Lições dos desastres
Defesa Civil Estado ganha centro de prevenção com pesquisadores de diversas áreas da Universidade
Foto: Flávio Dutra / JU
 

Caroline da Silva

Com a tragédia ocorrida no início deste mês na região metropolitana do Rio de Janeiro, muitas questões relacionadas à Defesa Civil vieram à tona. Os perigos das inundações, a importância e não construir em locais irregulares como encostas e, principalmente, estratégias de prevenção a desastres urbanos causados por fenômenos “naturais” são alguns desses temas. Discute-se, inclusive, a gestão das verbas da Secretaria Nacional de Defesa Civil, vinculada ao Ministério da Integração Nacional, órgão com tão pouca visibilidade.

Vem-se indagando, ainda, sobre a possibilidade de uma efetiva previsão meteorológica para o volume das chuvas, a falta de iniciativa das autoridades em ter abrigos já montados e equipados para as famílias desalojadas pelos deslizamentos e a ausência de informação e conscientização. Esse conjunto de questionamentos é contemplado pela criação do Centro Estadual de Ensino e Pesquisas em Desastres (CEPED/RS), coordenado pelo professor da Engenharia Civil Luiz Carlos Pinto da Silva Filho.

Esse centro é o segundo do tipo no Brasil. O pioneiro está instalado no estado de Santa Catarina, baseado em um antigo grupo de estudos sobre trânsito, acatando as diretrizes da Defesa Civil, que propunha a criação de 12 CEPEDs.

Plano estratégico – Luiz Carlos diz que a iniciativa partiu do primeiro Plano Nacional de Defesa Civil, cujo objetivo era aumentar as parcerias com o meio acadêmico em geral. “Por quê? Para que se possa gerar conhecimento suficiente para atuar na prevenção e minimização de danos. Não podemos reduzir os eventos naturais, eles vão sempre ocorrer, mas podemos talvez diminuir os impactos sobre a população. A ideia é instrumentalizar a
Defesa Civil, que está, ainda hoje, muito mais focada na resposta, e pensar um pouco mais em como prevenir certas coisas, trabalhando melhor para o atendimento das populações afetadas.”

Os 12 CEPEDs idealizados pela Secretaria Nacional de Defesa Civil seriam os pontos focais para gerar o conhecimento necessário. O Centro gaúcho está sediado na UFRGS, e o acordo de sua criação foi firmado, no Conselho Universitário, entre a Coordenadoria Estadual da Defesa Civil, a Secretaria Nacional de Defesa Civil e a reitoria. O pró-reitor de Pesquisa, João Schmidt, nomeou uma comissão de implantação, que está trabalhando no regimento, atualmente em regulamentação na Universidade. Sua sede física está localizada em uma sala do Câmpus do Vale, junto ao Centro de Sensoriamento Remoto.

Interações – Segundo o coordenador, já existiam alguns grupos da UFRGS atuando em parceria com a Brigada Militar e a própria Coordenadoria Estadual de Defesa Civil. “Em certo momento, fomos provocados pela Secretaria Nacional e pela Coordenadoria Estadual a Enfrentar o desafio de criar um CEPED. Então, levamos o projeto para a Pró-reitoria de Pesquisa, porque ele tende a ser multidisciplinar, e todos esses grupos teriam de ter uma sinergia maior, numa estrutura articulada.”

João Schmidt conta que a interação da Universidade com a Brigada Militar, o Corpo de
Bombeiros, a Defesa Civil estadual e federal data do início dos anos 2000. “Esses grupos isolados tentavam levantar problemas e fazer com que surgisse dentro da própria UFRGS algo voltado a ampliar a ação junto à comunidade. Depois do contato com o professor Luiz Carlos, chamamos interessados, e hoje nosso foco está no pesquisador, naquele que faz efetivamente o trabalho de pesquisa, e não nas unidades acadêmicas.”

Conforme o pró-reitor, engajaram-se áreas das Ciências Sociais Aplicadas, representantes da
Ecologia, da Enfermagem, e se espera a entrada de pesquisadores da Medicina. “A Universidade fornecerá aquilo que uma Defesa Civil precisa: coordenação. Tem de ter coordenação forte, muito bem estruturada para poder funcionar direito. E aí reunir todas as áreas da Universidade que possam contribuir, seja da área de deslizamentos, radiação, transporte, meteorologia. E, evidentemente, prevenção de desastre é uma coisa, pós-desastre é outra. Temos de estar preparados para um e para outro. Temos de trazer toda a força de trabalho que temos na Universidade – e temos! A UFRGS é imensa.”

Multidisciplinaridade – A professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação Maria Berenice da Costa Machado, engajada recentemente no CEPED, comenta sobre a gama de pesquisas realizadas, que acaba isolando pesquisadores e seus projetos. O coordenador Luiz Carlos responde: “Fiquei surpreso com o número de grupos que já estava trabalhando com o tema desastres. A ideia é que essa seja uma ação transversal, que fuja à lógica do isolamento das ciências clássicas”. Ao que o pró-reitor complementa: “Teremos uma série de pessoas pesquisando sobre o mesmo tema, tirando um pouco do peso político que isso tem”.

Para Berenice, a ruptura desse isolamento da pesquisa, tornando-a pragmática em termos de
Defesa Civil e aplicação na sociedade (prevenção), passa pela Comunicação. “É um processo de Comunicação. Vejo dois momentos em que podemos contribuir: na articulação de políticas
de comunicação e estratégias, para que os grupos funcionem cada um na sua unidade; e no pensar como a comunicação pode atuar nessa prevenção e no atendimento às catástrofes. Para chegar até uma população como a Vila Chocolatão, por exemplo, é necessária uma estratégia de comunicação.”

Prevenção a tragédias – O major Jarbas Trois de Ávila, comandante do Grupo de Busca e Salvamento da Brigada Militar, relata que, durante conversas com as crianças da Vila Chocolatão para convencê-las a não se banharem em locais perigosos do lago Guaíba, percebeu que elas sequer dispunham de banheiro em casa, numa convergência com a debilidade de outras áreas básicas. “Meu sonho é colocar boias limitadoras e ter patrulhamento adequado para chegar à morte zero.” Ele também diz que gostaria de realizar
cursos de natação, tendo o oferecimento de lanches como atrativo.

O professor João Schmidt frisa que um órgão como o CEPED/RS é um instrumento importante para salvar vidas. Luiz Carlos, fornecendo uma definição de desastre – danos à população, à segurança, ao meio ambiente causados por um evento natural ou antropológico –, resume que o Centro é a Universidade trabalhando com a Defesa Civil em prol da sociedade. E esclarece: “Embora a sua semente seja a UFRGS, esperamos que a abrangência dele seja estadual e agregue as melhores equipes”. Um exemplo é a investigação do acidente com a ponte no município de Agudo, realizada pela Engenharia Civil em parceria com a FURG, que identificou destroços por imagens acústicas (Ecossonda) e sonogramas (Sonar).

 

 

O caso do quadricóptero

A recente e inédita demonstração de funcionamento do quadricóptero desenvolvido na Engenharia Elétrica, sob a coordenação do professor Carlos Eduardo Pereira, é um caso que ilustra a contribuição que o conhecimento da Universidade pode dar à Defesa Civil. Esse instrumento, um mini-helicóptero, pode ter diversos sensores, como o térmico, para localizar feridos em meio à mata, e uma câmera visual. “Antes de as equipes penetrarem em uma área que pode ser de risco, lança-se o quadricóptero, que tem um óculos de realidade virtual. Um especialista em deslizamento avalia se a entrada é segura”, conta Luiz Carlos Pinto da
Silva Filho, coordenador do CEPED/RS.

O pesquisador conta que nos grandes deslizamentos de Santa Catarina equipes foram soterradas porque trabalharam em locais instáveis. “Além disso, foram ineficientes, pois cavaram em áreas em que não poderia haver casas. Então, ter tecnologia para apoiar de maneira mais qualificada é muito do que a Universidade
pode oferecer.”

O aparelho ainda pode ter um GPS, mapear uma zona e enviar imediatamente para a base. “Os exércitos de todos os países estão interessados nessa tecnologia de vant (veículo aéreo não tripulado), em que o Brasil
está na vanguarda”, afirma o coordenador do CEPED/RS.

Numa demonstração realizada no Cais do Porto, em fevereiro, estavam presentes os empresários Carlos Henrique Hennig, Eduardo Reginato Lavratti e Ulf Bogdawa, que estão constituindo a Sky Drones, para a fabricação em larga escala e o desenvolvimento de aplicação desses veículos não tripulados programáveis. “Eles podem ser utilizados em busca e salvamento, como retransmissor portátil para redes de comunicação, na vigilância de cidades, trânsito. Têm muitas aplicações”, afirmaram.

O comandante do Grupo de Busca e Salvamento da Brigada Militar, major Jarbas Trois de Ávila, opina que essa nova tecnologia tem um uso extremamente válido para pontos de difícil acesso. “Poderia nos dar pistas mais fidedignas para busca e posterior salvamento.” Conforme ele, em uma segunda fase, seria utilizado em policiamento. O major informa que a intenção é implantar a parceria logo que o instrumento estiver à disposição.