Mostra Questões de Espaço: Releituras do Real

Entre os dias 26 de junho e 01 de julho acontece na Sala Redenção a mostra Questões de Espaço: Releituras do Real, produzida pela Tokyo Filmes. A programação prevê uma seleção de filmes contemporâneos que habitam uma zona entre o experimento, o documento etnográfico e a ficção, a fim de propor novos olhares sobre territórios, demarcados ou não, nos quais habitam ou transitam indivíduos e grupos. O conjunto de filmes trabalha também com aquilo que compõe tais lugares como territórios, tanto física, quanto simbolicamente –  das rochas às memórias. A opção por discutir o “espaço” surge da percepção de que esse tema, cujos desdobramentos são diversos, perpassa questões contemporâneas cruciais. O espaço como uma medida infinita, de presença constante, índice da globalização, é posto em questão sob a luz de uma força cada vez mais renovada do local, da medida restrita onde ocorrem fatos, vidas, mortes, em todas as suas multiplicidades de esferas. As ações e as relações, sejam elas humanas ou não-humanas, desdobram-se em um espaço/tempo, tornado espaço-memória, ligado a uma condição geográfica específica, da qual não só é definidor, mas pela qual é também definido. Assim, entram em pauta as identidades e as memórias coletivas engendradas na geografia; os olhares sobre as migrações (forçadas ou voluntárias) e sobre o movimento das pessoas em um planeta que cada vez mais parece ser unificado e transitável, mas cujas manifestações de elementos naturais trazem à tona a fragilidade do humano; o questionamento sobre a vigência de fronteiras (entre países, entre pessoas e a natureza); e, finalmente, uma renovada atenção dada a realidades específicas, até então escondidas do escrutínio público.

Ao mesmo tempo, o cinema, como campo de experimento narrativo, também é atravessado por discussões acerca do espaço. O cinema híbrido (que combina o documentário clássico com instâncias de criação autoral) não só serve de testemunha documental, mas é também território de abordagens originais, onde novas maneiras de contar histórias são propostas e cujas margens e fronteiras são permanentemente postas em questão. A forma fílmica como instância que explora as impressões (de lugar) criadas pelo registro do espaço físico propriamente dito – bem como através da luz, do som, da narrativa – é bastante presente na seleção dos filmes da mostra. El Mar La Mar (EUA/2017), de Joshua Bonnetta e J.P. Sniadecki, que estreou na 67ª Berlinale (seção Forum), onde recebeu o prêmio Caligari, parte de imagens da paisagem do deserto de Sonora, na divisa entre o México e os Estados Unidos, e as compõe com relatos dos habitantes daquela região. Escutamos vozes que contam, em off-screen, histórias sobre os imigrantes mexicanos ilegais que se arriscam a atravessar esse perigoso território, na esperança de uma vida melhor em solo americano. Embora sejam os protagonistas do filme, esses imigrantes não passam de ausências na paisagem – eles não são vistos, nem são ouvidos, só podemos acessar seus rastros. Através da experimentação com a forma, a câmera se transforma em um meio de registrar a falta desses imigrantes, que, obscuros, movimentam-se por espaços desconstruídos – já não mais o espaço genérico de um ou outro país, mas o sítio onde corpos se tornam menos que corpos, em uma “espectro-geografia” do presente.

Esse território estranho que se instaura onde o domínio do real (e da civilização) já não pode alcançar é explorado também em Eldorado XXI (Portugal/França/2016), da realizadora Salomé Lamas, que estreou na 66ª Berlinale (seção Forum). Nesse primeiro longa-metragem de Lamas, somos introduzidos à difícil existência de homens e mulheres que vão para a comunidade de La Rinconada y Cerro Lunar, localizada em uma elevadíssima altitude nos Andes Peruanos, movidos pela esperança de um dia encontrar ouro na mina que ali existe. O cenário pós-apocalíptico da comunidade mineradora é construído em paralelo à apresentação das pessoas que ali habitam. Assim, através de movimentos que se entrecortam e se somam, o espectador pode estabelecer mentalmente o edifício de ideias que o filme se propõe a entregar. Uma proposta similar é a de Dead Slow Ahead (Espanha/França/2015), de Mauro Herce, que estreou no 68º Festival de Locarno, onde recebeu o Prêmio Especial do Júri. Porém, se em Eldorado XXI o objeto de estudo é a comunidade que se criou ao redor da mina e aqueles que para ela migram, em Dead Slow Ahead se concentra no dia-a-dia de trabalho em um navio cargueiro, que atravessa o oceano, carregando máquinas e pessoas. Somos introduzidos, de uma forma particular, que privilegia a estranheza do ambiente, a esse espaço em trânsito permanente, que, ao mesmo tempo, é a casa e a fábrica de um grupo de trabalhadores.

Entre os curtas-metragens, o trabalho experimental realizado em Um Campo de Aviação (Portugal/EUA/Brasil/2016), de Joana Pimenta, que estreou no TIFF (Festival Internacional de Cinema de Toronto) 2016, suspende a noção de real ao exibir imagens indecifráveis, que beiram o fantástico, mas que são, no entanto, registros de paisagens reais. O filme é uma combinação de recortes curiosos e calculados de espaços e do extremo de acontecimentos climáticos. Liga-se a natureza de Cabo Verde ao projeto modernista de Brasília, percorrendo passados e futuros imaginados. Em um movimento na direção da experimentação extrema, dois filmes entregam a abstração do espaço e de seus componentes. Em As Without So Within (EUA/México/Reino Unido/2016), de Manuela de Laborde, que estreou no TIFF (Festival Internacional de Cinema de Toronto) 2016, porções de matéria se combinam e se mesclam em um espaço restrito, através de recortes ricos em cor e luz e, acima de tudo, barulho. São esculturas minerais indefinidas, que concentram em si um questionamento à produção de sentido e do significado de representação. Já em Meridian Plain (EUA/2018), de Laura Kraning, que estreou no IFFR (Festival Internacional de Rotterdam) 2016, apresenta através de fotografias – algumas de detalhes, outras de paisagens desérticas – um território enigmático, que se compõe pela montagem e que, pouco a pouco, conseguimos compreender, embora ele nunca deixe de escapar ao domínio do inteligível.

 

 

                                                                                                                                              Marcela Bordin,

                                                                                                                                              Curadora da Mostra

 

 

Horários

Lampedusa + Dead Slow Ahead

(Itália/França/EUA | 2015 | 14min) Dir. Philip Cartelli e Mariangela Ciccarello + (Espanha/França | 2015 | 74 min) Dir. Mauro Herce

Ao fim de 1831, uma ilha vulcânica subitamente emerge ao sul da costa da Sicília. Diversos poderes europeus declaram como sua a recém descoberta “terra”, mas seis meses mais tarde, a ilha retrocede, deixando apenas uma saliência rochosa sob as águas do mar. Uma intersecção de visões utópicas e de descrições de possessão, Lampedusa também leva em conta aqueles que hoje atravessam o oceano em busca de uma suposta terra sólida.

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Um enorme navio cargueiro se movimenta sem rumo nas águas desoladas do Oceano Atlântico. Sob o ranger das máquinas brutais e sob os carregados céus marítimos, a tripulação anônima trabalha para manter o navio em curso. Eles poderiam ser homens perdidos, homens à deriva, ou talvez os últimos vestígios de uma espécie condenada. 

Após a sessão de abertura, Marcela Bordin, curadora da mostra, conversará com o público. 

26/06/17 - 19:00

27/06/17 - 16:00

Eldorado XXI

(Portugal/França | 2016 | 125 min) Dir. Salomé Llamas

Eldorado XXI é uma assombrosa e misteriosa parcela da realidade etnográfica. Filmado na comunidade instalada em maior altitude no mundo, La Rinconada e Cerro Lunar (5500m), nos Andes peruanos; uma ilusão leva os homens à autodestruição, movidos pelos mesmos interesses, usando as mesmas ferramentas e meios na contemporaneidade que nos tempos antigos.

27/06/17 - 19:00

28/06/17 - 16:00

As Without So Within + Costa da Morte

(EUA/México/Reino Unido | 2016 | 25 min) Dir. Manuela de Laborde + (Espanha | 2013 | 83 min) Dir. Lois Patiño

Espaços virtuais criados por um esforço contemplativo. A imagem como um documento exibe falsas esculturas, construídas e pensadas como ferramentas que estabelecem campos visuais. Enquanto a materialidade dos objetos aponta para a materialidade da película, a sua forma leva a pensar na infraestrutura da sala de cinema (a escuridão, o enquadramento, o silêncio).

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A Costa da Morte é uma região da Galícia que, durante o império romano, foi considerada o fim do mundo. Seu nome dramático vem dos muitos naufrágios que ocorreram ao longo da história nesta área rochosa, de nevoeiros e tempestades. Atravessamos essa terra observando as pessoas que a habitam: pescadores, mariscadores, lenhadores... Somos testemunha do trabalho que realizam e que os leva a manter, ao mesmo tempo, uma relação íntima e uma batalha com a imensidão da natureza. O vento, o mar, a pedra, o fogo, são personagens desse filme e, através deles, nos aproximamos do mistério que conforma a paisagem, entendida como unidade junto ao homem, à história e o mito.

28/06/17 - 19:00

29/06/17 - 16:00

Um Campo de Aviação + A House In Ninh Hoa

(Portugal/EUA | 2016 | 14 min) Dir. Joana Pimenta + (Alemanha | 2016 | 108 min) Dir. Philip Widmann

Um campo de aviação em um subúrbio desconhecido. O lago debaixo da cidade queima as ruas. As montanhas atiram rocha nos jardins. Na cratera de um vulcão, uma cidade modelo é levantada e se dissolve. Duas pessoas encontram-se neste lugar, separadas por cinquenta anos.

Ao acompanhar o dia-a-dia em uma casa em Ninh Hoa, a constelação familiar de seus habitantes se torna visível. Marcada pelo curso da história no século XX, essa constelação conecta o Vietnam, a Alemanha e o mundo espiritual.

29/06/17 - 19:00

01/07/17 - 14:00

El Mar La Mar

(EUA | 2017 | 94 min) Dir. Joshua Bonnetta e J.P. Sniadecki

O deserto do Sonora, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, com sua paisagem inóspita, é o cenário que todo o ano recebe milhares de imigrantes mexicanos ilegais. Essas pessoas deixam no local vestígios de sua passagem, mas nunca são vistas ou ouvidas. A sua história só pode ser contada através das impressões que causam.

Após a sessão, haverá uma conversa com Gabriela Almeida e Germano de Oliveira mediada por Leonardo Bomfim.

01/07/17 - 16:00

Montañas Ardientes que Vomitam Fuego + Meridian Plain + Metade Homem, Metade Fantasma

(Espanha | 2016 | 14 min) Dir. Samuel Delgado e Helena Girón + (EUA | 2016 | 18 min) Dir. Laura Kraning + (Brasil | 2016 | 30 min) Dir. Davi Pretto

Uma misteriosa viagem às profundezas de um dos maiores túneis vulcânicos da Europa, a fim de escavar uma idiossincrática história de resistência.

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Meridian Plain mapeia uma paisagem distante e enigmática, construída por milhares de imagens de arquivo, forjando visões de um possível futuro transmitido através de um olho mecânico.

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A vida inteira de um homem não é mais que um ponto no tempo. Os dias de Seu Fabrício, um gaúcho cuja existência é dedicada a cuidar de um punhado de hectares de terra em um canto esquecido do pampa, são sempre iguais.

 

Após a sessão, haverá uma conversa com Davi Pretto e Juliana Costa mediada por Marcela Bordin.

01/07/17 - 19:00

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