Problematização

Julianna Coutinho e Luiza Petry

 

           Problematização é como Foucault definiu sua pesquisa: é um jeito de olhar para objetos e situações comuns com um distanciamento necessário para que haja uma desnaturalização, uma desconstrução das noções de verdadeiro/falso, certo/errado, bonito/feio, etc. Esse distanciamento nos permite repensar o que é normativo, questionar de onde surgiu e como essa normatividade não é uma verdade absoluta, e sim algo criado a partir das vivências, é algo criado por nós em certa época sob certa circunstância,criado socialmente,  algo que perderá seu significado com a passagem do tempo. O distanciamento normalmente implica um afastamento temporal, pois a passagem do tempo traz a desnaturalização e o desprendimento necessário para enxergarmos a produção daquele determinado momento histórico como apenas uma produção, e não como uma verdade absoluta. Foucault, a partir do conceito de Problematização, sugere que façamos essa desnaturalização diariamente, enxergando os padrões não mais como referências, uma vez que não havendo verdade, não podemos nos guiar por nada então produzido. Problematizar é desprender-se criando uma distância crítica que nos permita não ser mais engolidos nem escravizados pelo que produzimos: é ter consciência de que nós produzimos essas "verdades", e que, sendo assim, verdades de fato não existem.

O distanciar-se costuma ser mais efetivo com o passar do tempo. O que era tido como verdade em dada época, como por exemplo a superioridade masculina sobre as mulheres, com o passar do tempo e o afastamento necessário, costuma se desfazer ou até mesmo mostrar-se ridículo perto da norma atual (como conceitos de beleza). A produção subjetiva de uma dada época visa ditar verdades para que possamos ter referências e padrões que nos homogeneizem, deixando de lado nosso devires e as produções do nosso desejo próprio. Argumentos como "homens são naturalmente mais inteligentes" foram por bastante tempo utilizados, representando assim uma verdade construída e aceita em diversas épocas. Hoje, com o distanciamento temporal, podemos ver que essa "verdade" não mais se aplica ao que entendemos hoje por diferenças entre homens e mulheres, mas para que isso acontecesse houve uma problematização por parte da luta feminista, que conseguia descolar-se dessa verdade sobre a mulher, enxergando além.

Hoje temos bastante presente a questão do homossexualismo e a normatividade heterossexual. Quem disse que o correto é ser heterossexual? Quem disse que o certo é que as mulheres sejam submissas? Quem disse que o belo é que sejamos magros? Quem disse que o normal é que sigamos padrões? Quem disse que existe algo que possa ser considerado normal? O que existe é uma tentativa de homogeneização, uma resposta que se diz correta em dada época, um sufoco do desejo que faz necessária a problematização diária do que nós mesmos produzimos como verdades.

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