De onde vem a gagueira?
Saúde Pesquisas pioneiras no Brasil comprovam que o distúrbio não tem fundo emocional
O designer gráfico Geraldo Mottola, que convive com a gagueira desde a infância, considera fundamental o tratamento fonoaudiológico - Foto: Flávio Dutra / JU
 

Diante de um auditório ansioso pela conclusão da ideia, as sílabas custam a sair. Palavra após palavra, a frase estaciona nos trilhos do discurso e não consegue correr livremente até o seu destino. A impaciência então se transforma em angústia para quem fala, desacelerando ainda mais o ritmo de compreensão da mensagem. Essa é uma cena típica de quem sofre de gagueira, mal que atinge em média 1% da população mundial. Entretanto, a gagueira não é causada por fatores emocionais, mas está relacionada a um mau funcionamento do cérebro.

O que caracteriza o problema são prolongamentos, hesitações e repetições de sílabas ou palavras em determinado grau que rompem a fluência da linguagem e dificultam o entendimento do que está sendo dito. Na tese de doutorado defendida no ano passado no Instituto de Letras da Universidade, a fonoaudióloga Anelise Bohnen demonstra que a disfluência acontece 97% das vezes na primeira sílaba das palavras, seja longa ou curta, átona ou tônica. Ela esclarece que, apesar de a língua ser um elemento dinâmico, as palavras gaguejadas apresentam as mesmas características, reforçando a ideia de que o distúrbio está diretamente associado a problemas de articulação da linguagem, e não a fatores emocionais ou circunstanciais. Ao longo de várias décadas, conforme a pesquisa, o fenômeno tem o mesmo perfil. “Isso comprova que, estando na área da linguagem, a gagueira está relacionada ao funcionamento cerebral”, afirma a pesquisadora. Segundo o estudo desenvolvido por Anelise, 48% das palavras gaguejadas são monossilábicas, predominantemente preposições e conjunções. A explicação disso é que, ao que tudo indica, o cérebro prefere “trancar em palavras pequenas porque elas não prejudicam o significado e a compreensão do ouvinte, o que também acontece em outras línguas”, aponta.

A raiz do problema está em um comando neurológico que falha por causa da produção em excesso de dopamina, um dos controladores das ações involuntárias. Quando esse neurotransmissor sai da medida, o cérebro precisa reordenar os seus trabalhos e, enquanto isso, os movimentos que garantem a fluência são rompidos. Embora ainda não se saiba o porquê da produção desequilibrada da dopamina, estudos do Instituto Nacional de Desordens da Comunicação dos EUA indicam que a origem desse desequilíbrio pode ser um fator genético. Assim, a reciclagem celular de neurônios estaria comprometida devido a mutações em genes específicos. Anelise confirma o prognóstico: “Sabe-se que há um componente hereditário importante. Mais de dois terços da população que gagueja tem história familiar”, expõe.

Como e quando tratar - O distúrbio costuma ser detectado entre os dois ou três anos de idade, quando o processo cerebral da formação da linguagem atinge seu ápice. Se o tratamento for iniciado ainda nessa fase, as chances de melhora são quase totais. Anelise esclarece que a gagueira tende a agravar-se à medida que a pessoa se aproxima da fase adulta, pois o cérebro aprende por repetição. “A fala é a área motora da linguagem. De tanto repetir algo que não está adequado, vou deixar meu cérebro craque em gaguejar, assim como um esportista ou um músico em relação às respectivas habilidades.”

Os pais de uma paciente contam que detectaram a gagueira na filha a partir da sua crescente dificuldade de completar algumas palavras e logo buscaram auxílio fonoaudiológico. “Nossa filha, que recebeu acompanhamento desde antes dos três anos, após um tratamento de aproximadamente nove meses, não apresenta mais nenhum sinal da doença”, revelam. Caso semelhante é exposto pela família de um menino que teve a gagueira avaliada aos quatro anos. A mãe destaca a relevância do acompanhamento fonoaudiológico e lembra que o progresso é lento e gradual.

Apesar de o distúrbio não apresentar causas emocionais, a ansiedade e o estresse podem exacerbar as manifestações da doença. Enfrentar uma entrevista de emprego ou articular uma ideia diante do público são momentos nos quais a gagueira se torna mais saliente e a pessoa tende a se retrair. Uma das maneiras de conduzir a terapia é justamente induzir o paciente à fluência, recriando essas circunstâncias em consultório. Cabe ao fonoaudiólogo avaliar e tratar das questões técnicas e motoras, não dos aspectos emocionais. O que se pretende, em muitos casos, embora cada paciente apresente especificidades ao manifestar a doença, é reduzir a velocidade da fala. “As pessoas que gaguejam têm tendência a falar muito
rápido, porque estão trancadas. De repente, sentem que devem recuperar o tempo perdido e acabam gaguejando. Reduzir a velocidade de fala é importante porque dá tempo para o cérebro organizar-se melhor”, explica Anelise.

Há diferentes níveis de gagueira, e mesmo adultos com um padrão mais severo do distúrbio podem progredir bastante. Nesses casos, é indicado que o tratamento seja mantido por um longo tempo, de forma que a habilidade de falar com fluência seja constantemente aprimorada. Para uma professora que detectou a gagueira na adolescência, os melhores resultados foram obtidos aos 41 anos, com o intuito de resolver a gagueira que afetava suas pregas vocais, a respiração ao falar e a intensidade de emissão vocal.

O designer gráfico Geraldo Mottola aprendeu a encarar com bom humor a gagueira, acentuada aos 8 anos de idade. Apesar de ter sido tratado unicamente por psicólogos, defende o trabalho integrado entre a fonoaudiologia e a psicologia. “Posso assegurar que é uma situação dificílima para uma criança lidar. Na ansiedade de falar, desordenamos a respiração. Se um dos meus filhos tivesse esse tipo de problema, investiria no tratamento
fonoaudiológico e acompanharia ainda mais de perto sua vida escolar.”

Embora as perguntas sobre a origem da disfunção cerebral responsável pela gagueira ainda estejam sem reposta, associá-la à linguagem, e não simplesmente à ansiedade, já é um grande passo para incrementar o tratamento.

 

Medicação acena com possível cura

Pesquisas apontam que, nos próximos anos, quem sofre de gagueira terá acesso a uma medicação capaz de minimizar o problema. Avanços na área da neurofarmacologia sinalizam que determinadas substâncias reduziriam a produção de dopamina – neurotransmissor que, em excesso, compromete a articulação da linguagem pelo cérebro e intensifica os sintomas do distúrbio.

O médico e pesquisador americano Gerald Maguire, da Universidade da Califórnia, comanda um grupo de cientistas que atualmente investiga, além de formas de bloquear a dopamina, substâncias para ativar as funções de um outro neurotransmissor, o GABA, que aprimora as atividades cerebrais e reduz os sintomas ansiosos associados à gagueira. Essa medicação, conhecida como pagoclone, tem mostrado dados encorajadores, conforme Gerald. Ele explica que a equipe vem testando os efeitos do pagoclone individualmente, a fim de averiguar como ele atuaria sem a terapia do fonoaudiólogo. No entanto, já se pode considerar que o uso do remédio, combinado com o acompanhamento das técnicas de fala, resultaria em melhoras significativas. “Os tipos de tratamentos que existem atualmente não curam a gagueira, mas amenizam seus sintomas consideravelmente. A partir do conhecimento das causas genéticas
do distúrbio, é plausível que sejamos capazes de desenvolver, aí sim, a solução para o problema”, argumenta. Se as pesquisas seguirem no ritmo em que se encontram, a FDA (Food and Drug Administration) – órgão estadunidense controlador de alimentos e da medicação – deve aprovar o produto em breve.

Enquanto a cura da gagueira ainda não é realidade, vale apostar, por exemplo, na própria voz de quem gagueja, que também pode ser um forte aliado no tratamento dessa disfunção linguística. A fonoaudióloga e pesquisadora Anelise Bohnen ilustra que a pessoa, em muitos casos, para de gaguejar quando alguém a acompanha na leitura de um texto: “É como se uma segunda voz atenuasse as hesitações ou os prolongamentos da fala, abrindo caminho para a fluência”, elucida. A solução, portanto, é fazer com que o paciente escute sua própria voz, modificada eletronicamente e emitida um pouco depois da sua formulação. Isso é feito por um aparelho acoplado à orelha e que já pode ser encontrado no mercado, chamado Speecheasy.

O avanço da genética, das imagens cerebrais e das pesquisas farmacêuticas, conforme Maguire, fazem com que a gagueira seja atualmente melhor entendida: “Hoje se interpreta esse distúrbio como uma disfunção neurológica, e não mais como uma consequência emocional ou comportamental”, conclui o pesquisador.

Maria Elisa Lisbôa, estudante do 8.º semestre de Jornalismo da Fabico

 

A gagueira na web

O Instituto Brasileiro de Fluência (IBF) está na Internet e disponibiliza artigos, notícias, vídeos e depoimentos informativos a respeito da gagueira. O endereço eletrônico é www.gagueira.org.br/. Além do IBF, pacientes da disfluência também podem participar de listas de discussão e grupos de apoio por meio da Associação Brasileira de Gagueira, acessível pelo link www.abragagueira.org.br. Para quem deseja acompanhar os passos da pesquisa sobre o medicamento contra a gagueira da Universidade da Califórnia, as opções na rede são www.stutteringstudy.com e www.healthcare.uci.edu/psych/stuttering