A Cara da Rua | Entre utopias e distopias urbanas

Quando escreveu Utopia, o inglês Thomas Morus (1480-1535) imaginou uma forma de governo ideal, que proporcionava as melhores condições de vida a um povo equilibrado e feliz. O livro chamava a atenção para a atualidade política de seu tempo, que há quinhentos anos,  era como hoje, cheia de desigualdade e pobreza.

A utopia nascia então como um retrato negativo. A distopia seria o termo usado atualmente como seu espelho, para se referir ao nosso quotidiano. A primeira representaria o ideal, a felicidade, enquanto que a segunda, a realidade e a sua sombra, ou seja, uma ameaça constante. O problema era, e ainda é, que o conceito de utopia é lido como algo inatingível, distante, um desejo impossível de alcançar. Ou alcançável somente através da imaginação. Seria esta a função utópica da arte?

A Cara da Rua é um projeto de extensão universitária da UFRGS que trabalha com a arte, e vem sendo desenvolvido com moradores em situação de rua em Porto Alegre. Ele trata destas questões antagônicas e complementares, entre utopias e distopias. Através de suas ações, percebe-se  onde e quando o ensino da arte e estética pode sair de sua postura egocêntrica e individual e de usufruto solitário, para se transformar em um gesto ético, de generosidade em nome da cidadania, buscando uma sociedade com oportunidades iguais. Ele atua neste momento crítico, onde a harmonia da vida na cidade exige que se conceda prioridade à ética.  A Cara da Rua comprova, em seus resultados,  como na exposição que aqui apresentamos, que a estética não é  necessariamente excludente nesta relação de trocas e de intersecções.   

No projeto, vinculado ao Programa Universidade na Rua - PROREXT/UFRGS que recebeu apoio do Edital PROEXT/MEC-SESu2015-2016, são distribuídas câmeras fotográficas para alunos sem domicílio fixo, que frequentam a Escola EPA – EMEF de Porto Alegre, voltada para a educação de jovens adultos. O objetivo é a confecção de cartões postais que são vendidos pelos próprios autores, como uma forma alternativa de geração de renda.

O resultado é surpreendente. As fotos obtidas pelo grupo  nos fazem pensar onde e quando, em uma fotografia, há sinais de uma perda, assim como também há uma denúncia destas ausências e destas faltas, e a esperança da integração pela hospitalidade.

São estes sinais que nos fazem pensar sobre o tempo, sobre o grupo,  sobre a cidadania, entre ética e estética, e sobre a atualidade dos conceitos de utopia e de distopia em nossa cidade nos dias de hoje.


Eduardo Vieira da Cunha

Data: de 20 de maio a 14 de julho
Horário: de Segundas a Sextas das 07h às 22h30min
              Sábados das 07h às 12h
Local: Pátio do Campus Centro da UFRGS
          Osvaldo Aranha, 277

 

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