Brasileiros Contemporâneos

Sala Redenção – Cinema Universitário e Sesc/RS se unem mais uma vez para apresentar a mostra Brasileiros Contemporâneos. Serão exibidos seis filmes de diferentes cineastas, todos realizados nos últimos três anos. Aquarius (2016), direção de Kleber Mendonça Filho, abre a programação. Muito se falou sobre o filme, que se destacou de forma importante no Festival de Cannes em 2016. Tanto pela qualidade do filme quanto pela denúncia que fez ao mundo sobre os acontecimentos no Brasil. Pode-se analisar o filme de diferentes ângulos e gostaríamos de destacar apenas alguns. Aquarius é um filme de resistência. Resistência ao esquecimento, à solidão, ao capitalismo que engole tudo – e também à barbárie que anda de mãos dadas a ele. Uma história que nos prende do início ao fim, com uma trilha sonora incrível e, acima de tudo, que faz uma ode à vida. Interessante pensar no filme em diálogo com O Quarto Verde (1978) de François Truffaut. Dois filmes delicados que falam de perdas, de memórias e de resistência. No caso de Truffaut, no entanto, a relação estabelecida era por meio da morte, já em Aquaris a relação que une todas as coisas é o desejo pela vida, que é feita de memórias de tudo o que se vive. 

Sinfonia da Necrópole (2016) é o primeiro longa solo de Juliana Rojas, após ela ter dividido a direção de Trabalhar cansa (2011) com Marco Dutra. Sinfonia é um musical, isto é, Rojas constrói uma sátira provocativa – que começa pelo título – a respeito de dois elementos bastante importantes quando se pensa em um musical. Romantismo e padrão de beleza. Ao mesmo tempo, o longa trata também, como em Aquarius, sobre especulação imobiliária. A realizadora põe na tela o jogo desumano que se estabelece entre os interesses do mercado e da sociedade. Sociedade aqui composta por pessoas mortas já que se trata de especulação imobiliária em um cemitério. Despejar pessoas mortas. A verticalização não poupa nem aqueles que já partiram, que um dia pessaram que tinham um lugar para cair morto. Em tom de comédia, mas de forma ácida, o que assistimos é uma forte crítica à especulação realizada de forma fria e calculista em busca sempre, no final das contas, de lucro, pouco se importanto se vai prejudicar a vida – ou a morte – da população. Vale lembrar que o cemitério é uma alegoria da cidade que, aqui não poupa nem os vivos nem os mortos. O filme, de certa forma, dialoga com Incidente Antares, último romance escrito por Érico veríssimo, embora a diretora tenha declarado que suas referências são todas cinematográficas. 

O silêncio do Céu, coprodução de Brasil e Uruguai, terceiro longa de Marcos Dutra, é um filme sobre estupro. Fobia. Silêncio. Culpa. Violência. Elementos que combinados, no caso do filme, cuasam uma tensão imensa não apenas no casal protagonista do longa, mas também no espectador. A mulher sofre um estupro. O marido, que tem pânico, testemunha sem a mulher saber. Um enorme silêncio sobre a violência que a mulher sofre corrói a relação e desencadeia uma série de acontecimentos. Como em Paulina, de Santiago Mitre, a forma como a personagem lida com o trauma perturba o marido e inquieta os espectadores, que precisam acompanhar o desenrolar da trama e do suspense para saber como a tensão terá fim. 

Cinema Novo (2016) trata do movimento cinematográfico que revolucionou o cinema brasileiro nos anos 1960, 1970. É um cine-manisfesto, um filme-ensaio e um documentário-pético realizado por Eryk Rocha, filho de Galuber Rocha. O documentário ganhou o Olho de Ouro do Festival de Cannes de 2016. Sétimo filme de Rocha, este é o mais pessoal por tudo o que envolve a sua realização. Já que Glauber é um dos maiores expoentes do movimento. O longa nos oferece a possbilidade de viajar pela história do movimento por meio de vários depoimentos ao mesmo tempo em que projeta cenas dos filmes comentados. Eryk Rocha resgata entrevistas com falas de Glauber, é claro, e também de Joaquim Pedro Andrade entre outros realizadores. Um dos depoimentos em destaque é o de Carlos Diegues, ao lembrar o desejo dos realizadores em descobrir uma linguagem brasileira e de como a amizade entre eles foi fundamental para a construção do movimento.

Campo Grande (2015), segunda longa-metragem de ficção de Sandra Kogut, é um filme sobre calamidade. Calamidade pública e privada. Calamidade pública na cidade do Rio de Janeiro e de Campo Grande, bairro da zona oeste da cidade. E calamidade na vida privada de alguns moradores deste subúrbio e também de uma moradora da classe alta de Ipanema. Após duas crianças serem deixadas na porta de seu prédio em Ipanema, sem ideia se os pais irão voltar para buscá-los, a personagem, após resisistir, se vê obrigada a mergulhar ao mesmo tempo no caos de sua própria vida e no das crianças para juntos encontrar uma saída. Filme delicado, muito bem dirigido por Kogut que a partir de um conflito descortina vários. Documentarista e com formação em artes visuais, a realizadora faz uso – no bom sentido -  dessa formação para construir uma narrativa sem melodrama, além do drama que sustenta o filme.

O Signo das Tetas (2015), segundo longa do maranhence Frederico Machado, é um road movie. E nele há caos, fragmento, delírio. Silêncios e gritos.O Signo das tetas é uma filme alucinado, sobre um personagem em conflito, sofrendo com sentimentos melancólicos. Ele erra – errante – e se movimenta pela vida com lembranças e memórias que insistem em não deixa-los (e vice-versa). E cabe a nós espectadores acompanha-lo em sua jornada.

Tânia Cardoso de Cardoso

Coordenadora e curadora da Sala Redenção – Cinema Universitário.

 

Data: de 1 a 10/11

Horário: 16h e 19h

Local: Sala Redenção - Cinema Universitário da UFRGS (Avenida Engenheiro Luiz Englert, S/N, Campus central da UFRGS)

Horários

Aquarius

(Brasil | 2016 |146min). Direção: Kleber Mendonça Filho.

Clara tem 65 anos, é jornalista aposentada, viúva e mãe de três adultos. Ela mora em um apartamento localizado na Av. Boa Viagem, no Recife, onde criou seus filhos e viveu boa parte de sua vida. Interessada em construir um novo prédio no espaço, os responsáveis por uma construtora conseguiram adquirir quase todos os apartamentos do prédio, menos o dela. Por mais que tenha deixado bem claro que não pretende vendê-lo, Clara sofre todo tipo de assédio e ameaça para que mude de ideia.

01/11/17 - 16:00

09/11/17 - 19:00

Sinfonia da Necrópole

(Brasil | 2016 | 94min). Direção: Juliana Rojas.

Deodato é um aprendiz de coveiro não muito animado com a profissão. Sua rotina melhora quando Jaqueline surge no cemitério. Funcionária do serviço funerário, ela inicia um levantamento sobre túmulos abandonados com a ajuda do rapaz. A paixão o impede de pedir demissão, mas estranhos eventos continuam a abalar seu estado psicológico.

01/11/17 - 19:00

03/11/17 - 16:00

10/11/17 - 19:00

O silêncio do céu

(Brasil, Chile | 2016 | 102min). Direção: Marco Dutra.

Diana carrega consigo um grande trauma: ela foi vítima de um estupro dentro de sua própria residência. Entretanto, ele prefere esconder o caso e não contar para ninguém. Mario, seu marido, também tem seus próprios segredos - mistérios que, ocultos, estão matando aos poucos a relação do casal.

 

03/11/17 - 19:00

06/11/17 - 16:00

Cinema Novo

(Brasil | 2016 | 90min). Direção: Eryk Rocha.

Um ensaio poético, um olhar aprofundado e um retrato íntimo sobre o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro que colocou o Brasil no mapa do cinema mundial, lançou grandes diretores (como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues) e criou uma estética única, essencial e visceral que mudou a história do cinema e a história do Brasil para sempre.

06/11/17 - 19:00

07/11/17 - 16:00

Campo Grande

(Brasil | 2016 | 108min). Direção: Sandra Kogut.

Regina é uma mulher de 50 anos que mora na privilegiada Zona Sul do Rio de Janeiro. Certo dia, ela encontra na sua porta Rayane, uma menina de cinco anos que claramente não é da região, e Ygor, seu irmão mais novo. Regina, sem saber o que fazer, pensa em levá-los ao orfanato, mas é convencida pela filha adolescente de deixá-los passar a noite. Decidida a ajudá-los a encontrar sua família, Regina tem contato com um mundo que não conhecia.

07/11/17 - 19:00

08/11/17 - 16:00

O Signo das Tetas

(Brasil | 2015 | 68min). Direção: Frederico Machado.

Um homem, que vive no limite entre razão e loucura, está em busca de seu passado. Para isso, ele percorre diversas cidades do interior do Maranhão para tentar reconstruir sua história. Nesse "road movie", ele vai conhecer os mais variados tipos de pessoas e reencontra signos de sua vida, mostrando um possível caminho para sua salvação.

09/11/17 - 16:00

10/11/17 - 16:00

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