Cinema Pelo Mundo

Em setembro, a Sala Redenção – Cinema universitário, em parceria com Sesc/RS, apresenta mais uma edição de Cinema pelo Mundo. Serão exibidos nove filmes de diferentes gêneros e nacionalidades. Para abrir a programação, o premiado longa colombiano O abraço da Serpente (2016), filme de várias camadas, que nos oferece a possibilidade de diferentes viagens (todas deslocadas), dependendo do ângulo que se olha: etnográfica, sociológica, histórica, antropológica, mítica e temporal – apenas para citar algumas. O filme trata da viagem de um explorador e estudioso alemão pelo rio Amazonas para encontrar uma planta lendária que pode ser uma alternativa de cura. Ao mesmo tempo, relata a viagem, pelo mesmo rio, de outro explorador pesquisador que leva em mãos o livro do primeiro. O que assistimos é uma mistura de culturas, histórias – em tempos diferentes – do encontro com os povos indígenas da região. A tentativa de seguir o mesmo caminho, o mesmo percurso, com o mesmo Xamã, pelo mesmo rio, simbolicamente alude ao pensamento do filósofo grego Heráclito, de que o mundo é fluxo permanente em que nada permanece idêntico a si mesmo. A relação entre mundo selvagem e mundo civilizado, entre a sabedoria da natureza e da ciência são colocadas de forma esplêndida pelas lentes e direção de Ciro Guerra. Mais, ele nos leva a uma experiência contraditória a respeito do impacto das pesquisas antropológicas, e de colonização e de catequização, já que somos não apenas espectadores, mas herdeiros diretos dessa tradição. Um filme que exige olhos, pensamento e alma para poder ser compreendido em certa medida. 

 

A ilha do Milharal (2015) é um filme de ciclos, de poucos personagens, de raros diálogos, de muito silêncio e de várias delicadezas. Ele se passa em uma pequena ilha, entre dois rios, na qual habitam uma neta e um avô. É mínimo, pequeno, mas dependendo do ponto de vista é grandioso e abundante, intenso e contemplativo. Para falar sobre o longa é impossível fugir dos adjetivos ou dos superlativos, pois há nele uma força imensa. Eis a contradição. Seja dos personagens ou da natureza – duas forças que ora se unem, ora lutam uma contra a outra. A natureza, o plantio, de forma alegórica nos falam de transformação. De uma menina, de um senhor, de um país. Pois há no meio disso tudo uma guerra. A ilha do Milharal, direção de George Ovashvili, tem como pano de fundo (pouco citada, mas com consequências na vida dos personagens) a guerra da Abecásia contra a Geórgia, após o fim da União Soviética, entre 1992 e 1993. Um filme pequeno, mas ao mesmo tempo imenso. Frágil, porém de luta. De resignação e sabedoria.

 

O realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul é conhecido como um cineasta da contemplação e das sensações. É conhecido também por realizar filmes abordando sempre a cultura e as tradições de sua terra natal. Seus filmes, de forma simbólica, falam sobre a dificuldade do desapego da vida terrena, das difíceis e distantes relações familiares que as ditas regiões ocidentalizadas enfrentam até hoje. O realizador nos coloca frente a uma realidade dual, mas nela deus e natureza são um só, mito e verdade idem, e o fim apenas marca outro início (poderíamos pensar em seus filmes como budistas?). Cemitério do Esplendor possui planos parados, movimento mínimo, buscando captar a sutileza de cada um desses movimentos. Mínimos. Aborda o cotidiano por meio de diálogos e situações aparentemente banais e de pouca importância para extrair deles uma sabedoria sutil. Do pequeno. Do singular. Do silêncio. Do comum. Dos movimentos não velozes. Uma crítica ao ritmo do mundo ocidental de civilização e à rapidez de uma sociedade fundada e sustentada na mercadoria, no lucro e no consumo como resposta às inquietações humanas. O que Cemitério do Esplendor nos propõe – com seus planos e enquadramentos – não é apenas uma experiência estética, que é vazia por si só. Ele nos propõe outro ritmo, outro olhar para deles surgir uma forma nova, ou melhor, um outro tempo de contemplação, ressignificando antigos hábitos que se perdem na vida corrida e frenética preconizada pela cultura ocidental. Há uma intenção de fundar, ou trazer de novo – através da construção de sua narrativa – a sabedoria do tempo dito morto, das coisas ditas desinteressantes que não valem ou não valem mais, mas que ficam ecoando por meio de imagens-fantasmas: eis o Cemitério do Esplendor. 

 

A passageira (2015) é o primeiro longa do realizador peruano Salvador Del Solar. O processo de escrita do roteiro – a partir do romance de Alonso Cuento, A pasagera – durou nove anos. O filme trata de um acerto de contas. De forma bem diversa, também fala de fantasmas que atormentam a vida presente dos personagens. No filme, um ex-militar que trabalha como taxista tem a vida sacudida quando reencontra uma mulher que faz parte de seu passado, no tempo em que estava no exército em combate na guerra Ayacucho. A partir desse reencontro, o passado trágico dos envolvidos volta a atormentá-los. Agora o embate acontece entre aqueles que apenas querem esquecer, ou melhor, superar os acontecimentos para que possam viver uma vida em paz e aqueles que, ao contrário, não medem esforços para tentar se redimir e, assim, aliviar a culpa que carregam. 

 

Anistia (2011), premiado no Festival de Berlim, é uma rara produção albanesa, com colaboração da Grécia, de baixo orçamento, com pouca ação e efeitos especiais. O filme relata a visita íntima de dois casais na prisão e, sobretudo, trata do encontro de duas pessoas com uma vida banal, pobre, e que visitam seus parceiros em uma prisão sem nenhuma privacidade (e também sem mais intimidade alguma). O longa não é uma obra de denúncia, de julgamento. Alguns personagens não têm rosto, apenas corpo. Sabemos que um homem e uma mulher estão presos por cometerem pequenos delitos. Até que um dia eles recebem a anistia e podem voltar para casa. Como retomar uma vida, uma rotina e uma relação que não existem mais?

 

Paulina (2016), direção do argentino Santiago Mitre é outro filme perturbador. Porque fala de estupro. De estupro coletivo. E da decisão que a vítima toma após o estupro, após a enorme violência que sofre. O questionamento já começa pela sua escolha profissional. A personagem, filha de um renomado juiz, desiste de seguir carreira na área do Direito e resolve dar aulas em uma escola pública em uma cidadezinha fronteira entre Argentina e Paraguai. Mais questionada será ainda após a enorme violência que sofre. Pelo Estado. Pelo pai. Pelo Namorado. Sobretudo pela polícia da delegacia local. Machismo e violência. Premiado na Semana da Crítica em Cannes, o longa tem o diretor brasileiro Walter Salles na produção. Paulina é um filme corajoso, questionador, sem pegar leve ao abordar um problema grave desde sempre: o estupro, a violência contra a mulher. A forma, no entanto, que a personagem enfrenta a situação desencadeia uma série de questionamentos em cada um de nós. Sobre classe social, preconceito, e sobretudo sobre a violência expressiva em qualquer parte do mundo – ocidental ou não – contra a mulher. Paulina é o segundo longa de Santiago Mitre, roteirista de vários filmes de Pablo Trapero. De novo: sexo sem consentimento é estupro. Violência. Crime. Em qualquer parte do mundo.

 

Assim que abro meus olhos (2015), primeiro longa da tunisiana Leyla Bouzid, é um filme corajoso por abordar, na ficção, a Primavera Árabe sem abrir mão do olhar documental. Sabemos que as margens entre ficção e documentário são cada vez mais refratadas e a realizadora faz uso disso – no bom sentido – para dar mais força ao abordar um tema tão atual e pungente. Uma adolescente, uma menina que participa como vocalista de uma banda, que tem em suas músicas versos de forte teor político a respeito da situação do país. Um país marcado por golpes e falsa democracia. A narrativa é naturalista, com ótima atuação da personagem principal. O filme por si só, por abordar um período incerto pré-revolucionário (e infelizmente pré-golpista também) em um outro continente, mexe com o espectador e o desacomoda da poltrona. Mais potente ele se torna quando lembramos que muitos dos acontecimentos (re) apresentados nele nos falam diretamente, arrancando o curativo de diversas feridas e cicatrizes que carregamos, aqui, desse lado do globo.

 

Em seus últimos filmes, Hirokazu Kore-eda tem se tornado um cronista da vida em família no Japão – o que faz com maestria. Mas não se trata apenas disso. Seus filmes, sempre versando sobre as relações familiares, tornam-se cada vez mais filmes-haikais. Os primeiros filmes de Kore-eda – como o excelente Depois da Vida (2009) – tratavam sobre os mistérios da vida e da morte, ou melhor seria dizer, o sentido da vida que se viveu e a possibilidade de redenção para aquele que descobriu o sentido dela após a morte. A partir de Ninguém pode saber (2005) Kore-eda mergulha fundo no universo familiar. Nesse longa, premiado em Cannes, o realizador coloca em xeque duas questões que dizem respeito à sociedade japonesa: uma mãe deve esconder os filhos no prédio onde mora já que nele não é permitido crianças. E os filhos devem esconder a ausência da mãe ausente por não poderem ficar sozinhos. Um jogo imbricado sem solução. Pelas temáticas, seus filmes poderiam parecer melodramáticos, mas não o são. São brutos. Delicados. Como a vida. Em Tal pai, tal filho (2013) ele questiona a força dos laços de sangue numa troca de bebês ainda na maternidade. Dor e perda estão sempre presente nos longas do diretor. Mas beleza e superação também. E sobretudo novos modelos de família são formados quando os personagens ousam pensar a tradição sem deixar de enfrentar os dilemas que surgem na vida moderna. Quatro irmãs, um pai, duas mães. Uma casa. Em Nossa irmã mais nova (2015) somos convidados justamente a refletir sobre tudo isso. Com delicadeza, afeto e com poesia. Um filme-haikai. De um dos realizadores mais premiados dos últimos anos. 

 

Garota Sombria caminha pela noite, escrito e dirigido pela iraniana Ana Lily Amirpour, mistura terror e faroeste. Filmado nos Estados Unidos, simula um cenário iraniano. A narrativa se passe na fictícia Bad City, uma cidade desolada, em meio a drogas e prostituição. Nela vagueia uma vampira que combate traficantes e viciados. O filme conquistou prêmios de revelação em alguns festivais, e Amirpour foi indicada ao Idependent Spirit Award de diretora revelação, fotografia. Foi indicada também no Festival Fantástico de Stiges Espanha por revelação e filme jovem. Uma mistura de cinema clássico, com cinema moderno, e pós-moderno também, por ter nele tantas referências díspares na sua construção. Um filme de poucos diálogos, com uma onda gótica e com uma trilha sonora bastante eclética. Pode-se dizer que é quase uma fábula feminista que prende a atenção do espectador do início ao fim. Uma curiosidade: de baixo orçamento, dizem que foi filmado em apenas 24 horas. 

Sala Redenção – Cinema Universitário, 30 anos – é cinema pelo mundo!

 

Tânia Cardoso de Cardoso

Coordenadora e curadora da Sala Redenção – Cinema Universitário. 

 

De: 4 a 22/09

Horários: 16h e 19h

Local: Sala Redenção - Cinema Universitário (Avenida Engenheiro Luiz Englert, S/N, Campus central da UFRGS)

Horários

O Abraço da Serpente

(El Abrazo de la Serpiente | Colômbia, Venezuela, Argentina | 2016 |124min). Direção: Ciro Guerra.

Théo é um explorador europeu que conta com a ajuda do xamã Karamakate para percorrer o rio Amazonas. Gravemente doente, ele busca uma lendária flor que pode curar sua enfermidade. Quarenta anos depois, a trilha de Théo é seguida por Evan, outro explorador que tenta convencer Karamakate a ajudá-lo.

04/09/17 - 16:00

08/09/17 - 16:00

A Ilha do Milharal

(Simindis kundzuli | Geórgia, França, Alemanha, Casaquistão, República Tcheca | 2015 | 100min). Direção: George Ovashvili.

Um velho camponês se muda, com sua neta para uma pequena e deserta ilha no meio do rio Enguri, para plantar milho. O rio separa a Geórgia da Abkhazia e já foi cenário de sangrentas lutas. Como soldados ainda surgem na região, o clima é de tensão. O rio cria e o rio destrói, em um ciclo eterno do qual ninguém pode escapar.

04/09/17 - 19:00

05/09/17 - 16:00

19/09/17 - 19:00

Cemitério de Esplendor

( Cemetery of Splendor| Tailândia, Reino Unido, França, Alemanha, Malásia, Corréia do Sul, México, EUA, Noruega | 2015 | 122min). Direção: Apichatpong Weerasethakul.

Numa pequena cidade da Tailândia, vinte e sete soldados são vítimas de uma estranha doença do sono. Para tratá-los, uma escola abandonada serve como abrigo. Uma mulher tailandesa de meia-idade, casada com um soldado americano aposentado, trabalha como voluntária no tratamento dos pacientes. Ela cria um interesse especial por Itt, que nunca recebe visitas.

05/09/17 - 19:00

06/09/17 - 16:00

22/09/17 - 19:00

A Passageira

(Magallanes | Peru, Argentina, Espanha | 2015 |109min). Direção: Salvador del Solar.

Lima, Peru. A rotina de Magallanes, um motorista de táxi, vira de cabeça pra baixo quando Celina, uma mulher de seu passado sombrio, entra, subitamente, em seu carro. Os dois se conheceram nos anos violentos em que Magallanes foi soldado do exército peruano. Agora, em busca de redenção, o homem vai participar de um arriscado plano para ajudar Celina a superar seus graves problemas financeiros.

08/09/17 - 19:00

11/09/17 - 16:00

Anistia

(Amnistia | Albânia, Grécia, França | 2011 | 83min). Direção: Bujar Alimani.

A visita íntima é finalmente legalizada na capital da Albânia, Tirana, e uma vez por mês Elsa desloca-se por vários quilômetros para passar alguns momentos com o marido encarcerado. Por conta da jornada ela se aproxima de Shpetim, marido de uma detenta, mas uma anistia aos presidiários atrapalha o nascimento deste novo amor.

11/09/17 - 19:00

12/09/17 - 16:00

Paulina

(Paulina | Argentina | 2016 |103min). Direção: Santiago Mitre.

Paulina, 28 anos, largou uma promissora carreira na advocacia para ser professora em uma região problemática da Argentina. Sacrificando o namoro e a confiança do pai, um poderoso juiz, ela sustenta as suas convicções de ensino e política. Entretanto, sua crença é colocada à prova ao ser estuprada por um grupo de alunos.

12/09/17 - 19:00

13/09/17 - 16:00

19/09/17 - 16:00

Assim que abro meus olhos

(Á peine j'ouvre les yeux | Tunísia, França, Bélgica, Emirados Árabes | 2015 | 102min). Direço: Leyla Bouzid.

Verão de 2010 em Túnis, na Tunísia, alguns meses antes da Revolução de Jasmim. Enquanto o regime de Ben Ali cai, Farah, uma garota de 18 anos, se junta a uma banda de rock politizada e descobre o álcool, o amor e os protestos. Indo contra a vontade da mãe, Hayet, que conhece os tabus do país, Farah mergulha cada vez mais nesse mundo, sem suspeitar do perigo de um regime político que a observa e se infiltra na sua privacidade. Para proteger a filha, Hayet fará o que for preciso, inclusive, reviver as feridas da sua própria juventude.

14/09/17 - 16:00

15/09/17 - 19:00

21/09/17 - 19:00

Nossa Irmã mais Nova

(Umimachi Diary | Japão | 2015 | 128min). Direção: Hirokazu Koreeda.

Sachi, Yoshino e Chika são irmãs e vivem juntas em uma casa que pertence à família há tempos. Apesar de não verem o pai há 15 anos, elas resolvem ir ao seu enterro. Lá conhecem a adolescente Suzu Asano, sua meia-irmã. Logo as três irmãs convidam Suzu para que more com elas. O convite é aceito e, a partir de então, elas passam a conviver juntas e aprendem os pontos sensíveis relacionados ao pai em comum.

15/09/17 - 16:00

18/09/17 - 19:00

22/09/17 - 16:00

Garota Sombria Caminha Pela Noite

(A Girl Walks Home Alone at Night | EUA | 2014 | 101min). Direção: Ana Lily Amirpour.

Bad City é uma cidade iraniana abandonada e sem leis, onde vivem diversos traficantes e prostitutas. Enquanto Arash luta para sobreviver e para afastar o próprio pai do vício em drogas, a Garota perambula pelas noites, com um segredo: ela é uma vampira e mata seres solitários para saciar a sede de sangue. Quando os dois se encontram, as suas vidas se transformam.

 

18/09/17 - 16:00

21/09/17 - 16:00

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