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As Tecnologias e as Novas Formas de Subjetivação

André Betts, Daniel Kveller, Marcelo Ricardo e Tiago Calza

 

A Abrangente Tecnologia e sua Influência na Subjetividade Humana ao Longo do Tempo

A Origem do termo TECNOLOGIA vem do grego τεχνη — "ofício" e λογια — "estudo".  É um termo que envolve o conhecimento técnico e científico e as ferramentas, processos e materiais criados e/ou utilizados a partir de tal conhecimento. Mais especificamente e, dependendo do contexto, tecnologia pode assumir as seguintes definições:

  1. As técnicas, conhecimentos, métodos, materiais, ferramentas, e processos usados para resolver problemas ou ao menos facilitar a solução dos mesmos;
  2. As ferramentas e as máquinas que ajudam a resolver problemas;
  3. Um método ou processo de construção e trabalho (tal como a tecnologia de manufatura, a tecnologia de infra-estrutura ou a tecnologia espacial);
  4. A aplicação de recursos para a resolução de problemas;
  5. O termo tecnologia também pode ser usado para descrever o nível de conhecimento científico, matemático e técnico de uma determinada cultura;
  6. Na economia, a tecnologia é o estado atual de nosso conhecimento de como combinar recursos para produzir produtos desejados (e nosso conhecimento do que pode ser produzido).

Com base nessas definições, tem-se a idéia de que  tecnologia é,  de uma forma geral, o encontro entre ciência e engenharia. Sendo um termo que inclui desde as ferramentas e processos simples, tais como a fabricação uma colher de madeira e a fermentação da uva, respectivamente, até as ferramentas e processos mais complexos já criados pelo ser humano, tal como a Estação Espacial Internacional e a dessalinização da água do mar, respectivamente. Freqüentemente, a tecnologia entra em conflito com algumas preocupações naturais de nossa sociedade, como o desemprego, a poluição e outras muitas questões ecológicas, filosóficas e sociológicas.
A tecnologia começa com o surgimento do homo habilis, há cerca de dois milhões de anos. Nessa época, o homem era nômade, fazia grandes deslocamentos para obter alimentos, fugir do frio e dos predadores. Sua casa eram as cavernas (ainda não dominava a tecnologia de construção de casas), mas para se fixar a um lugar, além do domínio dessa tecnologia, seria necessário dominar outras: fabricação de ferramentas mais avançadas e cultivo da terra. Aliás, sempre foi assim: para dominar uma tecnologia mais avançada, primeiro o homem tem de dominar uma tecnologia mais simples. Por exemplo: para que o homem dominasse a tecnologia dos metais era necessário, antes, dominar a tecnologia do fogo. E, considerando-se o que foi dito, a velocidade como os avanços tecnológicos vêm acontecendo nos últimos séculos é espantosa (desde o homo habilis – 1º ser do gênero homo a apresentar a capacidade de construir objetos, como ferramentas de pedra lascada). Chega-se à conclusão de que Necessidade + Capacidade = Avanços Tecnológicos, ou seja, o homem, diante das suas precárias condições de vida e tendo uma capacidade intelectual superior aos demais animais (o ser humano é um animal racional – aliás, o único do planeta Terra) passou a desenvolver tecnologias que lhe “facilitassem” a vida e, como umas tecnologias servem de base a outras, a base que já montamos nos permite avançar, agora, com muito mais velocidade.
            A evolução das tecnologias não se dá de maneira igual em todas as partes do planeta. A humanidade não evolui uniformemente. Haja vista que – em certos lugares – o progresso é maior que em outros. Enquanto no Oriente e no Egito alguns povos já estavam no auge da civilização, outros povos na Europa, na África, Oceania e América ainda estavam na Pré-História. Podemos tomar como exemplo a chegada dos portugueses ao Brasil: os portugueses, na época, estavam na Idade Moderna, encontraram nossos índios ainda na era Neolítica, pois não dominavam os metais, alguns povos ainda eram nômades e não possuíam escrita.
Até hoje é assim, guardadas as devidas proporções. O modo como os habitantes de cidades do Haiti usufruem de tecnologia é muito diferente do modo como o habitante de cidades inglesas usufrui da mesma. Porém, não precisa-se ir tão longe para perceber esses contrastes: um morador do bairro Bela Vista, de Porto Alegre, usufrui de muito mais tecnologias do que um morador do bairro Bom Jesus, na mesma cidade. Entre zona urbana e zona rural também há um contraste bem acentuado. E quem pode afirmar com segurança quem é mais feliz? A afirmação segura é de que há a opção de se escolher o nível de tecnologia, ao escolher o lugar onde se mora. Porém, nem todos podem escolher o lugar onde vão morar.
            E essa tecnologia que, entre outras coisas, permite prolongar vidas (medicina), construir a bomba atômica (física nuclear), prolongar a vida dos aidéticos (indústria farmacêutica), aumentar o tempo de vida sexual dos idosos masculinos (Viagra), facilitar a comunicação (inclusive celulares em presídios), por exemplo,  tem avançado junto com um equilíbrio psicológico adequado a essas novas potencialidades?

O indivíduo e a informação

            Estamos na era da informação. O sistema ao qual estamos ligados é, sinteticamente, uma enorme rede que une o mundo e, nós, enquanto indivíduos, somos apenas um pontinho nesse turbilhão de informações. Com o surgimento da internet, até poderíamos dizer que nosso papel é ativo no fluxo da mídia; mas, se tomarmos em proporção a nossa contribuição à internet e a contribuição desta para nós, fica claro que somos sujeitos passivos em um furacão.
            A conseqüência disso é sentida por todos nós. Estamos rodeados de informações, descobertas, notícias, pesquisas e dados: a cada dia surgem novas recomendações de como devemos agir para sermos melhores. Há alguns anos atrás, nós é que íamos atrás deste tipo de informação; hoje, é ela que vem até nós. Experimente ficar uma semana sem sair de casa e sem ligar um aparelho de rádio, televisão ou o computador. Você ficará totalmente desatualizado, não conseguirá acompanhar os noticiários; nem as conversas de amigos você entenderá. É este o estilo de vida do homem moderno: para estar em dia com o mundo, você precisa estar conectado.
            Outro aspecto importante a ser ressaltado é a influência da informação na vida de um indivíduo. Como supracitado, o homem do século XXI é dependente da tecnologia moderna, pois é ela que o mantém bem informado e preparado para viver na era digital. Podemos dizer, então, que a mídia tem papel fundamental na formação do indivíduo. É por meio dessa que o indivíduo sabe, forma opiniões e cria e destrói paradigmas. Podemos concluir, portanto, que na era da informação, o grande poderoso é aquele que dá as informações; no caso, a mídia. Se ela molda nossas opiniões e nós agimos de acordo com o que pensamos, somos apenas fantoches.

A Construção de um Ciberespaço e a sua Relação com o Real

            Com a evolução exponencial de novas tecnologias, o homem tem mudado seu modo de vida de uma forma tão veloz como nunca se viu antes na história. O desenvolvimento tecnológico e as mudanças trazidas com ele no último século foram maiores do que todas as mudanças ocorridas nos milênios de existência da história do homem. Isso faz com que lidemos com o mundo de uma forma totalmente diferenciada, assim como é diferenciada a forma com que somos constituídos em relação a ele.
            A invenção do automóvel, do rádio e da televisão foram marcos no século passado, mas a maior de todas elas, e que vem causando uma revolução no nosso viver, é o desenvolvimento da informática e a criação da internet. Quando que, através de um telefone e uma ligação local era possível saber o que estava acontecendo no Japão, falar com seu amigo da Itália, mandar um e-mail para alguém da África do Sul? Foi o início da Revolução Digital. Passamos a viver em uma era em que a informação está presente em todos os lugares.
Essa nova possibilidade de comunicação fez surgir um novo campo nas relações interpessoais. Houve a criação de um novo espaço, o espaço cibernético. Diversas relações passaram a se constituir dentro desse espaço virtual. Nos dias de hoje, por exemplo, é básico a qualquer empresa ter um portal na internet. Ela precisa ter um lugar nessa rede em que seus clientes consigam achá-la, contatá-la, além da possibilidade de realizar diversas operações através desse portal, sem que seja diretamente necessária alguma outra pessoa para atender o cliente naquele momento. O exemplo disso são os bancos, com o chamado Internet Banking, assim como diversas lojas que além da sede física, tem sua sede virtual na internet, onde é possível comprar os mesmos produtos. Hoje, inclusive existem lojas somente virtuais, sem uma sede física. Todas essas informações podem parecem quase de senso-comum, mas é importante ressaltá-las para que nosso leitor perceba que tudo isso surgiu em um período menor do que 15 anos, tendo seu desenvolvimento maior nos últimos 5 anos.
Não só empresas passam a fazer parte desse espaço, mas também toda e qualquer pessoa com acesso à rede. Os usuários podem ter um endereço eletrônico, criar um perfil em sites de relacionamento, trocar mensagens instantâneas, publicar suas fotos, compartilhar arquivos de texto, vídeo, música etc. Isso abre uma gama de novas possibilidades não só no campo dos relacionarmos com as outras pessoas, mas também no compartilhamento de informações. Frente a essa revolução causada pelo espaço cibernético surgem alguns questionamentos: Como que tudo isso nos afeta? O que representam essas mudanças para nós? De que forma o espaço virtual se relaciona com o real?
Há um trecho da obra de Pierre Lévi que nos introduz a pensar sobre essas questões: “O espaço cibernético se encontra na origem de uma nova arquitetura, de um novo urbanismo. Poderíamos até dizer de uma nova política, porque se trata de uma nova polis que se está constituindo. (...) O novo equipamento coletivo de sensibilidade, de inteligência, de relação social está, de fato, nascendo em silencio. Trata-se de um equipamento coletivo de subjetivação.”
Uma coisa é certa: a velocidade dos acontecimentos no mundo virtual é muito grande e como ele está, de certa forma, fundido com o espaço real, isso afeta diretamente os acontecimentos no campo do real. A quantidade de informação disponível na rede é exorbitante, assim como a quantidade que chega a todo o momento. Passa a se tornar humanamente impossível lidar com essa carga de atualizações, e acabamos ficando ultrapassados por nossa própria evolução. Com isso, cada vez mais, as máquinas, as pessoas e os objetos vão se tornando obsoletos e ultrapassados. Em relação às pessoas, não é raro ver profissionais experientes sendo substituídos por jovens mais bem adaptados às novas tecnologias. Da mesma forma com que vemos crianças de cinco anos ensinando seus pais como se operam os aparelhos eletrônicos. Muitos adultos acabam ficando ultrapassados em relação à tecnologia. As crianças, por já nascerem nesse meio, têm uma tendência maior a conseguir acompanhar melhor essas evoluções. O mesmo acontece com as máquinas e aparelhos eletrônicos. A tecnologia evolui de forma tão rápida que, aparelhos que em uma semana são top de linha, na outra já estão ultrapassados. Um dos exemplos mais conhecidos disso é a evolução dos telefones celulares, que estão cada vez menores, mais leves, com uma bateria de maior capacidade e com diversas funções, inclusive a conexão à internet. Ou seja, agora é possível ter no bolso, em qualquer lugar que estivermos, uma fonte de acesso a esse mundo virtual, podendo se comunicar de qualquer lugar do planeta. Outra questão é o barateamento dessas novas tecnologias. Nos Estados Unidos, assim como em outros países, onde a produção de eletrônicos é feita em grande escala e com custos muito pequenos, é mais barato comprar um aparelho novo do que tentar consertar um estragado, por menor que seja o defeito. O simples fato de abrir o aparelho, descobrir o defeito e substituir uma peça já torna o conserto mais caro do que um aparelho novo. Tudo isso faz com que passemos a viver em um mundo em que objetos e informações antigas tornam-se descartáveis, podendo ser facilmente substituídos. Será que se não nos atualizarmos, seremos descartados e substituídos por pessoas e/ou máquinas mais novas e atualizadas? Isso gera um conflito interior e afeta a maneira com que nos constituímos subjetivamente em relação a esse mundo.
Outro aspecto a ser abordado é a criação de um “eu virtual”. Através de sites de relacionamentos, como o Orkut, é possível criar um perfil virtual, adicionar amigos, entrar em comunidades de discussões e a partir daí, manter uma série de relacionamentos, todos no ciberespaço. A criação de um perfil se dá a partir da livre vontade do usuário, podendo esse lhe atribuir características que não são dele, criando uma identidade virtual, podendo ou não ser verossímil. Além disso, existe um fenômeno crescente que é o Second Life. O programa é um ambiente virtual que simula em alguns aspectos a vida real e social do ser humano. O Second Life pode ser interpretado como uma “vida paralela”, ou uma segunda vida. É o usuário que escolhe o que ser e como viverá essa vida paralela através de seu “avatar”. Diversos ambientes do mundo real estão presentes no jogo. É possível visitar o centro de São Paulo, a Usina do Gasômetro ou o Arco do Triunfo voando, isso mesmo, voando de um lugar para outro. Observa-se um processo de reconstrução do mundo real no espaço cibernético. O jogo se relaciona até economicamente com a vida real, tendo uma moeda própria, o Linden Dollar, que pode ser convertido em dólares americanos. Isso faz com que seja possível fazer atividades remuneradas no jogo e essa remuneração pode ser convertida em dinheiro “real”, abrindo um novo campo no mundo dos negócios através desse ambiente virtual. Assim como as empresas têm seus portais na internet, muitas delas estão criando seus espaços virtuais no Second Life, as chamadas “ilhas”. A Unisinos, por exemplo, foi a primeira universidade brasileira a criar a sua, sendo possível visitar diversos prédios da universidade virtualmente. Outro exemplo dessa conjectura entre real e virtual é o fato de trabalhadores da empresa IBM terem feito um manifesto contra a empresa virtualmente, dentro do programa. Os manifestantes alegam que é uma atitude que pode trazer resultados, no momento em que, mesmo sendo realizado virtualmente, o protesto afeta a imagem da empresa no real.
Vemos como os dois campos estão relacionados intensamente, chegando a se tornar difícil o uso das palavras real e virtual, pelo fato de esses espaços não estarem mais dissociados, mas em uma relação em que um passa a constituir o outro. Isso nos coloca em uma posição ambígua: será que estamos vivendo o real? Ou o virtual? Ou os dois? Afinal, o que é o real e o virtual? É muito complicado fazer uma separação entre os dois, e isso pode fazer com que seja muito complicado também uma dissociação das informações contidas em um campo e outro. Aquela identidade virtual assumida pelo usuário passa a se tornar uma parte do real também. Afinal, quem eu sou? O que está aqui em frente ao computador ou o que está se relacionando com diversas pessoas pela rede? Essas pessoas com que me relaciono são elas mesmas ou são a identidade virtual delas? Vemos acontecer um processo de fusão do campo real com o cibernético, levando também a ocorrência de um mesmo processo de (con)fusão de identidades.
            Outro exemplo é o programa Lost, série fictícia de televisão em que sobreviventes de um acidente de avião ficam presos em uma ilha. Os criadores da série colocaram informações virtuais que dão base para a história contada na televisão, como o site da empresa aérea do avião que caiu na ilha e o site da banda de um dos personagens da série. Acontece, então, a criação de fatos virtuais, que tornam mais reais outros fatos virtuai; ou seja, é como se os sites na internet deixassem a história fictícia mais verossímil. Isso se dá justamente pelo fato das informações contidas no espaço virtual já estarem tão intrínsecas com o real, fazendo com que o programa (algo virtual) torne-se tão real, o que fez com que pessoas que assistiram o making-of da série terem se arrependido do mesmo, porque vendo que aquilo eram filmagens e não era real, decepcionaram-se por descobrir os segredos dos bastidores daquela ficção, daquela virtualidade.
            É nesse ponto que também podemos levantar a questão: em que mundo, em que espaço queremos viver? Mesmo com a confusão de mundos, ainda é possível fazer a escolha sobre a nossa identidade, com a criação ou não de uma identidade virtual. Serei eu ou o meu “avatar”? Viverei a dura realidade ou as facilidades da rede? Está dada a opção, a escolha é de cada um. Mas, será que há escolha?
[Um filme que ilustra muito bem essa idéia é o Vidas em Jogo (The Game). Nele, o personagem se envolve em um jogo de tal forma que faz com que ele não consiga mais distinguir o que faz parte da realidade e o que é o jogo. Além disso, nos mostra a confusão de identidades abordada anteriormente. A cena final faz um resumo de tudo isso.]
           

Produção de Conhecimento e Subjetividade

Onde há saber, há poder.
Com o antropocentrismo, o saber científico vem tomando força cada vez mais significativa no contexto da sociedade, e sua influência no modo de viver dos seres humanos é algo inquestionável. Quando o homem percebeu que as idéias da Igreja não mais contemplavam a complexidade das descobertas feitas, a ciência passou a preencher essas lacunas. Com as novas técnicas e equipamentos, conseguiu-se resultados nunca antes imaginados, fazendo com que a crença nesse saber passasse a ser quase dogmática. Um exemplo claro disso é a relação do ovo enquanto alimento: em um momento, é saudável; em outro, quase um veneno. E a partir dessas descobertas dos “respeitados e conceituados cientistas norte-americanos”, vamos modelando nossas vidas para nos encaixarmos nesse padrão, ora comendo ovo, ora detestando-o; porém, quase nunca questionando esse conhecimento. Também pode ser citado o exemplo dos famosos testes de QI, que classificavam os alunos em diversos níveis de inteligência, que em muitos casos “criavam” seres humanos inferiores. O que aconteceria a esse aluno se ele não fosse diagnosticado como “retardado mental leve”, por exemplo? Como a fabricação de um indivíduo pode se dar a partir de uma rotulação baseada em um conhecimento originado de um saber científico? O que faz que um saber científico seja mais verdadeiro que qualquer outro?
Feyerabend falava que a ciência era apenas mais um modo de ver o mundo, e que não era a única verdade. Porém, o que se vê não é isso. A ciência, apesar das constantes mudanças, parece ser sempre certa, e aqueles senhores de jaleco branco – os detentores da verdade – sempre sabem o que é melhor para nossas vidas. Isso faz com que nos tornemos cada vez menos autônomos, dependendo sempre (e cada vez mais) desse saber para saber como pensar e/ou agir. Esse poder, que em nossa sociedade foi dado às ciências, nos constituem de tal modo que, até na sua negação, estamos afirmando-os. Ou seja, não há um “fora do poder”, já que este é sempre uma relação de forças.
No conhecimento psicológico, as teorias sobre a mente influenciam de maneira espantosa nossos modos de subjetivação. Dependendo da teoria abordada, os pacientes serão vistos de determinada forma – seja uma rede de neurônios e hormônios, sejam pulsões e desejos inconscientes, seja um mecanismo de simples estímulo-resposta. E dependendo da teoria abordada, acabam por se tornar aquilo que ela prega, juntamente com o terapeuta. É o caso da – também estudada cientificamente, já que não conseguimos escapar do conhecimento científico – chamada profecia auto-realizadora, onde não conscientemente, acabamos por desempenhar determinado papel já esperado por um detentor de determinado saber. Tomando as teorias psicanalíticas, por serem as mais difundidas no senso comum como exemplo, podemos pensar o quanto essa tecnologia exerceu determinado poder na nossa subjetividade, ou seja, o quanto ela nos ajudou a fazer com que sejamos o que somos, direta ou indiretamente. Outro exemplo é uma das mais fortes teorias vigentes, a da seleção natural, e o quanto ela muda nossa maneira de ver as coisas e serve (muitas vezes) como uma verdade para substituir uma outra verdade já existente. É o que Thomas Kuhn denominava Paradigmas, ao nos mostrar que a ciência não é e nem será um conhecimento neutro, livre de influências políticas e crenças a priori.
Esse questionamento, ainda não suficiente nas ciências humanas e biológicas, é menos ainda levado em relação às ciências naturais. Afinal, como é um átomo? Por que pensarmos que o átomo é do jeito que nos foi dado, sabendo que sua conceitualização sofreu diversas alterações durante a história? Por que seria essa a forma definitiva? E a Teoria da Relatividade, realmente existe? Tomamos como verdade suposições teóricas que parecem abranger uma maior gama de fenômenos, mas nunca chegamos lá, no fenômeno em si.
No filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, há uma cena na qual um suposto ancestral humano, ao jogar ossos uns contra os outros, percebe que aquele aquilo poderia vir a ser um instrumento que poderia ser usado a seu favor – seja para caçar, seja para defender-se de possíveis predadores ou inimigos. Ele acaba, então, por transformar a relação, não apenas com o objeto (que acaba de ter uma nova função), mas também consigo mesmo e com os outros com quem convive.
“É preciso acreditar que o homem constrói seu presente e projeta um futuro cada vez melhor. Sem impedir o fluxo da história e dispender energia inútil, precisamos entender a presença das tecnologias e seus efeitos na vida mediada. Assim, longe de idealismos infundados, encontro uma série de conceitos em artistas e teóricos cujas reflexões dão conta da humanização das tecnologias. A história mostra que as civilizações nunca voltaram para trás, que as descobertas e inventos são acumulados e servem de background para outros inventos. E como decorrência, a vida vem se transformando, com uma série de tecnologias que amplificam nossos sentidos e nossa capacidade de processar informações. E a mente humana, uma vez que teve suas dimensões ampliadas, não volta mais a seu tamanho original.”
A cada passo que a ciência dá, sejam pequenos passos para o homem, ou grandes passos para a humanidade, há sempre aí uma relação de saber/poder, e conseqüentemente a formação e transformação das subjetivações existentes, num eterno devir que vai moldando nosso pensamento e nossas atitudes. Afinal, onde há saber, há poder.

 

Referências
DOMINGUES, Diana . “A Humanização das Tecnologias pela Arte”. In: DOMINGUES, Diana (Org.). A Arte no Século XXI: a humanização das tecnologias. São Paulo: Editora UNESP, 2003.
Pellanda, E. C. & Pellanda, N. M. C (org.) (2000). Ciberespaço: Um Hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios.
http://artecno.ucs.br/coordenacao/secxxi.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Antropocentrismo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_habilis
http://www.geocities.com/~esabio/paradigmas.htm
http://www.milenio.com.br/mance/Imaginarios.htm
http://www.sedes.org.br/Centros/Filosofia/a_tematica_saber.htm