Uma casa para a OSPA
Música Enquanto luta por um espaço definitivo, Orquestra usa o Cais do Porto para ensaiar
 
 
O violinista Elsdor Lenhardt vê performances da OSPA prejudicadas por acústica inadequada
Foto: Flávio Dutra / JU
 

“Eu venho de uma cidade que tem uma orquestra sinfônica.” As palavras do escritor gaúcho Érico Veríssimo inspiram-se nos acordes da sexagenária Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA. Sedimentada na história cultural sul-rio-grandense, a Fundação não possui um local próprio para ensaios e concertos desde a sua origem e, apesar das condições inadequadas, está alojada desde março no Armazém 3 do Cais do Porto. Dali sairá somente quando a sede definitiva no parque Harmonia estiver erguida. Enquanto reúne recursos para a obra, a segunda orquestra mais antiga do país segue se apresentando no Salão de Atos da UFRGS e tendo como companheiro de trabalho o Lago Guaíba.

De um canto para outro – A realidade itinerante desafia a equipe de músicos e a direção da OSPA há cerca de 25 anos, quando a orquestra passou a alugar o prédio do Teatro Leopoldina, na Avenida Independência. Antes disso, a UFRGS era utilizada para ensaios e apresentações. Como o Leopoldina não pertencia à Fundação, investir em reformas não era permitido e, com o tempo, as condições daquele lugar tornaram-se precárias. “Deixamos o local em 2007 e ficamos literalmente sem teto”, relembra o violinista e presidente da Associação de Funcionários, Elsdor Ricardo Lenhardt. Ele explica que ensaiar num espaço e apresentar-se em outro compromete a qualidade do resultado da orquestra. “Trabalhamos por referências de áudio para afinar, obter o ritmo... Trocar de ambiente faz com que essas referências se percam, pois cada local tem um tipo de acústica.”

O compositor e professor de música do Instituto de Artes da Universidade Dimitri Cervo compartilha do mesmo raciocínio. Ele defende que o Salão de Atos é um lugar ótimo do ponto de vista da plateia, mas, com relação à acústica, não está preparado. No caso do Cais do Porto, parte do problema vem sendo minimizado pelo uso de carpetes e placas sonoras, além de cortinas que servem como elementos de absorção.

“Vejo com tristeza a situação de só hoje a OSPA ter a chance de ter uma casa. É preciso fazer um esforço sobre-humano para conseguir recursos e tocar adiante”, lamenta o presidente da
Fundação, Ivo Abrahão Nesralla. Ao deixar o Teatro da Av. Independência, a equipe foi alocada no Salão Negrinho do Pastoreio, dentro do Palácio Piratini – ambiente que, segundo Elsdor, também era inapropriado. “A grande época de se ter construído um teatro para a OSPA foi nas décadas de 60 ou 70, quando havia mais verbas e as coisas eram diferentes”, argumenta.

Dimitri interpreta a situação da Orquestra como dependente da articulação estatal. “Para isso se resolver, é necessária vontade política. A atual gestão da cultura foi uma das piores no estado. A direção tem-se empenhado muito, mas falta apoio.” Tocar para todos – A partir da
encampação da então Sociedade Orquestra Sinfônica de Porto Alegre pelo Estado, em 1965, e da sua respectiva transformação em Fundação sob forma autárquica, a OSPA desempenha um considerável papel social, tanto na formação de público quanto na profissionalização de músicos. Além de levar a música à população do interior por meio de concertos em igrejas e espaços públicos, aulas gratuitas vinham sendo oferecidas no Conservatório Pablo Komlós, existente há 30 anos. Grande parte dos integrantes da Orquestra foi formada inicialmente pelo
Conservatório. Porém, essas atividades não estão ocorrendo atualmente por falta de corpo docente, que já foi composto por 14 músicos e hoje tem apenas quatro profissionais.

O presidente da Fundação explica que, desde 2002, o Tribunal de Contas não permite que se façam contratações extras. Agora o objetivo é criar uma nova lei que permita chamar profissionais da OSPA a ensinar na escola.

A socialização da música dita clássica está levando à ampliação de plateias, como defende Dimitri, embora ele acredite que essa formação passe por questões educacionais e socioeconômicas mais profundas. “Além da colmeia, nós também precisamos do mel, e o mel é a arte, é a essência. Para se ter uma arte de alto nível, precisa-se de músicos e maestros qualificados, e isso demanda recursos.” Nesse sentido, um dos períodos críticos para a OSPA foi, conforme Elsdor, no início de 2003, quando a Orquestra contava com 51 músicos efetivos. Mesmo com a abertura de concursos e a contratação de novos profissionais, ainda há uma defasagem no quadro, principalmente devido ao processo de aposentadoria de muitos funcionários. Atualmente, o número total de músicos da Orquestra é de 91, mas ainda em 2010 vinte novas vagas deverão ser preenchidas por meio de concurso público.

Harmonia no parque – O que também está previsto para este ano é a reunião dos recursos necessários para erguer a sede definitiva, projetada para o parque da Harmonia, em um terreno cedido pela prefeitura. “O dinheiro para a construção virá em grande parte da iniciativa privada, graças à Lei Rouanet”, informa Ivo Nesralla. De acordo com ele, a pesquisa geológica da área já está finalizada, mas a previsão de entrega do complexo depende das verbas que forem sendo arrecadadas. A Sala Sinfônica terá capacidade para 1.500 espectadores. O regente titular Isaac Karabtchevsky, avalia como positivo o fato de trabalhar próximo ao Lago, tanto no período atual quanto futuramente: “Essa é uma fase provisória e inspiradora. A composição ‘água e música’ é emblemática”. Para ele, apesar de tudo, comemorar 60 anos é um ato de heroísmo, sinal de empatia profunda entre a população, seus governantes e a orquestra.

Maria Elisa Lisbôa, estudante do 8.º semestre de Jornalismo da Fabico

 

No tom

Foto Flávio Dutra
 

Não há linguagem mais universal que a música, sonoridade mais ancestral que a percussão e ritmo mais orgânico que o produzido pelo próprio corpo humano. Quem ajudou a lotar o primeiro show do Unimúsica 2010 sabe do que estou falando. A programação deste ano, voltada exclusivamente a músicos percussionistas, foi aberta pela grande performance dos paulistas do Barbatuques.

Quatorze pessoas compõem o grupo, que é uma verdadeira orquestra corporal. De suas bocas, pés e palmas das mãos, surgem flautas e cítaras, baixos e chocalhos, xilofones e uma bateria completa. O produto é uma musicalidade surpreendente, em resultado do que cada música possui uma identidade. No repertório, fica nítido o extenso rol de influências do grupo, que apresentou desde elementos típicos do folclore brasileiro até experimentações musicais de teor quase psicodélico.

Por um instante, o que se ouviu foi o lamento de lavadeiras baianas, contundente como os pontos cantados das religiões afro-brasileiras. Em seguida, complexas vocalizações transformaram o som em algo estranho, espacial, com uma roupagem bem mais minimalista. Logo após, um xote tipicamente nordestino entrou em cena junto a um poderoso vocal que mais lembrava o rap norte-americano.

Durante essa saborosa salada musical, o Barbatuques ainda dançava em conjunto, mas seus passos eram apenas uma extensão dos movimentos necessários para produzir sons. Assim  explica o idealizador do grupo, Fernando Barba: “Nós não chamamos de coreografia porque normalmente esse termo está associado a uma dança em cima de uma música – ou você está tocando ou está dançando. Mas a gente se sente nos dois papéis. Nós tocamos a música que gera o movimento que gera a dança”.

O mais interessante no trabalho do Barbatuques é justamente essa capacidade de mostrar às pessoas o quão musical os seus corpos podem ser. Em um ponto do show, o fundador do grupo demonstrou plateia algumas formas de se produzirem sons com as mãos e a boca, e literalmente orquestrou a multidão. Depois disso, o nível de envolvimento do público visivelmente aumentou. Como diz Lu Horta, “a percussão corporal é uma experiência muito forte; você nem precisa explicar muito, quando a pessoa faz, ela sente”.

A apresentação acabou de maneira bombástica. Quando os músicos retornaram para o bis, Barba chamou quem quisesse subir ao palco para um grande improviso de sonoridades corporais. Cerca de 70 pessoas se prontificaram, e só a insistência do músico impediu a superlotação. Um grande semicírculo foi formado com a proposta de que cada um acrescentasse um som diferente ao que estava sendo feito pelos colegas à sua volta. Contando, parece maluquice, mas a música surgida desse exercício foi caoticamente fantástica. Barba diz que “todo mundo tem o ritmo dentro de si”, e é verdade. Tudo que está vivo possui uma cadência, seja o pulsar do coração, o ato de respirar, o ciclo da fotossíntese ou os movimentos de nosso planeta. Durante a vida inteira somos seres ritmados – o Barbatuques nos lembrou disso.

Ariel Fagundes, estudante do 6.º semestre de Jornalismo da Fabico