A Fixação Biológica do Nitrogênio
O nitrogênio é um dos principais componentes
das biomoléculas, fazendo parte da estrutura de ácidos nucléicos,
aminoácidos, proteínas, etc, o que o torna, portanto, essencial
à sobrevivência e crescimento dos organismos. Embora constitua
quase 80% da atmosfera terrestre, o nitrogênio gasoso, N2,
é quimicamente inerte a temperaturas comuns, e, diferentemente de
outros elementos que ocorrem na natureza, suas reservas minerais são
relativamente raras. Apesar de termodinamicamente favorável, a reação
de redução de nitrogênio atmosférico a amônia
– fixação do nitrogênio – requer uma energia de ativação
extremamente alta, não ocorrendo espontaneamente sem a presença
de catalisadores adequados. Na indústria, por exemplo, o processo
de fixação do nitrogênio desenvolvido por Haber-Bosch
para a síntese de amônia emprega altas temperaturas (entre
300 e 500 °C) e pressões acima de 300 atm, sendo utilizados
catalisadores a base de ferro 1.
A principal finalidade da amônia produzida é a fabricação
de fertilizantes, e mais de 100 milhões de toneladas são
anualmente usados na agricultura, uma demanda que implica grandes custos
financeiros, energéticos e, sobretudo, ambientais 2.
Na natureza, somente um pequeno número de
microrganismos, denominados diazotróficos ou fixadores de nitrogênio,
é capaz de reduzir nitrogênio atmosférico a amônia.
Esse processo é chamado de fixação biológica
do nitrogênio (FBN) e realizado pelo complexo protéico da
nitrogenase, a enzima que catalisa a reação 3.
A participação da FBN no ciclo biogeoquímico do nitrogênio
é sobretudo importante na medida em que a atividade das bactérias
diazotróficas representa cerca de 60% do nitrogênio anualmente
fixado na Terra 1.
Além disso, a FBN é o processo primário através
do qual o nitrogênio, quimicamente indisponível para a maioria
dos organismos, se torna fisiologica e metabolicamente disponível,
inicialmente sob a forma de amônia e, posteriormente, na ciclagem
do nitrogênio, outros compostos nitrogenados, como nitritos, nitratos
e óxido nítrico
4.
Evolutivamente, acredita-se que a FBN tenha se desenvolvido
quando as reservas geoquímicas de nitrogênio fixado se tornaram
escassas na biosfera. O esgotamento dos óxidos de nitrogênio
(nitratos e nitritos) pelos organismos teria, provavelmente, limitado seu
crescimento e ocasionado uma pressão seletiva que favoreceu o aparecimento
da diazotrofia. A capacidade de fixar nitrogênio teria sido, portanto,
um evento relativamente precoce na evolução dos procariontes
e anterior ao surgimento da fotossíntese (e conseqüente aumento
da concentração de oxigênio livre na atmosfera), uma
vez que a nitrogenase é extremamente sensível à desnaturação
por oxigênio 2.
Na verdade, acredita-se que a grande homologia compartilhada pelas diferentes
nitrogenases indicaria sua origem ancestral comum e o fato de que a diazotrofia
tenha sido uma característica importante e não rara entre
os procariontes 5.
Ao longo do tempo, essa propriedade foi sendo perdida, e se manteve apenas
em alguns organismos, as atuais bactérias diazotróficas.
O complexo protéico
da nitrogenase, a despeito da ampla variedade de bactérias diazotróficas
existentes, se apresenta relativamente conservado em termos de estrutura
e função. Basicamente, o sistema é formado por duas
metaloproteínas: a ferro proteína (Fe-proteína ou
dinitrogenase redutase) e a molibdênio-ferro proteína (MoFe
proteína ou dinitrogenase), que catalisam, na presença de
ATP, a redução de nitrogênio atmosférico a amônia.
A Fe-proteína é o componente que se liga a ATP e atua como
doador de elétrons, ao passo que a MoFe-proteína contém
o sítio de redução de substrato 1,
6.
Existem, no entanto, sistemas alternativos homólogos ao da Fe/MoFe-proteína,
em que o molibdênio é substituído por vanádio
ou então uma única Fe-proteína está presente
7.
Além disso, existe um quarto tipo de nitrogenase, recentemente caracterizado
na bactéria termofílica
Streptomyces thermoautotrophicus
e cuja propriedade mais notável é a dependência de
oxigênio e do radical superóxido - ambos nocivos para a maioria
das nitrogenases - para a fixação altamente eficiente do
nitrogênio
8.
A redução do substrato pela nitrogenase
envolve três diferentes tipos de reações de transferência
de elétrons: (i) redução da Fe-proteína por
transportadores de elétrons, como flavodoxina; (ii) transferência
de elétrons da Fe-proteína para a MoFe-proteína, na
presença de ATP; (iii) transferência de elétrons para
o substrato, utilizados para reduzir N2 e H+ a NH3
e H2, conforme a seguinte reação:
N2 + 8H+ + 8e- + 16ATP >=> 2NH3 + H2 + 16ADP + 16Pi
Azospirillum
O gênero Azospirillum compreende bactérias
diazotróficas de vida livre amplamente encontradas em solos de clima
tropical e subtropical, em associação com raízes de
gramíneas de grande importância econômica, como arroz,
milho, trigo e diversas forrageiras, além de outras espécies
vegetais. Na verdade, a maioria dos estudos de campo têm evidenciado
tanto a distribuição praticamente universal de Azospirillum
como, também, seus vários efeitos benéficos sobre
o crescimento vegetal, o que torna essas bactérias altamente
promissoras em termos de aplicações na agricultura.
Referências
1 - KIM, J. & REES, D. C. (1994) Nitogenase and
biological nitrogen fixation. Biochemistry 33: 389-397.
2- NEWTON, W. E. (2000) Nitrogen fixation in perspective.
In: PEDROSA, F. O.; HUNGRIA, M.; YATES, M. G.; NEWTON, W. E. (eds.) Nitrogen
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Dordrecht.
3 - EADY, R. R. & POSTGATE, J. R. (1974) Nitrogenase.
Nature
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4 - FERGUSON, S. J. (1998) Nitrogen cycle enzymology.
Curr.
Opin. Chem. Biol. 2: 182-193.
5 - BURRIS, R. H. & ROBERTS, G. P. (1993) Biological
nitrogen fixation. Annu. Rev. Nutr. 13: 317-335.
6 - BURRIS, R. H. (1991) Nitrogenases. J. Biol.
Chem.
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7 - EADY, R. R. (1996) Structure-function relationships
of alternative nitrogenases. Chem. Rev. 96: 3013-3030.
8 - RIBBE, M.; GADKARI, D.; MEYER, O. (1997) N2
fixation by Streptomyces thermoautotrophicus involves a molybdenum-dinitrogenase
and a manganese-superoxide oxireductase thet couple N2 reduction
to the oxidation of superoxide produced from O2 by a molybdenum-CO dehydrogenase.
J.
Biol. Chem. 272: 26627-26633.