Diálogo (não) expresso
América Latina Dois professores de Literatura opinam sobre o intercâmbio as obras

Caroline da Silva

Antônio Sanseverino e Luís Augusto Fischer, professores de Literatura Brasileira da UFRGS,
viajaram à capital argentina em março integrando a comitiva do evento Expresso Porto Alegre en Buenos Aires. Sanseverino participou de um curso no Centro Cultural Ricardo Rojas, da Universidade de Buenos Aires, com o secretário Municipal de Cultura Sergius Gonzaga, também docente de nossa Universidade. A dupla já havia realizado iniciativa semelhante em
Montevidéu em 2007.

Fischer ministrou com Arthur de Faria três encontros sobre música popular brasileira. A fim de discutir a interação – ou a falta dela – entre as culturas literárias latino-americanos, o Jornal da Universidade propôs as mesmas questões aos dois pesquisadores, contrapondo as impressões sobre as diversas escritas.

 

Foto Flávio Dutra
 

JU - O que, da literatura brasileira, se pode dizer que é bastante publicado atualmente nos países vizinhos, como Argentina e Uruguai?
Luís Augusto Fischer Creio que só mesmo o óbvio: Jorge Amado e Paulo Coelho, em grande escala. Mas já começam a aparecer vários outros autores mais recentes e mais qualificados. Nesta ida, eu vi nas livrarias livros do Dionélio Machado, do João Gilberto Noll e do Caio Fernando Abreu, além de livros de poemas da Adélia Prado e do João Cabral. Saiu nova tradução de Grande sertão: veredas, feito notável. Até o fim do ano sai uma antologia da poesia do Mario Quintana.

JU - É verdade que eles não têm dimensão da importância de Machado de Assis para a nossa prosa?
Fischer - Não têm não, quase nem o conhecem, nem mesmo os que estudam literatura brasileira. Preferem gente mais nova, mais próxima da experiência recente, ou os modernistas. Oswald de Andrade parece falar muito à alma dos portenhos, assim como os poetas concretos.

JU - De fato, que autores brasileiros são conhecidos na América Latina?
Fischer - Os dois que citei e mais pouquíssima coisa. Em alguns lugares se encontram livros do José Mauro de Vasconcellos, que aqui ninguém lê mais, mas que por lá tiveram grande êxito por muitos anos. Os nossos maiores, de fato – Machado, Drummond, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues –, simplesmente não são lidos por lá.

JU - E quais obras de autores latino-americanos, de maneira mais abrangente, são difundidas e analisadas no Brasil?
Fischer - De maneira abrangente, que alcance o ensino médio, nenhuma obra hispano-americana é conhecida no Brasil. No circuito universitário, há alguns autores de relativa leitura, como Cortázar e Borges, mais García Márquez e alguma coisa do Vargas Llosa.

JU - Que obras de autores latino-americanos deveriam ser destacadas e estudadas em nosso país?
Fischer - Borges e Cortázar, para começar. Dos mais recentes, Juan José Saer, Tomás Elói Martinez, Mário Levrero. Assim como os mais novos ainda: Ricardo Piglia, Alan Pauls, Rberto Bolaño e outros.

JU - Pode-se concluir que o nosso país, por ser o único em que se fala português no continente, tem a sua literatura menos difundida?
Fischer É um desconhecimento recíproco. Ocorre que a gente não teve um representante no chamado “boom” dos anos 60 e 70, quando muitos autores, então jovens, apareceram na Europa e, por isso, chamaram a atenção da opinião mundial. Foi o caso do colombiano García Márquez, do peruano Mário Vargas Llosa, dos argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Em torno deles, circulou todo um grupo de escritores. E é preciso levar em conta outra fragilidade nossa: é que os hermanos escrevem em espanhol, que é uma língua culta na Europa (isso sem contar que quem escreve em espanhol sempre pode querer “acontecer” na própria Espanha, um grande mercado de livros). Nós, de nossa parte, escrevemos em português, língua que na Europa não é respeitada como veículo de grande cultura letrada, dada a fragilidade de Portugal.

JU - Essa falta de conectividade poderia ser sanada com a recente aprovação da obrigatoriedade do ensino de espanhol nos níveis fundamental e médio?

Fischer - Certamente, mas não se pode ter certeza de que as leituras que serão realmente feitas vão alcançar autores do século XX; há uma tendência talvez ainda grande de ficarem com os clássicos espanhóis. Nada contra Cervantes, mas tudo a favor dos mais recentes.

 

Foto Flávio Dutra
 

JU - Que autores brasileiros são bastante publicados atualmente nos países vizinhos?
Antônio Sanseverino Em primeiro lugar, a tendência é a leitura em tradução para o espanhol. É raro encontrar exemplares para se ler direto em português. Em segundo lugar, nas bibliotecas não há muita renovação do acervo para incorporar títulos de autores brasileiros. Nas livrarias, é possível encontrar traduções de diversos autores. Há Machado de Assis, João do Rio, Silviano Santiago, entre outros, selecionados a partir de critérios nem sempre fáceis de entender. Há duas traduções recentes: uma nova de Grande Sertão: Veredas e outra de Os Ratos. Parece-me, no entanto, que são tiragens restritas. O que ainda tem apelo são best sellers aqui e lá.

JU – Qual a recepção de Machado de Assis fora do Brasil?
Sanseverino - Os professores da Universidade de Buenos Aires têm dimensão da relevância de Machado e interesse em divulgá-lo. Mesmo assim, um deles contou que, ao ministrar a cadeira de Literatura Brasileira, os alunos vieram agradecer ao final por terem descoberto Machado de Assis. Basta compararmos com o Brasil. Para qualquer leitor médio, lembremos o que significam os nomes de Borges, Cortázar, para falar dos argentinos, além de García Márquez, Llosa, entre outros. Jorge Luis Borges é uma referência obrigatória para nós. Não se pode dizer o mesmo de Machado para os argentinos.

JU - De fato, que autores brasileiros são conhecidos na América Latina?
Sanseverino - Primeiro, acho que seria importante desmembrar cada um dos países ou diferentes regiões da América Latina. Como se vê na questão anterior, existe uma diversidade de públicos. Se pensarmos na ordem do número de exemplares editados, na circulação da mídia, teremos agora figuras como Paulo Coelho e, antes, Jorge Amado – guardando as devidas proporções. Se pensarmos em títulos diversificados e públicos especializados, há traduções desde José de Alencar e Machado até contemporâneos como Rubem Fonseca, Scliar, Noll, Caio F. Abreu, passando por Guimarães Rosa e Clarice. Na poesia creio que sejam Bandeira e Drummond, além de Oswald (nome de vanguarda) e Augusto de Campos (concretista). O número de traduções, no entanto, é pequeno.

JU – Dado o isolamento da língua portuguesa, temos a literatura menos difundida?
Sanseverino - É uma hipótese bastante plausível. De fato, a nossa história encaminhou uma cultura mais voltada a si mesma, interessada em estar emparelhada com a França, a Inglaterra e os Estados Unidos. Não há propriamente um grande interesse pelos países da América Latina. Assim, existe a diferença de língua e a barreira criada por isso, e há também uma formação que põe as duas culturas em separado. É claro que deve ser considerada a especificidade das regiões de fronteira, que coloca essa relação em outro patamar. No Rio Grande do Sul, temos a tendência a nos envolver mais com a cultura latino-americana.

JU - Na tua opinião, que obras de autores latino-americanos deveriam ser destacadas e estudadas em nosso país?
Sanseverino - Poderia recomendar a leitura de Martín Fierro, referência para pensarmos Simões Lopes Neto. Sarmiento e Facundo, talvez sejam referências importantes para se pensar a tensão entre civilização e barbárie e aproximando-os de Euclides da Cunha. Sei que essas listagens são perigosas, pois elas são permeadas por vazios e esquecimentos.

JU - E a obrigatoriedade do ensino de espanhol?
Sanseverino - É provável que aumente o contato do Brasil com os países vizinhos para além do futebol e da canção.

 

 

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Fronteiras americanas: teoria e práticas de pesquisa

César Augusto Barcellos Guazzelli, Mariana Flores da Cunha Thompson Flores
e Arthur Lima de Ávila (orgs).
Editora Letra & Vida, 2009, 276 págs.
R$ 25 (valor médio)

A coleção de 12 textos reunida neste livro resulta do seminário Fronteiras Americanas: Experiências Historiográficas e de Pesquisa, realizado na UFRGS em junho de 2007 pelo grupo de pesquisa denominado “Fronteiras Americanas”. Liderado pelo professor César Augusto Barcellos Guazzelli, o grupo aproxima etudiosos e pesquisadores interessados no estudo das fronteiras do continente americano. Na coletânea, historiadores tentam compreender esses limites como um modo de ligação entre dois mundos. No texto “As Ditaduras de Segurança Nacional do Cone Sul”, Caroline Silveira Bauer busca definir o conceito de “fronteiras ideológicas” a partir das ditaduras implementadas no Cone Sul nas décadas de 1960 e 1970.
A autora expõe como os conflitos ideológicos desse período serviram de justificativa para ampliar as ações repressivas para além dos limites políticos e territoriais de seus países. A colaboração entre os regimes de segurança nacional permitiu o controle sobre os cidadãos que se encontravam exilados, com a troca de informações exercendo forte papel na instalação dos regimes repressivos. A institucionalização dessas relações, como a Operação Condor de 1975, confirmou a importância da rede de cooperação. No mesmo sentido, funcionou a mobilização de mesmo caráter articulada por organizações de direitos humanos, que buscavam garantir milhares de vidas em todo o continente. (Natália Blumberg)

 

Do otimismo liberal à globalização assimétrica: a política externa do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002)

André Luiz Reis da Silva
Juruá Editora, 2009, 1.ª edição, 336 págs.
R$ 78 (valor médio)

A obra, que é fruto da tese de doutoramento do autor junto ao Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFRGS, aborda a política externa implantada nos dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Durante seu governo, o Brasil esteve no centro de uma intensa polêmica ideológica e foi desafiado a se adequar às transformações do sistema internacional pós-Guerra Fria, de contornos ainda não muito definidos, mas fortemente marcada pela unilateralidade estadunidense. Internamente, a consolidação da democracia e a estabilidade econômica eram apontadas como os maiores desafios. Com prefácio assinado pelo professor Paulo Fagundes Visentini, o livro também apresenta uma análise histórica da diplomacia brasileira, mostrando como ela pode ser utilizada como instrumento para o desenvolvimento nacional. (Cadu Caldas)