a empunhar armas de fogo para se defender diante dos “inimigos reais e imaginários”, muitos deles encorajados por rumores que circularam intensamente na Internet. Os materiais roubados nos centros e nas áreas comerciais das cidades mais devastadas viraram mercadoria para venda nos bairros residenciais mais pobres. Enquanto isso, a polícia e os bombeiros dividiam o tempo entre o resgate de mortos e feridos e a coação aos crimes, sem contar a agravante da falta de iluminação: “No Chile, a eletricidade é interrompida quando um sismo supera os 6,5 graus para evitar incêndios e eletrocussão da população”, relata. Numa tentativa de compreender o que ocorreu após o abalo, Romero comenta que os desastres posteriores aos terremotos são essencialmente sociais, e as vulnerabilidades são, na sua maioria, sociais, políticas e culturais. “Por isso é que temos aprendido violentamente que tão importantes quanto os terremotos naturais são os terremotos sociais. A vantagem é que o controle destes e do caos social resultante depende inteiramente de nós”, reflete. Consciência sísmica - Rualdo Menegat, geólogo do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS, concorda com Romero: “A cidade fica um caos, não só pela ruína material e pela perda de vidas humanas, mas pelas pessoas, que ficam muito fragilizadas. O terremoto abala o espírito humano também”. Pesquisador dos fenômenos da Terra, Menegat vivenciou em 2001 um terremoto de 8,4 graus de magnitude quando realizava uma série de palestras em Arekipa, no Peru. Logo após o abalo sísmico, juntou-se à equipe de socorro imediato. Da experiência, ficou a certeza de que “vencer a depressão espiritual depois do terremoto talvez seja a maior de todas as dificuldades”, comenta. Ainda que os estudos na compreensão dos terremotos tenham avançado muito em âmbito mundial, Menegat critica a mania dos latino-americanos de apenas chorar e não reagir culturalmente. “Precisamos vencer essa inércia na América Latina.” Para Romero, algumas providências poderiam amenizar os efeitos das perdas materiais dos terremotos, tais como: não ocupar terras arriscadas, produzir mapas de riscos em todas as escalas, construir espaços de segurança nas áreas urbanas, fazer cumprir normas de construções e instalações sísmicas e não ultrapassar os quatro andares. Menegat atribui uma parcela dessa letargia (comportar-se como se não existisse a possibilidade de ocorrer um terremoto nas regiões sísmicas) ao fato de tais fenômenos sempre terem feito parte da compreensão mítica dos mistérios da Terra: “Os terremotos não só produzem abalos em nossas edificações, mas também influenciam nossas compreensões O geólogo conta que havia, entre os deuses da Grécia antiga, um de nome Hecatonguiro, filho de Gaia. Ele vivia no interior da Terra e possuía cem braços e cem pernas. Quando se mexia, por ser muito desajeitado, a Terra toda se movia. Também no Peru, na civilização Moche, entre 100 a.C. e o ano 800, havia o Degolador, um deus que, embora não fosse mau, representava o tsunami. “Para os moche, o terremoto ocorrido no Chile seria uma ação do Degolador. Isso existe na cultura ancestral da nossa América”, comenta o geólogo. Edson Luiz André de Sousa, psiquiatra e professor da UFRGS, assim como Menegat, também considera que as concepções de mundo e da natureza são construídas no percurso histórico. Ele menciona a Igreja que durante muito tempo controlou certas “verdades” científicas, tentando preservar seus dogmas, assim como ocorreu com Kepler e Copérnico, que ousaram tirar a Terra do centro do sistema. Mas a natureza não se vinga, insiste Menegat, ela é o que é, e cabe ao homem entender a sua dinâmica: “O que diria um inca olhando esse desastre no Chile? Nos chamaria de estúpidos. Todas as construções incaicas eram antissísmicas por natureza”, explica o pesquisador. Com base nessa potencialidade ancestral, Menegat condena outra mania As tecnologias antissísmicas para os países latino-americanos não podem ser as mesmas desenvolvidas no Japão, alega o geólogo. “O que de melhor podemos fazer pelo Haiti e pelo Chile é pensar tecnologias populares. Não podemos buscar alternativas caras, como as sapatas hidráulicas japonesas.” O professor da UFRGS compara a defasagem entre as verbas para pesquisa destinadas ao desenvolvimento de tecnologias espaciais e aquelas aplicadas em áreas como o estudo dos terremotos, por exemplo. “Estamos construindo uma estação
Sobreviver ao fora de ordem Se uma catástrofe como a vivida no Chile coloca em cena um “fora de ordem”, o desafio para cada um que sofre seus efeitos é tentar encontrar um sentido para o que vivenciou. Experimenta-se, portanto, o movimento de tentar construir alguma representação para esse excesso traumático. A análise é do psicanalista e professor dos Programas de Pós-graduação em Psicologia Social e em Artes Visuais da UFRGS Edson Luiz André de Sousa. Ele define como trauma justamente o residual de um acontecimento que ultrapassa o indivíduo, surpreendendo-o, e para o qual não tem, em princípio, uma representação ao seu alcance. Nesse caso, o trabalho psíquico será justamente encontrar algum lugar na linguagem para esse “fora de ordem”. “Há muitas ordens de catástrofes: as produzidas pela natureza e, evidentemente, as catástrofes arquitetadas pelo humano e produzidas na história da humanidade, como a shoah (holocausto) nazista.” De acordo com o pesquisador do CNPq e um dos coordenadores do Laboratório de Psicanálise, Arte e Política da Universidade, as explicações históricas e científicas ao mesmo tempo que nos ajudam a entender alguns mecanismos desses fenômenos, não garantem ao sujeito uma superação do trauma sofrido. Isso porque cada catástrofe desafia singularmente o indivíduo a se posicionar subjetivamente Sigmund Freud, pai da psicanálise, enfatizava a condição de negar do sujeito, de recalcar o que a realidade produz. “No fundo, é uma defesa narcísica e, diria, até certo ponto, necessária. Contudo, é importante salientar a força do psiquismo para superar esses traumas.” Freud, lembra o professor, sempre pensou o luto como um trabalho, um esforço de reconstrução do mundo, de reinvenção da vida. “Essas catástrofes nos mostram também essa força humana”, relaciona. Por outro lado, nem sempre as pessoas conseguem sobreviver às catástrofes do ponto de vista psíquico, pois sucumbem psiquicamente a esses acontecimentos, sem jamais conseguir recuperar a vida que levavam anteriormente. Edson diz que o fundamental para analisar o tema talvez seja perceber que o que resta da catástrofe seja o compromisso de testemunhar e, assim, poder transmitir a outros essa experiência. “Aqui há um horizonte de vida. Talvez aí se encontre algo de uma potência de vida. Isso porque narrar a um outro é uma forma de elaboração do trauma”, conclui.
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